Fica tranquilo, pai.

“Fica tranquila”. É assim que ele sempre encerra a ligação, por mais que eu às vezes só tenha ligado pra dar um alô. “Fica tranquila” é a frase que meu pai mais me diz. Se eu tô brava. Se tô triste. Se tô feliz. E até se tô tranquila.
 
Eu temo ter me dado conta muito tarde do quanto meu pai foi fundamental na mulher que eu sou. Mesmo sem jeito, ou sem a responsabilidade declarada, já que sou da geração cuja educação dos filhos “era responsabilidade da mãe”: Meu pai foi peça fundamental da edificação do meu caráter e felicidade. Por causa da tal da “tranquilidade”. E eu nem sabia que ela importante até começar a perdê-la.
 
Eu tenho certeza que nunca serei grata o suficiente pela vida que ele me deu. Meu pai foi responsável pelo acesso a minha educação, a estrutura da nossa casa e boa parte dos recursos. O acesso à educação por si só, neste país, já foi um privilégio. Eu sou privilegiada também por conta do meu pai. Eu sei disso. E como o meu pai sempre foi de gostos simples, eu também gozei do privilégio de ter alegria com pouco mesmo com acesso a muito.
 
O foco do meu pai foi e sempre será a tranquilidade. Quando eu era um bebê ele tirava as minhas meias porque achava que me agoniavam. Eu não consigo dormir de meias até hoje. Ele foi daqueles que nas férias deixava o meu irmão e eu dormirmos até bem tarde do dia. Pra acordarmos tranquilos. Meu pai trabalha até hoje pra gente ter um futuro tranquilo, por mais que há muito tempo ele já não seja o responsável por isso.
 
Mas meu pai é longe de ser perfeito. Aliás acho que eu comecei a me dar melhor com o meu pai quando eu finalmente aceitei que, acima de tudo, ele ia errar. Pra caralho. Comigo, com os outros. Mas principalmente com ele mesmo. Talvez só assim eu entendesse que pra muita coisa ele tá aprendendo a levar a vida tanto quando eu. Tá aprendendo a ficar tranquilo.
 
Meu pai foi o cara que me ensinou muito acertando. Mas muito ao errar. E talvez a coisa que eu mais tenha orgulho dele é que ele foi humilde pra me dizer “não faça isso, como eu” ou “sei que não sou exemplo pra isso, mas aceita esse meu conselho”. Essa sinceridade nos aproximou. Meu pai sabe que tenho pouca paciência para hipocrisia.
 
Outras coisas também nos aproximaram. A dor. A saudade. Meu pai talvez seja a pessoa que mais sofre com a perda do meu irmão, simplesmente porque ele sente que não fez justiça com o tempo que teve. Ainda que o Leonardo soubesse, assim como eu sei, que meu pai amou e ama a gente fazendo o que ele sabe fazer de melhor: deixando-nos tranquilos. Dizendo que erra, quando pode. Avisando que não é herói de ninguém, pois ainda aprendendo a se salvar. Mas que tá sempre a disposição.
 
Domingo é dia dos pais, além do aniversário dele, e eu sei que vai faltar filho nesse abraço. E lá vou estar eu, tentando em vão suprir todas as saudades, ocupar todos os espaços, e dizer pra ele que ele fez tudo certo, mesmo errando. Eu vou saracotear tentando distraí-lo da ausência com a minha presença, amando-o do jeito que eu consigo. E ele vai notar meu descompasso e me amar de volta do jeito que sempre fez. Dizendo-me de novo e mais uma vez, “fica tranquila, minha filha”.

Obrigada, pai. Te amo.


Fim da sessão

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