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Histórias verídicas e inventadas

O que li por aí

Ok, já que eu ando mais lendo que escrevendo resolvi contar um pouco sobre minhas leituras por aí. E não foram poucas. Passei 2 meses em uma ilha praticamente deserta, e como eu não surfo (apesar de amar o esporte, e os praticantes – um em especial) os livros foram meus companheiros de viagem. Aqui vai um review das 9 obras que me fizeram companhia:

1) Big Little Lies: a obra da autora Liane Moriarty conta a história de três mulheres cujas vidas se entrelaçam de maneira surpreende. A trama se passa em uma enseada australiana. As protagonistas Madeline , Jane and Celeste são mães de crianças que estudam na mesma escola. Suas vidas aparentemente são pacatas, mas as três sofrem em segredo com problemas tipicamente femininos: relacionamentos abusivos, bullying na escola de seus filhos, abandono na maternidade. As três guerreiras dão conta de seus desafios através da sororidade que só mulheres são capazes. E é bem lindo de ver como a força de cada delas é importante para que a outra seja capaz de superar as mazelas da vida. O final do livro é chocante e dramático. E não é à toa que o livro virou uma série de sucesso na HBO. Super recomendo.

2) O Milagre dos Andes: do escritor Vince Rause, o livro conta a surpreendente história de Nando Parrado e os tripulantes do avião que caiu no meio dos Andes no caminho de um campeonato de Rúgbi na Colômbia. A versão da história neste livro é sobre a perspectiva de Parrado, e explora os sentimentos dos tripulantes durante 72 dias em busca da sobrevivência no ambiente inóspito e mortalmente gelado dos Andes. A obra trata de questões como coragem e companheirismo. E embora a tragédia tenha sido marcada pelo tabu do canibalismo como meio de sobrevivência, a trama vai muito além disso. Mostra como o amor de Nando pelo pai, depois de ter perdido a própria mãe e irmã no desastre, foi o que manteve viva a vontade de sobreviver acima de todas as barreiras e o milagre da superação de todas as forças da natureza.

3) Beber, Jogar e [email protected]: li apesar do meu preconceito de ser um livro tratado como “a versão masculina de Comer, Rezar e Amar”. Preconceito porque as mulheres que conheço (e eu própria) conjugam os verbos beber, jogar e foder muito bem, obrigada. A obra de Andrew Goolieb conta a história de Bob Sullivan, após levar um pé na bunda da esposa, e trocar a vida pacata de publicitário em Nova York, para a aventura de um ano em uma viagem pela Irlanda (beber), Las Vegas (jogar) e Tailândia (foder), explorando a fundo os prazeres mundanos da vida. O livro tem pontos altos, mas é cheio de clichês e situações forcadas. O final é longe de ser verídico, mesmo que o livro trate como uma história real. Ainda que o tenha lido de peito aberto, minha suspeita se confirmou, o livro de fato reforça o clichê masculino de homem boêmio, jogador e comedor no pico mais alto da escala de forçação de barra.

4) Tem Alguém aí?: Obra da famosa escritora Marian Keyes autora dos livros Melancia, Sushi, Férias e outros best-sellers, conta a história de Anna, uma relações públicas de uma marca de produtos de beleza que vê sua vida virada do avesso após um acidente e “sumiço” do marido. O livro me tocou muito pois dialoga (alerta de spoiler) sobre luto e vida após a morte. De como Anna tem que superar a vida depois de uma grande perda de maneira resiliente e corajosa. E de como os sinais daqueles que amamos e se despediram, estão por toda parte, quando nos possibilitamos enxergar. E mais, de como a vida continua, acima de todas as coisas. Não preciso nem dizer que o nível de identificação com a história da protagonista foi total. Um olhar irreverente e sincero sobre as despedidas da vida e a transformação do amor após a morte.

5) O Alquimista: clássico mundial de Paulo Coelho que -pasmem- eu nunca tinha lido. A história trata sobre a jornada do jovem Santiago em busca de um tesouro. E sobre todas as riquezas que ele encontra no caminho. O livro é cheio de metáforas que dialogam a fundo com qualquer leitor. Os temas incluem a superação de medos e dificuldades, a leitura dos sinais que a vida dá em nos nossos aprendizados e sobre o real tesouro da vida. É o percursor do “É preciso ir embora”, com o perdão da minha falta de modéstia. E é um clássico pela capacidade de correlação que é possível de traçar entre leitores e protagonista.

