Arquivo da categoria: Suspiros

Quando o coração bate mais forte

Pequeno milagre

Dizem que um pequeno milagre acontece quando duas pessoas decidem passar o resto de suas vidas juntas.

A gente gostaria de acreditar que os planetas se alinharam para fazer o amor acontecer, mas com o tempo descobre que foi uma escolha, essa de alinhar os planetas com as próprias mãos. Cruzar fronteiras. Redesenhar limites. Superar distâncias. 

Culpamos o cupido pelo amor porque ninguém admite que, em sã consciência, escolheu arriscar-se de forma tão vulnerável. Optou por sofrer de saudade. Sentir o corpo chacoalhando com os sintomas de uma paixão. Ou que decidiu deliberadamente ter parte do coração pulsando do lado de fora do próprio corpo.

Atribuímos o amor a um ser supremo, uma magia celestial, um poder sobrenatural, porque é difícil acreditar que nossa humanidade é capaz de algo tão grandioso. De praticar o altruísmo de forma tão transparente. Ajustar diferenças. Faz-nos desejar um mundo melhor só para que ele seja mais justo com quem tem o nosso afeto.

Amor é a transformação em todo o seu esplendor.

Aquele acontecimento que faz pessoas completas transbordarem. Faz-nos encontrar calma na agitação do outro. Intensifica o sol que brilha agora mais bonito lá fora. É companhia nas trilhas da vida. É perder o medo de soar clichê, afinal o amor é simultaneamente brega e exuberante mesmo. E não tem problema nenhum nisso.

É a alegria de achar alguém digno de andar de bicicleta do nosso lado, como a única coisa importante do final de semana. Encarar um milhão de motivos para partir, e decidir ficar. Amor é sobre acreditar. É ter fé no tempo, nos reencontros. Ver certeza nas incertezas.

Amar de verdade é dar graças a Deus por não ter dado certo com mais ninguém. Não porque encontramos alguém perfeito, mas porque decidimos amar inclusive as imperfeições tão perfeitas do outro. É ver beleza além da superfície. Segurar na mão quando a coisa fica feia. Principalmente quando fica feia.

Então talvez a beleza de “unir os trapinhos” de forma oficial seja justamente por ser uma história real, ao invés de um conto de fadas. Uma história de verdade sobre o esforço mútuo para manter o amor acima de todas as coisas. Uma narrativa escrita a duas mãos.

A gente intitula “amor” o carinho de construir um lar juntos. A euforia que causamos e sentimos pelo outro. É encontrar as múltiplas facetas em um só coração, amantes, amores, amigos, admirados e admiradores, tudo junto e misturado.

O casamento, que é uma das possíveis consequências do amor, surge porque acredita-se que uma relação precisa destes pequenos e grandes momentos de contemplação. De parar e entender que chegar até aqui foi a perfeita mistura entre a sorte e o comprometimento. E é preciso celebrar essa união: a da sorte e do comprometimento. A união entre ela e ele.

O que prova, de fato, que pequenos milagres existem. Entre a sorte e o comprometimento.

❤️
Fim da sessão

Essa sessão foi um presente de casamento especialmente escrito para a minha amiga Melina. Ainda que eu acredite que presente mesmo é ter uma amiga como ela e sorte a minha de através dela ter a chance de renovar a fé no amor. Aos noivos: todo amor do mundo!

A proposito, eu te amo

Ok, então deixe me falar de amor. Ele foi legal comigo. Provavelmente foi legal com você também. Durante muitas vezes o amor me levou até o céu e foi ótimo. Isso claro, antes de me derrubar de bunda no chão, de novo, de novo, e mais uma vez. Eu nunca culpei o amor, e sempre aproveitei enquanto durou. Mas dei um tempo do amor pelos outros, para aprender com o amor próprio, e confesso, foi sensacional.

Ao passo que fui amadurecendo (se é que isso de fato aconteceu) a palavra “amor” foi usada com mais cautela. Uma das razões foi porque ficou cada vez mais difícil achar quem a merecesse. Acabei destinando os meus “eu te amos” para gente que permaneceu na minha vida através de vínculos mais fortes: meus pais, meus irmãos, minhas amigas. O outro motivo é que “eu te amo”, de um dia pro outro, passou a ser usado com a mesma frequência do “bom dia”, e eu achei que expressão tinha perdido um pouco da importância, e merecia de um tempo para levar uma repaginada.

Dado certo tempo, dei-me conta, que intencionalmente e também sem querer, eu havia desaprendido a falar “eu te amo” no contexto de uma relação amorosa. Calma, não me julgue tão rápido. Eu gastei vários “eu gosto de você” e “eu te adoro” por aí. Mas o “eu te amo” ficou aprisionado no fundo do meu coração, junto com histórico de outras relações não tão bem sucedidas.

Visando não abrir mão da declaração completamente, eu comecei a desenvolver uma matemática para trazê-lo de volta das profundezas do meu ser. E assim, eu criei métricas necessárias para o uso das famosas três palavrinhas mágicas: “Tempo de relacionamento” vezes “Intensidade” mais “Importância” dividido por “Mérito” menos a “propensão de a outra parte desaparecer ao ouvir”. O cálculo nunca era preciso, e eu também me negava a encarar o teste por tentativa e erro. Ou seja, apesar de todas as minhas teorias, nada parecia ajudar. Eu seguia travada.

Na circunstancia em que voltei a sentir fortes indícios que poderia vir a pronunciar a dramática frase, fiquei zonza de ansiedade. De um minuto pra outro, o mundo parecia berrar a porra do “eu te amo” e eu em pânico. Músicas, filmes, cartazes na rua, todos diziam. Sabe quando você compra um carro novo e começa a perceber que todo mundo tem o mesmo carro que você, coisa que nunca tinha reparado antes? Era isso. Ou quando você em algum momento jurou que podia estar grávida, e de repente todo mundo parece procriar a sua volta? A mesma coisa. A frase parecia pulsar em todo lugar, mas principalmente, dentro de mim.

Quando vi, passei a repensar tudo que saia da minha boca, com medo que um “eu te amo” furtivo, me escapasse por entre os dentes. Eu então berraria: “eu te odeio seu ‘eu te amo’ inconveniente!” por ter escapado na hora errada. Parecia estar de ressaca, perigando vomitar aquilo tudo na outra pessoa. Fiquei planejando o momento certo, o tom de voz correto, e perdia o sono cada vez que imaginava ouvir um ‘obrigado’ ou ‘eu não sinto o mesmo por você’ do outro lado do meu majestoso pronunciamento. Comecei a evitar o álcool, afinal, eu bêbada amo todo mundo mesmo, do garçom (esse merece) ao flanelinha da rua – que dirá aquele que havia me feito repensar toda essa narrativa bisonha.

