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Análises e devaneios

As palavras e eu

Desde pequena eu sempre fui encantada com as palavras. Logo que uni minhas primeiras sílabas fiquei chocada com a lógica de que, juntando um punhado de letrinhas que sozinhas não tinham o menor significado, elas formavam palavras que descreviam o meu mundo. “Bo-la” “ca-ma” “va-ca”. Eram palavras simples no início, mas eu pirava nas possibilidades. Minha mãe, como alfabetizadora colocava a maior pilha, e logo me ensinou que com as palavras eu podia contar histórias. E mais do que palavras, eu amava histórias.

Lembro até hoje da primeira história que inventei. Estava na pré-escola, e fiz com cartolina amarela e todo esmero uma galinha e dois pintinhos – eu tinha ganhado um irmãozinho havia pouco tempo então a trama era praticamente a minha primeira biografia, aos 6 anos. Não era nenhuma obra prima, mas lembro de contar a história para a minha mãe, e ela jogar todas as minhas palavras num lindo papel com linhas rosinhas. Fiquei muito entusiasmada – através das palavras eu podia registrar meus pensamentos, meus sentimentos, minhas histórias. Foi amor à primeira escrita.

Meu amor então foi crescendo. Passou pela fase das histórias em quadrinho, depois foi para os livros. Era uma voraz leitora, e muito mais, uma ágil escritora de cartas. De todo tipo – amizade, amor, de fã club do Leonardo di Caprio e dos Hanson. Tão logo veio a internet lá pra casa, a escrita significava alcançar o mundo, e logo minhas cartas viraram e-mails. Passava horas saboreando a escrita em sites de conversas do Terra, longas esperas da internet discada aos domingos para poder escrever para os meus amigos (aqueles que eu via diariamente na escola) tudo o que eu pensava no mIRC, ICQ e no mais recente falecido MSN. Aquela caixa vibrando contendo uma mensagem escrita era o mais próximo que eu chegava da excitação na adolescência.

Cresci e a escrita virou coisa séria. Contratos, orçamentos, briefings. Sofria ao ver tantas das palavras que eu gostava gastas em campanhas sem sentido, ou promessas sem verdade. Achava que trabalho muitas vezes prostituia aquilo que tanto amava em certas expressões. As redes sociais explodiram e deram voz para tanta gente boa, e tanta gente ruim também. Entre todas essas pessoas, me vi timidamente como a escritora de 6 anos de idade, lá traz, voltando a escrever mais histórias sobre a galinha e seus pintinhos. Minha voz voou longe, e quando percebi, eu criava um espaço de troca de mensagens com gente que nunca conheci, mas que como eu, amavam histórias.

Nos últimos 2 meses, buscando palavras para aquela que podia ser a minha primeira obra oficial, vi-me paralisada sobre o teclado e a tela branca (que saudade da folha de linhas rosinhas). Nervosa por acreditar que pudesse estar perdendo as palavras de dentro de mim, joguei-me em uma procissão extensa lendo um livro atrás do outro. Quando percebi somava a 6ª obra de autores diversos em menos de 30 dias. Irritei-me por parecer tão fácil. E porque quando mais precisava das palavras, as minhas palavras, mais elas pareciam fugir de mim. Esbravejei por dias usando expressões de baixo calão – vocábulos dos quais eu não gosto tanto, mas que tem um efeito incrivelmente terapêutico na hora de extravasar.

Foi quando um dia conectei o celular na internet, e o whatsapp pipocou. Pensei que era mais algumas das palavras engraçadinhas que alguém jogava num grupo, e que sinceramente, ninguém dá muita bola. Mas não. Era uma mensagem da minha mãe. Aliás, do número dela. A mensagem dizia: “MANA EU ESTOU COM MOITA SAUDADE VOLTA LOGO EU TIAMO. MURILO”.

Dei-me conta que com a mesma idade que eu, o Murilo agora já ensaiava os seus primeiros versos. E com muito pouco, decidia deliberadamente me lembrar de lá do outro lado do mundo, o poder e o sentimento que podem carregar as palavras certas. E com esse simples gesto dele, fiz as pazes com palavras. Lembrei-me que não precisava correr atrás delas, porque elas estavam guardadas dentro do meu peito. E agradeci por através delas poder dizer tudo o que realmente importa.

“Murilo, a mana volta logo e também está morrendo de saudades. Te amo.” Mana.


Fim da sessão.

As grandes lições

Já percebeu como algumas das maiores lições da vida não são lhe entregues de mão-beijada? Existe uma premissa de que o conhecimento está associado com merecimento. “Cerca Trova”“Busca e encontrarás”, Giorgio Vasari já dava a dica sobre um dos maiores mistérios da história da arte. Conhecimento é algo valioso que precisa ser decifrado. Sim, porque coisas importantes não são simplesmente “largadas” por aí. Preciosidades são sempre protegidas por códigos complexos, segredos profundos, ou na mais fácil das hipóteses, trancafiados a sete chaves. Ainda assim, conhecimento, mesmo que protegido, costuma ser acessível, lhes garanto. Ele é deveras democrático, por isso dificilmente será colocado sob uma torre de marfim.

As grandes lições da vida normalmente são encontradas em lugares comuns do nosso cotidiano. E cabe a nós – única e exclusivamente nós – decifrar os códigos únicos para destravar novas etapas de conhecimento. Tipo, passar de fase no candy-crush, só que melhor.

Grandes lições podem vir nas mais variadas formas, como através de livros, cursos, jornadas. Eles podem ter caráter bem pessoal, ou atingir níveis mais superficiais de aptidão. Às vezes essas lições nos são passadas por outros mestres, como professores, pais, gurus, entidades, ou mesmo por mestres que nem sabiam que foram nossos mestres – um irmão, uma amiga, um desconhecido especial que cruzou a nossa cruzada. Tem gente que encontra suas respostas num encontro com a morte, outros que despertam para vida com o nascer de uma nova. Como afirmei antes, as lições são bem democráticas, além de polimorfas e sem aviso prévio.