6) Morte Súbita: primeiro livro destinado a adultos da famosa autora da série Harry Potter, J.K. Rowling. A história se desenrola a partir da morte súbita de um notório cidadão e conselheiro distrital de um vilarejo inglês. A história é cheia de personagens riquíssimos e complexos, e apesar de demorar um pouco pra engatar na leitura, vale muito a pena perseverar. A obra trata de temas como diferenças sociais e tetos de vidro. O final é dramático, improvável e calou fundo comigo por uma questão pessoal sobre o amor entre irmãos. Fiquei mexida com a história por dias. A autora prova que é capaz de descrever a realidade com o mesmo olhar perspicaz e brutal com que olha para a fantasia.

7) Steve Jobs: biografia do icônico e mais contraditório fundador da Apple. A biografia é extremamente factual e neutra. Steve Jobs permitiu ao jornalista Walter Isaacson- autor de sua biografia, uma liberdade editorial pouco vista em livros como estes. Os colaboradores do livro (familiares, amigos, colegas e até o maior concorrente Bill Gates) expõe todas as facetas de Jobs, do gênio ao monstro. O livro trata da relação de Jobs com a família, sua devoção a arte e tecnologia, seus próprios demônios, a construção de suas obras que tanto adoramos e muitos de nós dependemos (como o iPhone do qual eu escrevo pra vcs neste momento) e a luta de Jobs contra o câncer. Uma bíblia sobre o mundo dos negócios e como construir uma marca (e uma reputação) capaz de mudar o curso da história da arte, tecnologia, música, literatura, entre outras coisas redefinidas através do olhar e vida de Jobs.

8) Hunger Games (Jogos Vorazes): o primeiro livro da trilogia de Suzanne Collins sobre o jogo voraz enfrentado por Katniss Everdeen. Relutei em ler o livro porque não consigo lidar muito bem com histórias sem finais, e eu não tinha acesso aos dois outros livros que dão continuidade a trilogia. Apesar disso, o livro é muito bom, e trata de questões tão atuais nos dias de hoje, como governos opressores, uma estrutura social que mantém pobres cada vez mais pobres e ricos cada vez mais ricos e o poder que pequenos atos de rebeldia (e amor) podem causar em uma nação. Além, é claro, de tirar um sarro muito justo e acurado sobre a cultura dos reality shows. Apesar de ter achado o filme muito bom, o livro é daqueles que supera a versão das telonas. Vou atrás dos livros 2 e 3 com certeza.

9) Snowing in Bali: a história na contramão da versão bela e espiritual de “Comer, Rezar e Amar” que tanto associa-se com Bali. Snowing in Bali (“Nevando em Bali”) entra profundamente no mundo das drogas fomentado pelo turismo de Bali. A jornalista Kathryn Bonella entrevista os grandes traficantes de Bali, muitos deles brasileiros, em suas elaboradas rotas do tráfico de drogas de países como Brasil, Colômbia e Peru, para Bali, Europa e a meca do tráfico de cocaína, Austrália. O livro é cheio de histórias de corrupção policial, festas, orgias e “neve” pra todo lado. Tudo isso, com o toque picante de que em Bali, a pena para tráfico de drogas é o corredor da morte, que pode acontecer por fuzilamento ou esmagamento pela pata de um elefante. Um olhar curioso e uma leitura interessantíssima para quem vem pela segunda vez a Bali neste ano, e agora, com olhos mais abertos do que o que a doce versão de Bali vendida por Comer, Rezar e Amar.

Aqui estão as 9 obras que me seduziram de alguma forma nos últimos 2 meses de viagem. Muito dos livros me escolheram, através de algum viajante que encontrei, ou dica de alguém que conheci. Em maior ou menor escala, todos me tocaram de uma maneira muito feliz por tratarem jornadas pessoais de seus protagonistas em busca da superação e do autoconhecimento. Jornada essa que eu e você, insistimos e investimos todos os dias. Mas acima de tudo, todas as histórias de um jeito ou de outro falam de morte e falam de amor. E da correlação entre os dois. E essas mensagens, vieram na hora em que eu precisava, na medida que se aproxima a conclusão de mais um ano do falecimento do meu irmão.