Foi quando aconteceu, da pior maneira. Resumia as atividades do dia seguinte, que incluía um exame de urina e uma série de e-mails que tinha que responder. Aguardávamos a uma resposta definitiva quanto ao nosso futuro – considerando os vários oceanos que nos dividiam, um visto de turista, uma cirurgia, uma pá de coisas que andava rolando. Terminei minha análise dos fatos, sabendo que o dia seguinte determinaria se arrumaria as malas para ir para casa ou se ganharíamos mais tempo. Apavorei-me de ver meu prezado “eu te amo” engolido pelo drama de qualquer uma das conjunturas. Queria a declaração exposta em condições sóbrias, controladas e principalmente: neutras. Depois de dar demasiada seriedade ao meu discurso sobre trivialidades, larguei-lhe a frase que mais pareceu uma intimação “trivialidades, trivialidades, trivialidades… a propósito, eu te amo”.

Como assim, “a propósito, eu te amo” sua retardada? – pensei comigo morta de vergonha. “A propósito, temos que comprar leite”, teria mais sentido. “A propósito, baixe a tampa do vaso depois de usá-la.” Ninguém diz “a propósito, eu te amo” pela primeira vez, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Quis me enforcar num pé de couve. Dei graças a Deus ao breu que tomava conta do quarto naquele momento, que não apenas disfarçou a minha cara vermelha, como omitiu a decepção quando a resposta dele não foi “eu também te amo!”. Ou “a propósito, eu também te amo”. Recebi um abraço carinhoso, e uma explicação bem plausível que de tudo acontece a seu tempo para cada pessoa.

E foi no silêncio do “eu te amo” de outra pessoa que percebi como eu sentia falta do meu. Mesmo não sabendo se era pra sempre, ou se ia dar tudo errado no final. Como foi bom me ouvir dizer aquelas palavras de novo. Não retroagi na minha declaração, e ainda tímida salpicava a expressão aqui e ali sempre que julguei necessário. E o meu coração serelepe achou muito necessário vomitar aquilo mais e mais vezes. Ainda que de forma sempre estranha, como alguém que aprende um novo idioma. Eu falava “eu te amo” como quem fala russo pela primeira vez. E falando russo, transformei-me na louca do “eu te amo”. Eu passei a controla-lo não por uma cautela excessiva como antes. Mas por medo de gastar a minha cota novamente. E eu gostava da frase dançando na minha língua, e não queria mais parar.

Um mês inteiro se passou para que eu ouvisse as três palavrinhas. (MAS NINGUÉM AQUI TAVA CONTANDO OS DIAS, VIU? – alerta de ironia). Aconteceu no mar, agarrados um no outro, quando embalados pelas ondas e discutindo trivialidades, eu o ouvi dizer: “trivialidades, trivialidades, trivialidades… a propósito, eu te amo”. O momento não podia ser mais perfeito. Porque foi no tempo dele, e não no meu. Porque foi uma declaração, e não uma resposta. Porque foi numa ilha paradisíaca na viagem que sonhamos. E porque logo depois que ele falou, um caranguejo pendurou-se no meu cabelo, e eu sai berrando do mar como uma louca.  Provando que não existe momento perfeito, apenas verdadeiro.

Fim da sessão. 

No meio do caminho tinha uma pedra

Quando ele ligou nos primeiros dias deste verão não entendi o contato. Era um amigo de longa data, que há tempos havia se mudado para a Austrália e estava passando o verão em Florianópolis. Não entendi a ligação pelo simples fato de que, dentre tantas pessoas que ele poderia sentir saudade, a nossa falta de contato nos últimos 6 anos me indicava que eu não era uma delas. Mas respondi com meu ar de boa praça de sempre. “Oi (espanto), sim, quanto tempo! É, nos encontramos? Claro, hoje? Ok, hmmm, sim, te busco, forró? Pode ser. Combinado, nos vemos.”

Naquela noite abafada de segunda-feira, me encaminhei para o que parecia ser um programa de índio. Forró na Praia da Joaquina pra encontrar com um cara com quem eu não falava há anos. Mas o meu ceticismo sempre teve tendências monstruosas a levar uns tapas na cara do destino, então lá foi eu.

Fui recebida com lindos olhos brilhantes, um abraço apertado e uma alegria sincera de reencontro. No forró, entre uma cerveja e outra, meu amigo admitiu que me acompanhava de longe, lia minhas intervenções online, e nutria uma enorme admiração. Eu tagarelava sem parar timidez adentro, falando sobre a sorte de ele viver num país organizado e de como a pequena cidade do interior, cenário do nosso passado, não havia mudado nada. Fiquei com as bochechas vermelhas ao reparar como os anos o haviam deixado atraente, e sorria sem graça todas as vezes que ele repetia como era bom me encontrar. Horas depois de atualizarmos nossas histórias sobre a última meia década, o dinheiro da cerveja acaba. Era hora de ir embora.

No caminho de volta, erro a velocidade num quebra-molas, e por reflexo – como as mães fazem com quem senta no banco do carona – coloco a mão no peito dele para evitar que a inércia o jogasse pra frente. No mesmo instante ele segura a minha mão em seu peito. Aperta-a contra ele mesmo.  Olho para o lado e encontro aquele belo par de olhos sorrido, enquanto segura carinhosamente a minha mão. Depois disso foram, deste pequeno e simbólico encontro de mãos – correram-se 20 dias de um amor de verão e uma dolorida despedida no aeroporto.

– Vem me visitar na Austrália – encorajou ele.

– Vou mesmo – eu disse com a convicção de quem não precisa muito para fazer as malas e pegar a estrada.

Meses se passaram e veio a data da esperada viagem. Com o coração cheio de dúvidas encarei as 36h cruzando o globo. Uma viagem adicional de duas semanas com as amigas em Bali foi o que precisei para poder dizer para mim mesma que não estava atravessando o mundo APENAS por causa de um caralho (por melhor que o caralho fosse). Bali veio e foi um sonho vivido do lado das pessoas que eu já sabia que amava. E então, sem muita demora, eu peguei o caminho da Austrália para encarar a aventura de ficar na casa do Boy (vamos chama-lo assim). Sim, aventura porque nada mais extremo que viver um amor de verão num minuto e no outro ir “morar” na casa do cara – ainda que por algum tempo. 

A primeira semana passou como mágica, regada pela alegria do reencontro, horas infinitas de sexo de saudade e o conhecimento da rotina dele. Esforcei-me para parecer bem organizada, bem composta, e supeeeer confortável em dividir a cama. Teve a primeira festa com os amigos dele, a primeira briga, a primeira menção sobre uma possível conversa sobre um possível futuro. O Boy me convidou para estender a minha viagem a Mentawais, outra parte remota da Indonésia formada por ilhas praticamente desertas. Era como um sonho se realizando. Eu, um surfista e uma ilha deserta. Não foi difícil começar a estudar a possibilidade.

