Suspiros

O que eu não quero

em
25 de agosto de 2015

Dia destes peguei-me em um “first date” com um cara mais velho. Eu, que já tive a minha cota considerável de garotos, achei um tanto quanto revigorante a ideia de sair com um homem com “H” maiúsculo. Revigorante e intimidador, pra dizer o mínimo, claro. Durante o encontro tentei direcionar a nossa conversa para assuntos aleatórios e inofensivos. Papo vai e papo vem entre uma cerveja e outra, e a pergunta latente e implacável surge na conversa:

– Mas afinal, Antônia. O que você espera de um relacionamento? O que você quer ?

Fiquei muda, como poucas vezes na vida eu fiquei (logo eu que não pago imposto pra falar demais). E lá eu me calei, por longos minutos sem saber o que dizer. Foi um choque. Naquele momento eu me dei conta que a esta altura do campeonato, eu não tinha a menor ideia do que eu queria. Mas já não tinha a menor dúvida das coisas que eu não queria.

Sabe o que eu não quero? Eu não quero ter azia de ciúmes. Sabe aquela queimação no estômago, justificada ou não, por conta de um sentimento de perda ou ciúmes compulsivo? Não quero. Nem por um minuto. A “sorte de um amor tranquilo”, como o de Cazuza, nada de chiliques. Também não quero pressa ou pressão, ou alguém me prendendo à força – deixe-me livre e verás que não irei a lugar nenhum, tente me prender na marra, e serei a primeira a pular fora mesmo sem paraquedas. Não quero ficar que não seja por escolha própria. E também não quero ter que pedir carinho. Carinho se entrega de graça. Beijos são tascados ou roubados, jamais solicitados. E não quero sair da cama sem cafuné. Aliás, eu me nego a sair da cama dividida sem cafuné.

Não quero perfil de rede social compartilhado. Não quero a sua senha do celular. Não quero me importar com aquela sua ex que curte todas as tuas fotos no Instagram. Aliás, também não quero falar de ex, nem das suas, nem dos meus – eles já fizeram a contribuição deles ensinando tudo que eu não quero mais. Não quero achar ruim que você joga futebol/peteca/ hockey/pedrinha n’água toda quarta-feira. Não quero conta conjunta. Não quero que você diga que eu não arrumo os potes da cozinha como a sua mãe. Aliás, não quero e nem vou competir com a sua mãe. E nem imagine que você poderá falar qualquer coisa da minha. Não quero que você troque o pneu do meu carro, e nem fique chateado quando por vezes eu precisar provar pra minha própria teimosia que eu preciso aprender a pedir ajuda.  Não quero alguém que largue a minha mão quando a coisa ficar feia. Ou quando eu ficar feia.

Não quero ser responsável pelas suas roupas, mas não me importo de jogar suas cuecas na máquina de vez em quando. E também não quero comentários a respeito da minha toalha molhada sobre a cama, mas confesso que posso me apaixonar se te pegar recolhendo-a, ainda que contrariado.  Não quero deixar de ser botequeira (= leia corretamente), e não vou ser uma lady por ninguém. Mas se me disseres que eu fico linda naquele vestido arrumadinho que você me deu, não vou deixar de usá-lo me esforçando para não estragar o cetim de alta costura pulando de uma cama elástica (história verídica).

Não quero e nem vou pedir desculpas pelas minhas celulites, e não vou me importar com sua pancinha de chopp. Não quero que você diga “eu te amo também”, só pra tranquilizar meu ego, pois eu já não sou mais tão imatura, e posso esperar você ter vontade de dizer quando estiveres pronto. Não quero que você deixe de sair com seus amigos, não vou deixar de sair com as minhas amigas, não vou abrir mão de termos amigos em comum. Não quero que você corrija seus defeitos ou calibre seus excessos por mim, pois eu também prefiro tomar estas atitudes por vontade própria. Não quero que você invente desculpas, por você ou por mim. Não quero que você se apaixone por alguém que eu “possa ser”, ao invés de amar quem eu realmente sou.