Mas de tudo que li, quero compartilhar duas grandes lições. Nas palavras de Nando Parrado, sobrevivente dos Andes, aprendi em sua imensa sabedoria que: 1) todos nós temos os nossos “Andes” na vida. Trajetórias, tragédias, desafios, marcos que mudam o curso da nossa história. E que podem ou não definir como vamos viver o resto de nossas vidas. Tudo está em como encaramos os “Andes”. 2) O contrário da morte não é a vida, é o amor. É por amor que a gente luta pela vida. É o amor que faz da morte apenas uma transição, mas nunca o fim da aliança que criamos com aqueles que partiram. A vida continua por amor. E essa força transcende tudo e qualquer coisa.

Espero que vocês tenham gostado dos reviews. E aguardo ansiosa por dicas de leitura dos meus leitores aqui nos comentários.

Fim da sessão (leitura)

O meu irmão gordo não cabia neste mundo

“A indústria da dieta é o único negócio lucrativo do mundo com um índice de insucesso de 98%.”

eatingdisorderfoundation.org

Para vocês que acompanham estas sessões públicas de terapia, essa não é uma daquelas que termina com um grande aprendizado de espírito elevado, ou uma celebração das lições da vida. Não, essa não será uma destas sessões. Essa sessão é daquelas que você levanta do divã tendo a certeza de que teve de engolir um brejo inteiro, ao invés do sapo.

Aos 20 e poucos anos meu corpo mudou drasticamente. E confesso, tem uma parte de mim que acha que foi proposital. Note, sem qualquer arrogância pretendida, eu nunca fui alguém que passou desapercebida. Eu sempre fui aquela garota dita “popular”. As pessoas sabiam meu nome (aliás, meu sobrenome que aparentemente me garantia uma imagem mais pomposa) antes mesmo que eu soubesse o delas. Eu não tinha uma vida pública – mas tudo que era meu parecia não ser privado. Namorados, tropeços, primeira transa. Aquilo que as pessoas celebram como popularidade, eu via como o desgosto de crescer e me desenvolver sob a lente de um microscópio.

“Ora, por favor, quem não gostaria do mundo aos seus pés?”. Eu não gostaria. Tive a bunda fotografada em diversos ângulos por um garoto na escola, que publicou-as em um site (em uma época que ninguém sabia fazer sites) para que minhas bochechas inferiores ficassem sempre a disposição. Tive propostas de relacionamento muito mais ligadas à minha aparência (ou a apostas) do que a minha personalidade. As pessoas lembravam que eu tinha um corpo de bailarina, mas tinham pouquíssimo interesse no meu discurso. Eu participava de trabalhos sociais desde muito nova, mas era o “social da novinha” que excitava o interesse. Era um saco.

“Óh… pobre menina bonita (adicione sua dose favorita de ironia aqui).” Eu sentia que nada que eu fizesse era mais importante do que como eu aparentava. Me encolhia sob os olhares de interesse e de constante julgamento. Cuidava do meu visual com demasiado sofrimento. Repensava as minhas frases duas vezes antes de pronuncia-las em público. Se as outras garotas odiavam o anonimato, eu aprendia pouco a pouco, o peso cavalar do holofote.

E foi com peso que me vi aliviando essa atenção. Bom, isso podia ser o plano original, ainda que na época, fosse inconsciente. No término da faculdade, eu precisei entregar o meu TCC em 30 dias, por conta de uma crise crônica de procrastinação. Então eu me deleitei naquilo que julgava uma compensação pelas longas horas de escrita. Pizzas, energéticos e guloseimas foram os meus companheiros contra o relógio do TCC durante aquele mês. E na contrapartida do relógio, a balança. 1kg para cada ponto que ganhei na minha dissertação: eu tirei 10.

Peguei meus 10kg e fui pra Londres longe do olhar julgador de conhecidos. Adquiri mais uns 4kg bem conscientes entre longos happy hours e novas culinárias. Perdi 7kg só de desespero na primeira visita ao Brasil. Tive medo que o tamanho alargado dos meus quadris fosse a única coisa que as pessoas iam comentar, deixando de lado as minhas suadas conquistas – como o trabalho numa grande corporação internacional e o MBA na Inglaterra. Ali, eu aprendi que se antes o foco das pessoas estava ligado a minha imagem externa, agora, bem… nada havia mudado. Talvez apenas piorado.

