Efemérides

A hemorroida e eu

em
24 de abril de 2018

Eu fico muito impactada com a capacidade que temos em criar tabu sobre coisas naturais. Há uns cinco anos atrás, me saiu uma hemorroida. Sim, aquela veinha inchada que dá no reto e no ânus. O vulgo cu. Meu ex namorado – que era mais desavisado que eu – na época, quando viu, me acusou exaustivamente de traição, porque pra ele aquilo era uma doença venérea. Ou seja, eu já estava tomando no cu, antes mesmo de saber o que ele tinha.

Psicopatiei no Google tentando achar informações para –pordeusnossosenhor – não ter que falar sobre o assunto com ninguém. E eu levei dias para, cheia de vergonha, ir ao médico. O proctologista era indicação do meu pai, o que não ajudava em nada na minha neurose. Ficava imaginando o médico perguntando sobre como estava meu pai, enquanto olhava um abscesso no meu cu. Cu, sabe. Aquele lugarzinho que normalmente não é exposto à luz do sol. E que a gente não mostra pra ninguém.

“Você está com uma hemorroida.”

“O QUEEEEE????” Surtei. Na minha santa ignorância, hemorroida era coisa de gente idosa ou grávida. E lá estava eu, com 20 e poucos anos, e um cu problemático.

Fui submetida a impopular colonoscopia. Aquele exame cujo pré-operatório te faz cagar compulsoriamente. E depois eles enfiam uma câmera pelos teus tubinhos, com entrada pelo bumbum. Descobri que meu reto e intestinos eram lindos, e a hemorroida era apenas externa. Então o caso era mesmo cortar a hemorroida fora. Simples né?

Simples nada.

Fiz aquilo que muita gente faz com os problemas da vida. Os ignorei. Não imaginava alguém dando pontos no meu buraquinho. Não podia pensar no pós-operatório. Mas NADA, NADA, era pior do que a vergonha em tratar do assunto. Por conta disso eu me submeti à experiência de conviver com a minha hemorroida durante longos cinco anos.

Cinco anos que só me sinto limpa tomando banho. Cinco anos de vergonha, toda vez que tenho qualquer intimidade com alguém. “Sexo anal? TU TÁ MALUCO???”, como se fosse uma ameaça de vida. Cinco anos que levo as minhas calcinhas para o banho com medo de qualquer vestígio. Cinco anos que tomo mijada da minha ginecologista. Que eventualmente preciso tomar remédio para infecções na perereca. Cinco anos de uma coisa que podia ser tão simples, mas que virou algo tão sensível e embaraçoso que eu não vi em condições de resolver. Era como se meu cu, tivesse saído do escurinho da minha bunda, e fosse parar direto na minha cara.

Então ano passado eu fiquei muito doente, fiz 3 cirurgias de rim, e passei a levar minha saúde a sério. Encarei o check-up, os diagnósticos. E obviamente, depois da revisão geral, chegamos a desagradável veia que tanto me incomoda a cabeça, mais que o reto, propriamente dito.

Voltei no proctologista. E depois de informa-lo sobre como estava meu pai, eu deixei ele me examinar de novo. E dar o mesmo diagnóstico. “Vamos ter que cortar teu cu”. Tá, ele falou mais bonitinho, ética e tecnicamente mais aceitável, mas em tese foi isso. E me sugeriu uma data em duas semanas. E eu aceitei. Era hora de encarar o cu de frente.

Faz duas semanas que eu só falo do raio do meu cu. Juro. Porque eu precisava tirar esse tabu da minha cabeça, antes mesmo de resolver ele. Então cada vez que as pessoas me perguntavam sobre a minha agenda, ou meus compromissos, eu enfiava o procedimento nos comentários. “Vou jantar com a fulana no domingo, tenho uma reunião na segunda, e terça, terça eu vou cortar meu cu.”

A reação das pessoas era um misto de pânico, vergonha alheia e riso. Eu percebi que o cu não era coisa que devia andar na boca do povo. Ora, se eu falasse que iria tirar uma pinta, ou realizar uma lipo, talvez ninguém achasse não absurdo eu contar do meu procedimento íntimo, não é mesmo? Mas cu não. De cu não se podia falar. Cu tem que andar escondido. Velado.

Mas como eu não sou obrigada a nada, me vi com mais vontade de falar do assunto com naturalidade. Cu. Cu. Cu. CUUUUUUUUUUUUUUU.

Chegado a dia do procedimento estava na sala do pré-operatório, onde os pacientes desconhecidos conversam sobre seus procedimentos. A moça do meu lado pergunta o que vou fazer, e eu prontamente falei do cu. Ela riu. Pergunto pra ela qual o procedimento dela. Ela me informa que vai tirar um cisto do peito. E que não sabia se era benigno ou maligno. A moça do outro lado me fala que fará uma curetagem do aborto espontâneo que sofreu.

Entende como o cu, numa simples troca de contexto, passou a ser o menor dos problemas daquela sala?

