Crônicas

Eu acredito é nas mulheres

em
8 de março de 2020

Confesso que tenho dificuldade de pensar do Dia da Mulher sem uma pontada de despeito. Isso porque encarar a vida pisando os passos de uma mulher nunca é tão simples, quanto receber flores um dia por ano. Sim, a gente já venceu muito, mas tem tanto ainda para ser conquistado e que preguiça que dá saber que o caminho é tão longo. Como já falei em outros anos, eu gostaria de ser só mulher, mas não podendo, preciso ser feminista, super heroína da própria história, guerreira, e toda uma pá de adjetivos e objetivos que a gente carrega pelo “simples” fato de ter nascido com uma vagina. Ou seja, dia 08 de Março é dia de luta, indiferente do “vale-manicure” que a gente ganha da empresa.

Esse ano eu decidi que o maior presente que quero receber, não vem de mãos alheias. É da mesa e da cadeira da Ikea que acabei de comprar e montar, que meio bamba e com parafusos tortos, que eu confirmo mais uma vez que sou eu que vou construir o meu império e o meu futuro, sabendo que ninguém vai facilitar a minha vida. E escrevo-lhes para dizer que o maior presente que me dou no dia de hoje, e em todos os outros dias, é a prática da auto-compaixão. Veja, se eu fosse homem, o sentimento de autoentitulamento que nasceria comigo já seria o suficiente para confirmar minhas competências. Mas não sendo homem, eu preciso construir isso todos os dias. E não é fácil.

Não é fácil porque a gente aprendeu que tem que dar conta de tudo, e somos as primeiras a culpar a nossa tentativa fracassada de sermos perfeitas. A expectativa em cima dos nossos ombros já foi desenhada com cara de cabresto. Porque não dá pra ser mãe perfeita, e a executiva do ano. Não tem como ser filha dedicada, e atender as próprias metas sem quebrar alguns paradigmas. É impossível ser a esposa ou namorada dos sonhos, e atender aos padrões de beleza da Sabrina Sato. Fica determinado também, que não tem como ser polivalente sem se sentir exausta. E ninguém vai aliviar essa pressão. Quer dizer, ninguém além de você.

Mulher é o bicho que mais pratica auto-responsabilidade, e talvez por isso a gente se culpe tanto quando falha aqui e ali. E hoje eu tenho certeza que não dá para mudar o mundo para uma versão mais justa e igualitária, se a gente não começar a ser mais justa e igualitária com a gente mesma. Cometei dia destes com um amigo meu, como eu gostaria de ser para a mim, a amiga que eu sou para os outros. A irmã que sou pros outros, a filha, a profissional, o ser humano que sou pros outros. Isso porque eu me pego arrasando sendo altruísta e amando o próximo, mas como fico devendo quando o assunto é me validar, me amar, me cuidar, me atender, e assumir o meu valor.

O bom disso tudo é que o fato da gente sempre querer melhorar, nos ajuda também a estarmos alertas a estas armadilhas. E a iluminação (palavra feminina sobre o movimento de dar a luz!) é o primeiro passo para respeitar a narrativa pessoal de ser mulher, esse ato em construção. Essa semana eu me dei conta que eu tenho dificuldade de receber dinheiro, porque eu não entendo/aceito o meu valor. E que isso também reflete das minhas relações amorosas, me aproximando sempre de gente cuja admiração eu custo a desenvolver. Entretanto eu não tenho nenhum problema em dar o melhor de mim em ambas as esferas – mas quando chega a minha hora de receber, eu não me acho digna.

Em mundo que subjuga tanto as mulheres, que torce contra a nossa ascensão, que invade, violenta, viola. Em um mundo que é tão duro conosco, talvez o maior ato de revolução da nossa história, seja a intenção de amarmos mais a nós mesmas. Incondicionalmente. Porque não tem como lutar pelo o respeito alheio, se a gente não aceitar que o merece. Nós precisamos reforçar o nosso valor para nós mesmas, e não tolerar menos de mais ninguém. E lembrar durante todas as partes do nosso processo de valorização, que o auto-perdão é a única coisa que precisamos para evoluir e seguir lutando.

Eu queria poder vir aqui e desejar um feliz dia das mulheres, com votos de que o mundo as trate com mais amor. Mas eu já perdi a fé em todo resto. Menos nas mulheres. Menos em nós. Eu acredito é nas mulheres. Então hoje eu desejo a você, mulher, auto-amor, auto-respeito, auto-valorização. Não existe força mais poderosa do que uma mulher que se ama. E essa revolução começa com você, fortalece a amiga do lado, e de mulher em mulher, a gente muda o mundo.

Eu acredito é nas mulheres.

Fim da sessão.

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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