Algumas das minhas respostas, por exemplo, eu encontrei na terapia depois de anos de reflexão. Outras a vida me jogou na cara em segundos. Dos aprendizados que coleciono, o meu mais valioso (aquele que eu desencavei de uma arca profunda do inconsciente),   é o de estar sempre alerta as grandes lições. Justamente por sua capacidade camaleônica de misturar-se com o conhecimento banal e passageiro. E principalmente por estar disponível em lugares menos óbvios. É como o santo graal no filme do Indiana Jones. Conhecimento nunca vai ser um cálice dourado, modelinho ostentação. Vai ser de madeira, palpável, disponível, compartilhável. Isso, é claro, se houver dedicação, e se estivermos ALERTAS ao conhecimento oferecido.

Dia destes, peguei-me assistindo pela milésima vez o filme “A Volta do Todo Poderoso”, em que o personagem principal, Evan Baxter, é convencido por Deus (interpretado por ninguém menos que Morgan Freeman), a construir uma arca. O plot é engraçadinho, mas me tem de verdade por três motivos específicos: 1) como o personagem principal eu também cultuo uma dançinha da vitória sempre que estou feliz, 2) sempre imaginei Deus negro, indiferente do que diziam as freiras do meu colégio 3) uma lição profunda e sincera sobre aprendizado e grandes lições.

No filme Deus-Morgan-Freeman explica para esposa do Noé Pós-moderno, que muitas vezes rezamos por algum tipo de conhecimento ou respostas às grandes lições da vida.  “Deus me faça mais paciente.” –  “Senhor engrandeça a minha coragem”. – “Pai (Alá – Oxum- quem-você-acredita), faça de mim uma pessoa melhor”. O que acontece, entretanto, não é a entrega de um pacotinho com esse novo conhecimento pronto para ser absorvido como a versão atualizada do iOS no seu iPhone. Deus, a sua entidade luz preferida, ou mesmo a vida, lhe apresentam oportunidades para ser mais paciente. São-lhe oferecidas oportunidades para edificar a sua coragem. O que você ganha é a oportunidade de aprender a ser uma pessoa melhor. A lógica me fez total sentido.

Desde então, me pego pensando no Deus-Morgan-Freeman, sempre que me vejo estagnada frente a uma tarefa que exige a pior das minhas habilidades (como paciência, por exemplo). E na medida do possível, eu encaro aquela nova cruzada alerta da oportunidade que eu tenho de aprender novos códigos, condutas e comportamentos para desvendar níveis superiores do meu conhecimento. Ou se tudo der errado – no mínimo eu vou aprender alguma coisa pra encontrar a minha paz de espírito.

Hoje conversando com uma amiga (alguém que eu considero de uma inteligência emocional acima da média), ela me contava como odiava agir de certa forma com as pessoas para que elas entendessem o certo do errado. E de como ela ficava mal frente a este enfrentamento. E mais uma vez me vieram à cabeça as palavras de Deus-Morgan-Freeman: “estás ganhando uma oportunidade de aprender mais essa lição”.

Sabe, às vezes nós recebemos lições duras da vida, e nosso coração se enche de pesar, e ficamos cegos de tristeza a ponto de não conseguir desvendar novos códigos de aprendizado. Outras vezes ficamos tão enfurecidos frente a um impasse, que somos incapazes de desatar os nós, ou procurar as malditas 7 chaves que abram a urna da iluminação. Ainda há quem perca a lição por achar que sabe tudo, ou por acreditar que tamanha inspiração jamais viria de uma fonte tão ordinária, uma determinada pessoa, um encontro, uma perda. Não se assuste. Aqui vai ter sempre o dedo de outro grande professor atento a tudo: o tempo, como senhor de todas as lições.

Hoje eu decidi compartilhar tudo que já aprendi sobre as grandes lições da vida: estar sempre alerta às oportunidades. E caso tenha perdido a lição, confie sempre no tempo, como grande professor.

Fim da sessão.

ps: Há pouco menos de 2 anos eu procuro todos os dias por oportunidades para aprender com aquela que considero a maior (e mais dolorida) lição da minha vida. E há pouco menos de 2 anos, a única certeza que eu tenho é que ela tem a ver com paciência e fé. Mas eu sigo alerta.

(não achei legendado, então vai o dublado pra quem não manja do inglês)

Comece antes de estar pronto

Meu trabalho e profissão viraram do avesso desde que eu decidi sair de um emprego fixo, com uma cadeira só minha e um cartão de visitas com o meu nome. Eu não tenho mais horário, rotina, e meu escritório é uma mochila nas minhas costas. A única coisa fixa nesta minha nova realidade é a mudança. Trabalho hoje com três empresas diferentes, diversos clientes, inúmeros formatos. Recebo inputs diários, consultas constantes, a minha pauta muda com as horas do dia, e humor da semana. Para alguém que sempre trabalhou com planejamento, esse novo formato é o próprio inferno. Acrescente a isso, uma fraqueza em cobrar ou precificar esforços. E como cereja do bolo, aquela velha ideia de que eu ainda não estou pronta para os desafios que me propõe. E quer saber da verdade, eu não estou mesmo.

“Eu não estou pronto!”

Aprendizado é um processo dolorido, que pode até envolver algum nível de preparo e planejamento, mas ele funciona mesmo é na prática. Eu já aprendi que erros são balizadores do sucesso. Não dá pra aprender a andar de bicicleta lendo livros, vendo vídeos no YouTube ou fazendo design thinking do projeto. Você até pode se preparar para pegar no guidom, mas só vai entender o relacionamento entre velocidade e equilíbrio, através do movimento. É o movimento que calibra a expectativa e a execução. Não tem outra forma. Ok, vão haver alguns joelhos ralados no processo, mas eles só existem porque houve tentativa. Sem tentativa, não existem nem os joelhos ralados, só uma ideia de andar de bicicleta. E ideias não chegam a lugar nenhum sem algumas pedaladas.

“Eu não estou pronto!”

Nunca antes estive tão insegura. Talvez por isso eu celebre herpes nervosas na boca toda semana e uma atividade estomacal digna de montanha russa (oversharing alert!). Às vezes, eu pego emprestada a convicção que as pessoas têm em mim para seguir funcionando. “Tenho um projeto que é a sua cara, fica tranquila, você vai tirar de letra” – ora, se alguém acredita em mim, como eu posso não acreditar? E desta forma eu uso agentes de mudanças que já deram os seus primeiros passos, como trampolim da minha transformação. Se eu não sei precificar meu trabalho, eu busco aqueles que não têm nenhuma dificuldade de cobrar até por seus espirros. Se eu não gosto de vender, eu me associo a quem venda até a mãe (metaforicamente, por favor). Eu busco referência naquilo que ACHO que não sei, ainda que por vezes me dê conta que eu faria melhor que as minhas referências.

