A proposito, eu te amo

Ok, então deixe me falar de amor. Ele foi legal comigo. Provavelmente foi legal com você também. Durante muitas vezes o amor me levou até o céu e foi ótimo. Isso claro, antes de me derrubar de bunda no chão, de novo, de novo, e mais uma vez. Eu nunca culpei o amor, e sempre aproveitei enquanto durou. Mas dei um tempo do amor pelos outros, para aprender com o amor próprio, e confesso, foi sensacional.

Ao passo que fui amadurecendo (se é que isso de fato aconteceu) a palavra “amor” foi usada com mais cautela. Uma das razões foi porque ficou cada vez mais difícil achar quem a merecesse. Acabei destinando os meus “eu te amos” para gente que permaneceu na minha vida através de vínculos mais fortes: meus pais, meus irmãos, minhas amigas. O outro motivo é que “eu te amo”, de um dia pro outro, passou a ser usado com a mesma frequência do “bom dia”, e eu achei que expressão tinha perdido um pouco da importância, e merecia de um tempo para levar uma repaginada.

Dado certo tempo, dei-me conta, que intencionalmente e também sem querer, eu havia desaprendido a falar “eu te amo” no contexto de uma relação amorosa. Calma, não me julgue tão rápido. Eu gastei vários “eu gosto de você” e “eu te adoro” por aí. Mas o “eu te amo” ficou aprisionado no fundo do meu coração, junto com histórico de outras relações não tão bem sucedidas.

Visando não abrir mão da declaração completamente, eu comecei a desenvolver uma matemática para trazê-lo de volta das profundezas do meu ser. E assim, eu criei métricas necessárias para o uso das famosas três palavrinhas mágicas: “Tempo de relacionamento” vezes “Intensidade” mais “Importância” dividido por “Mérito” menos a “propensão de a outra parte desaparecer ao ouvir”. O cálculo nunca era preciso, e eu também me negava a encarar o teste por tentativa e erro. Ou seja, apesar de todas as minhas teorias, nada parecia ajudar. Eu seguia travada.

Na circunstancia em que voltei a sentir fortes indícios que poderia vir a pronunciar a dramática frase, fiquei zonza de ansiedade. De um minuto pra outro, o mundo parecia berrar a porra do “eu te amo” e eu em pânico. Músicas, filmes, cartazes na rua, todos diziam. Sabe quando você compra um carro novo e começa a perceber que todo mundo tem o mesmo carro que você, coisa que nunca tinha reparado antes? Era isso. Ou quando você em algum momento jurou que podia estar grávida, e de repente todo mundo parece procriar a sua volta? A mesma coisa. A frase parecia pulsar em todo lugar, mas principalmente, dentro de mim.

Quando vi, passei a repensar tudo que saia da minha boca, com medo que um “eu te amo” furtivo, me escapasse por entre os dentes. Eu então berraria: “eu te odeio seu ‘eu te amo’ inconveniente!” por ter escapado na hora errada. Parecia estar de ressaca, perigando vomitar aquilo tudo na outra pessoa. Fiquei planejando o momento certo, o tom de voz correto, e perdia o sono cada vez que imaginava ouvir um ‘obrigado’ ou ‘eu não sinto o mesmo por você’ do outro lado do meu majestoso pronunciamento. Comecei a evitar o álcool, afinal, eu bêbada amo todo mundo mesmo, do garçom (esse merece) ao flanelinha da rua – que dirá aquele que havia me feito repensar toda essa narrativa bisonha.

Foi quando aconteceu, da pior maneira. Resumia as atividades do dia seguinte, que incluía um exame de urina e uma série de e-mails que tinha que responder. Aguardávamos a uma resposta definitiva quanto ao nosso futuro – considerando os vários oceanos que nos dividiam, um visto de turista, uma cirurgia, uma pá de coisas que andava rolando. Terminei minha análise dos fatos, sabendo que o dia seguinte determinaria se arrumaria as malas para ir para casa ou se ganharíamos mais tempo. Apavorei-me de ver meu prezado “eu te amo” engolido pelo drama de qualquer uma das conjunturas. Queria a declaração exposta em condições sóbrias, controladas e principalmente: neutras. Depois de dar demasiada seriedade ao meu discurso sobre trivialidades, larguei-lhe a frase que mais pareceu uma intimação “trivialidades, trivialidades, trivialidades… a propósito, eu te amo”.

Como assim, “a propósito, eu te amo” sua retardada? – pensei comigo morta de vergonha. “A propósito, temos que comprar leite”, teria mais sentido. “A propósito, baixe a tampa do vaso depois de usá-la.” Ninguém diz “a propósito, eu te amo” pela primeira vez, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Quis me enforcar num pé de couve. Dei graças a Deus ao breu que tomava conta do quarto naquele momento, que não apenas disfarçou a minha cara vermelha, como omitiu a decepção quando a resposta dele não foi “eu também te amo!”. Ou “a propósito, eu também te amo”. Recebi um abraço carinhoso, e uma explicação bem plausível que de tudo acontece a seu tempo para cada pessoa.

E foi no silêncio do “eu te amo” de outra pessoa que percebi como eu sentia falta do meu. Mesmo não sabendo se era pra sempre, ou se ia dar tudo errado no final. Como foi bom me ouvir dizer aquelas palavras de novo. Não retroagi na minha declaração, e ainda tímida salpicava a expressão aqui e ali sempre que julguei necessário. E o meu coração serelepe achou muito necessário vomitar aquilo mais e mais vezes. Ainda que de forma sempre estranha, como alguém que aprende um novo idioma. Eu falava “eu te amo” como quem fala russo pela primeira vez. E falando russo, transformei-me na louca do “eu te amo”. Eu passei a controla-lo não por uma cautela excessiva como antes. Mas por medo de gastar a minha cota novamente. E eu gostava da frase dançando na minha língua, e não queria mais parar.

Um mês inteiro se passou para que eu ouvisse as três palavrinhas. (MAS NINGUÉM AQUI TAVA CONTANDO OS DIAS, VIU? – alerta de ironia). Aconteceu no mar, agarrados um no outro, quando embalados pelas ondas e discutindo trivialidades, eu o ouvi dizer: “trivialidades, trivialidades, trivialidades… a propósito, eu te amo”. O momento não podia ser mais perfeito. Porque foi no tempo dele, e não no meu. Porque foi uma declaração, e não uma resposta. Porque foi numa ilha paradisíaca na viagem que sonhamos. E porque logo depois que ele falou, um caranguejo pendurou-se no meu cabelo, e eu sai berrando do mar como uma louca.  Provando que não existe momento perfeito, apenas verdadeiro.

Fim da sessão. 

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