Eu aprendi que meu corpo virou uma pauta pública (mais uma vez e agora de forma depreciativa). Pessoas se sentiam a vontade para falar sobre o meu sobrepeso e de como eu ERA bonita (conjugado no passado). Eu havia – de certa forma – conseguido o que queria. Não era julgada pela minha beleza. Eu só não imaginava, que seria pela “falta” dela. Fato é que pra maioria do mundo, você é o que você come. A minha grande surpresa foi que mesmo comendo coisas gostosas, eu jamais seria uma com as minhas novas formas. É como se o meu (o seu, o nosso) valor fosse medido numa escala interpretada apenas por quilos sobre a balança. Quando vi, passei a colecionar olhares de pena, no lugar daqueles que antes eram de inveja ou interesse. Eu não sabia o que era pior.

Eu não sabia o que era pior até ver a mesma situação – em uma magnitude estratosférica – acontecer com o meu irmão. Desde a adolescência ele havia brigado com a balança, até atingir a vida adulta com o dobro do peso que deveria ter para ser “socialmente aceitável” (ânsia de vomito aqui) e cautelosamente saudável. Se para mim, com apenas alguns quilos a mais, era difícil não pertencer ao grupo das bonitas, para o meu irmão com excesso de peso imensamente maior, era triste não pertencer mais ao grupo dos bem-vindos.

Vi ele sucumbir no silêncio de seu quarto, enquanto a minha família lutava para lhe oferecer toda a estrutura e apoio necessário na luta contra a obesidade. Ele tinha vergonha de se servir na frente dos outros. Nunca entrava em lojas para, sequer, olhar as roupas de longe. E quando muitas vezes usávamos transporte público enquanto viajávamos, ele só sentava se fosse ao meu lado, num semi-pânico de possivelmente invadir o espaço de um passageiro desconhecido. Falar sobre o assunto era demasiadamente doloroso e com um pesar associado sempre a muita vergonha.

Você já imaginou sentir-se completamente exposto 24h/dia?

Era como se ele andasse pelado na rua. Sabe, quando você vira referência? “Quebra a direita no corredor onde está parada aquela gordinha.” “Fulano, sabe, aquele que é bem gordo”. Você vira o que você pesa e ponto final. De repente tudo que as pessoas queriam era discutir as métricas do meu irmão, como se ele por acaso saísse falando do Botox que via na cara das minhas tias ou dos pêlos no nariz daquele cidadão que não via desde criança. Entendemos o real sentido do termo “gordofobia”. O corpo dele parecia que não era mais dele, e a reclusão foi a saída de emergência mais próxima. A comida virou um circulo vicioso de: vergonha > ânsia por satisfação > mais vergonha.

Quando o Leonardo decidiu fazer a bariátrica, eu fui contra. Não que não quisesse ver o meu irmão receber a ajuda que precisava, não é isso. Mas achava que deveria haver um tratamento preparatório maior, do ponto de vida psicológico. Sabe, preparar a pessoa para esse novo corpo, essa nova vida. O meu irmão já era um adulto, quase um médico formado, então ainda que respeitasse as minhas ressalvas, ele seguiu em frente. E teve meu apoio incondicional em cada parte excruciante do pós-operatório.

O Leonardo viu seu corpo reduzir drasticamente. Pela metade. Ficou obcecado pela perda de peso, que parecia nunca ser o suficiente. E com todo o peso perdido, os cabelos, as unhas. Tinha que tomar vitaminas e um calhamaço de cuidados que teria de ter pro resto da vida. Sofria de constantes quebras de consciência. Estava comigo num minuto, de repente, no outro, não estava mais. Começou apresentar variações na fala. E em duas ocasiões diferentes, convulsões que o levaram ao chão. Nos exames dele, tudo normal.

Na vida dele, para os outros, tudo melhor. O Léo começou a receber uma atenção nunca antes sentida. Era convidado para finais de semana na casa de praia de familiares. Ganhava constantemente presentes de pessoas não tão próximas. Recebia cantadas de mulheres e homens. Convites nunca recebidos para todo tipo de programação. Era como se com a capa de gordura, ele tivesse também removido a capa de invisibilidade que ele antes vestia.