Por quê?

“Eu não estou pronto!”

Verdade é que desde que toda essa nova rotina começou, eu nunca – NUNCA – senti que estava pronta. Nem todos os meus cursos, as horas de especialização e meu MBA em outra língua retira de mim a angústia causada pela ausência da plenitude. A ansiedade envolvida na sensação de achar-se crua, verde, imatura. E depois de 10 anos de análise nas costas, arrisco-me agora a dizer que esse estado de “prontidão” não existe. A maioria de nós segue correndo atrás do coelho branco dono do relógio, tentando entender a nós mesmos, até cairmos no buraco negro – do descobrimento e das maravilhas. Esse corre-corre tem sempre a mesma origem:

 “Eu não estou pronto!”

E não vamos longe. Tudo no meu discurso é muito lindo, muito alerta, mas a prática segue meio bamba. Veja, eu consigo operar para os outros ainda que de forma insegura. Mas quando se trata de um projeto meu, e só meu, pronto! Estou eu paralisada novamente olhando a bicicleta no chão. Imaginando cenários, minimizando obstáculos, tentando prever alta performance dentro da minha cabeça. A bicicleta tá lá, só me esperando. Inúmeras oportunidades de passeio perdidas porque estou esperando que o relógio apite o momento da minha maturação. Como se aprendizado fosse recompensado pela intenção, ao invés da ação.

“Eu não estou pronto!”

Esse ano eu decidi investir no meu projeto autoral, sabendo que não estou pronta, e que nunca vou estar. Vou dar essa banda de bicicleta, prevendo joelheiras, e sabendo que eu posso ralar até a testa, afinal, planejamento nenhum prevê como o mundo vai tratar seus sonhos. Então vou lá ver o que vai dar. Eu vou fazer do jeito que der, afinal, não estou fazendo muito pelos meus planos, sentada aqui fermentando os “e se…” da vida. Eu sou a única filha da puta atravancando o meu caminho. E talvez justamente por eu não estar pronta que eu vou ser mais tolerante com os processos, mais gentil com meus erros e mais sensível às lições.

Acredito que quanto mais a gente se convence de nunca vai estar pronto pra nada mesmo, mais a gente tem certeza que não tem dia melhor para subir na bicicleta do que hoje.

Comece antes de estar pronto.


Fim da sessão

Irmão é…

Ouvi dizer em algum lugar que a nossa construção é formada pela média das cinco pessoas com quem nos relacionamos. Lembro que o estudo provava por A+B que a nossa personalidade era a massa liquidificada dos nossos pais, irmãos, amigos, amores, na mesma proporção. Apesar de ser um estudo bem fundamentado, eu tive certeza que eu não era parte da amostra. Isso porque eu sei que metade de mim sempre foi, e sempre vai ser pilha do meu irmão. O restante dos 50% até pode espremer outras influências. Mas uma metade inteira é consolidada pelo elo que fiz com o meu primeiro e melhor amigo da vida toda.

Irmão é aquele cara que acredita que você pode consertar o redemoinho na franja dele com uma tesoura, e aguenta os próximos meses com um corte de cabelo ridículo por ter acreditado em você. É dividir cama de solteiro, e brigar pelo cobertor. É o cara que finge gostar de palhaços, quando você decidiu aparecer na festa dele fantasia como uma, esquecendo que ninguém mais gosta de palhaços aos 10 anos. E é também o mesmo pré-adolescente que te convida para ir ao banheiro de madrugada, quando você finge – junto com ele – que não tem medo do corredor escuro. É por quem você briga com garotos na praia, enchendo a boca deles de areia quando ousaram falar mal do seu irmãozinho.

Irmão é o primeira pessoa que vai fazer cara feia para os babacas que vão entrar na sua vida, fantasiados de príncipes encantados. Que vai acobertar tuas saídas furtivas para um sorvete com segundas intenções, e ouvir com atenção quando você contar que o seu primeiro beijo foi um nojo (e foi mesmo). Irmão é cara que vai brigar contigo pela internet discada, quando você insiste em namorar horas pelo telefone, com alguém com quem você acabou de passar o recreio junto. E vai tolerar teus ataques ciúmes e tua constante inquisição de irmã mais velha perguntando com quem você anda, e o que você faz quando não está por perto.

Irmão vai sair de casa com você, quando “casa” já não for mais sinônimo de tranquilidade. Vai morar num quarto de hotel por um mês enquanto as coisas se ajeitam , e te mostrar felicidade nas omeletes do café da manhã, quando nada mais parecer ter sentido. É quem vai segurar tuas lágrimas quando você estiver atrapalhada ou com medo. Dar-te força quando o futuro for incerto. Irmão é aquela pessoa que nunca te deixa sentir sozinha, mesmo quando o caminho é sinuoso, e você já não enxerga um palmo de alegria à frente do nariz. É o cara cujo amor você marca na pele, junto a um trevo de quatro folhas.

Irmão é a certeza da proximidade quando se está distante. É sintonia na descoberta de uma atração pop, e o back vocal certeiro naquele rock antigo que foi composto antes de vocês dois nascerem. É cara que te ensina a gostar de livros estranhos, e a quem você – depois de muita insistência – convence a dar aos musicais uma chance. Irmão é Londres, é Barcelona, é Madrid. É brigar na véspera de Natal, e fazer as pazes antes do ano novo. É morar junto, é brigar pela pia suja. Aliás, irmão é o único ser humano que vai tolerar encontrar seu vômito na pia do banheiro, sem lhe dar uma bela e merecida camaçada de pau – afinal o vaso com a descarga estavam tão pertinho. “Poxa irmã – você é a mais velha, cadê teu juízo?!”.

