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A vida perfeita

Ontem me peguei chorando pela rua.

O vento bagunçava meus cabelos, as folhas das arvores chacoalhavam como percussão musicando o meu caminho. E como em raras oportunidades (e que sem CNH, futuramente nem tão raras) voltava a pé do trem, e passei pela cobertura dourada – palco de tantas das nossas estripulias – de onde o céu brilhava com ares superiores (porque se dissesse “angelicais” tu farias piada).

Ontem me peguei chorando pela rua. Mas era um choro alegre. Ri da sorte que tenho de viver contigo dentro de mim.

Sabe, irmão, eu te culpei por ter me deixado, porque uma vez a minha vida já foi perfeita. Mas ontem, caminhando despretensiosamente pela rua, e por motivos que fogem a minha compreensão, eu entendi que ela segue sendo perfeita – afinal ela só tornou-se perfeita um dia, porque nossos carmas se cruzaram/escolheram.

Hoje cada vez que fico perdida, olho para aquela cobertura – a mais alta da cidade – como um farol me orientando pelo mar revolto – e ele anda tendo dias de ressaca (não das boas).

O farol, ele próprio, tem um paradoxo interessante – pois é responsável pela luz, da mesma forma que é pela escuridão. Nada mais justo, sabendo que a vida e a morte também tem o mesmo apelo contraditório. Luz e escuridão. Perder e encontrar-se. Chega a ser poético.

E eu vou seguir te sentindo perto, e falando contigo como se estivesse caminhando do meu lado. E de certa forma está. Talvez por isso a vida vá seguir sendo perfeita.

The perfect life.

Saudade bandida

Elas pegaram as malas e partiram. Como eu  fiz um dia, elas foram conhecer o mundo lá fora. E eu fiquei.

Na antecipação da despedida, a gente – como boas amigas que somos – disfarçou. Fingiu que a distância nunca existiria. Fez de conta que não era adeus. Engoliu o choro, engasgou-se com os sentimentos, embebedou os últimos encontros, vestiu um sorriso torto pra esconder a dor eminente.

Mas todo grande amor tem um preço. Preço de saudade. Saudade bandida.

E quando você acha que estava encarando tudo numa boa e se distrai por um minuto, a dor da saudade bate na sua porta, bate no seu peito, bate e fica. O domingo fica com gosto amargo de coração partido. E aí, nem o mais confortante dos sofás consegue te abraçar. Você desiste e deixa as lágrimas rolarem.

E entende por fim que se separar de um amor é impreterivelmente separar-se de um pedaço de si mesmo.  Diga-se até, do melhor pedaço.

Você enxuga as lágrimas e pensa que esse choro é de egoísmo, “se ama, deixe seu amor livre”, mas como ser livre de querer perto um grande amor? “Você vai ficar bem!”, uns consolam. Vou sim, não tenho dúvidas, o problema é que junto de quem amo não fico bem, fico ótima.

Mas enfim, chega o temido dia em que cai a ficha que se renegou até aqui: com ou sem permissão, alguém pegou meu coração e resolveu exportar seus pedaços pelo mundo. Ok, eu aguento, se é preciso. Mas vou querer todos os pedaços de volta. Tenho dito