O segundo final de semana veio com uma gripe. A dele passou com a chegada da segunda-feira. A minha piorou com a necessidade de uma ida ao hospital. Meu estado tinha cara de problema. Uma pedra no caminho da minha viagem. Mas em toda a minha imaginação, eu só não imaginava o tamanho da pedra.

Na emergência do hospital indicado pelo meu seguro, o diagnóstico. Estava sofrendo de uma infecção urinária medonha. As dores lombares alertaram o médico que me atendia para a necessidade de um CT Scan. O resultado do exame confirmava a pedra no caminho: A parte interna do meu rim esquerdo, tinha sido tomada completamente por um cálculo renal imenso. Uma pedra monstruosa. Um aerólito. Assusto-me por um minuto, mas percebo que o Boy parece mais assustado que eu, então tento manter a compostura até a chegada do especialista.

Da boca do urologista, em um inglês australiano tranquilo, ouvi aquilo que ninguém quer escutar a 13mil quilômetros de distância de casa (e com o dólar 3 vezes o valor dos meus míseros reais). Eu precisava de uma cirurgia. Urgente, já que meu rim estava sofrendo. Dei baixa no hospital para lidar com a minha infecção urinária e mandei o Boy pra casa para lidar sozinha com toda a onda de pavor que tomava conta de mim.  Lembrei-me da pedra no rim que havia removido 12 anos atrás e das cólicas renais memoráveis. Aquela que eu haveria de encarar, tinha nada menos que a mesma proporção do dólar – 3x maior.

No dia seguinte de volta a casa, iniciei o processo de autorização da minha cirurgia pelo meu seguro de viagens. Intermináveis ligações durante dias, uma pá de documentos e exames, e o maior número de e-mails que já mandei na vida, justificavam a necessidade da cirurgia. A autorização veio, para o nosso alívio (meu e do Boy que pipocava angustiado ao meu lado durante as negociações). O grande problema estava na transferência de fundos. E  fica aqui o meu primeiro grande aprendizado desta história – a transição internacional de dinheiro nunca é simples.

O meu caso, por exemplo: o hospital não aceitava o cartão de crédito do meu seguro, então para que eu fizesse a cirurgia, o seguro deveria transferir dinheiro para o hospital. Até aí sem problemas. Acontece que para realizar uma transição internacional, o seguro precisava de uma nota fiscal com os valores da cirurgia, e o hospital só emitiria a nota fiscal após a cirurgia, mas também só realizaria a cirurgia depois que o seguro transferisse o dinheiro. Entendeu? Meu rim entrou num loop burocrático infinito. A esta altura, já somávamos duas semanas de negociações e nada da minha cirurgia.

Mas aqui cabe outro grande aprendizado desta história – quando você mais precisa, você pode encontrar um amigo em um estranho. Ao acompanhar a minha trama, Dr. Tracey, meu urologista, ficou compadecido de certa forma com a minha história. Pela minha viagem interrompida pela pedra. Pelo tamanho da pedra. E pelo drama com o financiamento da minha cirurgia. Foi quando sugeri ao seguro pedir ao Dr. Tracey – em uma última tentativa  – que ele emitisse a nota com o valor do hospital, recebesse o dinheiro do seguro, e assim pagasse as custas do hospital. E foi na bondade de um estranho, que consegui organizar minha ida para o centro cirúrgico.

Neste dia, pela primeira vez, vi o belo par de olhos do meu lado, chorar de alívio e alegria.

Dia da operação, e eu estava animada. Depois de 15 dias de espera e angustia, estava pronta para entrar na faca e liberar meu pobre rim das pedradas desta vida. Pesquisei meu procedimento no YouTube. Pareceu-me não ter mistério – os caras iam furar as minhas costas até o meu rim, e de lá começariam a remover meu aerólito. “De boua” – pensei. O restante do que ficasse faltando, seria removido pelo canal da uretra – ou como eu gosto de dizer, pelo buraco que Deus me deu, lá pela vagina.

O Boy me deixou no pré-operatório com feições mais dramáticas do que ele normalmente me olhava. Os olhos lindos agora eram carregados de preocupação, enquanto eu fazia piadas idiotas sobre a “transferência do corpo” estar inclusa no seguro. Eu tenho tendências a idiotice quando estão para perfurar meu rim – agora eu sei. “Fica tranquilo – vou sentir só uma picadinha!” – tentava acalmá-lo em vão. Na entrada do bloco cirúrgico, usando minhas roupas descartáveis – fazia brincadeiras com a equipe com a tranquilidade de quem ia “logo ali se operar e já voltava”. Dr. Tracey apareceu por entre as portas do bloco (com seu sorriso de alívio por finalmente me ver no hospital) e garantiu “Nós cuidaremos de você”.

– “Não tenho palavras em inglês ou português para agradecê-lo” – digo com os olhos mareados.

Fico um minuto sozinha enquanto a equipe prepara a sala. Sem ninguém para entreter ou me tranquilizar, me ocupo do futuro desconhecido. “Eu não posso morrer”. Frase que passei a mentalizar sempre que fico com medo. Na turbulência de um avião. Num pequeno acidente de carro. Numa possibilidade de assalto. Antes da minha cirurgia. “Eu não posso morrer”. Eu não posso morrer e tirar dos meus pais mais um filho. Não posso morrer. Não posso ter uma lápide, não posso ir para o céu. Não ainda.

Eu nunca me ocupei da minha morte antes de perder o meu irmão. Sempre achei que morrer jovem seria até mesmo poético – com minha pele boa, antes de ter remorso demais da vida ou das pessoas. Pois não mais. Parece que com a despedida do meu irmão, a minha vida já não me pertencia mais. Pensei nos meus pais e chorei as lágrimas que escondia de todos até aquele momento. Agradeci por passar por esse processo bem longe deles. Não aguentaria tê-los na sala de espera, aguardando notícias minhas. Rezei para o meu irmão, pela primeira vez pedindo um favor. “Léo, por favor. Eu não posso morrer.”

– Está pronta, Antônia? – a enfermeira interrompe meu pedido.

– “Não. ‘Léo, por favor. Eu não posso morrer’ (mentalizo)”.  – Abro um falso sorriso de confiança – “Pronto. Agora sim, estou pronta”.  

Sou posicionada abaixo daquelas luzes enormes (e assustadoras) da sala de cirurgia.

– Oi Antônia, sou o anestesista, você vai sentir um piquizinho. Conte até cinco e pense num lugar que você queira visitar em seus sonhos.

– “Ok.  – respondo prontamente – ‘Léo, por favor. Eu não posso morrer’ (mentalizo de novo)”. “5,4,3 – …”

Fim da Continuação na próxima sessão….