Irmão é nunca sentir-se só. Ou louca. É uma insanidade combinada, familiar. Uma tolerância garantida, não pelos traços genéticos, mas pelo amor forjado a ferro e fogo. Suor, sangue e lágrimas. É a única pessoa no mundo que não se esquece do teu aniversário. Ainda que nunca se lembre de te dar presente. Irmão é pra sempre… não é?

É. Irmão é pra sempre. E talvez por isso não ter mais o meu irmão ao meu lado seja a maior prova de que tudo o que passou valeu a pena. Porque cada perrengue dividido foi único e precioso, e me ajudou a juntar a coragem que eu hoje tenho de seguir adiante, ainda que os problemas não diminuam. Cada risada e musica cantada é a prova de que a vida é linda, e merece ser celebrada. E cada sonho construído não é apenas mais um compromisso com o futuro em construção, mas um ato de honra ao passado que edificamos juntos. Porque no fim de tudo, como eu dizia para o meu irmão, a gente só quer poder olhar a vida, e dizer “foi ducaralho, senhoras e senhores!”. Irmão é saudade para todo e sempre, com a certeza de que foi ducaralho, senhoras e senhores.

E se o meu irmão é o que acredito ser a metade de mim, e vice versa, a má notícia é que com sua partida, uma metade de mim também se foi. Mas a boa notícia (e essa que eu guardo com alegria no coração) é que a metade dele, em mim ficou.

Irmão é pra sempre, Léo. E neste 15 de março, no teu aniversário, eu vou seguir celebrando a melhor metade de mim.


Fim da sessão.

Desapego

Acordei hoje e dei de cara com a minha mãe animada com sua mais recente missão:  retirar a esteira elétrica de dentro do seu quarto – um equipamento que nos últimos meses (anos!) servira como varal para as toalhas de banho  –  e leva-lo para o andar de baixo da casa, onde eu e o personal trainer recém contratado, pudéssemos dar novo sentido aquele trambolho.

A tarefa não era nada simples. Julgamos que havia mais esteira do que porta, na nossa primeira avaliação. Analisamos ângulos e medidas com incredulidade: “como essa bosta entrou aqui? Pois se entrou, tem que sair!” – concluíamos com mais leviandade do que eu gosto de admitir.  O conceito era simples, é claro, mas a prática envolveu dedos amassados, dores nas costas e uma briguinha básica entre duas pessoas cansadas de gerenciar 3 toneladas de esteira. Tiramos a desgraçada do quarto, e a aposentamos logo ao lado do sofá da sala – 3 lances de escada de distância da nossa meta original, na garagem.

– “Acha que ela fica bem aqui na sala?”

– “Claro. Realçou o quadro da parede.”  Concluímos as duas sentadas no chão, lavadas em suor, encarando o amontoado de ferro, plástico, engrenagens e frustrações.

A esteira da minha mãe era como se fosse um elefante branco assentado na sala, gozando de sua inutilidade. Um elefante branco que ocupava lugar nas nossas vidas, e pouco contribuía. E a cada minuto a mais que sua grandiosidade improdutiva permanecia ali, eu me ocupava em analisar a quantidade de tralha que arrastamos vida adentro, e que nos trazem pouco ou nenhum sentido.

Eu nunca fui aquela pessoa vidrada em bens materiais. OK, eu tinha minhas blusinhas preferidas, o brinco da sorte e um tênis com o qual eu seria capaz de enfrentar o apocalipse. Sempre fui fã de grandes faxinas, mas guardava diários – ainda que estivessem tomados pela umidade. Eu sou aquela que se desfaz de um item quase novo, mas guarda em um saquinho transparente o chiclete (blé)  mascado que tinha na boca no dia do meu primeiro beijo. Eu tenho a tendência de transferir sensações para objetos inanimados. Uma tentativa desesperada de transformar memórias em algo tangível – como eu já declarei em algum momento por aqui.

Mas tem algo na quinquilharia que acumulamos que me incomoda. A gente guarda calças que um dia poderá usar, mas joga fora do nosso convívio, algumas pessoas que já amamos . Talvez porque julgamos que reduzir a nossa massa corpórea em 6 números de calça jeans seja mais viável do que manter por perto a lembrança de um amor que já não cabe mais. Não é estranho? Se apegar a peças de roupas que nunca mais vão servir, e descartar por completo pessoas cujas memórias um dia serviram perfeitamente? Por que acumulamos tanta coisa inútil?

Livros são ótimos exemplos de como aprisionamos a liberdade que poderia ser transitória. Eu nunca conheci alguém que precisasse de uma biblioteca, a não ser pela ostentação de preencher prateleiras.  Então por que não colocamos nossos livros em movimento?  Assim eles poderiam ter uma nova chance de seduzir outros leitores, ao invés de serem condicionados a virar comida de traça. E aqui não estou sugerindo que vivamos em completa desestrutura ou desleixo com nossos pertentes. Mas pra que a gente precisa de tanta tralha? Por que não olhamos para nossos bens materiais como o resto da nossa vida – fluída, mutável, temporária?

Me arrisco a dizer que, se tem um legado que minha vida na estrada deixou comigo, foi esse: viaje leve. E aprendi isso da forma mais literal, quando cheguei na minha primeira parada dos dois meses que eu havia planejado passar de mochila nas costas, eu simplesmente não suportava mais o peso da minha bagagem. E lá, em um hostel em Brussels, eu deixei pra trás o meu par de botas preferidas e uma calça de jeans nova – ambas, pesadas demais para as minhas costas. E confesso que foi um desapego difícil na primeira instância, mas a leveza que proporcionou, ajudou-me a seguir pelo restante de todo o caminho. Colecionando histórias, muito mais do que coisas.

E pegando o exemplo mais extremo de desapego que eu possa ter, reavaliei mais uma vez todos os pertences deixados pelo meu irmão. O livro que fez sentido pra ele. O perfume que deixou fechado. A jaqueta grande demais para me servir. E nesse processo, eu reconheci a importância de todos estes objetos, escolhi alguns poucos talismãs importantes, e coloquei os demais itens em movimento. Porque se a vida é mudança, transição e ascendência, não vale mesmo a pena colecionar âncoras.

Desapego é necessário. É um descarrego.

