luto

Flores em vida

em
3 de abril de 2019

É no silêncio de mais uma madrugada que eu me pego encarando o céu e validando aquilo que fica entre o plano celeste e o terreno. Ontem eu fui em um velório, e mais uma vez me peguei encarando aquela sala, cheia de pessoas estranhas e sentimentos tão conhecidos. Eu opero diferente hoje, frente a estas situações. Eu aperto menos os entes queridos, porque lembro como fiquei dolorida quando no velório do meu irmão as pessoas queriam me passar carinho através de imensuráveis abraços de urso.Eu me senti uma massa sovada, literal. Era horrível.


Hoje eu também já não desejo mais “força” para as pessoas, porque eu lembro como fiquei com raiva quando me desejavam. Eu sentia que o contrário de força, era fraqueza, e na minha cabeça eu tava mais do que no direito de me sentir fraca (além de uma massa sovada) ao me despedir do meu grande amor. Nos velórios atuais (não que eu freqüente muitos) eu costumo desejar coragem, porque era tudo o que eu mais buscava quando o mundo sucumbia embaixo dos meus pés. E comida. Parece besteira, mas lembrar os enlutados de comer, às vezes é um carinho mais gentil do que alimentá-los de religião quando a gente está obviamente questionando (ou furiosa) com as vontade de Deus. Guarde seu terço, traga um sanduíche.


E foi entre o velório de ontem, e a vida de hoje, que me peguei vendo o stories de uma amiga, que às lágrimas se questionava sobre a despedida de alguém que ela havia perdido. Ela vazia uma meia-culpa, porque no fundo é o que todos fazemos quando alguém parte desta festa para o piso superior. Por não ter ligado para a pessoa havia muitos dias, por não tê-la visitado mais. Vocês sabem como funciona. E em meio a esta auto-crítica ela fazia um convite, um desafio real de dar às pessoas o carinho e reconhecimento em vida, ou como ela lindamente chamou, de dar flores em vida para as pessoas que amamos. Embora eu tenha aderido a prática há alguns anos, ainda que desconhecesse o nome dela, o convite me calou profundamente dentro do peito.


Toda vez que meu pai, em sua rotina semanal, leva flores pro meu irmão, eu penso que cada pétala do buquê é um abraço que ele queria ter dado no filho e acabou não dando. Não porque não o amasse ou o reconhecesse, mas porque a vida exigia dele os boletos da escola pagos, e ele se ocupou de nos dar tudo, ao invés de separar um pouco para pegar mais de nós pra ele. Pais costumam ser assim, ocupados em nos dar o melhor, e não em estocar momentos de contemplação pura e simples. Meu pai não é exceção. Ele é a regra, lhes garanto. A maioria das pessoas tende a atender tarefas, e deixar o mais importante “pra quando tivermos tempo”, quando então a vida vem e avisa, que quem define o tempo, é ela. E só ela.


Nem todo mundo gosta de falar de luto. Eu entendo. Eu mesma pensei em desistir do tema, ou mesmo a de parar escrever de modo geral. Acontece que cada vez que essa dor acomete alguém, acorda em mim uma inquietação. Porque quem já passou por uma perda importante poderia sim prestar um favor aos demais de um jeito muito simples. Mostrando de forma gentil e bondosa que vale a pena se ocupar do tempo presente, dando flores aos vivos, e celebrando a eles aqui e agora.


Aos mortos, é claro, o nosso respeito, nosso carinho, nossa saudade. Mas acima de tudo, e falo com propriedade, sei que os moradores da cobertura de Deus nos querem bem e vivos. Não apenas vivos. Mas bem! Toda vez que me pego mal de saudade, peço licença pro cara que amo, imaginando ele numa nuvem querendo jogar uma harpa na minha cabeça e dizendo “segue tua vida, garota, eu te amo, vai viver bem – nós nos encontramos mais tarde, te garanto”. Porque eu sei – não me pergunte como – que o único desejo de quem parte é paz: e paz inclui o bem estar de quem ficou.


Eu não sei se essa sessão aqui te pega de coração saudadoso, e eu juro que respeito todo tempo necessário para a cura, que é sempre pessoal, única e intransferível. Mas ainda assim, fica aqui o convite, não apenas aos enlutados, mas a cada pessoa. Veja beleza no mundo vez que outra. Perceba ativamente quem você ama. Dê flores em vida. Ainda que na esperança de que vivendo assim, qualquer partida, mesmo que dolorida, pode ficar mais florida.


Dê flores em vida.


Fim da sessão.


Marvin, agora é só você
E não vai adiantar
Chorar vai me fazer sofrer
Marvin, a vida é prá valer
Eu fiz o meu melhor
E o seu destino eu sei de cor

Palavras-Chave

21 de março de 2019

22 de maio de 2019

3 Comments
  1. Responder

    Fernanda Gil

    10 de maio de 2019

    Perdi minha mãe em janeiro e sei que este luto vai demorar a passar. Se é que vai passar…
    Seus textos estão me ajudando bastante. Obrigada!

  2. Responder

    Erivania

    23 de abril de 2019

    Estou deixando este comentário para dizer que gostei bastante do que acebei de ler aqui neste artigo, inclusive já salvei até meu navegador em meus favoritos.
    Abraços Super Cap

  3. Responder

    DULCE MARIA RODRIGUES LAGOEIRO

    3 de abril de 2019

    Dê flores em vida… tão simples e tão profundo como tudo o que você escreve e que nos faz pensar! Lindo! Difícil de entender a Morte mas, necessária para entender a Vida de quem fica. Beijos Antônia! Estou adorando te seguir no Instagram!

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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