Efemérides

Quem é aquele menino?

em
4 de setembro de 2015

“Mana, quem é aquele menino deitado na praia?”

Mateus, 5 anos,  indaga sobre as imagens na televisão do menino sírio desfalecido na beira do mar. Meu coração congela instantaneamente. Me sinto afogada nas verdades do mundo.

Quando descobri que seria irmã mais velha de novo, sabia que seria um desafio encarar a curiosidade dupla lá de casa, nestes dias de hoje que eu mesma não entendo bem.  Aos trinta anos, eu tinha que explicar para a pouca experiência de vida do Mateus, e também do Murilo, que falhamos não apenas como humanidade, na tomada de decisões. Mas que falhamos em proteger a inocência de quem ainda não decide nada.

Quando eu tinha 5 anos, não entendia porque meninos de rua não tinham casa, e batiam na nossa porta pedindo comida. Meu pai então preparava sanduíches para eles, sem saber muito o que me explicar, e se resumia a me envolver na tarefa de encher os pães com presunto. Era o jeito dele de ajudar, como também de preservar minha inocência. Na minha cabeça, o pão com presunto resolvia. E eu era parte da solução.

Não seria o mesmo que acontece hoje? Não seria eu, parte na solução?

O corpo sem vida as margens de qualquer lugar, choca os olhinhos antes tão serenos dos meus irmãos. Penso em desligar a TV e levá-los a cozinha para fazermos pão com presunto. Penso em explicar que aquele menino encarou a imensidão do mar junto aos pais, na esperança de um lar sem furos de balas. Aliás, bala deveria oferecer unicamente doçura às crianças. Não medo.  Penso em dizer que o mundo se tornou um lugar complicado, em que estamos preocupados exclusivamente com nossos filhos, seus tablets e Nickelodeon, do que com os filhos dos outros, aqueles despatriados. Desprotegidos. Desamparados.  Quem sabe, se o Mateus e o Murilo entendessem desde cedo que o mundo é um lugar egoísta, medíocre e desalmado, eles sofram menos. Tenham menos vergonha em fazer parte desta humanidade desconstruída.

Mas não seria eu, parte na solução?

E sou. Ainda que como irmã, eu tenho o compromisso de proteger a inocência deles, sem deixar de ensiná-los de que mesmo falhando gravemente com o presente que nos foi dado, devemos ter coragem em fazer um futuro bem melhor. E assim educar melhor. Dividir melhor. Devemos ensinar aos Mateus e Murilos de nossas casas dando exemplos construtivos, envolvendo-os em causas importantes. Ensinando sustentabilidade, sendo sustentável. Ensinando a amar o próximo, com ações de compaixão, respeito e comprometimento. Criando filhos melhores, que vão fazer nos próximos anos, um trabalho muito melhor que o nosso. Se hoje não somos seres humanos mais admiráveis para nós mesmos, sejamos admiráveis para os olhinhos que tudo enxergam e aprendem. Assim quando for a vez deles de fazer as escolhas, que façam escolhas muito melhores do que as nossas.

“Quem é aquele menino, mana?” – O Murilo agora repete a pergunta do Mateus, pedindo atenção ao segurar as minhas bochechas. Beijo a testa dos dois, e aperto-os num forte abraço, abraço esse que todos queríamos ter dado no menino sírio em um sincero pedido de desculpas.

“Aquele menino, Mateus e Murilo, vai ser o menino que vai mudar o mundo.” Respondo com uma esperança quase infantil, enquanto eles sorriem.  “Aquele menino vai ensinar ao mundo como cuidar de todos os meninos fazem parte dele.”


Fim da sessão.

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14 Comments
  1. Responder

    Sandra Domingues Kuplich

    28 de outubro de 2015

    Seus textos são de uma coerência , de uma delicadeza ímpar , próprios de pessoas iluminada. Parabéns minha querida e um grande abraço !!!

  2. Responder

    Adriana Chebabi

    5 de setembro de 2015

    Texto muito bom e sincero. Amar é sempre a única solução. Ótima resposta que deu para seus irmãos.

    • Responder

      Antônia no Divã

      14 de setembro de 2015

      Obrigada, Adriana! A gente tenta! 😉 Beijocas

  3. Responder

    Amanda

    5 de setembro de 2015

    Lindo, vc como sempre arrasa. Fiquei com os olhos cheios d’agua. Fico pensando que temos sim que fazer a nossa parte que inclui ensinar a nossos filhos a ser melhores. Para nós eu não vejo muita esperança, mas para eles e nossos netos sim. Está na hora de fazer o dever de casa.
    Beijos e obrigada por esse lindo texto.

    • Responder

      Antônia no Divã

      14 de setembro de 2015

      Obrigada, Amanda! Temos um bom dever de casa pela frente! beijocas

  4. Responder

    pieramacc

    4 de setembro de 2015

    Aline, muito bom seu texto como sempre. A resposta está em amar o próximo e fazer o bem certamente, mas creio que estamos muito “ocupados” como sempre.

    • Responder

      Antônia no Divã

      14 de setembro de 2015

      Linda! Você é um ótimo exemplo de tempo e dedicação!

  5. Responder

    Evandro

    4 de setembro de 2015

    Por que tem sempre cisco nos olhos quando lemos textos como estes? Quem dera pudéssemos incutir na cabeça da maioria das pessoas o quanto somos importantes como seres humanos. E aprender que esta terra é a casa de todos. Abraço carinhoso. Beijo.

    • Responder

      Antônia no Divã

      14 de setembro de 2015

      No meu olho também, Evandro… snif

  6. Responder

    Ana Teté

    4 de setembro de 2015

    E agora eu, com olhos cheios d’água, me levanto pra aplaudir! Mais uma vez. Parabéns pelo texto, atitude, sinceridade, amor e por nos mostrar que não só podemos, como temos o dever de sermos melhores cidadãos para esse mundo. <3
    Beijo enorme no seu coração e um excelente final de semana/feriadão. =)

    • Responder

      ane

      4 de setembro de 2015

      Eu também, aplaudo de pé seu texto tão lindo e verdadeiro..já chorei algumas vzs hj.

      • Responder

        Antônia no Divã

        14 de setembro de 2015

        Tema impossível de não molhar os olhos, né Ane?

    • Responder

      Antônia no Divã

      14 de setembro de 2015

      Oi Ana! Te devo um cafézinho presencial né? Quem sabe na próxima! beijocas

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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