Não quero passar um final de tarde na praia sem você. Não quero que você deixe de dançar comigo porque tem vergonha. Não quero me perder por aí quando a gente brigar. Não quero me esquecer de quem eu sou e amo ser.

Hoje eu entendi finalmente que precisava estabelecer todos os meus nãos, antes de aceitar os sins. Fui calibrando minha expectativa de um romance duradouro por eliminatória. Um solavanco de um aqui, uma pressão do outro ali, um “nem te ligo” acolá. Hoje todos os sinais vermelhos aparecem quando eu detecto o que eu não quero. Até o dia em que chegar a exceção à regra, onde todos os meus nãos serão facilmente substituídos por um único sim.

“Pode falar, Antônia. O que você quer?” – perguntou novamente o homem de “H” maiúsculo, me retirando da minha autoanalise.

Dei um longo suspiro de quem correu uma maratona interna no assunto antes de responder:

“Eu ainda não sei o que eu quero. Mas sei o suficiente para desviar do que eu não quero.    E tenho o coração aberto para dia desses, reconhecer quando encontrar o que procuro. Disso, eu não tenho dúvidas.”


 

Fim da sessão.

 

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30 Comments
  1. Responder

    vania mendes

    29 de setembro de 2015

    Amo todos os seus textos, vc está de parabéns ☺

    • Responder

      Antônia no Divã

      29 de setembro de 2015

      Obrigada, querida! Grande beijo

  2. Responder

    Anônimo

    4 de setembro de 2015

    Que lindoooooo … Como sempre!!!
    Eu não sei Antônia se você já tem algum livro lançado. Mas se não estiver POR FAVOR o mundo precisa ler!!! ?

    • Responder

      Antônia no Divã

      14 de setembro de 2015

      Oi bonita! A ideia é até o fim do ano. Dedos cruzados!

  3. Responder

    Celia Cajueiro

    30 de agosto de 2015

    Amei seu texto, principalmente porque passei por todos esses não na minha vida, e sempre dizendo sim, até que depois de trinta e quatro anos eu disse um NÃO…BASTA…e sai de casa sem nada, só com a minha liberdade…essa sim não tem preço…hoje me sinto temerosa em ter outro relacionamento, ainda não estou aberta para “sins”. Obrigada, texto maravilhoso me fez refletir em muitas coisas. Um grande beijo!!!

    • Responder

      Antônia no Divã

      14 de setembro de 2015

      <3 muito amor por esse comentário!

  4. Responder

    Anônimo

    27 de agosto de 2015

    Quem nunca passou por esses ” nãos”, é importante demais saber o que você não quer na vida. O sim, ele vai brotar quando as duas partes quiserem ao mesmo tempo florescer. Eu sempre me pego lendo seus textos e me identificando com cada palavra escrita, já passei por várias fases que você descreve e posso afirmar, que não quero revivê-las em outro capítulo do meu livro da vida. Virei tua fã, Antônia.

    Beijos, Júlia.

    • Responder

      Antônia no Divã

      14 de setembro de 2015

      Obrigada, Julia. Volta sempre, tá? beijocas

  5. Responder

    Ana Teté

    27 de agosto de 2015

    Só quando decidi o que eu não queria, consegui encontrar o que de fato queria e o mais engraçado é que acabei aceitando um montão de coisas que eu dizia “não”… maravilhoso o texto, como sempre.
    Bjocas, nos vemos sábado! =)

    • Responder

      Antônia no Divã

      27 de agosto de 2015

      Obrigada, Ana! Nos vemos sábado! <3

  6. Responder

    Stephanie

    26 de agosto de 2015

    Texto maravilhoso como todos os outros! Me vi em muitos desses nãos <3
    Beijo de Cabo Verde

    • Responder

      Antônia no Divã

      27 de agosto de 2015

      Já te falei que os de Cabo Verde eu vou buscar! 😉 Beijocas, querida!

  7. Responder

    Maiara Domingos

    26 de agosto de 2015

    Quando eu crescer, quero ser que nem tu 🙂 Arrasou demais, Antônia! bj.

