Suspiros

Dar, ou não dar, eis a questão.

em
14 de abril de 2015

“Dá logo, Antônia!”, “Tá com vergonha do que?!”, “E só tirar se você não gostar.” “Vai deixar ele ali pedindo? Dá logo pra ele!”. 1993. 4ª série. Recreio da escola. Era a primeira vez que eu encarava a pergunta que ia me assombrar para o resto da vida “dar ou não dar pra ele”. Ele, no caso, era o Marquinhos da 5ª série. O objeto do seu desejo, e da minha animada torcida de amigas, era a minha mão. O Marquinhos queria que eu desse a minha mão pra ele segurar. Não dei. Fiquei com medo que ele me achasse muito acessível, ou que as outras garotas da série do Marquinhos rissem de mim. O Marquinhos não aceitou muito bem a negativa. Jogou minha mola-maluca no chão e disse que nem queria a minha mão mesmo. Chorei sozinha no banheiro. Eu tinha certeza que a culpa era minha.

Depois disso eu fui crescendo, e de fato levei muito mais tempo do que as outras garotas pra dar qualquer coisa para alguém do sexo oposto. Enrolei-me anos pra dar o meu primeiro beijo. Eu fui a última da minha turma a perder a virgindade. Óbvio que a ideia de algo rompendo dentro de mim não colaborava para o amadurecimento da minha sexualidade, ainda mais se tratando do tal do hímen, que ficava Deus lá sabe onde. Mas esse não era o meu maior temor. Eu como toda garota que veste o manto de virgem, me perguntava: “e depois que eu transar, o que os outros vão pensar?”. Verdade é que sendo Virgem Maria ou Maria Madalena, as pessoas iam falar de qualquer forma. Isso logo eu aprendi. Mas eu segui intrigada com esta decisão em cada etapa da vida. Dar ou não dar, eis a questão.

Por conta disso levei o tema sobre o real efeito do “dar ou não dar” a consideração de amigas e amigos. Para ser mais específica na discussão, e visto a velocidade dos relacionamentos de hoje, perguntei sobre o efeito da primeira transa (→ o Word insistiu na substituição do termo “transa” por “relação amorosa”, e eu não concedi), ou melhor, eu queria entender o efeito da percepção da mulher, caso o primeiro encontro terminasse em sexo. Veja, algumas pessoas diriam que o tema por si só já é machista. Eu entendo. Quanto abordei algumas amigas sobre o que elas achavam que os homens pensavam sobre mulheres que transavam no primeiro encontro, muitas delas responderam “eu não ligo para o que eles pensam”, e louváveis sejam elas, cheias de confiança. Eu, Antônia, não gozo de tanta. Desta forma, precisei mergulhar na pauta que me atormentava desde os tempos do Marquinhos.

Após entrevistar informalmente homens e mulheres sobre o assunto, sem qualquer responsabilidade por amostragem e estatística, concluí que hoje estamos no limiar de uma mudança. Quando eu tinha 20 e poucos, eu jamais transaria no primeiro encontro – “mas aí é porque você era mais nova, e mais insegura”. Também. Mas também porque os tempos eram menos gentis com quem decidia “soltar a piriquita”. Hoje os termos são um pouco mais democráticos. Ainda que com alguns pré-conceitos escondidos embaixo da nossa modernidade pró-feminismo – tem muita Maria Madalena sendo falada no Whatsapp, eu sei. Mas hoje ninguém mais sai apontando pras safadinhas a luz do dia, simplesmente com medo de soar pré-histórico. As mulheres mudaram. Os homens mudaram. Alguns conceitos já se foram e outros permanecem. Existe, no entanto dois pontos de convergência no assunto:

Conquista X Atitude

Eu posso soar vitoriana, mas segundo a minha averiguação o cortejo não saiu de moda. Eu juro. Eles acontecem hoje em dia em questão de 4 horas e sete coquetéis, e não mais em seis meses de conversas vigiadas e um pedido formal de namoro. O jogo da sedução, entretanto – e mesmo que com o velocímetro alterado – permanece em alta com eles, e com elas. Homens serão eternamente conquistadores por natureza, e tem a competição no sangue. Junte isso a um par de seios, e taa-rãm, você tem um verdadeiro cavaleiro em uma missão. Para alguns é um investimento de auto-provação, assim como um certificado de virilidade. Eles não batem mais em nossas cabeças com um tacape e nos arrastam para copular. Mas eles ainda querem nos convencer a entrar na caverna, ora bolas. Nós mulheres, da mesma forma, apreciamos o cortejo e não gostamos dos afobadinhos. Sentimos prazer em sermos conquistadas, do contrário o “não” está cada vez mais difundido e sem peso na consciência.

A atitude aqui é o divisor de águas. É como funciona a lei da demanda e da procura. Se for abundante (no sentido de fácil acesso), perde o valor. Se for raro, o mercado valoriza. E eu sei que eu estou falando de mulheres, e não de diamantes, mas lógica é similar. O que acontecia antes, é que quando uma mulher transava logo de cara, alguns mal orientados julgavam que esta não prestava. Uma vez que nos demos conta e passamos a não aceitar que este fundamento não se aplicava a eles, a coisa começou a mudar.  Então a lição de tirei nesta “pesquisa”, que tem margem de erro de três machistas para mais ou para menos, é que dar no primeiro encontro não desvaloriza a mulher, principalmente se o clima fluiu pros dois – a inteligência da ação e a atitude são ditadas por elas. Dar no segundo encontro é muito mais sedutor. E não dar, mesmo quando se está afim por conta do que os outros pensam, é coisa de tapada. Ponto final.

Atitude delas x Atitude deles

Então entramos na era da escolha feminina em que nós decidimos que caverna queremos adentrar. Bom, perceba que aí a confusão deles realmente começa. Um amigo confessou-me “Tenho um pouco de medo de vocês hoje em dia. Não sei muito que fazer, ou que esperam de mim.” Entendi ele muito bem. Afinal, como mulher eu convivera com esse drama a minha vida inteira. Não me admira que eles, como novatos na pauta da percepção alheia, se sentissem desconfortáveis. Outro amigo revelou um agravante ainda maior, “mulheres sexualmente ativas são mais desafiadoras, difíceis de satisfazer. Eu já deixei de sair com uma mulher por medo de não satisfazê-la.”“você jura?”, pergunto incrédula. “Juro,” – e ele explicou: “pior do que vocês transarem na primeira vez é nós transarmos mal nela” disse com ar de seriedade. Confesso que me solidarizei com a causa. É fácil fingir um orgasmo – tente fingir uma ereção!

Mas eu sei, nem todos têm as melhores intenções no coração, meninas. Nesta alteração de papéis há ainda aqueles que separem as “pra casar” das “não é pra casar” baseados em quem dá ou não dá de primeira. Buenas, sou grata a todos eles. Pois nos poupam do risco de casarmos com pessoas de percepções limitadas (se é que é casamento o que você busca do frigir dos ovos, claro). Deixe-os nos  julgarem pela capa. Garanto-lhes que muitos deles mal conseguiriam terminar um capítulo nosso, quanto menos entender nossa historia. Então, entenda que durante esta troca de lugares, existe uma grande parcela que não sabe muito bem como se comportar. Sejamos tolerantes.  Muito do sexo oposto já entendeu que as mulheres vão mesmo fazer o que querem, e nos respeitam e admiram por isso. Há também aqueles que vão postar fotinho com cartaz dizendo “eu não mereço mulher rodada”. Bom, mas aí a gente vai lá e roda a baiana na cara deles. Simples assim.