Porque a vida precisa de espaço. Do contrário sinto que seremos cada vez mais atolados de passado, atravancados  por obstáculos, abafados por elefantes brancos. Como a esteira inútil da minha mãe que agora me encara com pinta de reprovação enquanto disserto sobre o desapego. Me olhando do alto de toda a sua plenitude enorme e ociosa. E que sequer destaca o quadro na parede,  diferentemente do eu alegava mais cedo .

Decidi que a esteira vai pro OXL. E eu vou correr na rua. Afinal, faz bem mais sentido pra mim ir a lugares, do que sentir que estou correndo num lugar só, acumulando coisas e pó.


Fim da sessão.

O primeiro dia de aula

Segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Eu ainda consigo lembrar da comoção do meu primeiro dia de aula. De aula de verdade – não aquela recreação organizada que é o maternal e o jardim de infância. Aula da primeira série. A primeira série de muitas. Lembro-me do cuidado que minha mãe teve para organizar o meu material de forma sistêmica – tudo etiquetado, tudo combinando. O cheiro dos cadernos novos. As canetas. Eu estava oficialmente autorizada a usar canetas – ainda que fosse encorajada a usar o lápis antes. Na primeira série eu ia aprender as palavras – e eu sempre amei as palavras, ainda que não as entendesse.

Nesta segunda-feira eu revivi o meu primeiro dia de aula através dos moleques lá de casa. As badaladas das 6h30 tocaram, avisando que as férias haviam acabado. Nada de preguicinha no corpo. Os uniformes deles me lembraram a minha jardineira, ainda que não fossem tão coloridos. O sorriso de excitação tinha a mesma cor do meu aos quase sete anos. O Murilo tentou usar a lógica para ficar mais na cama – “mas a gente vai estudar todo dia, o que custa não ir no primeiro dia?”. Foi uma torcida de nariz da mãe para derrubar seu argumento, enquanto ela tentava com muito esforço domar a cachopa crespa do Mateus.

Revirei-me na cama por mais alguns minutos. Na minha condição de adulta eu já podia me dizer dona do meu horário. E da cama eu ouvi a doce melodia da primeira manhã agitada do ano. A mãe orquestrava com maestria o café da manhã, o preparo do lanche, a serelepice de ambos. Era tanta novidade e tantas perguntas que o sossego da minha cama já não fazia mais sentido. Ouvi o barulho da garagem, e corri apressada escada abaixo a tempo de roubar-lhes um beijo de boa sorte antes da aula. “Mana, tu tá com bafo!” – eles protestaram. E ganharam um segundo beijo só de implicância – coisa e irmã mais velha. Despediram-se abanando do carro, num misto de preguiça e excitação.

Eles dividiam esse dia, com a mesma alegria desajeitada e sonolenta que um dia, o meu irmão Leonardo e eu dividimos.  Um aperto de saudade despertou em mim.

O dia correu como outro qualquer para as adultas da casa. Contas para pagar, perrengues para resolver, dramas para acalmar. Um e-mail aqui, uma discussão ponderada dali, uma a uma as nossas metas sendo batidas ou procrastinadas. Olhando pra minha listagem de perrengues, cuja caligrafia segue parecendo a de uma recém-alfabetizada – voltei novamente à atenção para a minha primeira série. Havia tanto de mim que se criara dentro da escola – na mesma primeira série que nesta segunda-feira os meus irmãos iniciavam. O desejo pelo desconhecido. As cores da sala de aula. Os amigos novos. O desejo por desafios. O trabalho em equipe. Eu sempre tive sorte na minha educação. E com um esforço muito fodido, a minha mãe e eu (e mais alguns anjos da guarda), tentávamos garantir o mesmo para a dupla de jovens mentes lá de casa. O que mais podia ser prioridade?

Na saída do turno da manhã, perto do meio dia, esperava ansiosa a abertura dos portões da escola dos guris. Quando abriram, andei pelo pátio da escola com minhas pernas de menina querendo correr. Após localizar a sala dos dois, fiquei por alguns minutos escondida na janela, vendo suas classes ordenadas em fila, em uma estranha ordem que dificilmente se consegue lá em casa. Ao me avisarem, escondi-me atrás do muro da janela – subindo e levantando, enquanto eles gargalhavam e apontavam – “olha lá, aquela é a nossa mana”. Tive um súbito de felicidade quando os dois explodiram nos meus braços com suas mochilinhas do Cars nas costas. Pegando na minha mão – eles apontavam animados para o prédio ao lado “olha mana, agora a gente tem uma biblioteca!!!! ”.

Pronto.

O que mais uma escritora poderia querer, senão a empolgação de seus prodígios com o templo das histórias?

Logo o Mateus e o Murilo estarão eternizando suas próprias histórias, e tem certa ironia poética neste timing, justo que ao mesmo tempo estou tentando escrever a minha. Imaginei as cartas que escreverão para o Papai Noel neste Natal, ou o carinho que depositarão com suas letras tortas em nos nossos cartões de aniversário, dia das mães. Nos bilhetes da vida avisando aonde vão, o que pensam ou como se sentem. Amor no papel, daqueles que minha mãe guarda até hoje – do meu irmão e minhas, em uma caixa colorida, colorida como as nossas histórias.

O meu amor pelas palavras renovou-se mais uma vez nesta segunda-feira. Mas também pudera – não era qualquer dia. Era o primeiro dia de aula.


Fim da sessão.

Obs 1: Maior do que a minha empolgação com o início da trajetória escolar dos guris, é a minha consciência do tamanho do privilégio que eles têm por terem acesso à educação. E tão grande quanto o sonho de vê-los felizes com o dia de hoje, é o meu desejo de que toda criança neste país tenha a mesma sorte. Porque aqui, educação é uma questão de sorte.  Muita sorte.

Obs2: Quando as pessoas me perguntam por que eu voltei para o Brasil, ou por que eu não fiz minha vida e carreira lá fora, eu uso dias como estes para explicar. Eu voltei para viver a emoção de dias como estes.