Socorro: tem alguém dormindo na minha cama

Dividir a cama com alguém, sempre foi tabu pra mim. Ok deixe-me reformular esta frase. Dividir a cama para dormir com alguém, sempre foi tabu pra mim. Eu não tenho tantos problemas em dividir a cama para ficar acordada (ui, adoro!). Mas perceba que sexo – por vezes – pode ser pura e simplesmente um ato de prazer. Dormir junto, no entanto, é um ato de intimidade. E é aí que eu me atrapalho.

Eu simplesmente odeio dividir a cama. Pergunte as minhas amigas sobre nossos inúmeros verões na praia. Eu sou a primeira a me atirar num colchão no chão, contanto que não tenha que dividi-lo com ninguém. Note, eu me mexo pra caralho, fico horas futricando no celular antes de dormir, sou fumante e sensível ao cheiro (que sei que não agrada ninguém) e ronco. Jesus amado, como ronco. Botaram uma britadeira no lugar do meu sistema respiratório, só pode. Além disso, acordar perto de mim é uma atividade de alto risco. Sou daquelas que acha que deveria ser ilegal conversar com as pessoas antes do primeiro café.

Sendo assim, e considerando os meus anos de solteira, confesso que já virei muita noite em claro, pela simples inabilidade de relaxar e adormecer do lado de alguém.

Acontece que há algumas semanas, socorro, tem alguém dormindo na minha cama. Ok, pretensão a minha dizer isso. Mais sinceramente, tem alguém dormindo na cama dele. Ou não dormindo, no caso. Eu. Nas primeiras noites, o desconforto bem conhecido. A busca eterna por uma posição de conforto, horas encarando o teto, o malabarismo a lá Cirque Du Solei para tirar um cotovelo enorme de cima da minha teta e a tentativa ridícula de parecer linda ao acordar. Que gastura!

Mas lá fui eu, tentar entender a mágica da tal da conchinha, tendo quase certeza que sou mesmo é um ouriço de pijama. Eu não sei onde enfiar meus braços. Fico desconfortável pra ir ao banheiro /tomar água/ir no banheiro de novo. Tenho medo que meus cabelos sufoquem meu companheiro de travesseiro. E sofro com nossos fusos incompatíveis.

Dormir acompanhado é muito cansativo pra mim. Até a bela noite em que eu – exausta – relaxei e dormi por algumas horas, apenas para despertar no meio de um peido, furtivo e sonoro, que me acordou num susto. Eu quis morrer. Espiei com um olho aberto e outro fechado por trás do meu travesseiro se a outra parte da cama reconheceria a intimidade inadequada do meu intestino grosso. Nada – ou dormia solenemente, ou me fez a cortesia de ignorar a minha vergonhosa sonoridade. Como se o ambiente não fosse turbulento sem a minha flatulência… Enfiei a cara no travesseiro e fingi dormir até o outro dia. O peido só podia ser o meu castigo por adormecer.

Acontece, no entanto, que a privação de sono também pode enlouquecer (e ninguém aqui precisa ficar mais louca né). Depois de uma semana inteira tentando controlar o incontrolável, eu cedi à trama intricada de dois pares de pernas disputando harmoniosamente o mesmo edredom. Eu continuei com a minha rotina maluca, e indisciplinada de nunca ter hora pra dormir, mas aprendi a me deitar mais cedo pelo genuíno prazer de me aquecer ao toque da pele de alguém que me abraça com carinho. Na contrapartida, ele – que é de rotina matinal pré-cantar-do-galo – passou a vestir-se no escuro para não me acordar e a me enrolar como um temaki no edredom sempre que não podia me entregar mais “cinco minutinhos” de carinho por conta do trabalho.

Eu larguei o cigarro (ainda que em análise) e passei a celebrar beijos matutinos antes de escovar os dentes – realidade que eu achava que existia somente nos filmes. Abri mão de tentar ficar bonita ao acordar, porque ele tem mania de tirar fotos minhas dormindo e manda-las no meio da manhã, com a legenda “linda” logo abaixo – e por Jeová, como não ficar feliz quando alguém enxerga beleza no meio de uma macega de cabelos embaraçados e remelas? Gosto quando preciso de um espaço e ele negocia “um pezinho pelo menos” que eu tenho que deixar a disposição para que ele se encoste. Ou de como entende que por vezes eu preciso testar o outro lado da cama, porque ainda não entendo muito bem essa coisa de “lado da cama”.

Adoro buscar a luz dos olhos dele antes de sair catando a luz da tela do celular. Ou de como eu me sinto uma idiota sorrindo ao vê-lo dormir, ainda que com o maldito cotovelo em cima da minha teta – mas perto o suficiente para que eu possa sentir o cheiro da sua respiração. Eu que me condenava uma rebelde da conchinha, entendi que nos lençóis certos vale a pena pegar num sono. E cultivar sonhos de horas mais longas na cama – fazendo não muito mais do que dormir agarrado, feito um coala.

Por falar em coala, aqui na Austrália já é hora de dormir. Que felicidade.


Fim da sessão.
ps: tenho certeza que ele ouviu o meu peido

Preciso de um amor pra velhice

Preciso de um amor pra velhice

Eu nunca me vi tendo a necessidade de um relacionamento. Sabe, eu gosto de enrolar meus pés em alguém querido embaixo das cobertas. Amo beijos estalados. E adoro sexo com sentimento. Mas eu nunca pensei comigo “meu Deus, preciso de um relacionamento”. Eu preciso de dinheiro na minha conta. Preciso baixar meus triglicerídeos. Preciso trocar o óleo do meu carro. Ou seja, eu não preciiiiiso de amor. Amor me parece muito mais uma escolha do que uma necessidade, concordam?

OK, talvez eu esteja sendo um pouquinho infame quanto a “não precisar” de um amor porque a minha idade ainda me permite algum desdém (ou certa infantilidade). Veja, eu ainda olho pra minha bunda no espelho e consigo me achar um tesão. Cuido da maioria dos meus perrengues com um pé nas costas. Adoro a minha companhia, e dificilmente me sinto sozinha. Minha família me quer (na maioria das vezes) por perto. E eu tenho uma pá de amigos que largariam tudo para tomar uma gelada comigo. E isso é muito legal, mas é também uma condição associada à juventude. Foi aí que pensei que amor e necessidade poderiam sim, estar relacionados, quando colocarmos o fator idade na equação.

Hoje me peguei catando conchinhas na beira da praia. Fui de manhã cedo quando o sol não estava tão forte. E porque segundo um amigo-aspirante-a-companheiro me disse, eu tinha que “movimentar a minha carcaça preguiçosa” para viver mais anos. E ele não podia estar mais certo. Enquanto eu escolhia as conchas de cores lindas com cautela, o rapaz de corpo atlético e olhos da cor do mar, caminhava alguns passos a frente, dando soquinhos no ar, simulando uma luta – como os garotos fazem, sabe? Ele aguardou com paciência eu pegar uma a uma das conchas que queria. E quando finalmente o alcancei no fim da praia, beijou a ponta do meu nariz e disse como eu ficava linda sob a luz do sol.

