Crônicas

A maldita calcinha suja – episódio 2

em
10 de março de 2015

Quem acompanha o blog desde o início, sabe que o primeiro post público pra inaugurar o divã não foi uma história nada bonita, muito menos limpa. A saga da “A maldita calcinha suja” terminou no mínimo com algumas reticências, e não foi à toa que muitos escreveram perguntando como diabos a história terminava. Gostaria de poder dizer que o final tinha cheirinho de amaciante, mas se tivesse não seria o divã da Antônia. Não. A Antônia aqui se supera mesmo quando o assunto é calcinha suja.

Obviamente que dada à fatalidade do meu último encontro com o churrasqueiro de olhos verdes, eu evitei todo e qualquer contato, e prometi carregar uma calcinha limpa na bolsa sempre que fosse encarar uma festividade… assim, só por precaução. Fato é que nos meses que decorreram daquele churrasco, mal tivera chance de comparecer a qualquer festividade. Estava encarando um curso extenso e importante que me preparava para a fusão da empresa em que eu trabalhava com uma grande corporação americana. Eu, a única brasileira daquele escritório inglês, com a oportunidade de participar de uma das maiores fusões da história da internet. Eu não podia vacilar.

Após três meses de treinamento e preparação para a futura joint venture, cada um de nós deveria  preparar uma apresentação aos nossos gerentes de área sobre nosso entendimento íntimo com os novos sistemas. O seminário chamava-se “Intimate Understanding of Fusion”, algo como “Entendimento Íntimo sobre a Fusão” – um tanto quanto intimidador, pra dizer o mínimo. Eu estava no limiar de um ataque de nervos.

Já era tarde da hora naquela quinta, e eu ainda estava no escritório, revisando as minhas anotações para a apresentação no dia seguinte. O telefone toca.

– “Oooooooiiiiiññññe” – muito embora seu nome estivesse na tela do celular, só a manhice do cumprimento já entregava que era a Patrícia.

– “Fala rápido, Patrícia, tô no meio de algo importante”, respondo seca.

– “Aiiiiieennn, eu sei! Grossa! Você só fala nesse merda desta apresentação, quando é?”

 – “Amanhã, e eu estou uma pilha de nervos.”

– “Então eu tenho a solução pros teus problemas. A gente está aqui na casa dos guris (aquela do churrasco cuja porta do banheiro nunca tranca – lembram?), e tá rolando umas pizzas e uns drinks pra ver o final do X-Factor”.

– “Ai Patrícia, não dá, eu nem fui pra casa ainda, eu tenho apresentação amanhã de manhã….” vou respondendo rápido sabendo que vou ter que convencer ela muito melhor que isso…

– “Ta, ta, ta… chega de desculpas. Vem direto do escritório pra cá, hoje é bem tranquilinho, é coisa rápida e depois a gente racha um taxi, eu e o Pablo te deixamos em casa nas badaladas da Cinderela. Palavra de escoteiro!”

– “Patrícia, não quero dar de cara com o guri que lavou as minhas calcinhas!!” – penso que assim ela iria entender meu drama e desistir.

– “Sem problemas, os guris estavam comentando que ele trabalha até tarde hoje, vais ainda poder entrar de mancinho do quarto dele e reaver a tua dignidade.”

– “Acho que essa não revejo nunca mais. Mas ok, ótimo, assim recupero as malditas calcinhas sem ter que dar de cara com ele. Chego aí em 20 minutos se a Central Line não tiver lotada.”

Recolhi minhas anotações, notebook e enfiei tudo dentro da bolsa, e parti em direção a Central Line. Na casa dos guris, a coisa era tudo menos “tranquilinha” – não sei como eu ainda caio na da Patrícia. Chego no início do segundo bloco do “X-Factor”, onde as apostas dividiam a plateia da sala se Simon Cowell gostava ou não do artista – quem errasse encarava um shot de tequila. “Vamos Antônia! Só uma aposta!” Pensei que uma tequila não ia me fazer mal algum, e ainda ia me ajudar a relaxar para amanhã.

No final do quinto bloco do X-Factor, eu já tinha errado tantas opiniões do Sr. Cowell, que já fazia minhas próprias versões das apresentações usando o controle remoto como microfone. Quando achei que já estava bêbada o suficiente, fiz um sinal pra Patrícia e saí de fininho da sala rumo ao quarto do churrasqueiro de olhos verdes naquilo que eu e a Patrícia intitulamos a “Expedição Calcinha”.

