Efemérides

Tristeza, pode passar

em
17 de novembro de 2015

É como se eu tivesse recebendo uma educação. É, um phD em tristeza. Acessando níveis de profunda introspecção na arte de arder o coração em pesar. Encontro-me num processo muito similar a aprender uma nova língua ou uma habilidade nunca antes desenvolvida. Eu estou virando uma perita na produção de lágrimas. Gordas, pesadas e inconvenientes. Lágrimas que jorram sem cerimônia ou hora marcada. Sinto os olhos como barragens arrebentadas, e o peito Minas Gerais (com todo o meu respeito). Sou uma terra arrasada pela água.

Na verdade uma mimada pela felicidade é o que sou, hoje sei. E minha ignorância na arte da tristeza ajudou a desenvolver uma fobia em relação à complexidade do sentimento de hoje. Por que ninguém nunca falou da tristeza? Como que não somos ensinados a sentir dor com antecedência? Sou conhecedora íntima da tal da alegria, euforia, felicidade, mas nunca me prestei a olhar 2 minutos pra tristeza? E agora cá estou, amadora da melancolia tentando apenas sobreviver. Uma principiante assustada é o que sou. Eu deito por horas na minha cama em meio a crises de choro implorando pro meu coração não explodir de padecimento. Na minha estranheza quanto à tristeza, eu temo que – de forma literal – meu coração se esvaia em lamentos – veja que tola essa novata dos dias tristonhos?

Esbravejo “Que injustiça da vida!”, logo eu que sempre tive pavor de sentir pena de mim mesma, me pego confortando a própria cabeça num ato desesperado de “ora, ora, vai passar…” (em voz alta). Quero sentir pena de Paris, Mariana, dos refugiados e abraçar todas as dores do mundo, numa tentativa de colocar minha dor – tão egoísta e egocêntrica – em perspectiva e tudo se esvai em prol da minha amargura, minha, e tão minha. Eu nunca fui amiga da tristeza, nós sequer tínhamos sido apresentadas, e agora ela se mudou pra dentro da minha casa? Usa minhas roupas e exige todo o meu tempo? Sua espaçosa!

Mas ela é educadora, isso é. Como poderia uma vida de sorrisos, sem a profunda experiência de velar a morte da minha inocência? Quer dizer, eu já tive momentos de tristeza – mas a condição atual exige um nível superior de entendimento. É como se eu tivesse passado 30 anos de cursos esporádicos de melancolia, e fosse lançada a Escola Superior do Abatimento para um MBA em Mágoa Avançada com Ênfase em Padecimento Crônico. E eu não estou sendo dramática. Foi tipo, “vai sua linda, vai aprender que a vida não é sempre doce chupando todo o limoeiro.” E aqui não me refiro à depressão – assim espero – é tristeza mesmo.

E quando você inicia essa educação, você está por conta. As pessoas felizes ou as que gozam da ausência da tristeza não entendem desta matéria, e por isso tem medo, repulsa ou desinteresse no assunto. Medo de que seja contagioso, e por isso se mantém bem longe da minha nova faculdade – “pra me dar espaço”. Repulsa porque não conhecendo o fundo da sala de aula, que neste caso é um poço escuro, não entendem como você ainda não achou seu caminho de volta para a luz. E desinteresse, porque convenhamos, gente infeliz é chata pracaralho. Eu me tornei o tipo de pessoa que evitei a minha vida toda: uma pessoa triste. E acredite, pouca e corajosa gente vai te amar e ficar por perto, mesmo nos dias tristes.

E como eu me esforço pra ser boa em tudo que faço, me vi doente na arte de ficar triste. O choro constante virou sinusite, que virou dor de garganta, que virou bronquite, que virou hospital. Na nebulização a jovem médica me pergunta “está doendo alguma coisa?” espantada com minhas lágrimas (gordas!) em meio ao vapor – “não, doutora, não tem remédio pro que eu tenho não. Estou recebendo uma educação.” “Quer um tranquilizante?” – ela pergunta preocupada – “Não obrigada, isso seria como colar na prova, doutora”.

E aqui está é outra coisa que já aprendi sobre a dor: poucos alunos estudam essa matéria “de carinha”. Uma infinidade opções tarjadas de preto ou vermelho oferecem um semestre mais tranquilo na faculdade do luto. E se você se distrair por um minuto de boca aberta, alguém vai te tascar um comprimido boca adentro “pra ajudar”. Acontece que toda vez que alguém me oferece essa opção, eu me pergunto: mas se não aprender essa matéria agora com meus próprios meios, não corro o risco de rodar? E rodando, não terei que repetir a matéria ali na frente? Não, muito obrigada. Se a dor ensina gemer, eu hei de decorar seu hino – se preciso for.

Eu nunca me imaginei dissertando sobre o pesar, assim, tão pesado, mas cá estou. Sabendo que talvez seja a única forma de ser aprovada nesta pós-graduação que é a vida. Torcendo para que cada prova me torne mais capaz de entender o mundo, que cada lágrima lave a ferida aberta e que este processo me ensine mais sobre eu mesma. “Mas você é forte, você é uma guerreira!” canta a torcida da faculdade da alegria, sem qualquer discernimento do que é ser dona desta minha matrícula. Eu não sou forte, tão pouco uma guerreira. Carne, osso e amor me constituem, e tudo isso é muito frágil. Então se eu perseverar (e eu vou perseverar), é simplesmente porque eu não tenho e não acredito em outra opção.