Foi ali que eu me dei conta de que em algum momento, eu vou sim precisar do amor de alguém. E não estou dizendo aqui que todo mundo precise. Mas eu vou precisar. Quando a minha bunda não for mais motivo de orgulho, eu quero que alguém ainda olhe pra ela com interesse – me convencendo de que a beleza da minha retaguarda, será por onde ela já sentou para olhar o nascer ou pousar do sol. Quero que alguém beije as minhas marcas de sorriso – aquelas injustamente chamadas de “pés de galinha” – e as aprecie por serem marcas da alegria de uma vida inteira. Quero alguém preocupado com meus triglicerídeos e com o óleo do meu carro, quando a minha memória tirar o melhor de mim.

Alguém que faça questão da minha companhia, quanto eu já não for mais tão independe, e meus filhos já não tiverem mais paciência para a minha rabugentice. Ou quando a maioria dos meus amigos já tiver partido para festa no andar de cima. Alguém que me ajude a achar meus óculos, quando os mesmos estiverem na cabeça.

Preciso de um amor pra velhice porque em algum momento da vida a gente precisa ser lembrada que valor não tem validade, que a beleza está além do colágeno e também porque já não serei tão jovem a ponto de achar que sei de tudo. Preciso de um amor pra velhice, pra fazer dela a melhor idade. Aliás, preciso e quero um amor pra velhice.

Nem que seja pra ver aquele belo sorriso e a aquela careca refletindo o sol, aguardando pacientemente, enquanto eu pego conchinhas na beira da praia.

Fim da sessão.

Grelo Azul – a sina de um tesão não atendido

Eu juro que fiquei temerosa quando senti pela primeira vez. Segurei o segredo comigo, e jurei que tinha alguma coisa errada lá em baixo. Eu já havia ouvido falar sobre as tais “bolas azuis” ou “roxas”, condição descrita pelos rapazes quando ficavam muito excitados e por algum motivo repreendiam a “descarga elétrica”. Mas eu era uma garota, não tinha pinto, ou tampouco bolas, e por isso fiquei preocupada quando pela primeira vez o tesão me deixou na mão e uma dor latente bateu na porta do meu prazer. Tum-tum-tum ecoou na minha vagina.

A primeira atitude foi procurar um médico, claro. Expliquei a minha condição e a ginecologista deu de ombros. Disse que não havia muita incidência do que eu havia descrito, e depois de me examinar alegou que eu estava saudável, e que não havia nada de errado lá em baixo. Ou dentro. Ou em qualquer área envolvida com a minha libido. Não satisfeita, fui pesquisar a minha conjuntura na internet. Encontrei uma ampla bibliografia sobre a condição masculina – é claro – em que as famosas “bolas azuis” eram descritas por entendidos como o “represamento” do líquido seminal dentro da próstata, das vesículas seminais e também dos testículos.  Nada fazia referência à natureza feminina deste “represamento”. Por dias me peguei pensando se haviam bolas azuis dentro de mim.

Fui mais afundo na minha inquisição – eu não conseguia aceitar a ideia de seguir com aquela inquietação – nas calcinhas e na cabeça. Medicina ou bibliografia nenhuma podia ser fonte mais segura do que os bons e velhos grupos de Whatsapp dazamigas. E foi lá, na intimidade de grupos só de meninas, que para a minha surpresa, eu descobri que não era a única que sofria da condição que batizei de “grelo azul”. A minha pesquisa levou-me de encontro a mulheres de todas as idades – cuja excitação não “atendida”, resultava em uma dor latente que podia ser tanto no interior da barriga (abaixo do umbigo), como também uma pressão, quase uma dormência, sobre os grandes lábios.

Ouvi as vítimas desta aflição temporária de forma atenta e curiosa. Fiquei feliz por encontrar outras que como eu, sofriam da mesma forma com o rala-e-rola interrompido. O meu grelo-azul não estava mais sozinho. E na falta de bibliografia mais científica, eu decidi compor uma ideia mais poética do saudosismo deixado por uma excitação que partiu.

Dor de tesão ou “grelo azul” é a presença da ausência. Ausência das delicias que foram insinuadas pelo restante do corpo, quando abruptamente o prazer mudou de rumo.  É o aquecimento fulminante encerrado por um balde de gelo, quando o corpo não teve oportunidade/tempo de esfriar naturalmente. É a indignação de um clitóris. O estresse de uma periquita. O injuriar de uma pepeca. O lamento de uma lubrificação perdida. O reclamar em alto e em bom tom dos grandes lábios. É o latejar físico da desesperança. A fome insaciada. O desejo agonizando.  A ânsia, a agonia e angústia de ver a chance de um orgasmo dizer adeus, ou pelo menos “até breve”. É o aprisionamento da vontade. E dói. Dói de verdade.

O grelo azul não é lenda urbana. E tão pouco uma invenção das moderninhas. Muito menos uma condição digna apenas das “safadas”. Não importa se a interrupção do tesão foi porque não havia tempo, ou por conta de uma intervenção externa, ou ainda se no caso mais comum, porque faltou estrutura para entrar em campo – o famoso “eu não tenho camisinha”.  Às vezes a dor surge de uma conversa acalorada ao pé do ouvido, um nude sacaninha no celular ou aparece na lembrança de um tesão que mora longe. O grelo azul existe, e sofre junto com a gente.

Durante este pequeno estudo que fiz – sem compromisso com amostragem, e que tem margem de erro de duas pepecas para mais ou para menos – eu me convenci que não existe necessidade de comprovação científica para justificar a nossa inquietação (até porque pouco estudo se dedica ao libido feminino – para muitos o nosso orgasmo ainda é um mito). Entretanto esse represamento de alegria de fato lateja em muitas de nós mulheres, para ser considerado uma condição exclusivamente masculina. Mesmo porque se o tesão é compartilhado, a consequência de sua falta também, não faz sentido? Até o dia – é claro – em que a excitação represa para aventuras mais promissoras. E acha seu rumo nas descargas mais genuínas.

Não tem antídoto mais gostoso para essa dor do que o prazer atendido. E aí minha gente, não tem grelo azul que não fique colorido. Aí é a vida que fica mesmo TUDO AZUL.


Fim da sessão.

Ele é de câncer

Não sei o quanto a influência do cosmos interfere na relação das pessoas, mas nunca neguei a forte presença de aquário na maneira como eu levo a vida.

Já tive virginianos que ferraram com a minha estrutura, em compensação três das mulheres que mais amo e me toleram são do mesmo signo. O meu irmão e também melhor amigo era de peixes, o que fazia sentido já que ele – de peixes- e eu – de Aquário- nos completávamos. Ao contrário, é claro, de muito pisciano que eu já quis matar por viverem no mundo da lua. Ou seja, o horóscopo acerta e erra comigo o suficiente para que eu tenha as minhas dúvidas.

