Efemérides

Pra que servem os irmãos

em
7 de julho de 2019

Quisera Deus que eu aprendesse o princípio de dividir dentro da própria casa, a começar pelas pessoas que amo. É assim que começa qualquer tipo de irmandade. Você tem que dividir para multiplicar. No início tudo parece uma disputa, os brinquedos, a atenção dos pais, o último bife do almoço. O quarto dividido tem mais momentos de tensão que a Faixa de Gaza, e tem sempre alguém que sofre com a síndrome preferido – mesmo quando a maioria dos pais, nega qualquer favoritismo.

Eu gosto de dizer que minha consciência de pessoa começou quando me vi irmã. Me entregaram o Leonardo recém-parido, todo enrugado no meu pequeno colo, e me apresentaram como irmãozinho. Aquela coisa feia. Essa é até hoje a minha primeira memória, e também a favorita. O nascimento do meu irmão. Depois disso tudo mudou. E embora as disputas pelos chocolates da casa rendessem brigas homéricas, o que brota quando elaboro meu sentimento sobre irmandade, vem de um profundo sentimento de pertencimento e companheirismo. Eu nunca me senti insegura ou sozinha desde aquele ser enrugado estreiou pra ficar do meu lado. E talvez hoje eu fosse outra pessoa se ele não tivesse existido. 

20 anos depois de ganhar um irmão, eu ganhei mais dois. Os gêmeos vieram para questionar tudo que eu achava que sabia sobre ter irmãos. Eu tive que me preocupar em dar exemplo, coisa que não havia me ocorrido com o irmão com quem tinha apenas 4 anos de diferença. Com os pequenos eu passei a regular os palavrões que saiam da minha boca, e pensar a respeito daquilo que eles deviam saber a casa fase. Falar coisas como ser gentil com as pessoas, mas não baixar a cabeça pra ninguém. Uma relação que ficava sobre a linha tênue entre o sentimento de irmã mais velha e de uma pseudo-maternidade. Na grande maioria das vezes eu acho que erro bastante nesta dobradinha, mas é no carinho deles que vejo que eu sou crítica demais, ou que crianças são mais maravilhosas do que a gente merece. E talvez hoje eu fosse outra pessoa se eles não tivessem existido. 

Hoje eu voltei mais cedo pra casa, e escrevi essa sessão mais tarde. Eu tinha uma festa para ir, mas amanhã é aniversário dos gêmeos e eu queria beijar eles antes que eles acordassem um ano mais velhos. Eles crescem rápido demais, e é uma bosta perder qualquer coisa. Eu tive que estudar história com a dupla porque amanhã tem prova, apesar do aniversário, e explicar que o cofrinho que juntamos, tem planos mais importantes, e que a gente não podia gastar. Já tentou aprender/ensinar história ao passo que discute economia, tudo ao mesmo tempo? Essa vida de irmã não é mole. Mas irmãos servem pra isso. 

Irmãos servem para tu reavaliar tua condição de ser humano, porque tem alguém que te observa com olhos atentos, e talvez essa seja a única crítica que importa. O Murilo, com 8 anos aprendeu a dizer “calma, mana”, quando eu tô surtando, do mesmo jeito que o irmão dele dizia aos 25, encarando meus chiliques com a coragem que ninguém mais teve. Ninguém mais até o Murilo ter, claro. O Mateus gosta de pegar na minha mão e me chamar pra bater perna quando eu tô entediada, e tem longas conversas no caminho, me contando histórias que ele aprendeu, e outras que ele inventou, como o bom tagarela, ele é uma figura muito carismática. Eu tenho um irmão no céu que cuida de mim, e roga por nos todos, porque é isso que irmãos fazem. Eles dão o melhor de si, para que no processo tenham o melhor de nós.

Quando meu irmão partiu, foi nos meus irmão que busquei aquele velho sentimento de pertencimento e companheirismo que eu tive na primeira vez que fui irmã. E talvez Deus já soubesse que eu precisaria dos dois, afinal de novo, eu tive que dividir minha perda, pra multiplicar minha coragem. Irmão é pra isso. Para lembrar que a gente nunca vai estar sozinho, não importa o desafio que a vida jogue. Não importa se eles tem muita ou pouca diferença de idade, se são de pais diferentes, se brigam, se incomodam. Ter irmãos é ter alguém para eventualmente pegar no pé, e pro resto da vida (e depois dela) alguém para segurar na mão. É pra isso que irmãos servem. 

Fim da sessão

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1 Comentário
  1. Responder

    DULCE MARIA RODRIGUES LAGOEIRO

    8 de julho de 2019

    Lindo! Ter irmão, ser irmã, melhor coisa que nós pode acontecer! Tive só um, gostaria de ter tido muito mais!!! Experiência incrível! Emoção e Amor pra todo o sempre! Meu irmão também vela por mim do Céu e sinto a presença amorosa dele! Obrigada Aline por essa delicadeza de Divã!

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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