Entrei pé por pé no quarto do gato. Suspiros. Aquele lugar tinha boas lembranças, apenar do término vergonhoso. Examinei o armário, a escrivaninha, as gavetas do bidê, nada. Procurei em baixo da cama, nada. Na tulha de roupas sujas (ele disse que tinha lavado, mas vai saber), nada. Vasculhei o quarto todo e nada. Deitei na cama frustrada – onde diachos esse guri guardaria uma calcinha? – pensei afofando o travesseiro. Opa! Ali estava. Limpinha e rosinha como eu lembrava! A minha maldita calcinha limpa embaixo do travesseiro! Safado!

Foram apenas alguns segundos de comemoração. Em seguida pânico. Passos acelerados na escada, a porta abrindo subitamente.

– “Oi linda! Que surpresa boa! Que bom que você achou a calcinha e já está bem à vontade. Eu tava com saudades.

7h00. O meu despertador grita estressado. Saio da cama num pulo, tentando achar sentido naquele quarto não-mais -tão-estranho. Ai meu Deus, eu já vi essa história. Antônia, você não aprende. Merda! Maldita Patrícia! Maldito Simon Cowell! Maldita tequila! Malditos olhos verdes! Tudo outra vez: reviro os moveis recolhendo brincos, pulseiras, blusa, sutiã, calça… calcinha e calcinha. Ah sim, pelo menos desta vez eu havia achado as duas. Coloco a calcinha limpa, e visto as roupas voando. Tinha que estar em Soho em 20 minutos na apresentação para a qual me prepara durante tanto tempo.

“Já vai sair correndo de novo, linda?”

“Ahhh… sim, estou atrasada.” – tento sem sucesso arrumar os cabelos.

– “Pegou tudo desta vez?” – ele pergunta com um sorriso abusado – “deixa a outra calcinha aqui pra você buscar outro dia”, ele sussurra cheio de malícia agarrando minhas coxas.

– “Não, obrigada! Eu tenho máquina de lavar, malandrinho.” – enfio a calcinha suja na bolsa, dou-lhe um beijo estalado e saio correndo.

Soho. Estou 15 minutos atrasada. Todos já estão na sala de reuniões.

-“Bom dia, Antônia. Que bom que pôde se juntar a nós. Que tal ser a primeira, já que chegou atrasada. Vamos começar com sua apresentação sobre “Entendimento Íntimo sobre a Fusão?

“Claro, Andrew.” – Sorrio sem graça para os outros 14 colegas em volta da mesa de reuniões.

Desligo as luzes, puxo da bolsa o meu notebook e minhas anotações e apressada coloco tudo em cima da mesa. Ligo o projetor de power point que ilumina a mesa de reuniões. Em seu centro, nada mais, nada menos, que a minha maldita calcinha suja.

“Ãhhh… vamos iniciar a apresentação de hoje nos perguntando… o que realmente quer dizer ‘íntimo’, meus senhores?


 

Fim da sessão.

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33 Comments
  1. Responder

    Camila Lazzarotto

    19 de junho de 2018

    Perdi as contas de quantas vezes já li hahahahahahah e me divirto TODA vez.
    Bjos

    • Responder

      Antônia no Divã

      19 de junho de 2018

      Eu tb gosto desta história! <3

  2. Responder

    Fátima Cunha

    4 de junho de 2017

    Além de livro merece ser um filme… Amo cada post !!!! <3

  3. Responder

    Ende Machado

    5 de janeiro de 2016

    Antônia queremos o livrooooooooo…
    Haaa e não demore para continuar a história! Liinda! Bjos

    • Responder

      Antônia no Divã

      18 de janeiro de 2016

      Eu também!!!! Estamos em fase de negociação!!

  4. Responder

    Vena

    24 de abril de 2015

    Kkkkkk amei! Mas a pergunta q n quer calar: e o cara? Ainda se viram??

