Crônicas

Memória seletiva

em
11 de junho de 2019
Li em algum lugar certa vez que a maioria de nós seleciona de forma inconscientemente as informações que escolhe guardar. Tanto que eu não lembro da fonte dessa teoria ou do lugar onde li isso. Eu sempre fui péssima com informações exatas. Tenho um trabalho imenso para chegar a lugares que já fui diversas vezes, e nem comece com o quesito nomes. Eu chamo todo mundo de “lindo” e “linda”, porque na grande maioria das vezes eu não lembro o nome das pessoas. 
Meu pai também é péssimo com nomes. Já me fez passar cada vergonha com namorados. Ele sempre chamou o atual com o nome do ex por um tempo. Às vezes achava que fazia de propósito. Outras que ele realmente não fazia a menor ideia de com quem estava falando. Ele esquecia nomes, ao passo que lembrava informações muito acuradas de negociações que tinha feito, ou e-mails que tinha lido há 7 anos. É impressionante a capacidade que ele te até hoje de guardar coisas das quais ninguém mais lembra, e eu ter de lembrá-lo do meu aniversário todos os anos. 


Minha mãe sabe peso e o horário de nascimento de todos os filhos. Nunca lembra de uma mísera senha ou mesmo de quando desligar o forno. Mateus, meu irmão de 8 anos me cobra promessas que fiz quando ele tinha 3. O gêmeo dele, Murilo, leva 2 segundos pra decorar a tabuada, mas sempre esquece a luz acesa. Tenho fascínio em contemplar aquilo que cada pessoa leva consigo ao longo da vida. 


No ano passado, quando completou 3 anos que meu irmão morreu, eu tive uma semana de fúria sem entender o que acontecia. Inventei de fazer um tal de Thetahealing, sem saber do que se tratava. Na entrevista, a terapeuta perguntou porque eu estava perturbada. Expliquei que tinha medo de viver uma vida de lembranças do meu irmão. E ela me perguntou o que seria pior do que ficar lembrando dele. Quando me ocorreu: pior do que lembrar, seria esquecê-lo. E lá estava ela, mais uma vez, a memória exigindo espaço. 


Às vezes penso que lembranças são como jóias espalhadas por aí. Nas outras penso que são portais que te levam para um lugar no tempo que ficou suspenso na nossa história. O cheiro do piso de borracha da natação infantil. A música que tocava em 2009 em Barcelona. O gosto de milho que leva de volta pra praia. A rolha de um vinho que aperta um coração saudadoso. Uma caixa cheia de tralhas valiosas porque lembram momentos especiais. Eu tenho uma dessas. Recheada de recortes da minha trajetória, pontos marcados na minha estrada. Um seguro-memória, para quando eu ousar me esquecer.  


Como eu disse, eu sou péssima com nomes e lugares, mas eu nunca me esqueço de como as pessoas me fizeram sentir. 

Talvez meu cérebro dê passagem pro meu peito na hora de memorizar algo importante. Lembro de musicas que dancei com meu primeiro amor, lembro do gosto amargo que senti numa desilusão difícil. Tenho arrepios no corpo de pensar no melhor sexo que já tive. Lembro de poucas faces do pior dia da minha vida, mas nunca me esqueço do iogurte que um amigo me trouxe porque eu precisava comer (esquecendo-se ele que eu tinha intolerância). Lembro de todas as borboletas na barriga que já tive sempre que fiquei excitada com um novo plano. 


Memórias podem ser seletivas, mas sinto que de algumas a gente não escapa para continuar vivendo. Umas para que aprendamos com nossas dores, outras para que nunca esquecemos do quanto fomos felizes. Uma vez em Madrid meu irmão me contou uma história sobre não podermos entrar num parque sem estarmos bem vestidos e lavados, o exato oposto do que andávamos naquela viagem. Eu não lembro do motivo, de onde ele tirou essa história, ou porque ela era importante. Lembro de rir forte ao lado dele, tendo a certeza de que eu tinha comigo a melhor pessoa do mundo. Nem bem vestida, nem lavada. Eu nunca vou esquecer do amor que tomou conta de mim naquele minuto encardido. E talvez hoje, seja a coisa mais importante a ser lembrada.

Fim da sessão
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1 Comentário
  1. Responder

    Dulce

    12 de junho de 2019

    Muito bom, como sempre! Fico admirada como somos, pensamos, igual! Tabemy não lembro nomes, datas, mas nunca esqueço os fatos. Você é vítima Amiga!

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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