Efemérides

A fraqueza de ser forte

em
23 de junho de 2019

Fernando Parrado, sobrevivente da queda da Força Aérea Uruguaia 571 e autor do livro “O Milagre dos Andes” disse em seu livro “cada pessoa tem sua própria cordilheira”. Parrado passou 72 dias em uma montanha congelada, depois de sofrer um acidente onde perdeu a mãe, a irmã, e parte de seu time. No seu livro, que fala sobre a superação da tragédia e sobre a síndrome do sobrevivente, ele conta que decidiu palestrar sobre o assunto quando entendeu que todo mundo enfrenta uma cordilheira na vida. Pequena ou monumental. Seja a morte de alguém querido, um rompimento dramático, um trauma de infância, uma doença, um medo real. Sobreviver a uma dor tremenda, é uma aventura desafiadora por si só. Eu sei disso. Talvez você também saiba. E saiba o quanto é preciso ter coragem e ser forte para encarar tudo isso.

Eu li esse livro numa ilha deserta. Na época eu vivia o início de uma história de amor, e estava recém aprendendo a me abrir de novo, porque eu, como Parrado disse, já cultivava algumas cordilheiras e tinha medo de me apegar às pessoas. Na real, aquele amor só começou mesmo porque eu fiquei doente, e precisei urgentemente pedir ajuda longe de casa. Para mim foi difícil, porque cultivei ao longo dos anos, uma resistência a precisar de alguém. E lembro do quanto foi reconfortante poder ficar frágil por um tempo. Assim, eu recuperei a saúde, fui viver uma aventura e um amor nas águas límpidas da Indonésia. Quando eu fiquei forte de novo, e o conto de fada virou vida-real, o relacionamento não superou. No meio do descaso de uma despedida rápida com cara de band-aid arrancado, lembro de ouvir que eu ficaria bem “porque eu era forte”. E era. E sou, e talvez por isso eu fique tão puta quando isso é usado contra mim. Hoje eu acredito que “ser forte” é uma das minhas piores fraquezas.

Quando a gente é forte, por ter enfrentado mais perdas do que gostaria, a gente acaba criando uma casca um pouco mais grossa para encarar as coisas. Pisa mais firme, exercita-se pra deixar as paletas mais largas. Não entende bem quando manhas são confundidas com problemas reais. E temos a tendência de construir muros mais altos ao nosso redor. Fortalezas são lugares seguros, sabe, mas são também um tanto quanto solitárias. Depois de tanto escaldo, qualquer água fria nos faz pensar duas vezes na hora de deixar alguém entrar, e a gente confia cada vez em menos nas pessoas, ao passo que conta cada vez mais consigo mesma. As pessoas, na contra-partida, acham que você é plenamente capaz de lidar com seus perrengues sozinha, e por isso, te oferecem bem menos um ombro ou uma mão amiga, afinal “você vai superar mais essa porque você é forte”.

“Você é forte, e essa dor vai passar”, “você é forte, e vai conseguir lidar com esse problema”, “não chore, você é forte”, “não desanime, você é forte”, “você é forte, vai achar uma solução”, “Você é forte” foi a frase que eu mais ouvi no velório do meu irmão, e repetidamente me é jogada na cara cada vez que o assunto me derruba, por um motivo ou outro. É irônico perceber: quanto mais forte você é, menos ajuda você merece. Afinal, as pessoas esperam que você saia vitoriosa de um jeito ou de outro. Resolvida de qualquer forma, até porque, você sempre deu conta. E na paralela dessa solidão, você se supera, e acaba mostrando-se forte mesmo, e resolvendo o que quer que seja, e esse ciclo nunca termina. Eu tenho a maior capacidade de oferecer ajuda para quem quer que seja, mas percebo que dificilmente a recíproca é verdadeira. Porque eu sou forte. Aliás, ”você é forte” é desculpa de muita gente, hoje sei, para me tratar sem a responsabilidade que eu dedico. Quantas mãos abanando de longe, eu já segurei quando precisaram.

Meu pai diz que a culpa é minha. Que eu me projeto grande e forte, e que as pessoas me tratam exatamente assim, sem pensar duas vezes em aliviar minhas porradas, seja um pé na bunda ou tapa da vida. Quando ele disse isso, pensei comigo quantas vezes tratei alguém com menos zelo porque considerava a pessoa forte, e nenhuma, NENHUMA ocasião me ocorreu. Talvez porque eu saiba que pessoas fortes são sobreviventes de dores tão duras quanto as minhas, e não trate a força de ninguém com leviandade. Ninguém é forte porque quer. É forte porque precisou. Então da próxima vez que você pensar em desconsiderar o sentimento ou a oferta de ajuda à “alguém forte”, pense na cordilheira que ela já atravessou. Talvez seja essa pessoa justamente que mais precise de uma folga de ser forte encarando a vida.

Fim da sessão.

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3 Comments
  1. Responder

    vivian

    2 de julho de 2019

    Belíssímo! Precisamos aprender a deixar o feminino dominar sem considerá-lo frágil. Há tanta força no yin!

  2. Responder

    Anna Santos

    24 de junho de 2019

    É um círculo vicioso, quanto mais forte parecemos, menos “ajuda” recebemos e por isso vamos nos virando sozinhas, reforçando a imagem da fortaleza, até que chega um momento em que nós mesmas acreditamos não mais precisar de ajuda. É preciso paciência para romper esse ciclo…

  3. Responder

    Ivana

    24 de junho de 2019

    Nossa, exato como estou no mundo. Não tem mão de ninguém estendida pra mim….

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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