E eu? Tive crises de ressentimento e muito rancor. Rancor por todas as pessoas que passaram enxergar atratividade estética, onde eu sempre vira beleza. A beleza do meu irmão, acima de qualquer coisa. O meu irmão era um jovem brilhante, sensível e gentil, com uma carreira cheia de conquistas e um futuro promissor e excitante. Mas tudo o que a maioria das pessoas enxergavam era um cara gordo. Ou naquele novo corpo, um cara magro. Eu guardei seus rostos e nomes na minha memória. Intitulei a lista como “amigos da beleza conveniente”. Tive raiva de cada aproximação interesseira que presenciei. Mas me nutri da alegria que meu irmão sentia por toda essa nova sensação de interesse, “bem querer” e pertencimento.

Meses atrás, um pouco antes de tirar umas férias da vida que deixei pra fora da minha mochila, eu terminei de ler um livro que meu irmão havia comprado. Achei o livro em seu armário e esperei um ano e meio antes de ter coragem de lê-lo. O livro era “Grande Irmão” de Lionel Shriver. O bestseller conta a história de Pandora, uma mulher que larga tudo em sua vida para ajudar o irmão na difícil tarefa de perder peso. Eu devorei o livro a procura de respostas. Achei que ali poderia encontrar uma pista do que eu poderia ter feito. Me deparei com a tragédia na arte, da mesma forma como me deparei com a tragédia na minha vida. Entendi que certas fatalidades são inevitáveis na literatura ou fora dela. A personagem do livro, perdeu o irmão gordo para complicações da obesidade. Eu, perdi o irmão magro para as complicações que ele passou a ter depois da cirurgia.

Foi difícil de encara a inevitabilidade de ambas as histórias.

Talvez por conta disso eu tenha decido nunca perdoar as pessoas que trataram o meu irmão com descaso ou despeito quando ele era gordo. Gente que entende prestígio da mesma forma que encara a arroba de um boi. Eu nunca vou esquecer dos nomes daqueles que enxergaram o meu irmão apenas quando ele foi magro, e de alguma forma, o convenceram de que a única forma de ser reconhecido, era tornando-se padrão. Mediano. Custasse o que custasse.

E aqui talvez seja crueza ou até crueldade da minha parte dividir essa sessão tão visceral. Visceral a ponto de não ser lapidada para o grande público em forma de uma significativa e poderosa lição ou de um comportamento exemplar. Visceral porque surgiu de mais uma noite que perdi o sono com esse assunto. De mais um dia que chorei porque alguém sugeriu que eu tivesse que emagrecer, e eu lembrei que o peso deste assunto vai muito além do meu corpo. E que a perda é muito mais profunda que a dos quilos.

O meu irmão gordo não cabia neste mundo. Nem nas roupas. Nas cadeiras frágeis. Não cabia nos elevadores. Na foto. Na praia. Na luz do dia. Na turminha. Nos olhares de reprovação. No destaque positivo.

E por conta disso eu passei a cultivar um outro peso, que é o peso do rancor. Do rancor e da pena. Com o tempo eu também passei a sentir pena daquele grupo de pessoas que segue medindo valor humano baseado na circunferência da cintura alheia ou dos IMCs. Porque enquanto eu conseguia enxergar a beleza do meu irmão durante todos os dias de sua vida, teve quem se limitou a visão de um caixão bem magro no fim dela.

E como avisei pra vocês. Essa não é uma daquelas sessões que faz a gente se sentir melhor. Não, é. Eu lamento.

Fim da sessão.

Observação importante: Eu poderia falar horas sobre obesidade, cirurgia bariátrica, tudo que vivi e pesquisei. Os prós e os contras que aprendi de perto, e senti muitas vezes na pele. Mas aqui eu vou fazer um único apelo, a qualquer pessoa que considere a cirurgia bariátrica: estude muito bem os efeitos colaterais pouco divulgados, como as convulsões, as perdas de consciência, nutrientes, quedas agressivas de cabelo, mal estar, e em casos graves, até o alcoolismo e o óbito. Não quero com a história do meu irmão vender a ideia de que a cirurgia não deve acontecer. Não é isso. Obesidade também é um grande problema de saúde que deve ser tratado. Mas caso a cirurgia seja a última opção, que seja uma decisão com intenso acompanhamento – físico e psicológico – entendendo que é uma decisão que terá consequências e cuidados para o resto da vida.

Acima de tudo. Ame-se. Você tem motivos de sobra para se amar, eu garanto.