Mas a pergunta é dar ou não dar, eis a questão. Em uma era de relacionamentos tão voláteis, em tempos de Whatsapp, que ligação virou “eu te amo”, concluo que devermos ser sinceros com a parte mais importante do sexo. A nossa parte. Sem fazer juízo porque foi de primeira, de segunda, ou de terceira. Mas porque partiu de um desejo genuíno de se misturar um pouco mais com o outro. “Ah então lavou tá novo?”, não, calma! Cuide de seu corpinho, do que entra e do que sai dele, se proteja – seu corpo não precisa ser um templo, mas também não pode ser a casa da Mãe Joana. “Ah, então vou me guardar.” Não, também não! Vai guardar na gaveta? Junto com todos os orgasmos e momentos geniais que você perdeu porque ficou preocupada(o) com o que fulano (a) vai pensar? Pára! Se for pra dar, dê porque te deu na telha. Bem assim!

E pra concluir, divido uma pérola de conhecimento que recebi de um cara muito legal – com quem eu transei de primeira – que me explicou o seguinte: “vocês mulheres têm que crescer a despeito da vontade, o corpo de vocês é implacável. Uma menina vira mulher querendo ou não, e depois começa a contagem regressiva. O homem não. Vive e goza a passagem do tempo, e seu corpo começa a falhar bem mais tarde. Por isso as mulheres são mais sensatas, e muitos homens irão morrer adolescentes”.  O pensamento dele me deu duas orientações para a vida. A de que a sensatez das minhas escolhas terá de ser minha, e só minha. E também de que alguns homens vão morrer adolescentes, a despeito de a gente optar dar ou não dar de primeira. E se não conseguir diferencia-los logo de cara, se permita não errar duas vezes.

Ah, e só pra que fique bem claro o que hoje sei. Marquinhos, se você estiver lendo esse texto: A MÃO É MINHA E EU DOU ELA PRA QUEM EU QUISER.


 

Fim da sessão.

Palavras-Chave

22 de abril de 2015

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14 Comments
  1. Responder

    Renato

    23 de julho de 2015

    Muito bom Anatonia, me diverti ao ler o seu texto, afinal sou um amante de mulheres e não poderia deixar de saber a opinião de vcs. Keep it up.

    • Responder

      Antônia no Divã

      4 de agosto de 2015

      Ai que alegria! Adoramos amante das mulheres por aqui! <3

  2. Responder

    Wal Reis

    22 de abril de 2015

    Você é ótima na sua percepção e na sua maneira de transmitir sua percepção sobre as coisas. Garota, parabéns. Isso chama-se talento.

    • Responder

      Antônia no Divã

      30 de abril de 2015

      Ai Wal, assim você me deixa exibida! hahahah. Obrigada, linda. Volta sempre! beijocas

  3. Responder

    Treicy

    18 de abril de 2015

    Adoreiiiiii <3

    • Responder

      Antônia no Divã

      30 de abril de 2015

      <3 beijoooos!

  4. Responder

    Carolline Rangel

    15 de abril de 2015

    Sensacional seu texto! Adorei a forma como você lê as relações hoje, e passeia por outros lugares e formatos possíveis do feminino! Suas linhas trazem o difícil e o incrível da busca do ser mulher… Obrigada pelo texto! Um presente!

    • Responder

      Antônia no Divã

      15 de abril de 2015

      “o difícil e o incrível” – muito bem colocado Carolline. Só quem é, entende os prazeres e dores que andar nesse caminho da “evolução” com passos de mulher. Volta sempre! beijos

  5. Responder

    Karine Thomas

    15 de abril de 2015

    Muito bom! Assim como todos os teus textos, esse é fantástico, mais ainda pra mim por que estava passando por este conflito interno!

    • Responder

      Antônia no Divã

      15 de abril de 2015

      E quem não está, né Karine?! Volta sempre. Beijos

  6. Responder

    VIVIAN QUEIROZ

    15 de abril de 2015

    DAR PRA QUEM EU QUISER E A HORA QUE EU QUISER!

    • Responder

      Antônia no Divã

      15 de abril de 2015

      e “quantas vezes eu quiser!” hahahah; beijos, Vivian!

  7. Responder

    Giselli

    14 de abril de 2015

    Ahhhh seu eu tivesse lido isso antes de me casar….kkkkkkkkkkk

    • Responder

      Antônia no Divã

      15 de abril de 2015

      Giselli, desconta no maridão! hahahha. Beijocas!

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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