Procrastinação, sabotagem e sina de não se achar bom o bastante

Essa semana um amigo meu me pediu para ajudá-lo a colocar em andamento o seu sonho de escrever. Sentamos e conversamos por mais de uma hora sobre tudo que ele tinha que fazer para alcançar os seus objetivos. Tracei metas para ele, indiquei pessoas que poderiam ajudar, sugeri um cronograma e dei conselhos dos quais eu deveria ouvir, antes mesmo de dá-los. No rosto do meu amigo, vi a mesma sombra dos pontos de interrogação que me fizeram questionar o início do meu processo criativo. A autocrítica, o medo, a procrastinação, todos os sintomas da auto-sabotagem disfarçados de ponderações. Não conseguia entender como a doença da auto-sabotagem podia infectar algumas das pessoas mais fantásticas que eu já conheci. A situação me botou em autoanálise, como sempre.

Dei-me conta de que a procrastinação é o primeiro obstáculo para a construção de algo. Nossos projetos mais amados começam a ser postergados por metas que julgamos “mais práticas” ou “mais urgentes”. A gente espera que o tempo traga aquela coragem tão necessária na hora de arriscar, mas tudo que ele faz – o tempo – é dar tapa na nossa cara. Afinal, coragem não é a ausência do medo, mas a superação dele. E isso exige atitude. A procrastinação é um dos piores defeitos dos criativos. E tudo bem que criação e  criatividade têm muito a ver com o respeito pelo timing, inspiração, maturação de ideias, e até a revisão delas. Mas acima de tudo tem a ver com trabalho. Sem trabalho não há evolução. E sem evolução não tem aprendizado. E sem aprendizado, bem, sem aprendizado você vira um inútil vendo o tempo passar e as oportunidades morrerem na praia. (“MAS E O TEU LIVRO, ANTÔNIA???” – pois é!).

PROCRASTINAÇÃO: “Amanhã você vai desejar ter começado hoje.”

A sabotagem ou auto-sabotagem é também algo cultivado pelo ser humano que deveria ser estudado e prevenido em qualquer fase de formação. E quando falo em auto-sabotagem, não falo apenas dela no lado profissional – sabotagem existe, é alimentada e se manifesta em todo tipo de relação. Profissional, pessoal, amorosa. Eu sei disso porque eu sou perita na arte da sabotagem. De tomar o porre da vida na festa do novo emprego que havia começado não fazia três dias. De soltar gafes no primeiro encontro com pessoas importantes. E nem queira me ver comentar sobre auto-sabotagem nas minhas relações amorosas. Tenho certeza que meu cupido me odeia por conta da maneira criativa como eu sempre fodo com o trabalho dele.

Eu tenho uma teoria sobre a auto-sabotagem. Na minha opinião ela surge pela nossa falta de preparo em ver as coisas darem certo. A gente já se acostumou em esperar o pior, e entra em parafuso na eminência do sucesso. Afinal…. vá que dê tudo certo e a gente alcance reconhecimento profissional, relações promissoras e amores avassaladores, né? O que faríamos com o medo de perder tanta coisa importante? Melhor nem ter!

SABOTAGEM: “Aceite/promova as boas coisas que a vida reservou pra você.”

E por último, mas não menos letal na construção de algo, a famosa sina do “eu não sou bom o bastante”. Mas que mania idiota de compararmo-nos com todo mundo, ou de medir os nossos talentos pela régua alheia. Ninguém é tão boa em contar histórias como eu porque ninguém as conta como eu, certo? Ou seja, só eu posso aplicar os meus talentos como eu – ninguém mais – e isso deveria ser o bastante para nos convencer, não é?

O mesmo se aplica ao meu amigo, aquele do início desta reflexão. Não existe um vivente sequer que escreve melhor que ele, porque ninguém pensa como ele. Não há quem cozinhe melhor que a minha mãe, porque a comida dela tem o sabor que é só dela. No mundo inteiro não há quem cante tão bem quanto o meu irmão de 6 aninhos, porque só ele inventa as músicas que ele inventa. E assim vai. Ou seja, talentos não deveriam ser comparados. Apenas compartilhados. E talentos não divididos – já diria uma amiga minha – são a nossa maior prova de egoísmo com o mundo.

SINA DO “NÃO SOU BOM O BASTANTE”:  Não seja egoísta com o mundo. Compartilhe  seus talentos/sonhos/projetos.

Eu sei que essa mudança não é fácil. Eu tenho uma lista de metas deixadas de lado, e uma gaveta cheia de lindos sonhos engavetados. Mas eu decidi que tudo isso vai mudar. E esta sessão nada mais é que um baita puxão de orelha em mim mesma, e um lembrete que o dia “D” é sempre hoje. E espero que o puxão de orelha chegue aí do outro lado da tela. Vamos lá! Entre nesta luta contra a auto-sabotagem através de três passos:

  1. Comece agora.

  2. Aceite as coisas boas da vida.

  3. E compartilhe o seu valor com o mundo.

O universo vai agradecer, eu prometo.


Fim da sessão.

Para um soco de realidade adicional, dá o play no link abaixo:

 

Feliz ano novo: pazes com o tempo!

Chegou o momento daquele olho no olho. O vídeo de final de ano de ano no nosso querido divã. Gatedo, que em 2017 a gente faça as pazes com o tempo:

Fim da sessão.

Mamãe Noel

Eu sei quando é Natal quando a minha mãe decide que é Natal. Tudo começa com um pequeno vaso de poinsétia sobre a mesa. Poinsétia, bico de papagaio, estrela de Belém, ou também conhecida como a flor do Natal. É nas suas folhas vermelhas sobre a mesa de jantar que eu sou notificada que o Natal chegou.

Mamãe não sabe brincar de Natal. Ela leva a sério. A decoração da nossa casa competiria tranquilamente com a de um grande shopping. A arvore é meticulosamente arrumada e posicionada em uma janela de frente para a rua – para que os vizinhos saibam que o Natal chegou.

Lá em casa existe uma legião de Papais Noel fazendo de tudo. Tem Papai Noel alpinista subindo o corrimão da escada, tem um a la James Bond pendurado na cristaleira se equilibrando com apenas uma mão. Tem Papai Noel sentado no vaso na pia no banheiro – duvide, e com um xixi lá em casa você vai saber que eu não estou exagerando.

Temos rodízio de guirlandas, trepadeiras de ramos de pinheiros e colares de bolas douradas. Já falei do pinheiro? Sim, meticulosamente arrumado, com seus ramos cheios de neve – afinal estamos no Brasil, neve falsa é mandatório no nosso Natal de 40º graus.

