Efemérides

Troços e traços

em
24 de fevereiro de 2016

A pior parte de sentir a falta de alguém é a permanência dela em objetos inanimados, coisas que antes eram inofensivas. É “um fio de cabelo no meu paletó”, já diria Chitãozinho e Xororó. Antes, aquele fio era apenas um cabelo solto, entretanto, na ausência da pessoa amada, ele é um universo de memórias. Tem cheiro, tem presença e até inconveniência. Não dá pra negar a saudade quando ela deixa provas do crime. O crime é essa falta que se sente. E a vítima é você, agarrado(a) apenas às evidencias do que já foi.

Durante a minha vida, sempre que eu terminava um namoro, gostava de exorcizar o meu apartamento de qualquer vestígio daquela relação. Pelo menos naquele tempo de lutar contra o luto, sabe? Devolvia tudo que era dele na primeira semana de separação, e lavava todas as minhas roupas para evitar resquícios de perfume. Ok, cheiro não é objeto, mas ainda assim é prova da presença-ausente do outro. Eu tocava fora as escovas de dente e de cabeços, para ter nenhum DNA daquele ex-amor.  Ficava meses sem usar alguns objetos, como taças de vinho, ou aquele cobertor que ele costumava me tapar quando pegava num sono no sofá. E quase tinha uma taquicardia quando me deparava com um CD de fotos nomeado “Frackels” (sardas) – fazendo referência às marcas que o verão deixava no meu rosto, e da coleção de momentos em que nós nos amávamos. No fim de um romance, todo mundo já teve vontade de chamar o caminhão da mudança (em alguns casos até o do lixo).

Fato é que objetos acabam personificando pessoas, lugares, momentos, fases, sensações. Um isqueiro esquecido por aquele amigo que botou o pé na estrada e deixou saudades. O vaso de flores secas daquela formatura memorável, cheia de momentos que não voltam mais. Aquele tamanco/tênis/chinelo que transpira a um verão especial. Um moletom que lembra o colo do pai. A blusinha que lembra alguém que você já foi, e não é mais. Todos os badulaques e tranqueiras que te lembram algum lugar do mundo, e aquele seu lado aventureiro que só floresce com a mochila nas costas.

E de fato é engraçado ver como vestimos certas indumentárias conforme a nossa necessidade. Sempre que eu estou desanimada, coloco um colar que tenho que comprei em Austrália, lá onde a minha melhor amiga anda voando as tranças. O colar tem uma bolota de vidro cheio de areia feita de conchinhas do Manly. Quando uso ele, é como se tomasse um pouco da energia de um final de tarde na praia na companhia da minha saudosa amiga, e costumo ficar mais animada. Ou quando me desespero com as minhas contas, acendo um incenso que ganhei de um hippie no Cabo Polônio, para me lembrar de que se eu quiser, também jogo tudo pro ar e vou morar sob as estrelas naquele lugar sem eletricidade. E esses cheiros e formas, de algum jeito vão mexendo conosco, mesmo sem terem a capacidade de se movimentar. Mas destapam ou cobrem as nossas angustias, afagam nossas agitações, acordam nossas saudades.

Ontem em mais uma das expedições ao apartamento do meu irmão para organizar os  pertences que ele deixou, minha mãe me encontrou chorando dentro do armário, abraçada a uma jaqueta horrorosa dele. Aquela jaqueta não tinha apenas o cheiro do meu irmão. Ela tinha gotas de sangria em Barcelona, tinha o pó dos guarda-sóis de Brighton. Tinha as brigas de quem ia ao supermercado durante o inverno. Tinha as minhas calcinhas escondidas nos bolsos quando voávamos nos minúsculos aviões de bagagens econômicas (e microscópicas). Tinha o recibo de um Starbucks que foi jogado fora, já que o meu irmão nunca lembrava da minha intolerância a lactose. Aquela jaqueta foi cobertor na praia, e aumento do assento durante inúmeros musicais ao lado dele.

Aquela jaqueta não era mais um pedaço de tecido, ela era nós dois soltos no mundo e presos um ao outro. Foi proteção, almofada, capa de chuva. Agarrada na jaqueta me dei conta de que aquela não era a minha primeira comossão frente a um “amuleto” do meu irmão. Desde que meu irmão se foi, passei a vestir suas camisetas arriadas. Assistir a todos os seus DVDs e ler seus livros. Já me peguei usando seus óculos de leitura e eu nem preciso deles. Em noites difíceis já dormi com o estetoscópio do meu irmão nos ouvidos ouvindo meu próprio coração. Passei a colecionar suas tralhas e seus tesouros numa tentativa de sobreviver a ausência dele.

E diferentemente de outras despedidas, esses vestígio de amor, essas provas de existência, não eram mais a sobra do que foi. Mas simplesmente tudo o que me restou.