E foi nessa que mais uma vez, da forma mais improvável, eu aprendi. Aprendi que às vezes, por vergonha, a gente não lida com probleminhas, que podem virar problemões. Que com saúde não se brinca. É por isso que quis fazer uma sessão sobre cu. Para todo mundo que tenha ou venha a ter esse mesmo problema, possa se sentir abraçado e compreendido.

E pra que entendemos que sempre tem alguém com problemas maiores e mais complicados, do que a gente assumir, pra gente mesmo, que o cu faz parte da vida.

Fim da sessão.


ps: meu cu passa bem, obrigada.

Palavras-Chave
SESSÕES RELACIONADAS
9 Comments
  1. Responder

    Lu Silva

    29 de maio de 2019

    Muito legal, seu relato rsrs….
    Conta como foi o pós operatório. Gostaria de fazer a cirurgia, mas a própria médica me colocou tanto medo, que desisti.

  2. Responder

    ESTER GARCIA

    11 de maio de 2019

    Olá, falar de hemorróidas e bem doloroso, que problema mais sofrido, tive dias vezes e estou sarando de um quadro na qual remédios nem pomadas fizerem efeito somente o banho de acento frio com picão preto e um spray chamado andolba, gente picão preto e poderoso.

  3. Responder

    BERENICE DINIZ

    11 de outubro de 2018

    É isso aí o cu faz parte da vida!
    Falar sobre o cu, sobre sexo, sobre tesão, orgasmo etc. é tabu né?!!! Oh luta, são coisas naturais da vida!!
    Deveriam fazer parte de qualquer boa conversa!
    Bjs

  4. Responder

    wiliam

    24 de julho de 2018

    Tive umas duas ocorrências de hemorroidas: alimentação picante, coentro, entre outras causas não heterodoxas! Nada ver com quibe no C… Aproveito para deixar o seguinte relato:
    1- Em situações médicas, crises de saúde não relacionamos as causas com efeitos, isto é um hábito de nossa cultura, e só começamos a fazê-lo após diagnósticos indiscutíveis; Precisamos melhorar nossa memória e habilidade de relacionar causas/efeitos;
    2- Na última ocorrência deste sintoma, minha mãe, baiana, comerciante, olhos azuis como os céus de sua cidade natal, Uauá, após ouvir minhas queixas,disparou: pegue pétalas brancas, ferva com leite e pouco açúcar e beba!
    Nunca mais tive qualquer ocorrência!
    Sou um homem que tem e teve mais relações casuais do que as mulheres tiveram de brincos e bijoux… E só me lembro de apenas 2 mulheres, inclusive recentes deste ano, com este quadro: ambas eram boas e caprichadas Gourmet! Tinham muita desenvolturas na cozinha, nos temperos, nos menus. Apenas uma estava com percurso próximo de operação, a outra administrava com medicação.
    Com ambas tive relação anal, minha preferida demostração de carinho, e sem gerar nenhum desconrto ou “day After”!
    Há os que relacionam estes problemas com estas opções de prazer, e sim, podem agravar os transtornos e desdobrar para outros mais graves, porém não devem ser dissociados do principal: alimentação!
    Todas as vítimas, tiveram um percursos semelhante, seja com pimentas, seja com alguns temperos prontos, até algumas fibras, ou os agrotóxicos presentes nos alimentos vegetais, que irritaram esta região, tornando-a sensível.
    Se não tivermos esta memória e capacidade de relacionar efeitos com as causas, em vão faremos cirurgias, cortes, amputações, ou procedimentos invasivos… Aos que ainda não estão nestas condições irreversíveis, podem tentar o paliativo acima das pétalas de rosas!
    Funciona! E bom sexo anal!

    • Responder

      wiliam

      24 de julho de 2018

      estes comentários não permitem edição como os demais, favor incluir, há erros de digitação!

    • Responder

      Antônia no Divã

      24 de julho de 2018

      William. Amei o comentário! Amei.

  5. Responder

    Quezia

    11 de junho de 2018

    Eu ri enquanto lia e voltei para ler novamente. Muito bom e propício, já que falar esse assunto “cu” nos constrange justamente porque não se fala. Me indentifico porque tive hemorroídas com 15 anos e chorava quando precisava ir ao banheiro. Sofri muito e só fui ao médico quando apareceu um caroço dolorido, eu tinha 29 anos. Nunca tinha lido algo semelhante, parabéns.

  6. Responder

    Mari

    25 de abril de 2018

    Querida você ❣️ Espero que seu fiofó esteja bem lindo agora, e que vc aproveite ele em sua total plenitude! Bjs e obrigada pela partilha!

  7. Responder

    Nanny Ruivo

    25 de abril de 2018

    Faltou o ar de tanto gargalhar.
    Pelo amor de Deus lança este livro de uma vez! ????

DEIXE UM COMENTÁRIO

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

SESSÕES NO SEU E-MAIL
PESQUISE AQUI