    • Responder

      Antônia no Divã

      27 de agosto de 2015

      Fofa! <3

  8. Responder

    Marília Sena

    26 de agosto de 2015

    Acredito que nunca sabemos todos os sins, porque uma pessoa pode acabar mudando tudo! Mas os nãos devemos saber, afinal, melhor prevenir do que remediar.

    • Responder

      Antônia no Divã

      27 de agosto de 2015

      Lindo, Marília!

  9. Responder

    Anônimo

    26 de agosto de 2015

    Voce fala muito sobre o que voce não quer. Ja parou para pensar, por um instante, o que o outro pode querer de voce?

    Me parece muito egocentrico e egoista, fazer uma lista do que voce nao quer, sem se preocupar com o que o outro quer. Um relacionamento é sempre entre DOIS. Se pensar so em voce, nas suas vontades, nunca da certo.

    Se voce esta preocupada com o que voce quer, e o outro com o que ele quer…. ninguem pensa no outro, so no “eu”. Enquanto os egoismos coincidirem, otimo. Ate o dia que os egoismos se confrontam…. bom, ai voce sabe o que acontece.

    • Responder

      Antônia no Divã

      26 de agosto de 2015

      “Até o dia em que chegar a exceção à regra, onde todos os meus nãos serão facilmente substituídos por um único sim.” É assim que eu termino o texto, ainda dizendo que estou de coração aberto pra reavaliar tudo quando a pessoa certa chegar. Então veja, aqui, é uma questão de interpretação.

      • Responder

        Anônimo

        26 de agosto de 2015

        Esta bem. Mas se voce sempre entrar pensando na lista de “naos”, e achando que o outro esta ai para fazer as suas vontades… esse sim hipotetico fica da vez mais hipotetico.

        Antes de fazer uma lista enorme de nãos, talvez fosse mais inteligente avaliar o que VOCE tem para oferecer a um hipotetico amor. Voce nao controla os outros, somente voce mesmo. Sob esse ponto de vista, seria interessante analisar se voce não esta na lista dos NAOS alheios. Isso sim voce pode mudar.

        A não ser que voce seja do partido “eu sou assim, goste quem quiser, eu nao mudo, eu sou autentica”. Bom, nesse caso siga com a lista de naos.

        • Responder

          Antônia no Divã

          27 de agosto de 2015

          Anonimo/Anonima. O sim não é hipotético, ele é bem real, já aconteceu, é extremamente flexível e reconfigurável. Eu entendo que relacionamento é uma via de mão dupla. Entendo também, que quanto mais eu souber de mim, dos meus limites, crenças, do que eu quero ou não, tenho mais chance de organizar as expectativas – minhas e de alguém. Isso se faz com conversa, ajustes. Justamente porque eu sei que terei que lidar com os nãos alheios. A minha lista do não tá pronta. A do sim, eu só escreverei em conjunto. E tenho certeza que vai ser linda. Beijocas

  10. Responder

    Natália

    25 de agosto de 2015

    Muito Bom

    • Responder

      Antônia no Divã

      26 de agosto de 2015

      <3

  11. Responder

    Anônimo

    25 de agosto de 2015

    adorei, perfeito

    • Responder

      Antônia no Divã

      26 de agosto de 2015

      <3

  12. Responder

    mari

    25 de agosto de 2015

    Tbm estou nessa vibe de amor por exclusão. Texto maravilhoso como todos que vc escreve!

    • Responder

      Antônia no Divã

      26 de agosto de 2015

      Obrigada, Mari. Volta sempre. Beijoconas

  13. Responder

    Camila Aguiar

    25 de agosto de 2015

    Finalmente a terça- feira <3 Obrigada !

    • Responder

      Antônia no Divã

      26 de agosto de 2015

      Dalllleeeeeeeeeeeeeeeeeee!!! <3 <3

  14. Responder

    Judite

    25 de agosto de 2015

    Bárbaro. Perfeita análise do não que chega ao s consciente.

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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