Crônicas

Amor, cadê você?

em
18 de fevereiro de 2019

Nós consumávamos ser tão íntimos, e um dia isso mudou. Lembra quando eu podia prever teus movimentos, e você entendia os meus jeitos? Ou de quando conversas inteiras aconteciam no encontro dos nossos olhos? Lembra? Não tinha tela ou visor nenhum entre a gente. Era olho no olho, e era tão bom. E quando não era olho no olho, era ao pé do ouvido, pelo telefone. Teu timbre do outro lado da linha vibrava meu corpo inteiro.

Que saudade do teu “eu te amo” analógico.

Amor, pra onde você se mudou? Sério! Usei o Tinder para rastrear tua área de localização, e depois apelei para o Happn porque falaram que você estava lá, com ruas marcadas e cruzamentos precisos. E eu não te encontrei. Devo ter ido para a direita e você para a esquerda, porque o nosso trânsito não deu em crush. Deve ser a velocidade, sabe? Está tudo muito rápido, ultimamente. Devo ter te perdido de vista numa piscadela ou em 5 segundos de Snapchat.

Amor, lembra de quanta química já existiu entre nós? Quando o simples tocar dos dedos num pescoço ou num joelho faziam todos os cabelos do corpo levantarem? Acho que os cabelos faziam uma “ola” comemorando aquele contato tão íntimo e pessoal. Ou talvez fosse a química. Hoje não te acho mais na química, e traçar tua rota e prever teu comportamento é mais difícil do que física. Tem muitas variáveis envolvidas, variáveis demais! Agora os nossos dedos mal tocam a pele. Ao invés disso tocam teclados, tocam fora. Você costumava me mandar flores, agora manda nudes, ou me manda à merda ao menor sinal de dissonância. E aí some de novo, como se nunca tivesse existido.

Lembra amor, quando você tinha rosto, calor e cheiro? Não era apenas um vulto transitório, se alimentando de pequenas doses de carinho, para disfarçar a solidão? Quando foi que você virou tão birrento, amor? Negando a conexão linda que já existiu entre a gente, sem nunca precisar de Wi-Fi.  Agora, nem com marcador Pinterest eu te encontro. Bons tempos aqueles em que um orgasmo ou uma comoção eram provocados por tua língua em mim, e não uma cutucada no Facebook. Por Deus, o que significa uma cutucada no Facebook? Eu não entendo! E como eu te encontro no mundo real pra te dar uma curtida? GPS? Waze? Google Earth? Se te procurar fosse um jogo de Batalha Naval, a essa altura as minhas bombas já estariam todas dentro d’Água. Pra onde você foi?

Mandei meu currículo pra ti no LinkedIn, pedi um canto no seu sofá no Couchsurfing e me disseram que o Tumblr só haviam amores ultrapassados. Catei resquícios teus no meu e-mail, inbox, e até em mensagens de voz. Nenhum sinal de ti. Não achei sombra tua no Instagram, e no Twitter tu deve ter fugido voando. Fique exausta em 140 caracteres. Não havia uma hashtag marcando tua existência. Nenhum check-in teu lá em casa. Teu treinamento de invisibilidade deve ter nível de terrorista. Ou de político culpado.

Amor, onde é que tu te enfiaste? Tenho a impressão de quanto mais opções tenho de te localizar e fortalecer a nossa conexão, mais nós ficamos distantes. É como se a variedade e acessibilidade de hoje somassem forças em uma maldição, muito mais do que em uma benção. É entrar numa sorveteria com 150 sabores, e surtar tentado achar o certo. Ou comer muitos sabores errados e acabar com a boca azeda ou com dor de barriga. Será amor, que você deixou de ser doce, e tua procura uma missão fadada ao fracasso?

Preciso te encontrar, amor. Nem que seja pra saber se você ainda existe, e lembrar-me do que já fostes (lembrar-te a ti!). Não que eu precise de você pra viver, amor. Não é isso. Eu sigo em um relacionamento muito sério comigo mesma, e ele é cheio de frutos e muito amor próprio. Quero te encontrar porque o meu coração tem espaço para você também. Talvez ele não seja maior que o novo iOS, mas é melhor, já que é auto-atualizável. Responsivo e pulsante, ao invés de programável. Lembra amor, de quando você era mais orgânico? Tinha gosto e dava gosto?

Por que você se escondeu?

Sabe amor, talvez eu deva parar de te procurar e apenas torcer para que você me encontre. E quando decidir me encontrar, por favor, não mande um WhatsApp ou outro derivado vazio de comunicação. Me escreva uma carta, vai. Quero lembrar-me das curvas da tua letra em punho e sentir o teu perfume no papel. Ah! Não se esqueça de colocar teu endereço no verso, para que eu possa finalmente saber por onde tu andas. Assim, vou te encontrar num piscar de olhos e dois batimentos cardíacos. E não vou nunca mais te perder de vista. Prometo!

Fim da sessão

ps: essa sessão é de 2016. E muito atual.

Palavras-Chave

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2 Comments
  1. Responder

    DULCE MARIA RODRIGUES LAGOEIRO

    18 de fevereiro de 2019

    Eu preciso te falar… Te encontrar de qualquer jeito…
    Você é seus escritos… você que mexe com o imaginário das pessoas… você que nos faz recordar e derramar uma lágrima furtiva…
    Você, Antônia, que faz do Mundo um lugar melhor e da comunicação virtual um espaço de Amor!
    Beijos e obrigada!

    • Responder

      Antônia no Divã

      18 de fevereiro de 2019

      Lindona da minha vida! Que saudades de você!

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Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

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