Crônicas

Casa é onde o coração sorri. E chora.

em
15 de abril de 2021

Vocês já me conhecem o suficiente pra saber que meu estilo de vida é meio nômade. Já morei sozinha, voltei a morar com a minha mãe mais vezes do que consigo contar, e também voltei para baixo da asa do meu pai em algumas situações. Morei dentro de uma mochila na Austrália por 7 meses, numa ilha deserta na Indonésia por 3 e outros 3 numa cidadezinha no norte da Italia. Depois fui morar em Garopaba por 1 ano, e como eu adoro uma ilha, cá estou eu, no Reino Unido pela segunda vez. E embora tudo seja muito excitante, eu realmente tenho dificuldade de estabelecer onde a minha casa é. 

Perguntas como “onde tu mora?” ou “tu voltou pra casa?” me causam inquietação há anos. 

Inicialmente eu sempre acreditava que casa era onde estão tuas coisas. Quando voltei ao Brasil, em outubro do ano passado, a casa da minha mãe tinha mudado de lugar, e com isso as minhas coisas foram parar no sítio do meu pai. E lá fui eu, desempacotar uma vida de dentro de caixas de papel. Nelas, tesouros dos quais jamais consegui me desfazer. Cartas de amor antigas. Cartões de aniversário. Uma rolha de champanhe que brindou um momento especial. Um chumaço de cabelo dos irmãos bebês que hoje já entram na pré-adolescência. Um mundo encantado de momentos e sentimentos eternizados no tempo. Em outras caixas, lembranças menos coloridas. Roupas que não servem mais, memórias que não trazem saudades. Energia parada implorando pra seguir em frente. 

Me dei conta, então, que casa não é onde as tuas coisas estão, porque coisas são bens materiais que transitam, passam de mão em mão. E casa não podia ser uma coisa tão impermanente. 

Então comecei a pensar que casa podia ser onde a nossa cama está. Mas aí fiquei dividida de novo, porque a minha cama na casa da minha mãe, estava em um espaço só pra mim, com privacidade e fofurices. No meu pai, a minha cama era por vezes na sala do apartamento, ou em um quarto no sítio, e cada qual tinha seu charme e desafios. Em uma cama, eu era acordada com as risadas das crianças, e gritos de “preguiçosaaaa acorda!” quando me estendia no cochilo. Às vezes era convocada pela minha mãe para caminhadas recomendadas pela médica – e entendam o meu desespero, já que a minha mãe caminha 9km todo dia às 7h da manhã. Na outra cama era acordada com um cachorro lambendo a minha cara, café passado, mesa posta e meu pai superando seu mau-humor matinal para me dar bom dia sorrindo. Em todas as camas eu tinha a mesma sensação de gratidão ao deitar no travesseiro. Ainda assim, sentia saudades da minha cama lá em Londres. Aquela que guarda silêncios e segredos só meus. 

Então casa não podia ser onde a nossa cama está, porque a gente pode se sentir confortável e protegida em muitas camas. Não é?

Assim eu decidi que casa era onde a gente come bem. Então tinha que ser na casa da minha mãe, onde tem pastelada a qualquer piscar de olhos, ao mesmo tempo que tem toda dieta necessária para ajustar meu organismo. Só podia ser lá, onde todos os desejos eram atendidos. Da pitaya do Mateus, ao Pão de Queijo do Murilo, a granola com surpresinhas desta que vos fala. Mas aí eu lembrei que na casa do meu pai, era o lugar onde nunca faltava palmito pra mim e onde me era oferecida comida com o mesmo afinco (frequência e convencimento) com que a minha avó – italianíssima – fazia quando tinha a casa recheada de filhos e netos. Só podia ser lá, onde o vinho agora era substituído pelo suco verde, já que ambos – pai e eu – travávamos um briga contra o nosso colesterol alto. Acontece que eu também morria de saudade de comer edemame encostada no balcão da minha cozinha lá em West Norwood, olhando a vista da minha janela que vislumbra toda a cidade, salivando por uma ida ao Borough Market pra comer uma tostie de queijo e cebola roxa. 

Então casa era uma delícia com cheiro de café, pipoca e abacaxi com canela no forno. Era onde escondem os amendoins que eu não consigo resistir. Se casa era onde eu reunia as pessoas que amava em volta da mesa- quantas mesas tinha a minha casa? E mais, casa não podia ser onde a mesa estava posta, porque às vezes a gente comia na grama, jogados no tapete, no balanço, ou em pé se estapeando pela última coxinha da asa. 

Desta forma, comecei a pensar que casa era onde estava o meu pôr do sol preferido, e vi que de novo eu não tinha como escolher um. Podia ser determinada por onde o meu cachorro morava, mas ele, como eu, era um vira-lata cigano que também adorava trocar de casa a qualquer oferta de afago e comida. Hora então a minha casa era um trailer na beira da lagoa, dois quartos novos, poeira de obra e a primeira geladeira que já comprei na minha vida. Ou então a minha casa era numa cobertura na cidade, na sacada onde vivi fins de tarde com meu irmão, ou no sofá em que assistia jornal indignada com os rumos do Brasil, gritando para a televisão ao lado do meu pai. 

Foi quando me dei conta que entre tantas diferenças, casa era o lugar onde eu dançava na sala. Ouvia música a todo volume e cantava do alto dos meus pulmões, pro desespero e graça de quem ouvia. Casa era onde eu brigava, discutia, esbravejava. Onde o tendeu comia. O pau torava. Até a próxima bonança onde tudo voltava a ser apoio, compreensão e proteção contra todo mal.

Então pra concluir decidi que casa é onde o coração sorri. E chora. E depois sorri de novo. Casa é onde de tijolinho em tijolinho das relações, a gente vai fortalecendo as pontes mais importantes da vida. Aquelas estruturas que te levam para onde for, mas garantem que você sempre tenha como voltar pra casa. Onde quer que casa seja. 

Fim da sessão. 

ps: Sou sensível a todos que estão enfrentando o isolamento e que neste momento encaram a casa mais como uma prisão. Mas é um exercício importante pensar com carinho neste espaço que protege o universo imenso que é você. 

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2 Comments
  1. Responder

    Ton

    22 de abril de 2021

    Porquê tu me faz chorar, hein!!!!

  2. Responder

    Dulce

    16 de abril de 2021

    Bom demais, como sempre!
    Refazendo conceitos do que é a casa… O lar onde nascemos, os lugares que vivemos, onde moram pedaços dos nossos corações!🙏💕

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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