E assim eu passei a dar mais valor às memórias tangíveis, desde o dia em que elas passaram a única presença física que eu tenho de um amor que não vai mais voltar. E diferentemente do que disse lá no início, hoje posso dizer que a MELHOR parte de sentir a falta de alguém é a permanência dela em objetos inanimados. Objetos que podem ser abraçados e cheirados. Talvez eu finalmente tenha entendido que esses troços, são traços de uma passagem dentro da minha casa, da minha vida, da minha alma. E me arrisco a dizer que provavelmente seja por isso que a gente não leva nada desta vida. Quem sabe essas coisas sejam mesmo um legado físico herdado por quem mais precisa de traços palpáveis de amor.


Fim da sessão

PS¹: Beijo enorme para a minha mãe, essa boa alma que mesmo depois dos meus 30 anos, segue me consolando quando eu choro dentro do armário (desde os 5 anos).

PS²: Beijo enorme para o Murilo, que aos 5 anos, sabe quando me ligar às 7:00 da manhã, depois de uma noite ruim, apenas pra dizer que tem saudades minhas.

https://www.youtube.com/watch?v=HEE-30FSNJY

Palavras-Chave
SESSÕES RELACIONADAS
Todo mundo precisa de um terapeuta
Todo mundo precisa de um terapeuta

29 de setembro de 2020

muito disponível
Muito disponível

22 de setembro de 2020

O porquê das histórias…

17 de abril de 2020

11 Comments
  1. Responder

    Silvia Moreira

    3 de março de 2016

    A perda é mesmo difícil de engolir, até porque ela não um cheiro específico, nem um sabor que nos agrade. Passamos a percebe-la na sutileza dos pequenos detalhes, da memória e objetos, como você descreveu. Rezo para que o amor que você traz no coração traga-lhe a lembrança que ameniza o sofrimento. A delicadeza com que reparte esse amor, nos escritos, para nós, seus leitores assíduos,vejo como uma forma de amainar a dor. Tenha certeza, estamos junto a você e acreditamos que é o amor mais lindo e ele vai cicatrizar a saudade, colocando-a numa lembrança de que amar vale a pena, numa alma tão grandiosa. Força!!!

  2. Responder

    Etiene

    1 de março de 2016

    Seus textos estao puro amor!!!! essa dor é cortante, mas nos faz ficar tao mais sensiveis e abertos a olhar o proximo… vc tem feito isso com uma delicadeza admirável…. Força para vc, garota!

  3. Responder

    valentinamc

    28 de fevereiro de 2016

    faz todo o sentido do mundo!

  4. Responder

    bia

    27 de fevereiro de 2016

    Maravilhoso.

  5. Responder

    Farida Famil

    25 de fevereiro de 2016

    Que lindo, como sempre você traduz em palavras sentimentos! Parabéns!

  6. Responder

    Ananda

    25 de fevereiro de 2016

    Mais um texto de tirar o fôlego, vc me dá nós na garganta Antônia

  7. Responder

    Nanny

    25 de fevereiro de 2016

    Sou apegada a “troços e traços” desde que me conheço por gente.
    Em 1999 quando minha avó paterna morreu em meus braços, tentei guardar tudo, tudo, tudo mesmo o que podia. Hoje passado quase 17 anos não há 1 dia sequer que não lembre dela e busque seus #TRAÇOS, não fale dela, não busque seus exemplos, e perante sua herança deixada #TROÇOS me pegue apalpando, cheirando e buscando ela em cada detalhe. E estes me ajudaram a suportar sua ausência. Ajudam até hoje.
    Não é cultivar a dor, apenas manter viva a memória física dela.
    #SaudadesEternas
    Ajuda transformar Dor em Saudades.
    ?

  8. Responder

    Gabriela Costa

    25 de fevereiro de 2016

    Suas palavras tocam a alma das pessoas, acho que porque você escreve com a sua 🙂

  9. Responder

    Ana Teté

    24 de fevereiro de 2016

    Li todo o texto aos suspiros…
    Muito amor pra vc sempre! ❤️?

DEIXE UM COMENTÁRIO

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Aline Mazzocchi
No divã e pelo mundo

De batismo, sim, Aline. Mas eu precisei do codinome Antônia - do latim "de valor inestimável" - para dividir minhas sessões públicas de escrita-terapia. O que divido aqui é o melhor e o pior de mim, tudo que aprendi no divã e botando o pé na estrada. Não para que dizer como você deve ver a vida. Mas para que essa eterna busca pelo auto-conhecimento, não seja uma jornada solitária, ainda que pessoal e intransferível. Então fique a vontade pra dividir o divã e algumas boas histórias comigo. contato@antonianodiva.com.br

PESQUISE AQUI