Efemérides

Aos meus erros, obrigada.

em
2 de março de 2016

2016 tá me parecendo meio zicado sabe? Além do pandemônio em volta do zika vírus, a economia parece que segue doente, a política celebra o grande circo que sabe ser, e o social anda em pé de guerra com o politicamente correto. Sim, o Leonardo di Caprio finalmente ganhou o Oscar, (e teve que ser devorado por um urso pra isso), mas no resto do nosso drama diário é outra história. Chego a alegar que pensar em dias melhores, às vezes é digno de Glória Pires, “não sou capaz de opinar”.

Desde que decidi deitar no divã pela primeira vez, me vi enfrentando a difícil tarefa de desassociar do outro, as consequências negativas na minha vida. Assim, foram anos enfrentando crises e encarando problemas pessoais, numa análise profunda de causa e consequência, efeito e ressonância. Após muito treino, foi tornando-se  natural o processo de assumir os meus próprios erros, e deixando de responsabilizar os outros por eles. De certa forma, eu passei a entender que as minhas quedas eram muito mais tropeções, do que rasteiras. Afinal, se eu sou a autora da minha vida, como posso entregar a caneta a outrem?

Ainda que vivendo em dias tensos, não consigo desacreditar que a solução das minhas angustias está no outro. Óbvio que eu também me indigno com o ICMS, a falta de incentivo à educação e funk “Tá tranquilo, Tá favorável” (até porque não tá nem um nem outro). O que eu não consigo pensar é que chorar num cantinho frente às dores do mundo, vai resolver qualquer uma das minhas.  Até porque ter raiva de alguém, só causa efeito em mim, e não colabora para solução de dilema algum. Culpar meu trabalho da minha falta de dinheiro, não faz cifras extras entrar na minha conta. E praguejar o meu cupido, não coloca Mark Ruffalo na minha porta (eu sei que ele é casado, mas uma garota pode sonhar). Então veja que depositar em outros ou em outras coisas, as nossas frustrações, é tão eficaz quando mascar chiclete pra curar dor de cabeça.

O que reparei nessa mudança de sistema, é que uma vez assumindo que eu sou responsável por todo desvio na minha jornada, eu também me tornava dona do leme, e mais preocupada em aprender o meu caminho. Não que eu não comemore meus acertos, e os divida com outras pessoas. Sim, eu celebro as minhas conquistas e compartilho os meus méritos. Os erros não. Os erros eu quero que sejam somente meus, pois através deles costumo aprender mais e melhor. Os erros me fazem mais esperta. Ajudam-me a desacelerar o carro, a pagar minhas contas em dia, a fazer exames preventivos. Os meus erros me tornam mais tolerante com os erros dos outros, afinal, quem nuca?  O que não quer dizer que eu preciso errar sempre para aprender. Mas confesso que algumas das lições mais difíceis e duras que aprendi, foram em momentos de distresse, e de juntar a própria carcaça do chão, pra começar tudo de novo. Ou seja, os erros me tornaram mais resiliente. Persistente no caminho do sucesso. Ou até teimosa, como diria a minha mãe (claro que teimosa é ela, que teima comigo).

A desvantagem de assumir os próprios erros é a baixa tolerância ao mimimi alheio. Quando você passar a pegar as suas limitações pelas bolas e encará-las de frente, é difícil ter respeito por quem transfere toda e qualquer culpa de seus infortúnios. “O meu trabalho não me reconhece/promove/dá aumento”. “O meu relacionamento terminou por causa das amigas/filhos/manias dela(e).” “Eu não emagreço”. “Meus pais não me incentivam”.”Eu sou mesmo um azarado (sobra até pro cosmos)”. Ok, a vida sabe ser dura às vezes, mas passar por ela justificando baixo rendimento ou infelicidade é assumir uma atitude perdedora. E o que mais desmotiva em lidar com pessoas como estas, as reclamistas, as mimimis, as eu-não-tive-uma-chance, as a-culpa-é-da-vida, é que elas limitam por completo seu poder de aprendizado ou superação. Não tem como você aprender com os erros, se você transfere a responsabilidade deles pro vizinho/mãe/ex-mulher. Errar dói, sim, assim como aprender e crescer (e aparecer). Agora o que pode condenar alguém ao conformismo e dodoísmo por uma eternidade, é transferir pros outros a única possibilidade de mudar o rumo das coisas na própria vida.

Então eu vim aqui solenemente agradecer a todos os meus erros, que moldaram uma versão melhor de mim mesma. Vocês, meus professores dedicados, de castigos adequados e lições valiosas, a vocês a minha sincera gratidão. Através de vocês, meus deslizes, mancadas, enganos, equívocos,  eu calibro a minha expectativa e compaixão. Eu compreendo o valor dos meus acertos. E a medida da minha força. Através de vocês, eu me torno dona única e exclusiva do meu sucesso, dos meus sonhos e da linda história que quero escrever. Aos meus erros, muito obrigada.

Agora, você que tá aí, sentando no cantinho, chorando com as baratas, se quiser continuar dizendo que a responsabilidades dos desacertos não é sua, pode ficar bem à vontade. Afinal a culpa é sua, você joga ela em quem quiser. 😉

Fim da sessão.


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4 Comments
  1. Responder

    Sonia Polo

    16 de março de 2016

    Muito interessante esse efeito subjetivo de responsabilidade pela própria vida. Só quem vivência entede.

  2. Responder

    Mari

    14 de março de 2016

    Sua linda, estava sumida por aqui (my bad), mas tirei o Domingo para matar as saudades de vc e dos seus textos. E já comecei levando um tapinha na cara de reflexão hahahah

  3. Responder

    Ana Teté

    3 de março de 2016

    É tanto orgulho em um texto só, que meu coração parece nem caber no peito! Aos meus erros, à você e ao meu terapeuta (ahahah como não): OBRIGADA!
    Bjoos

    • Responder

      Antônia no Divã

      3 de março de 2016

      HAHHAHAHAHHAA. “Ao meu terapeuta, muito obrigada!” Te gosto, linda! <3

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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