Crônicas

Querida decepção, obrigada

em
18 de agosto de 2019

Eu não sei que mania que a gente tem de olhar para uma decepção sempre como um grande problema. Eu já fui assim. E talvez pela quantidade de bordoadas que já levei na cara, hoje já não consigo mais encarar minhas decepções sem alguma empatia e uma boa dose de agradecimento. Decepção ajuda a gente a moldar os nossos próximos passos, afinal e  infelizmente, a humanidade aprende melhor na dor.

Foi depois de grandes decepções que eu sempre dei grandes saltos de evolução. (Nem que seja por birra. Porque eu sou daquelas que se ferra, mas que depois arrasa só de despeito.) Foi depois de uma expectativa não atendida ou uma perda significativa que eu involuntariamente  reavaliei minhas estratégias, sejam elas de trabalho ou de relacionamento. Foi me decepcionando que eu entendi que precisava cuidar mais de mim, como forma de me proteger para novas oportunidade de quebrar cara. Que me tornei mais tolerante com quem me decepciona, entendendo que parte da expectativa não atendida, vem também, de uma escolha pessoal e intransferível de dedicar-se a algo ou alguém. Ou seja, decepção é matéria compartilhada.

E foi aprendendo a me decepcionar que eu também aprendi a evitar algumas decepções. Hoje eu opero numa linha de comunicação mais clara daquilo que eu espero das pessoas. Eu me machuco menos, sendo mais cautelosa com meus sentimentos, e também decidi que algumas perdas são muito, MUITO bem-vindas. Eu sei que quando a gente se decepciona, acaba ficando cega para todas as oportunidades que se abrem, mas ainda bem que a vida – essa malandrinha – prova que tem coisas que a gente só vai entender depois. 

Então se decepcionar é também, uma ótima oportunidade para aprender a deixar ir embora tudo aquilo que não é nosso, e que atravanca o cominho e a chegada do que realmente é. Foi me decepcionando com alguns empregos que eu criei uma empresa e um jeito novo de trabalhar, foi me decepcionando com amigos, que aprendi a corrigir o curso da amizade ou até mesmo, encerrar alguns vínculos. Foi me decepcionado com amores que eu descobri o que realmente quero, e aquilo de longe quero repetir. Foi me decepcionando com sexo, que descobri que quem vê altura não vê tamanho. Foi doendo que eu juntei resiliência, e foi perdendo que eu valorizei o aprendizado que ficou. 

É difícil. Mas o tempo sempre é um ótimo conselheiro nas decepções da vida, provando muitas vezes, que tem decepção que chega a ser uma benção. Um dia a ficha caí, e o barulho será estrondoso. 

Por tudo que tu levou e deixou, querida decepção, obrigada. 

Fim da sessão. 

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2 Comments
  1. Responder

    Ananda Dante

    19 de agosto de 2019

    Como sempre na medida! Amo seus textos ❤️

  2. Responder

    DULCE MARIA RODRIGUES LAGOEIRO

    18 de agosto de 2019

    Decepções… tive muitas, desde novinha, e aprendi, assim como você Antônia, a lidar com elas e a vê-las não como algo ruim, mas alguma coisa que me mostrou sempre, mais à frente, que era necessário o tombo para poder levantar. Sou grata!

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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