Hoje eu preciso da tristeza, e talvez só através dela, vou realmente entender aquilo que antes chamava de felicidade.  Então me dá licença, se você se acostumou com a minha alegria. Querendo ou não, minha tristeza exige passagem, e passando, vai passar.


Fim da sessão.

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18 Comments
  1. Responder

    Carol

    18 de dezembro de 2015

    Eu cursei essa graduação medonha bem cedinho, tinha 20 anos. Junto com a graduação da vida, aquela que se escolhe. E me identifiquei muito contigo, pois eu era a pessoa do sorriso. E quando eu pedi socorro, praticamente ninguém auxiliou, a ponto de me verem tendo uma crise de pânico e acharem graça. O socorro veio de quem eu nem sabia quem era.

    Foram três anos difíceis. Tive essa mesma questão de somatizar na doença física, emagreci, fiz terapia, me neguei a usar medicação… Mas me formei. Peguei o diploma e voltei a rir alto, matei a saudade de mim que eu sentia. Claro que a mesma pessoa não se volta a ser, mas me tornei melhor. Aprendi a acolher na tristeza, ouvir,buscar auxílio quando não conseguimos lidar com isso. Ou simplesmente ficar ao lado e dizer que tô aqui, precisando é só me chamar que vou. E a ir de verdade quando chamada.

    Só quis dividir um pouquinho da minha história contigo pra dizer que sobrevivemos. Jamais do mesmo jeito que antes. O sorriso muda, ele se torna mais forte, valorizado. Não sei mensurar a tua dor, mas mesmo sem te conhecer te mando todo o carinho e boas energias possíveis pra passar por essa travessia tão dolorosa.
    A vida vai te presentar com muita coisa boa viu Antônia! A bichinha é dura, mas sabe ser doce e generosa 🙂

  2. Responder

    Luce

    20 de novembro de 2015

    Meu sogro faleceu nos braços de minha sogra, fazem 3 semanas, a cena que vimos, o estado que se encontramos é bem parecido com o teu, qdo vc fala dos rios de lagrimas que insistem em sair.. e tudo mais, estamos nessa juntas.

    A unica parte “diferente” é que qdo estou com meu marido e sogra preciso me manter com a postura firme, de quem tá segura, de quem sabe o que esta fazendo, entao na calada da noite e durante o dia qdo eu estou no meu mundo.. as lagrimas rolam, a tristeza e a insegurança do futuro tomam conta de mim.

    Eu espero que tudo isso passe.. mas realmente é uma faculdade, um ensinamento.. e precisamos passar por isso.

    Ninguem sente a tua dor, pra te dizer que esta errada ou certa, só vc sabe o tempo necessário pra passar tudo isso. E nesses momentos descobrimos se temos ou nao amigos.

    Fica bem. O tempo ameniza as feridas, a lembrança e a saudade com certeza vao estar em tua mente sempre!!! Mas a dor maior um dia passa há de passar.

  3. Responder

    Candida Maria

    19 de novembro de 2015

    Há muita lucidez na dor,escancara o quanto apegados à pessoas ,situações ou coisas nós somos.Nos tornamos rebeldes diante dela,impotentes e frágeis.Não descobri um jeito de seguir e deixar rolar quando ela chega.Permito que a tristeza se instale e vá embora.Fico de luto,sem lágrimas.Não sei ou não consigo chorar,o que fica pior a coisa.Um dia sem mais nem menos a dor diminui,desaparecer nunca,só vira outra coisa,nostalgia,saudade,sei não.Deixa doer,e chore.Por mais doido que pareça,é o que leva a tristeza embora.

  4. Responder

    Lucy

    19 de novembro de 2015

    Sim, além de uma leve melancolia, também eu não havia sido apresentada a essa senhora.E quando chegou esse dia, senti exatamente isso que você relata.
    Porém, posso te assegurar que passa.
    Eu apenas a senti, ao contrário de você, que soube tão bem traduzir em palavras.
    Beijos

  5. Responder

    Roberta

    18 de novembro de 2015

    A dor é passageira, mas a glória é eterna! Creia em DEUS Antônia, ele tudo pode.

