O sininho

Eu não sei como foi a educação sexual da maioria das pessoas, mas entendo que a minha foi deveras tranquila. A minha mãe sempre teve um talento natural à maternidade, e ainda que mãe de primeira viagem, creio que ela tenha feito um maravilhoso trabalho, até para aquelas pautas mais complexas, como o assunto sexo. Eu juro que me lembro de ter “aquela conversa” promovida pela pergunta “de onde vem os bebês”, que eu tive aos 7 anos. Então aos 7, minha mãe me explicou com os termos muito sutis e um livrinho ilustrativo, que duas pessoas que se amassem muito, ficavam bem pertinho uma da outra, até uma sementinha era passada do papai para a mamãe.

Não foi traumático. Foi prático, ilustrativo, e informativo. Com o passar dos anos, a minha mãe elaborou a pauta a cada nova pergunta. Sempre muito aberta, e me deixando claro que aquele assunto era importante e saudável. Ao passo que minhas amigas que não tinham tal liberdade em casa, procuravam a minha mãe para tirarem suas dúvidas. É importante dizer que a minha mãe foi professora de ciências e de educação sexual em escolas municipais, ou seja, aquilo que para outros pais eram tabus como gravidez na adolescência, prevenção, entre outras verdades veladas, eram parte muito natural do dia-a-dia dela.

Eu transei tarde, comparada com a minha turma. Quando a maioria estava se descobrindo aos 15 anos, eu levei outros três para iniciar minha vida sexual. E isso considerando que eu namorei firme durante quase 2 anos adentro da minha virgindade. É claro que eu explorava outras formas de prazer, mas eu morria de medo de tudo que envolvesse as vias de fato. A dor, a gravidez, a eterna voz do meu pai na minha cabeça, censurando qualquer vaga ideia sobre transar com meu namorado, entre outras dúvidas obscuras que surgiam sempre que eu pensasse em alguém entrando em mim. Ou uma parte de mim rompendo. Credo.

Acabou que sequer perdi a virgindade com um namorado. Foi com um cara que eu gostava muito, mas que teve seu papel limitado a isso. Ele foi o cara que eu perdi a virgindade. E só. Ao contrário do que medo fazia com a minha expectativa, a primeira vez foi sensacional. Tá. Mas eu estou esparramando a minha vida sexual nesta sessão por que mesmo, você deve estar se perguntando.

Acontece que um pedaço muito importante de informação me faltou, mesmo com toda a conversa acessível da minha mãe em casa, ou as visitas constantes a ginecologista desde os 18 anos, ou mesmo a minha ausência de papas na língua. Alguém se esqueceu de me avisar, comentar, sussurrar, que fosse, a genial ideia de que eu podia transar comigo mesma. Sim. Eu estava desde os 7 anos perguntando sobre bebes, me preocupando com contraceptivos, temendo sexo a dois, sem sequer ter tocado o meu sininho uma vez que fosse.

É sério. Eu fui roubada de uma vida de masturbação, simplesmente porque eu não conheci uma pessoa que tivesse tido o interesse, ou a coragem de falar sobre o assunto. E eu, claro, estava tão bitolada que sexo era uma coisa feita a dois, que durante muito tempo, não explorei outras opções.

Ok, talvez eu tenha sido a mais inteligente das adolescentes. Ou a mais curiosa. Fato é que aos tardios 25 anos, tive uma conversa de bar esclarecedora com duas amigas em um pub em Londres. Foi lá, na terra da chefe da Igreja Anglicana, que virei rainha de mim mesma e toquei meu sino pela primeira vez.

Vocês tem noção de quantos idiotas eu transei dos 18 aos 25 anos por puro e simples tesão, que eu mesma poderia ter atendido? Toda vez que cheguei bebum em casa, com um fogo inabalável, e para então mandar uma mensagem vergonhosa para alguém de madrugada? E levar um fora? Ou pior, acordar do lado de alguém menos sensato que eu e me perguntar PRA QUE ANTÔNIA, ME DIZ PRA QUE?!

Aos 25 anos minha vida mudou imensamente. Sabe aquela musica da Pitty “eu estava aqui o tempo todo, só você não viu”. Pois as coisas mudaram. Desde então eu tenho um vibrador pra chamar de meu (o Rick Martin). Uma lista de filmes adultos feito especialmente para mulheres (porque pornô-gozo-na-cara nunca será o meu barato). E uma rotina feliz de tocar meu sininho sempre que eu tô afim.

O que aconteceu foi uma transformação feliz no meu comportamento de forma geral. O gráfico do número de idiotas caiu drasticamente. Eu passei a selecionar minhas investidas. Um relacionamento monogâmico passou a ser uma expectativa muito-muito tentadora. E eu aprendi que a responsabilidade do meu orgasmo era só minha. Com ou sem alguém na minha cama. Quando eu finalmente passei a me conhecer e amar o meu sininho, eu comecei a conduzir o meu prazer, e não dar esse poder pra mais ninguém. Só emprestar. É claro.

Eu nunca estive tão feliz na cama. E isso tem a ver com o fato que de eu amo muito quem divide ela comigo. Mas também com o fato de que eu me amo muito. Amo meu sininho. E o boto pra tocar sempre que dá vontade.

Então essa sessão é dedicada e todas as mulheres que, por qualquer motivo que seja, foram negadas da informação mais valiosa dos seus lindos corpos: conheça-te. Eu prometo, vai ser música pro teus ouvidos. Dim-dom.

Fim da sessão.

7 Replies to “O sininho”

  1. Muito bom Antônia! Ainda criança e sem ninguém me contar, descobri o prazer de me tocar. E, entre prazer, medo que descobrissem e pavor do Inferno (era pecado mortal), continuei me tocando e gostando o que fez de mim uma Mulher muito Especial! Boa para mim e boa para quem me teve na cama! Obrigada! Bom saber que você, mesmo tarde, descobriu o sininho…

  2. Adoro um filme para maiores, mantenho meu vibrador por perto e muitas vezes uso ele com o namorado.. =) Nada melhor que se conhecer, saber o que te da prazer.. nossa, deixa a nossa vida muito melhor.
    Espero que todas nós possamos chegar nesse momento..

  3. Sabes que nunca havia pensado ou digamos que raciocinado enfim sobre esta verdade que tu escreveu?
    Sem meias palavras ou rodeios mesmo!
    Tu expôs branca e francamente o que eu acho que quase ou mais de 90% das Mulheres tiveram estas informações, esclarecimentos negados.
    E digo mais, estamos em pleno século XXI e ainda são!
    Palmas para vc Antônia!

    #DinDom🔔
    😉

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