    • Responder

      Antônia no Divã

      30 de abril de 2015

      Inúmeras vezes! Mas isso é pauta pra outra sessão. hahahha beijos, Vena

  5. Responder

    Eduarda

    1 de abril de 2015

    Uma mistura de nervosismo e divertimento a cada palavra hahaha belo texto! adoro vir aqui 🙂

    • Responder

      Antônia no Divã

      1 de abril de 2015

      E há quem peça o episódio 3, Eduarda. Como se eu não tivesse aprendido a minha lição – (não aprendi!) hahahah. beijocas

  6. Responder

    Natália Silva

    29 de março de 2015

    Me conta logo o finaaalll mtoooo bom

    • Responder

      Antônia no Divã

      1 de abril de 2015

      Hahahhaaha! Não conto! quer dizer… quem sabe um dia! Mas que fique claro que eu sigo levando uma calcinha na bolsa! Limpa, óbvio! beijos, Natália

  7. Responder

    Dayan

    26 de março de 2015

    Kkkkkkkk….
    Isso foi real mesmo?
    Cai de paraquedas aqui no blog…

    Achei que eram apenas contos…

    • Responder

      Antônia no Divã

      26 de março de 2015

      Dayan, não confesso nada nem sob tortura. hahahah. Não contos, crônicas, devaneios e delírios. Tudo verdade e tudo mentira. Quero ver você adivinhar o que é o que. 😉 Volta sempre. Beijos

  8. Responder

    Anônimo

    22 de março de 2015

    Hahaha adorei!
    Conheci o blog agora e já vou indicar 😉

    • Responder

      Antônia no Divã

      23 de março de 2015

      Oi “Anônimo (a)”! 🙂 Volta mais vezes! beijão

  9. Responder

    Cristina

    13 de março de 2015

    Antônia, continue por favor! Não nos deixe nessa curiosidade sem fim ! Adorei todos os texto, são muito gostosos de ler..

    • Responder

      Antônia no Divã

      13 de março de 2015

      Deixo sim! Huahuhauhua (risada de bruxa!). Volta sempre, Cristina!

  10. Responder

    Gab

    11 de março de 2015

    Antônia, vc me deixa nervosa!
    kkkkkkkkkk!
    Adorei!!!

    • Responder

      Antônia no Divã

      13 de março de 2015

      Me deixo nervosa também! 🙂 hahaha

  11. Responder

    Anônimo

    11 de março de 2015

    Tb quero ler o época. 1. Bárbaro, amei! Principalmente a presença de espirito, parabéns!

  12. Responder

    Lary Simões

    11 de março de 2015

    Adorei, imaginei cada cena, adoro tudo que posta rs .. acho q a melhor coisa q fiz foi conhecer sua pág rs.. Pena eu não ter lido o primeiro episódio .. Beijosss !!

  13. Responder

    Fefa

    11 de março de 2015

    Você é deeeeeemais!!!!!! Hahahahaha
    Ansiosa para o 3 episódio!!!

  14. Responder

    Nanny Ruivo

    10 de março de 2015

    Eu literalmente me passei de tanto rir aqui e a cada palavra lida fiquei imaginando cena por cena, capítulo por capítulo.
    Antônia você diverte minha vida. Torna meus pensamentos mais alegres e eleva a minha imaginação ao mais alto que eu possa sonhar. …
    #Adoro #Antônia #Demaisssssss
    Beijinhos

    • Responder

      Antônia no Divã

      13 de março de 2015

      Obrigada Nanny. A ideia é mesmo promover a imaginação! beijos, Antônia

  15. Responder

    Gisélli

    10 de março de 2015

    Caramba Antonia!!! Vc se supera a cada postagem! Ansiosa para o episódio 3 rsrsrs. Parabéns garota!

    • Responder

      Antônia no Divã

      11 de março de 2015

      Gisélli e Fefa: vou tentar manter minhas calcinhas comigo, e se Deus quiser, não haverá episódio 3! 🙂

      • Responder

        Fefa

        11 de março de 2015

        Antônia, mas deu tudo certo no trabalho?! Fiiiiiquei tensa por você! Rss…

        • Responder

          Antônia no Divã

          12 de março de 2015

          A fusão deu tão errado, que a calcinha foi a parte menos suja. 😉 haha

          • Fefa

            12 de março de 2015

            Pãããtzzzzz, que sacanagem!!!!!
            Estou ansiosa para os próximos textos!!!!!
            Você é demais, virei Fã!!!!!!!

          • valentinamc

            2 de maio de 2017

            Hahahahahahahahahahhahahahaha. Era o que eu ia perguntar, se tinha dado certo. ?

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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