1 segundo de escuridão

Mesmo alguém como eu, que divide as próprias sessões de terapia na internet, sei que alguns assuntos são tabus, não importa o nível de coragem ou desprendimento que se cultive. Eu já dividi algumas das partes mais felizes da minha vida por aqui, assim como alguns dos tons mais escuros da minha dor.

A gente já conversou sobre luto, sobre perda, sobre tristeza, sobre relacionamento abusivo. E essa nunca foi a minha intenção original. No início de tudo eu queria escrever apenas e tão somente sobre felicidade e coisas boas. Mas daí eu teria que mudar o nome do blog para “Antônia na Bolha”. Porque a vida real tem um range bem mais amplo de sentimentos, não é mesmo?

Esse mês de setembro é um mês de alerta para um dos temas que pouca gente se sente a vontade para falar. Ainda que seja algo muito mais recorrente nas nossas vidas, do que tema de série da Netflix. Mas a gente só passou a falar mesmo de suicídio quando virou trend topics na internet com 13 Reasons Why/ Os 13 Porquês. Parece que antes da série, o assunto estava fadado a ser enterrado pelo silêncio. O que sempre torna tudo mais difícil.

Somos uma nação vivendo alguns dos momentos mais difíceis da nossa era, com níveis de estresse altíssimos e transtornos mentais que finalmente passaram a ser registrados e levados a sério. A depressão virou uma das doenças que mais acomete pessoas de todas as idades. Mas ainda assim, confesso, vejo o tema central do Setembro Amarelo sendo tratado com muito pudor, quase que varrido para debaixo do tapete da sociedade moderna.

Parece que a gente finge que suicídio não existe. Que é o tipo de coisa distante da gente. Que não acontece com o vizinho, com o colega de trabalho, com a blogueira que sempre quis escrever sobre felicidade e coisas boas.

Eu já tratei de forma sútil sobre meu episódio aqui numa sessão. Eu tinha meus 20 poucos anos. Estava com a casa ruindo no divórcio horrível dos meus pais, e era apaixonada por um cara só me fazia mal. Eu me sentia constantemente sugada por toda energia ruim que me rodeava e uma sensação de impotência aterrorizante, daquelas que bloqueiam qualquer pessoa de sair de dentro de um buraco. Eu me lembro de estar trancada no banheiro do meu apartamento, deitada no chão, no meio de mais uma briga cataclísmica com o meu ex. E sentia que não tinha mais pra onde correr.

Na época eu achava que meus pais tinham menos juízo que eu para lidar com a dor que estava sentindo. E o pior, eu tinha vergonha de tratar do assunto com quem quer que fosse. Eu sentia uma sombra me consumindo, e a primeira coisa que a sombra me tirou foi a voz. Eu não conseguia pedir ajuda.

Veja: eu era aquela garota que “não precisava de nada pra ser feliz”. Era bonita, tinha o namorado mais popular da quebrada, e minha família era muito presente. Tinha casa, comida, roupa lavada. Um emprego bom, e acesso ao ensino de qualidade. Ou seja, “no papel” estava tudo certo, e superficialmente eu tinha tudo pra estar bem. Mas dentro do peito, eu tinha um buraco negro tomando conta do meu universo.

Foi naquele chão do banheiro que eu tive o que pra sempre eu vou lembrar como o meu 1 segundo de escuridão. Uma fração de tempo minúscula em que nenhuma luz era capaz de ser vista. E sabe o que a gente faz quando não enxerga mais luz? A gente não vê outro caminho a não ser se entregar. Eu tive a sorte de achar um sinal no lugar mais improvável. Um escapulário perdido atrás do vaso sanitário que eu vi ao abrir os olhos. Naquele momento eu estava decidida a por um fim na minha dor, quando eu consegui enxergar o que precisava pra ter esperança.

Eu não acho que foi Deus. Tão pouco o destino. Eu acho que eu encontrei o fragmento de luz que desesperadamente buscava. Um farol no meio da tempestade escura. Algo que servisse como um apoio na obscuridade do meu momento. Um fiapo de perspectiva. Eu avalio aquele momento com muita compaixão por mim mesma. Talvez eu tivesse que chegar ao fundo do meu poço naquele momento, para muitos anos depois, encarar a escuridão do luto do meu irmão de outra forma. Mas a urgência daquela dor me marcou muito.

Fato é que a gente não dá espaço pra falar da dor. E às vezes, muitas vezes na verdade, ela toma conta. E não tem nada mais desesperador do que se sentir sozinho quando se tem medo do que tá dentro da gente. Até porque, nós podemos nos proteger de todo o mal do mundo, mas o que fazemos quando ele mora dentro da gente?  E como aprender a lidar com as nossas dores, quando ninguém quer falar sobre isso?

E foi por isso que eu passei a falar de dor aqui, com a mesma responsabilidade com que falo de alegria. É meu jeito de dizer pra quem quer que seja, que você não está sozinho(a). E eu sei que esse senso de pertencimento, por vezes, conforta o coração.

Eu acredito que a história de todo mundo vale a pena. E acredito que 1 segundo de escuridão pode mudar pra sempre o rumo da nossa história. E com isso em mente, penso que todos temos a responsabilidade de ser luz pra quem precisa. Falando do assunto de forma responsável. Emprestando o ombro. Escutando. Tendo empatia pela dor do outro. Não tem outro jeito de amar, do que amar quando o outro mais precisa. Quando é mais difícil.

Então o que eu quero deixar como mensagem, para qualquer pessoa que esteja vivendo um momento complicado é, você não está sozinho(a) e não precisa estar. Continue buscando a luz e procurando os sinais para continuar. Não tenha vergonha. Procure ajuda, peça apoio. Mas acima de tudo não desista. Todos nós somos importantes e esse segundo de escuridão vai passar.

Eu prometo. Vai ficar melhor.

Fim Início da sessão

O CVV – Centro de Valorização da Vida, realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas todos os dias.

Ligue 188 a qualquer momento.

2 Replies to “1 segundo de escuridão”

  1. É urgente falarmos amplamente sobre isso com todos(as) e para todos(as)! As estatísticas não mostram o que a realidade está transbordando! Seguimos dividindo emoções e caminhos para ajuda! Parabéns

  2. O mito de que quanto menos divulgados os casos de suicídio, menos acontecem, está ultrapassado. O tabu do silêncio deve ser quebrado, cada vez mais, para que mais pessoas saibam que existe saída. Parabéns, por dividir amor pelas pessoas!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.