Mas ele é de câncer e acredita no poder das estrelas. Emotivo e intenso, disse que a culpa é do elemento água que rege sua personalidade. Ele me explica que eu sou elemento ar, mesmo sendo de Aquário, o que pra mim não faz sentido. Pouco de câncer faz sentido pra mim. Ele não disputa com a minha liderança como alguém de Leão faria, pois vaidade não é o negócio dele. Tem tantas perguntas sobre a vida quanto Libra, e a energia por metas e novidades como um Ariano. Ele é fiel como Touro, entretanto não gosta de ciúmes. Ele é de câncer, o que é uma incógnita pra mim.

Eu tento ler seus olhos claros, que ele jura que são verdes, mas que eu juro que ficam azuis quando ele está feliz. Talvez seja uma coisa de câncer ser camaleão, em que nem uma coisa óbvia como a descrição dos olhos é simples com ele. Gosta de atenção, e nisso eu culpo o signo – carma também dos meus irmãos gêmeos e de uma amiga manhosa que Londres me deu, todos cancerianos. Ele é de câncer e tem o coração brincalhão. Faz carinho numa hora, e na outra coloca um dedo lambido na sua orelha provando que quem é de câncer não envelhece. Finge retirar a pinta que eu tenho embaixo do lábio e coloca em algum ponto do próprio rosto, em meio à gargalhadas. Ele tem a inocência que alguém de Escorpião consideraria tolice, mas ele é de câncer, so he doesn’t care.

Ele é de câncer, e como todo canceriano, é caseiro e gosta de família. Mas ele admira a minha habilidade social e meu interesse constante pela muvuca, ainda que ele esteja longe de ser um ermitão. O caranguejo dele não apresenta riscos de me machucar, e eu não sei porque isso me atrai, já que eu sempre tive o dedo podre de escolher quem apresentasse a maior probabilidade de me magoar. É observador, e diz que eu sou linda assim que eu acordo, com o rímel que eu insisto em não tirar e que pela manhã me borra até a altura da minha bochecha. Diz que meu cabelo é sensacional, mesmo quando tenho a franja grudada na testa pelo suor provocado pelo calor do sol do meio-dia ou daquele que ele provoca a meia-noite. Ele é de câncer, e parece ser meio louco quando gosta das coisas que eu mais abomino em mim. Mas confesso que “linda” é um estado de espírito que me desperta sempre que o adjetivo cai da boca dele, seguido de um beijo demorado.

Ele é de câncer e sua sensibilidade por vezes beira o descontrole, por isso ele diz que eu sou racional. Logo eu, racional. A dona do divã. Mas eu invejo a sapequice dele e a crença que ele tem de que tudo sempre vai dar certo. Ou do encantamento de como ele olha o mundo. Prova a maturidade emocional dele quando respeita a minha rebeldia aquariana (leia “tolice aquariana”), quando ajo daquela forma de quem diz “eu não sou obrigada a nada”, e concorda que de fato eu não sou mesmo, e assim me ganha mais ainda. Exige meu tempo sem parecer vulnerável ou piegas (até porque o contrário me embrulharia o estômago).

Ele é de câncer e faz pensar que minha tão estimada liberdade é um artigo de luxo dispensável perto do que ele me entrega quando eu me jogo no seu abraço. Perigoso esse signo de câncer.

Já me peguei suspirando alto, ou sorrindo abobada quando ele me explica a força dos quatro elementos nos signos. Acho graça de como acredita que saca completamente as pessoas toda vez que descobre qual é o ascendente delas, ou de como a lua tem efeito sobre as marés e sobre o meu humor. Ele é de câncer e o efeito dele em mim me inspira. Como outros musos inspiradores que já passaram por minhas histórias. Mas ele é diferente, ele é de câncer.

E ainda que eu tenha dúvidas sobre a real influência do seu signo, se ele combina com o meu, ou até mesmo qual a verdadeira cor dos seus olhos, uma certeza fica: eu adoro o jeito como ele olha pra mim. Com seus olhos verdes ou azuis. Mas também, pudera: Ele é de câncer.

Fim da sessão.

Amores de verão

Lembro de amores de verão datando o mesmo tempo que lembro de ir para a praia. Eles acontecem como aquelas tempestades de final de tarde. Você nunca prevê quando e como elas chegam, mas sabem que elas são garantidas na temporada de férias, tal como praia cheia, milho caindo na areia e uma tostada do sol. Amores de verão estão no itinerário da estação e para eles não tem protetor – ardem e deixam marcas.

O meu primeiro amor de verão foi o Marquinhos. A gente tomava sorvete todo início de noite sob a supervisão da irmã mais velha dele. Na verdade, nós dois eramos a desculpa da irmã dele para dar um rolê, pois na maior parte do tempo em que eu tomava sorvete com o Marquinhos, a Carla, irmã mais velha dele, se amassava na praia com um garoto de tatuagem tribal no braço. A Carla voltava para o camping e me entregava para os meus pais, e depois ia para casa com o irmão mais novo dizendo que ele havia se comportado, disfarçando os lábios esfolados de tanto beijar. Eu adorava o Marquinhos e o sorvete. Mas não via a hora de queimar na mesma febre da Carla – os amores fervorosos da estação mais quente.

Todo verão, não importava a minha idade, eu me despedia de um amor de verão com juras de comprometimento eterno – de resguardar-me o ano todo. Prometia escrever e visitar. Poucos destes romances resistiam as águas de março. Ao longo dos meus amores de verão, eu fui aprendendo que eles não subiam a serra – não por uma questão de regra, mas muito mais por uma tendência. Era como se alguns calafrios pertencessem somente aquele período que a gente tira para curtir a vida. Alguns abraços só surgissem acima das dunas, e alguns beijos necessitassem da água do mar. Mas sua curta duração era proporcional a sua intensidade.

Tenho fraco por amores de verão, da mesma forma que tenho fraco pela vida que se leva na praia. Talvez porque as coisas sejam mais simples, e as decisões não tenham tantas ponderações. Tudo pode começar com um “fica comigo essa noite” ou “vamos ficar juntinhos” sem que isso soe como uma proposta indecente ou o primeiro passo para um relacionamento complicado. “Fica comigo” às vezes pode durar uma temporada. Ou tem a duração de um sol nascendo. O tempo não faz a regra aqui.

E para alguém que é um furacão como eu, que faz tudo demais, pensa demais, fala demais, analisa demais, é alívio encontrar situações que me fazem parar e esquecer do tempo. Encontrar pessoas que anulem o resto das mais de 7 bilhões de pessoas na Terra e alguns marcianos, nem que seja por alguns instantes. E os amores de verão são assim. São únicos, intensos e marcantes.