A casa da mãe Joana

A minha casa sempre foi sinônimo de confusão. Daquelas casas que o cachorro insiste em mijar onde quer, talvez porque saiba que a hierarquia é meio torta. O meu quarto ficava no último andar, numa alusão a uma torre de princesa porque, acredite, eu já quis ser princesa. O meu pai nunca colocou televisão perto da mesa de jantar, porque “refeições eram momentos de conversa em família”, ainda que ele adorasse escapulir para a área externa, onde tinha uma televisão velha, para bisbilhotar o jornal entre uma garfada e outra. Às vezes ele deixava eu e meu irmão assistirmos Tom & Jerry na TV dele, e talvez seja por isso que o desenho seja o meu favorito até hoje. Nós o assistíamos juntos.

A minha casa foi aquela construída com suor dos meus pais, e péssimos marceneiros. Casa cuja cozinha levou meses para ser montada porque meu pai e minha mãe passaram semanas discutindo a estampa das lajotas que cobririam as paredes. Até hoje eu acho que a lajota escolhida tem cara de estampa de pijama, mas a minha mãe gosta, e por isso eu enxergo certo charme. Na nossa casa o quarto do meu irmão  ficava a um lance de telhas da minha sacada. Um portal mágico por onde conversávamos sempre que ficávamos de castigo em nossos quartos. Aliás, a minha casa tinha caminhos secretos além do teto. Uma verdadeira aventura nas alturas que eu descobria sempre que esquecia a chave, e precisava escalar o muro e o telhado para entrar. Ainda assim, a minha casa parecia uma fortaleza.

A minha casa ruiu quando os meus pais se separaram, e “casa” virou um conceito turvo para mim desde então. Meu pai morou num apartamento, depois em outro, depois noutro. Meu irmão foi morar em Portos mais Alegres por conta da universidade e eu virei vizinha da Tia Beth além do oceano. A minha mãe ficou na nossa casa, aquela que não era mais “nossa” no coletivo completo. A casa do teto ruído, e que ficou ruído por muito tempo. A nossa família passou a ocupar quatro casas diferentes, mas nenhuma era realmente nossa.

A nossa casa voltou a ser minha durante alguns meses após o meu retorno de terras distantes. Naquela época, a nossa casa abrigava duas cabeças carecas recém chegadas que eu passei a chamar de irmãos, e um cara que nunca conseguiu me chamar de família. Não demorou muito para a “nossa casa”, virar a “casa deles”, e pequena demais para mim, mais uma vez. A “casa deles”, passou a ser um lugar em que éramos visitas, com códigos e condutas trazidos por um estranho cada vez mais desconhecido.

Não entendíamos as formalidades que nos foram impostas naquele espaço aonde nos vimos crescer. Logo, comecei a pedir licença para abrir a geladeira (aquela que ainda tinha meus adesivos de infância), e o conceito de “nossa casa” ficou cada vez mais complexo. O cara que não nos queria família, fazia checklist de inventário, naquela mesa em que não muito tempo atrás, dividíamos absolutamente tudo.

Assim, fiz lar em outro endereço. O meu irmão também se mudou. Seguido pelo meu pai, que chegou a mudar de cidade e evitar qualquer chance de passar na rua daquela que tinha sido a nossa casa. Com o tempo a gente pouco visitava um ao outro. Talvez porque a saudade daquela casa era insuportável. Talvez porque não conseguíamos edificar raízes em outros chãos. Às vezes, eu arrumava desculpas para dormir no meu irmão, buscando achar de volta o caminho para o portal mágico da nossa sacada.

Depois dizem que lar é onde está o coração, mas nem sempre é tão simples.

O meu irmão então, vocês sabem, partiu e fez morada na cobertura celeste, aquela que a gente não consegue aparecer para um cafézinho. E assim, como num sopro, nenhuma casa era mais a “nossa casa”, e todos os tetos estilhaçaram. O homem que morava na “nossa casa”, foi embora da casa agora cheia de lamento. Ora, ninguém que puder ir embora, fica para ver a tristeza umedecendo as paredes. Isso é coisa para família tolerar. Reerguer. Reconstruir.

Com medo da solidão eu larguei o velho apartamento alugado, e voltei para onde tudo começou. Retomei o quarto de adolescente onde eu já não mais me sentia princesa. Os pequeninos agora eram donos do antigo quarto do nosso saudoso irmão. E foi dividindo a minha sacada com eles dois que eu me senti em casa. Na sacada do meu quarto, lugar em que ambos, na grandiosidade de seus 6 anos, frequentemente ocupam para rezar para o mano que mora no céu. Foi o início de um novo início, da casa que antes era fim.

