Categorias: Suspiros

Prezado amor platônico

Eu sempre me considerei uma pessoa sortuda no amor. O meu cupido sempre flechou de volta quem havia me flechado.  Por conta disso, eu nunca entendi o conceito de amor platônico. Nunca. Um amor, que segundo a concepção do filósofo Platão, é puro e desprovido de interesse. Focado na virtude do outro, alimentado de uma admiração, sem qualquer correspondência por parte do “objeto” admirado. Fala sério.

Imagine você, então, a minha surpresa, quando me deparei com o amor à primeira vista, combinado ao meu primeiro amor platônico. Eu queria me jogar no mar. No mar dos teus olhos.

Foi assim que tudo começou. Nos teus olhos. Redemoinhos azuis, emoldurados por tuas linhas de expressão. Cada sorriso fazia as cores dos teus redemoinhos me engolirem. Cada sorriso revelava linhas, linhas estas que me emaranhavam, como correntes de uma embarcação sendo tragada para o fundo do mar.

Eu me afoguei em ti no primeiro “Olá”.

Era o meu primeiro dia no emprego novo. Você me fora apontado como tutor. A sua matéria incluía atividades do mercado da pesquisa paga daquela grande corporação, e tudo que envolvesse um amor não correspondido.

Levei uma dúzia de horas pra entender suas explicações relativamente simples. Não tinha medo de parecer idiota quando as métricas que me mostravas. Tinha medo de parecer idiota contemplando os teus primeiros fios de cabelos brancos, logo acima da orelha e alguns que nasciam na nuca. Tinha medo que você pudesse ouvir meu coração bater acelerado, quando chegavas perto pra me passar alguma orientação. Sendo orientação a única coisa que me faltava naquelas horas.

Eu, como toda boba apaixonada que se preze, passei a testar teu sobrenome na minha assinatura. A fechar os olhos quando sentia teu perfume no elevador. Escolhi a “nossa música” em segredo, e a cantarolava baixinho sempre possível, pra ver se música te embalava na minha direção.

Por você, passei abrir mão do final de semana. Lamentava a sexta-feira, odiava o maldito sábado, e o domingo foi julgado muitas vezes demasiadamente preguiçoso.

Aprendi o galês, só para poder te receber toda segunda-feira – meu mais novo dia favorito – e desejar bom dia na sua língua materna. Dizia “Bore Da” (bom dia), “Prynhawn Da” (boa tarde) e “gweld chi yn nes ymlaen” (até logo), querendo mesmo era dizer “Rwyf wrth fy modd i chi”, ou melhor:  dizer “eu te amo” no meu mais belo e polido português. Sim, a tua língua era impronunciável, mas confesso que não era o excesso de consoantes que me impedia de falar. Como em um bom amor platônico, era o medo da tua resposta – na língua que fosse – que me fazia calar.

Pegava-me sonhando acordada, planejando jeitos de dizer que estava apaixonada, e possivelmente louca – quando você me interrompia sem querer, aparecendo de trás do seu monitor, com aquele sorriso, olhos de redemoinho e as linhas… ahhh…  Àquelas linhas de expressão eram o que faziam meu mundo girar. Pequenas correntezas na direção dos meus redemoinhos preferidos.

Eu tentei resistir. Eu juro. Todo dia eu acordava decidida a não te amar. Todo dia eu fracassava. Bastava tu brincar comigo. Oferecer-me um chá. Ou pedir emprestado o camelo de pelúcia que ficava sob a minha mesa… aquele que você apelidou de Bob, e que se referia como se fosse um filho cuja guarda dividíamos – “De segunda a quarta na sua mesa, de quinta a sexta na minha”, você brincava, sem saber que queria dividir contigo muito além do camelo Bob.

Lembro-me de um dia ligar para uma amiga em desespero pedindo ajuda. Ela então, me aconselhou a esperar, pois o tempo cuidaria de tudo. A amiga falhou no conselho, como o tempo falhou em me fazer te esquecer. E eu vivi dia após dia como Platão sugeriu, admirando tuas virtudes, e idealizando o amor que eu nunca tive. Me convenci de que a tua ordem não combinava com o meu caos. E em silencio, eu padeci.

Chegara então o dia da minha despedida, dia em que eu cruzaria um oceano de volta pra casa, e para longe dos redemoinhos dos teus olhos. Talvez fosse essa a única maneira de não morrer afogada neles. Pensei que possivelmente era a oportunidade de te dizer tudo que queria. Planejei durante horas a conversa na minha cabeça, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, foi você quem falou.

Na despedida do escritório, o discurso foi teu. Você então falou sobre minhas meias calças coloridas, donas de todas as cores do arco-íris. Das nossas brigas no trabalho, dos meus exageros, e como eu era “passionate” como toda latina com sangue italiano deve ser. Falou sobre minhas desventuras do final de semana (aqueles que eu tolerava longe de você), e como gostavas de escutar minhas histórias. Falou que eu era um caos bem vindo pra tua ordem. Relembrou das nossas conversas quando trabalhávamos até depois do horário, e dos conselhos que você me dava e que eu nunca seguia. De como a gente era diferente um do outro. E de como ia ser tudo diferente quando eu fosse embora.

Eu por minha vez, despejava mares de lágrimas ao te escutar sem conseguir dizer uma palavra– tão alheia ao desconforto de amar alguém, e não ser correspondida. Enquanto derramavas carinho nas tuas palavras, me convencia de vez de que aquilo realmente não era amor. Não do jeito que eu queria que você me amasse. Não do jeito que eu queria poder te amar.

Na continuação da despedida, em um pub sob as margens do Tamisa, foi longe dos olhos dos outros que encarei os teus pela última vez. Te abracei, e chorei forte novamente, meu peito soluçando doído contra o teu. Você passou a mão nos meus cabelos e disse “não faz assim comigo”, como eu queria ter dito tantas vezes desde a primeira vez que te vi. Não faz assim comigo, prezado amor platônico. Mas já era tarde pra dizer qualquer coisa.

E então, você foi embora. Levando junto os olhos que por meses me afogaram. E depois eu fui embora. Levando comigo tudo que queria te dizer. Levando na mala os beijos que guardei pra ti, os suspiros que nunca mais serão de ninguém, as histórias que sonhei ter vivido contigo.

Um ano  depois recebo notícias suas. Uma bela garota havia ganhado o teu coração, e você estava animado com o casamento marcado. Escrevi de volta dizendo a última coisa que me restava, que te desejava todo amor do mundo (mesmo o amor não sendo o meu).

– “Hapusrwydd!”

Te escrevi “felicidades”, sendo possivelmente a última vez que escrevi em galês.

No escuro do meu quarto abracei o Bob  – aquele camelo de pelúcia que você tanto gostava – e chorei pela última vez o amor que a gente nunca viveu.


Fim da sessão.

Antônia no Divã

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Antônia no Divã

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