Penso que a culpa pode ser do mar. Uma influência do ambiente. Não tem nada que me desconserte mais que um banho de mar acompanhada. Não sei se é falta de roupa entre os corpos, ou se o cheiro do sal misturado com o suor. Me convidar para um banho de mar tem o mesmo frisson de um primeiro beijo. Uma adrenalina a cada onda. Acho que Iemanjá gosta de ver corpos entrelaçados, e por isso promove uma gostosa hidromassagem com o ritmo das marés para os casais recém-formados. Eu faço uma prece sincera por cada beijo salgado que já ganhei, dei ou roubei.

As vezes me pego pensando que a culpa também pode ser da areia. Um abraço a milanesa me parece ter o mesmo apelo que um bife da mesma modalidade – é uma camada a mais de gostosura. Dica: peça alguém para massagear seu pé sujo de areia –  a mão carinhosa unindo forças a milhares de grãos em uma esfoliação natural. Você vê estrelas mesmo com o sol a pico, eu prometo. E por falar em sol, não quero nem começar a falar sobre a minha percepção em relação a passar o protetor solar em curvas recém-descobertas. Pescoço, costas, aquela linha da cintura que termina no caminho da virilha, bermuda a dentro. Pedro Bial não ama tanto o filtro solar como eu, garanto.

Mas talvez o que mais me seduz nos amores de verão é a celebração da alegria do outro. Eu sou suspeita já que para mim não existe nada mais sedutor em alguém do que a sua felicidade. E férias promovem uma mudança no nosso status quo. Verão proporciona essa alegria, e assim as pessoas ficam mais bonitas, mais saborosas. Pessoas alegres são mais atraentes, não tem discussão.

Amores de verão são como aquele picolé do melhor sabor que congela o nosso cérebro, porque o tomamos muito rápido sabendo que ele pode derreter e se esvair.

Ora, mas pode ser que eu ainda esteja sob efeito do amor de verão ao ponto de super valorizá-lo. Eu ainda tenho os lábios esfolados de beijos na praia (a irmã do Marquinhos manjava dos paranauês), e a cabeça girando de tantas batidas que dei nas estrelas do céu na carona de um foguete chamado “preliminares de horário de verão” – que entregam sempre uma hora a mais. Quem sabe esse tipo de amor só exista mesmo na minha cabeça, que é apaixonada pela primeira estação do ano e tudo que ela traz.

Ou não, ou de fato estes amores sejam mesmo um fenômeno de verão, que vão e volta com as marés, mudam com o vento, ou chegam de repente como as tempestades tropicais. E se assim for, meu único desejo é deixar molhar mesmo. No mar, na chuva, ou no calor incomparável dos amores de verão.

Fim da sessão.

Ahhh novinho…

Eu sempre gostei de caras mais velhos que eu. Sempre. Desde a adolescência, e para o desespero dos meus pais, os rapazes com mais idade sempre atraíram a minha atenção. Eu ouvi dizer que as mulheres amadurecem mais cedo, e eu usava essa teoria para justificar minha admiração pelos anos a mais que meus affaires detinham. E foi assim, por um bom tempo.

Eis que como tudo na vida se transforma, estou numa fase engraçada quanto a relacionamentos e faixas etárias. Perceba que os caras da minha idade – 30 e poucos, ainda buscam mulheres mais novas – 20 e poucos. E os caras de 20 e poucos, bem, esses também, quase que na maioria, não procuram parceiras muito longe da sua geração. É como se em uma reunião dançante (sim, eu sou dessa época), todo mundo fosse escolhido para dançar, e eu aquela que ficou com a vassoura.

Ok, essa não é nenhuma ciência exata, quanto menos uma teoria metodologicamente fundamentada. É muito mais um ibope segundo Antônia, sem nenhuma preocupação com exatidão dos fatos, e quantificado pela minha experiência pessoal, que outras mulheres podem ou não se identificar. E talvez isso não tenha nada a ver com a idade, mas sim com afinidade. Ainda assim, o fenômeno me inquieta. O que aconteceu com o mercado das balzaquianas?

Analisando o conjunto da obra, às vezes tenho impressão que a culpa é do marketing que gira em torno da minha geração. Sou do grupo de mulheres que são julgadas como “as mulheres que querem casar”, e assim parece que fomos tomadas por algum tipo de doença cujo sintoma principal é a urgência sangrenta em carregar pobres almas para o altar. The Walking Dead to get Married. Ah, ainda tem quem diga que as mulheres de trinta têm o fantasma do útero-bomba-relógio fazendo tic-tac ditando regra para as nossas vidas e escolhas. Agora vem cá, não tá na hora de demitir os responsáveis por essa campanha de marketing que diz que a balzaca é a porta das desesperadas? Vocês estão ferrando com a minha turma!

Talvez por conta da escassez de homens da minha idade na minha horta, eu comecei a olhar para a horta vizinha. E posso dizer que tive a feliz experiência de parar de julgar os novinhos, e beber desta fonte da juventude. Assim como tantas mulheres da minha idade, eu também não tenho pressa em casar, e sei que nem todo lance vira romance, e sendo assim, muito despretensiosamente, eu cai pra dentro da toca do coelho e fui para no país das maravilhas.

Eu deixei um novinho entrar no meu mundinho e também nos meus lençóis, e a surpresa foi pra lá de positiva. E aqui, que fique bem claro que o “novinho” em questão tem mais de 20 anos e é responsável pelas próprias decisões. O que descobri é que o novinho compensa a falta de experiência com energia e criatividade. Ele pode não saber o que fazer com precisão, mas não vai ter vergonha de perguntar o caminho certo. Usa a língua como sua arma, e não pensa duas vezes em botar um gelo ou um Halls preto pra jogo. A velocidade pode ser um pouco acelerada, mas o combustível dura longas viagens, o que faz da aventura uma experiência sensacional e deliciosamente exaustiva.

O novinho não tem muitos pudores em fazer contato ou falar que está afim. Talvez porque ele não carregue tantas decepções nos “quilômetros de desvantagens” que acumulei de viagens passadas. Ele me chama de “amor” sem compromisso, mas quando vê meus olhos arregalados responde em tom de deboche – “eu chamo todas assim, pra não errar o nome”, e dá risada, enquanto sou obrigada a rir também de sua petulância moleca. Ele adora provocar, e depois me adocica com um novo “amor” aqui e um tapa na bunda ali. É o tipo de cara que pula de trás do sofá para me dar um susto, ou liga a água do chuveiro no gelado só pra me ouvir gritar. Faz-me rir, além de gozar. Dá leveza tanto ao carinho quanto a sacanagem.