  6. Responder

    Hercilia

    18 de novembro de 2015

    Após a frase fim de sessão um ícone pra ser acionado e uma musica pra ser ouvida. Melodia alegre pra uma letra triste?
    Ao longo da leitura da sua postagem o maxilar travou e o coração apertou, mas ao ouvir a musica um breve sorriso surgiu.
    Não tema a tristeza, é o sentimento da vez . Acolha!
    Você é linda, jovem e tem pacto com a Vida!
    Hora de catar os cacos, daqui a pouco a cola da aceitação se fará presente e acessível. Chore, grite, escreva….. Mas ao final ouça a musica que saí da alma.
    E dance! A dança da Vida, do amor eterno por você, por todos e tudo que lhe é grato.
    Se possivel ore! Fará bem a você e a toda sua familia.
    Bj
    Hercilia

  7. Responder

    Iúna Monte Cruz

    17 de novembro de 2015

    Querida Antônia. .. e essa tristeza há de se transformar! Em orações por vc e pela sua família! Me identifiquei com vc em muitas partes do texto, e te entendo quando diz que muitos têm medo de ficar “perto de quem está triste”, estou passando por um momento de dor na minha família, e sei bem o que vc sente, mas saiba que sempre terá um corajoso para nos dar um colo ou uma palavra de conforto que seja, então, não tenha medo, use e abuse! Força e fé querida!!! Muita luz p vc! Bjo

  8. Responder

    Sandra

    17 de novembro de 2015

    Minha querida Antônia do Divã… Aline Mazzocchi… ou Mosquitinha da voz rouquinha, não sei se ainda é (rouquinha) mas deve ser. Dizem que o crescimento se dá , principalmente através das perdas, da dor… Pessoas não passam por esta vida, sem este tal sofrimento, mas o tempo, senhor de todas as coisas, um dia , ele se torna generoso e vai transformar toda esta tua dor em saudade… Um grande beijo no teu coraçãozinho !!! Fique com Deus minha linda! Ah, não sei se lembras de mim…

  9. Responder

    Bia

    17 de novembro de 2015

    <3

  10. Responder

    Kamilla

    17 de novembro de 2015

    Toda semana você escreve pra mim. (só não coloca meu nome) kkkkk
    Ler seus textos é como um grito no escuro!
    É muito bom! obrigada por escrever!!

    Beijo, espero pegar o diploma dessa graduação logo!

  11. Responder

    Leka

    17 de novembro de 2015

    eu entendo bem cada palavra sua…Parece ate que foi eu quem escreveu, ou melhor voce descreveu o meu sentir. A 1 ano, 5 meses 15 dias eu também perdi meu irmão… Morte súbita, la no Canada. Não deu pra dizer adeus… Doi um bocado… Mas nao tem palavras pra dizer mais nada

  12. Responder

    Mariana Fidelis

    17 de novembro de 2015

    Antonia que atitude linda poder compartilhar com a vida que nem tudo é um mar de flores. É um pesar que dói mas através dele é que a gente se enche de esperança e segue em frente. A humanidade sempre vai caminhar, sei que vai.
    Bjos sua linda! 🙂

  13. Responder

    Vall SantosVal

    17 de novembro de 2015

    Oi Antônia, minha tristeza nem se compara à sua, mas tenho me sentindo triste e lutando para não estar, o seu texto me ajudou muito, vou permitir, assim, talvez ela passe.
    P.S. Amo as músicas que você posta, pena não ter o nome, essa e a da postagem, “É preciso deixar ir embora”, se puder me diga quais são as músicas?
    Um abraço pra você.

    • Responder

      Nanny Ruivo

      17 de novembro de 2015

      A música do post “É preciso deixar ir embora” chama-se “Photograph” do cantor ED SHEERAN. Linda música e clip espetacular!!!!

  14. Responder

    Ana Teté

    17 de novembro de 2015

    A tristeza faz parte de nossas vidas muito mais do que gostaríamos, este é o processo e essa caminhada é realmente longa e cansativa quando se faz pela primeira vez. A faculdade de fato, nunca acaba, a gente é que aprende a viver com o que ela nos proporciona, como boa aluna (e aqui tem um pouco do meu ego feliz por conta das “colas” nas provas e tals… às vezes, uma espiadela é valida, mas só para não perdemos o foco), tenho certeza que transformará todo o conhecimento adquirido em textos enriquecedores, como tem feito, para ajudar e nortear todos que tiverem contato, conhecendo o caminho ou não.
    Um beijo no seu coração. <3

  15. Responder

    Fabiana

    17 de novembro de 2015

    Lindo, você sempre consegue por em palavras tudo que se passa dentro de mim…Agora não me sinto mais tão estranha, maluca, nem tão só!

  16. Responder

    Anna

    17 de novembro de 2015

    Como é bom alguém expressar aquilo q sentimos…. tenho a sensação de q já estou no Doutorado …… cansa doer…. e não ver a luz…

  17. Responder

    Bibiana Bernardes

    17 de novembro de 2015

    Queria te dizer que vai passar essa dor, mas ela não passa, ela AMENIZA na medida que tu começa a atender algumas coisas e essas tu mesma vai descobrir porque sim, a dor ensina a gente a levantar quando a gente acha que isso não é possível, mas leva tempo e esse tempo é TEU, SÓ TEU! Viva ele sim, chora quando achar que tem que chorar, grita, fala, escreve e viva essa dor porque aos poucos ela vai amenizar e o que vai ficar é o que ela te ensinou!
    E quem disse que tu não é forte? É sim! Só de estar aqui, mostrando em lindas palavras todas as tuas fraquezas e os teus medos já te diz que tu é sim!
    Fica bem, tá? E escreve porque é aqui que tu vai aprendendo aos poucos que essa dor vai se transformar em coisas que tu nem imaginava que se transformaria <3

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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