Tem presépio com toda trupe – Maria, José, Reis Magos, Menino Jesus e uma ou duas mulas. Quando eu pergunto as crianças o que simbolizam, eles me dizem “são bonecos de Natal da mamãe”, que se fossem algum brinquedo que ela só brinca em dezembro. Quem sabe em alguns anos eles aprendam sobre o mais simbólico dos nascimentos, e como eu, ficarão frustrados de não ter sido o deles.

Mamãe prepara o salpicão com orgulho. Enfeita potes para presentear as amigas com seu petisco de grão de bico, sua mais nova sensação da culinária. Ela tem uma coleção de fitas douradas, vermelhas, verdes, salpicadas, com pinheiros, sem pinheiros, ela parece sócia de uma papelaria.

Temos renas – aquelas que vivem apenas no Polo Norte, e lá em casa. Temos bonecos de neve, com a indumentária completa para o Natal – toca, cachecol, tudo para combinar com a neve falsa. Velas, toalhas de mesa, toalha de mesa de centro, de mesa de canto – pra que mesmo temos tanta mesa? Para os pratos e copos temáticos do Natal, é claro. Tem até enfeite de taça de Papai Noel e a gente raramente bebe em taça.

Natal é mesmo quando a minha mãe decide, e sei que ela adora enfeitar a casa, desde o tempo em que ninguém lá em casa era mais criança. Agora com a segunda leva de moleques então… Encanta-me a maneira como ela insiste na magia, ainda que tenha tido um ano difícil. Ainda que sinta tanta saudade nesta época.

Por falar em saudade, eis que dentre tantos adereços, quatro enfeites natalinos são os que me pegam suspirando. As quatro meias de Natal que ela pendura na lareira, para que o Papai Noel coloque mimos para os teus quatro pimpolhos. Leonardo, Murilo, Mateus e eu. As dos três meninos são iguais, com tons de verde e vermelho. A minha, a única menina da casa, tem um cintinho preto com dourado, charmosa e perua como a minha mãe gosta de me imaginar sendo (e não o 4º menino que eu realmente sou).

Gosto de saber que saudade nenhuma evita que ela pendure a meia do meu irmão, ainda que presencialmente ele não estará conosco na ceia. Sei que esse amor todo, expresso em tanto carinho enfeitando a nossa casa, é o melhor presente de Natal que nós podemos ter. Eu não abriria mão dele nem por neve de verdade ou fita dourada alguma.

Papai Noel que me desculpe, mas lá em casa, quem comanda o Natal é a Mamãe Noel. Pode tirar o trenó da chuva.


Fim da sessão.

Feliz Natal, gatedo! Beijos da turminha lá de casa:

16 medos

Não precisa ser nenhum gênio para concluir que esse ano foi fodido. Desculpe o meu francês, eu normalmente sou mais educada, mas esse ano foi fodido e pronto. Se você torcia pela Dilma, por Temer, pelo país, foi fodido. Pela economia brasileira, pela mundial, ou pela sua, foi fodido. E quanto tenta sair da esfera econômico-política, e for para religião, relações humanas, causas ecológicas ou mesmo futebol, você vai concluir que 2016 não tava pra brincadeira. 2016 literalmente cagou para os nossos planos de 2015, e cuspiu na cara da maioria dos otimistas. Eu sei, eu mesma nunca tinha escrito que um ano foi fodido, e cá estamos. Fo-di-do.

Mas então eu resolvi ser despeitada com 2016, do mesmo jeito que ele foi comigo, e quis mostrar pra ele que era EU que mandava na bagaça. Listei aqui 16 coisas que eu tive medo neste ano que passou. E 16 pequenas/grandes vitórias que eu carrego sob costas, hoje, mais largas. Acho que eu até fiquei mais alta em 2016, de tanto que eu me estiquei para colocar o nariz pra fora do turbilhão de cada dia. E se eu puder pedir uma coisa neste ano, que seja que ao final desta sessão, você – que está aí me lendo, e que é parte desta sessão tanto quanto eu – compartilhe um medo e uma superação que enfrentou no fodido ano de 2016.

1) Eu superei o medo de viver sem alguém que eu amo.

Eu comecei o ano com uma das tarefas mais difíceis que alguém que ama pode ter: viver além da saudade.  Despedir-me do meu irmão foi e segue sendo um processo diário de sobrevivência.  Em 2016 eu me dei conta de que eu não morri junto com o meu amor. E isso me assustou muito. Muito. Porque se no momento mais louco da minha visão de futuro eu sonhasse que perderia alguém tão próximo e crucial como foi, e ainda é, o meu irmão, eu sempre me imaginei partindo junto. E eu não parti. Eu fiquei. Eu sobrevivi à despedida. E mais do que isso: eu ousei ser feliz. Porque era assim que ele ia querer. Porque ser feliz sempre foi o objetivo, e mais do que isso, sempre foi uma certeza de merecimento.

2) Eu superei o medo de dizer NÃO.

Quando a gente começa a pensar sobre a finitude do nosso tempo, a gente começa a valorizar mais a dança dos ponteiros. E eu passei a dizer não para aquilo que não me agregava, não me dava prazer, e não fazia jus o valor do meu tempo. Nos primeiros ensaios, dizer não parecia uma ofensa mortal às outras pessoas. Então aprendi que dizer SIM apenas porque os outros querem era uma ofensa a mim mesma. Então eu me dei prioridade, e o NÃO virou meu amigo.

3) Eu superei o medo de levar um fora.

Eu nunca lidei bem com rejeição, talvez porque eu tenha sido sortuda (ou manipuladora) o suficiente para não encarar os nãos dos outros por muito tempo. Pois esse ano eu amordacei meu ego no porão do meu consciente, e disse com todas as letras que eu gostava de alguém. Tipo, no dia dos namorados (porque não tinha drama suficiente envolvido… nãooooo…). E eu levei um fora. Gentil, suave, mas um fora. Ganhei uma amizade, e superei não apenas o fora, mas o medo de seguir platônica. E superei o platônico também. Hoje eu tenho a completa certeza de que existem riscos que valem a pena correr, nem que seja para seguir a diante.

4) Eu superei o medo de errar.