Ahh novinho, que grata surpresa te descobrir nesta fase em que me cobram buscar um compromisso, posar de bela, recatada e do lar. O novinho cozinha um prato elaborado que ele pesquisou no YouTube, enquanto joga os lençóis suados da minha cama na máquina de lavar. E eu já não me importo que ele ande pelado pela minha casa como se fosse o dono do pedaço, ou que me mande fotos de cueca enquanto tento parecer concentrada no trabalho. Adoro quando ele pede para que eu escolha a sua camisa, quando finalmente decide se vestir. Tem uma displicência tolerável, quase invejável, no novinho. Eu odeio/amo como ele me atiça e me faz parecer mais nova do que ele, sedendo às suas instigações e pirraças. Talvez seja exatamente isso que eu goste no novinho. Da lembrança de que eu também sou nova, de fato, não importa o que o marketing social injusto tenha feito pela a minha geração.

Eu sei, dizem que idade é só um numero, mas às vezes precisamos de um lembrete de que este número não deveria nos definir. E eu aprendi isso com um novinho. Isso e o valor do Halls preto.

Ahh novinho… você sabe muito.

Fim da sessão.

Desculpe o transtorno, mas eu cansei de falar de ex.

Desde o lançamento da música Hello de Adele, não havia tanta gente pensando no ex, como nesta segunda-feira, quando Gregório Duvivier abriu seu coração para a ex Clarice Falcão (e para o resto do mundo). A maioria de nós costuma guardar suas dores e sabores sobre o ex em um bloco de notas dentro de uma pasta oculta no computador, nas últimas páginas de um caderno antigo ou nas lágrimas rolando enquanto cantamos um sertanejo chorado. São tantas cartas não enviadas, e mensagens apagadas, que a atitude de Gregório foi avaliada pela maioria como corajosa, e com certa vergonha alheia pelo restante. A coluna dividiu opiniões, apesar do tom incontestável de fofice.

Li cuidadosamente os comentários de meus amigos no saudoso texto à Clarice, e a euforia em cada compartilhamento, e me pus a pensar quem deles teria a mesma atitude de Gregório. Peguei-me pensando se eu mesma teria, e tive as minhas dúvidas. Não me leve a mal, acho lindo que Clarice e Gregório tenham uma relação saudável pós-termino, mas convenhamos que as probabilidades do desfecho ser positivo, são menores do que maiores. Até porque não é a toa que o texto veio certo tempo após a separação. Dar-se bem com o passado, por mais feliz que ele tenha sido, leva tempo. A dor da perda precisa de espaço. A ausência tem que virar costume. E o silêncio, muitas vezes, é fundamental para a cura.

Mas fiz um ensaio como Gregório. Separei meus antigos amores em 3 grupos:  1) aqueles para os quais eu escreveria, 2) aqueles para os quais eu não escreveria nem sob tortura, e 3) aqueles que rasgariam a minha carta antes de ler.

Avaliando os exs para os quais eu escreveria, pensei que lhes diria como o tempo nos fez bem. Que os seus aniversários seguem na minha agenda mental com carinho, e que eu torço pela felicidade deles. À estes contribuintes da minha bagagem emocional, diria que tudo que levo são boas lembranças, não porque não dividimos perrengues, mas porque a vida se encarregou de apagar qualquer mágoa que tenha ficado. Agradecer-lhes-ia pelos colos que recebi, pois eu sei, eu sempre fui difícil na hora de ganhar colo. Não pediria desculpas por nada, pois a esta altura já não faria mais sentido, mas avisar-lhes-ia que eu hoje sou melhor por causa deles. Iria agradecer por me ensinarem tudo o que eu quero num parceiro, tanto quanto agradeceria por terem me ensinado o que eu já não quero – e que como foi importante chegar até aqui com estes parâmetros.

Àqueles que eu não escreveria nem sob tortura, revisei os motivos do porque e vi que as razões vão além do meu orgulho. Surpreendentemente. Entendi que alguns amores não se dissipam com o tempo e viram apenas boas memórias como nos casos do parágrafo acima. Alguns amores se transformam em sentimentos mais amargos, como rancor ou desdém, e estas são emoções que eu não gosto de revisitar, então pra que fazê-lo? Os representantes deste grupo tiveram todos os meus verbos, palavras e conjugações. Nossos argumentos foram exaustivamente analisados por um vasto período e os dias atuais lhes garantem apenas uma palavra monossilábica como “oi” ou um acenar de cabeça, e olhe lá. Garanto, é melhor assim. Fato, é que esse papo de “é sempre amor mesmo que acabe” ou “se está mal resolvido é porque existe algum sentimento” é uma tremenda bobagem. Sim, a gente se amou um dia. Mas não se ama mais, nem nutre algo como respeito ou carinho pela história que ficou, então pra que fingir simpatia? Não desejo mal a estes cidadãos, do contrário, lhes desejo muito bem… bem longe de mim.

E finalmente para aqueles que rasgariam a minha carta antes mesmo de abri-la, confesso que por esses representantes não nutro nada além de empatia. Sincera e generosa. Eu não estive certa o tempo inteiro nos meus relacionamentos e inclusive muitas vezes eu soube ser uma vaca. Sendo assim, da mesma forma como quero distância de algumas bagagens, eu não tenho dúvidas que eu seja a mala sem alça de alguém, louca para ser perdida em um redespacho na Tailândia. Hoje eu já desisti da comunicação com esse grupo, mesmo que com a melhor das minhas intenções. Seria arrogância minha forçar a barra. Óbvio que eu levei 4 emails não respondidos e um block no Facebook para entender a mensagem – ora quem nunca – mas hoje eu já fiz as pazes com os silêncios que levei. E agradeço também a eles, como ferramentas de análise da minha própria consciência.

Eu demorei muito tempo para parar de remexer no meu passado, e confesso que meus ex-amores só tornaram-se amigos com esforço mútuo, tempo e espaço. Porque antes de falar de ex, é preciso fazer uma faxina na bagunça que é uma separação. E é importante destacar que eu só comecei a olhar para frente, depois que deixei de revisar os meus passos olhando para trás. Talvez Gregório e Clarice sejam seres superiores na arte do desquite. Talvez a coluna tenha sido uma ação de marketing em cima do novo filme da dupla. Não importa. Mas antes de sair suspirando com saudade do ex, e lhe mandando textão no Facebook declarando como vocês foram felizes, convido a um exercício.  A minha melhor amiga me ensinou uma estratégia muito simples para decidir falar com ou para um ex, uma pergunta simples que sempre me botou a pensar, mesmo quando estava decidida pelo contato:

Antônia, você está preparada para a resposta que vai ouvir? E para a falta de resposta?

Responder essa pergunta sempre me deu paz, qualquer que fosse a minha decisão depois dela. Então antes de sair jogando os verbos no ex, pense nisso. Ou no fato de que Clarice ainda não respondeu a carta do ex. E muitas vezes o silêncio vai falar mais alto.


Fim da sessão.