Efemérides

Querido asco, precisamos conversar

em
8 de abril de 2020

Nem todo mundo sabe que apesar de anos de terapia, uma veia altruísta muito forte e uma alegria constante estampada na minha cara, eu vivo em um dilema eterno com sentimentos menos bonitos. É uma batalha diária com o asco. Eu tenho como modus operandi a mania de revirar os olhos. Tão forte que fazendo, por vezes, penso que enxerguei meu cérebro. A ponto de que, do meu pai ao gerente, já ouvi um milhão de vezes “não revira os olhos pra mim, mocinha”. E nessa tentativa infantil de conter os sentimentos revirando dentro de mim, eu acabo me comportando mesmo como uma mocinha. Uma birrenta e mimada, que vez que outra precisa de um sacode. 


Tem uma rebeldia que nasceu comigo. Outra acumulei com as injustiças e desilusões da vida. Politicagem, nunca me foi uma opção, até eu entender que ela nem sempre é pejorativa. Verdade é que eu já criei muito problema pra mim mesma pela minha inabilidade de ser política. Ou seja, a falta de tato ao funcionar considerando outros interesses além dos meus. Inteligência emocional não devia ser algo que a gente aprende perdendo emprego, a oportunidade de ficar quieta ou o próprio bom senso. Devia ser uma disciplina mandatória do maternal a vida adulta – “Como lidar com seu asco, Módulo Fralda Suja / Módulo Adolescência sem ser Uma Idiota / Módulo Essa Reunião podia Ser Um Email / Módulo Quarentena” e assim por diante. Já pensou? Tem tanto espaço pra isso que arrisco a dizer que professores, psicologas, mentores e os tais life-coaches seriam os novos milionários. Talvez assim a gente ia gozar das redes sociais sem escolher um dos lados da Faixa de Gaza para qualquer assunto. Ia ser muito doido. 

Imagina, deixar de visualizar uma voadeira cada vez que alguém te dá um conselho que pessoa mesma não aplica? Um sonho. 

Eu confesso que às vezes é muito difícil ver a solução por de trás do perrengue. Tem situações que me tiram tanto do sério, que eu tenho que ensinar aos outros onde fica o meu botão de emergência. Tipo uma trava de velocidade da minha língua felina, ou a ventoinha de resfriamento do meu temperamento. A gente tem que proteger quem ama e as conexões necessárias, eu sei disso melhor do que ninguém. E aqui fala alguém que volta e meia tem que escrever textão de desculpas porque ainda tá aprendendo. Lembro que uma das piores discussões que tive com um namorado, certa vez, foi ouvida pelo meu irmão de um outro cômodo. Da astúcia dos seus 8 aninhos de ouvidos atentos, ele concluiu – “acho alguém vai sair daquele quarto chorando”. Preciso dizer que ele tava certo? E que o choro não foi meu?

Veja bem, eu não me orgulho disso não. Sei que faz parte da minha humanidade, mas sigo trabalhando para melhorar, em um constante estado de alerta com as minhas atitudes. Eu tenho pedido desculpas mais rapidamente, tenho também repassado os meus argumentos na cabeça procurando uma comunicação menos violenta, e acima de tudo, dado uns bons tapas no meu ego. Normalmente é ele que tá sentado no ombro oposto do meu anjo da guarda. Hoje eu já tenho palavras de segurança para as pessoas que eu amo me informarem que eu estou sendo abusiva – e acredite, todo mundo tem o poder de ser abusivo e tóxico. Reconhecer isso é essencial na prática da autorresponsabilidade.

E quando eu achei que tava indo bem, fui obrigada ao confinamento mandatório, e descobri que meu Aquário-rebelde tá transcendo pra Ariana-vida-loka-fogo-no-parquinho. Joga nesse cenário uma descendência italiana, o sangue latino e um idealismo irredutível. Pensa no esforço que eu faço para evitar um comportamento Chernobyl. 

Hoje discutindo com um amigo as estratégias conciliadoras de um dilema, ele desabafou “nossa tu é bem melhor que eu reagindo a isso”. Não sou. É um exercício constante de criar pontes, onde existem muros e egos maiores que os meus. Fato é que controlar as nossas emoções, faz parte da manutenção das nossas alianças. Lutar pelos nossos ideais exige, vez que outra, deslocar o holofote para além do nosso show, afinal, ninguém muda o mundo sem engolir um sapo ou dois.

E ter em mente que aprimorar nossas atitudes é, sem sombra de dúvidas, um esforço necessário de uma vida inteira tentando enxergar a “Big Picture” por trás do asco.

Avante e sem revirar os olhos. (Ok, esta segunda ainda em desconstrução) 

Fim da sessão

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1 Comentário
  1. Responder

    Dulce

    8 de abril de 2020

    Como somos parecidas! Me identifico com você em muitas coisas e revirar os olhos é uma das fortes! Sempre fiz isso! Sempre ouvi reprimendas por fazer isso! Mas..o que podia fazer num mundo de adultos e, mais tarde, dos todos poderosos, se não revirar os olhos para demonstrar insatisfação, putice mesmo!!! Aprende-se com o tempo, com a idade, mas continuo revirando os olhos, só que abaixo a cabeça, prá ninguém ver …

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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