Bem, eu tenho superado o medo de errar num ato contínuo e diário. Eu larguei meu próprio chicote e assumi que na grande maioria das vezes, eu não erro querendo errar, muito pelo contrário: erro tentando acertar. E esta conclusão tem me ajudado a ser mais gentil comigo. Afinal, como que eu perdoo os erros do outros com facilidade, e me mando para a masmorra a cada tropeçãozinho? 2016 eu me dei uma chance, e tem sido maravilhoso aprender a me perdoar.

5) Eu superei o medo de não saber.

Talvez tenha sido influência de Glória Perez e o Oscar, ou porque neste ano tanta gente fez merda, eu decidi também adubar a vida. Não sei o motivo. Mas apostei nos meus instintos, nos conhecimentos que reuni ao longo dos anos, e parei de me exigir perfeição. O resultado foi um aumento de produtividade imenso, e ascensão na minha curva de aprendizado. Afinal, sem o medo de errar, a gente vai lá e tenta, e é só tentando que de fato, consegue. Pura e simplesmente.

6) Eu superei o medo de ficar sem carro.

Ok, esse aprendizado é novinho em folha, mas tem fortalecido os meus passos (literalmente) todos os dias. Superei o medo de achar que eu dependia de carro para tudo, e como resultado o meu leque de possibilidades duplicou e a minha criatividade para vencer dilemas de mobilidade ainda não conhece limites. Chupa IPVA.

7) Eu superei o medo de não fazer planos.

Talvez aqui tenha sido mais por necessidade, do que por vontade. Eu fiquei cansada de ter que ter todos os meus passos planejados, porque assumi que essa vida é louca mesmo, e que é mais produtivo treinar o improviso, do que prever o imprevisível. Ou como disse um amigo meu, “eu acredito na lei da sobrevivência das espécies – sobrevive quem se adapta”. Claro que os dinossauros botarão a culpa no asteroide – mas fora o asteroide, eu sei de perdurar. Essa é a meta.

8) Eu superei o medo de não ser a melhor.

Essa foi difícil, porque por mais que eu demore a admitir, eu sou muito competitiva. E tenho forte tendência à comparação. Mas 2016 me ensinou a ser mais colaborativa, e ainda que tenha medo de cair no velho clichê de que “juntos somos mais fortes”, de fato, a recíproca é verdadeira. Eu superei o medo de não ser a melhor, e no processo, me tornei bem melhor do que eu era. E foi irônico. E eu ri da minha paspalhice.

9) Eu superei o medo de tomate.

Ok, essa é super pessoal, mas eu passei boa parte da minha vida adulta com medo de comer tomate cru, por razões que fogem a minha compreensão. Bruschettas me ajudaram na superação deste medo, e por elas – agradeço aos italianos.

10) Eu superei o medo de ser chefe de família.

Depois de mais uma reviravolta na família, em 2016 eu voltei para a casa da minha mãe, e superei o medo de que não daria conta de assumir algumas responsabilidades dignas de chefe de família. Abdiquei de coisas que considerava fundamentais como a minha liberdade e certo egocentrismo, e reorganizei minhas prioridades. Aceitei que nem todo mundo pode ter a referência de pai e mãe que eu tive, o que é uma pena, mas que eu nunca vou deixar de batalhar para ser referência e porto seguro para minha família.

11) Superei o medo de perder amigos.

O ano de 2016 levou embora algumas das pessoas que eu pensei que sempre teria por perto. Trouxe outras de volta, e levou mais algumas. E eu entendi que está tudo certo. Que pessoas não deixam de se amar porque tomaram rumos diferentes. Ou mesmo de que muitas amizades simplesmente acabam. E outras iniciam, se fortalecem – e estes ciclos são naturais, e responsabilidade mútua de no mínimo dois lados, e não apenas do meu.

12) Superei o medo de ficar sozinha.

Ainda que eu goste de sexo, de beijo na boca, de nude na madrugada, de conchinha na cama. Eu superei o medo de não ter alguém do meu lado, e que tudo é transitório. Eu sou completamente desconfiada daquela frase (quase brega) de que “o que é teu tá guardado” – porque se fosse o caso, eu ficaria bem preocupada já que eu vivo perdendo tudo que eu guardo. Mas eu acredito no poder da plenitude, e de quando a gente está de boa com a nossa companhia, a tendência natural, é que outras pessoas façam questão dela.

13) Superei o medo de fazer fiasco.

Porque se mexerem comigo na rua, eu vou fazer fiasco. Porque se limitarem os meus direitos, ou os de quem eu amo, ou mesmo os de quem eu nem conheço, eu vou fazer fiasco. Porque se for para comemorar as vitórias da vida, eu vou fazer fiasco. E se eu tentar dançar depois de beber… preparem-se: eu vou fazer fiasco. E não vou pedir desculpas.

14) Eu superei o medo de pedir ajuda.

E para este eu só tenho a dizer: graças a Deus e já não era em tempo de entender a diferença entre autossuficiência e teimosia.

15) Eu superei o medo de ir embora.

E mesmo que isso soe um tanto em desacordo com meu discurso mais famoso, de que é preciso ir embora, eu aprendi em 2016, de novo e mais uma vez a importância do timing de ir embora. Eu perdi o medo de ir embora do meu trabalho, ainda que isso pudesse magoar o meu pai. E nós dois ficamos bem depois do passo dado, ainda que dado na fé. Eu perdi o medo de ir embora de relacionamentos mal resolvidos do passado. Eu perdi o medo de ir embora das salas das quais eu não era bem vinda, não me agregavam ou que eu não agregava. Eu superei o medo de ir embora de 2016, um ano fodido, mas cheio de aprendizado.

16) Eu superei o medo de me jogar.

Eu superei o medo de me arriscar. 2016 eu assumi pra mim mesma que a vida é cheia de saltos baseados no improvável, no incomum, no intangível. Mas que com fé e muito desejo, a gente pode ter surpresas bem maravilhosas para contar no ano que inicia. Como uma cachoeira de 5 metros de altura, cuja delícia você só goza, se você se atira. A moral é entrar em 2017 dando tibum mesmo, porque tem muita água para rolar.


Fim da sessão.

> E você, que medo você superou neste 2016? Conta aqui nos comentários.