A casa ruída, a “casa deles”, “aquela casa”, começava a ser de novo a nossa casa.

A nossa casa que hoje não tem mais chaves na porta (ou na dispensa). Primeiro porque chaves não combinam com crianças, e também porque minha mãe tem uma necessidade virginiana de garantir que meus lençóis estão esticados. O Mateus precisa redecorar o meu quarto sempre que dá na telha. E o Murilo gosta das portas abertas para saber que eu tô ali, no caso da mãe dar um pulo no supermercado.

A casa agora tem as janelas sempre abertas para a luz entrar, e as portas escancaradas para os amigos surgirem. Na nossa casa agora, todo dia aparece gente. Uma pra almoçar, outra porque estava passando e deu saudade. Tem gente que precisa vir aqui comemorar a vida – a minha, a nossa, a deles. Tenho amigos que vem aqui para lamberem suas feridas, afinal, casa é onde a gente se cura. Reergue alicerces. Reconstrói os tetos.

A nossa casa é onde as minhas amigas viraram amigas da minha mãe, e onde meu pai já se sente à vontade para aparecer. Nossa casa tem quadros que costumavam ficar no quarto do meu irmão, e agora ficam na área, na mesma área externa em que assistíamos Tom & Jerry com o pai. E onde hoje eu assisto meus irmãos ralarem os joelhos andando de bicicleta no pátio. Ou assisto o assador da ocasião assumir a churrasqueira, antes aposentada durante anos.

A nossa casa é onde amigo aparecem às 00:40 de uma segunda-feira sem a menor cerimônia e querendo assunto, e a outra surge logo atrás porque enfim, ficou sabendo, estava em casa de férias, e às vezes segunda vira domingo aqui em casa. Onde a gente divide quatro latinhas de cerveja quente, e alguns sonhos. Onde o primeiro a dormir no sofá ganha um bigode desenhado com delineador, porque maturidade nenhuma tira o nosso tesão pela piada. E aqui na nossa casa a regra é clara: o respeito pelo teu sono termina no desejo do meu bigode.

E foi assim que dia após dia, a casa que um dia foi nossa, e não foi de mais ninguém, virou a casa de todo mundo. A casa da mãe Joana. Mãe Antônia. A casa da minha mãe. Porque “nossa casa” não se define pelas rachaduras nas paredes – prova de que muito ainda está de pé, apesar dos terremotos. Casa é onde moram as memórias. Onde estão os tesouros de pescaria do meu pai. Mora o cheiro do pastelão de forno da minha mãe, e onde nunca falta maionese verde pros amigos. É a lajota com estampa de pijama. Casa é onde tem bagunça, barulho, olha, coitado do vizinho. Casa é onde nego dorme onde quer porque achou morada no nosso humilde palacete. É pisar em Hot Wheels no chuveiro. É nunca fazer cocô sozinha (porque aqui não é mesmo uma opção). É gente se apertando na mesinha da copa para tomar café ou apenas fofocar.

É a certeza de que a gente pode cruzar fronteiras e superar barreiras, mas não existe melhor lugar no mundo, do que a nossa casa.


Fim da sessão.

DOWN, UP!

Você entrou na minha vida como alguém diferente. Irmãzinha da minha melhor amiga, apenas alguns anos mais nova que eu. Teus olhos puxadinhos sorriam com qualquer estímulo. “Manuela” te chamaram, embora tu atendesse melhor com carinhos e cosquinhas. Um bebê lindo e “especial”. Pois é, além de Manuela, te chamavam de especial, e eu entendi bem o porquê. Apesar da pouca idade, quando criança, você sempre foi pura personalidade. Geniosa, destemida carinhosa, espertalhona. Logo: especial! Lembro-me de um dia perguntar para a minha mãe porque você tinha dificuldade de falar como as outras crianças. A minha mãe, então, me contou que você tinha Síndrome de Down.

“Síndrome de Down”. O nome me assustou. Imediatamente questionei minha mãe se aquilo era grave. Ela então, com todo carinho do mundo, me explicou que a tua condição não era uma doença. Você só era diferente, porque tinha um cromossomo a mais que eu. “Um cromossomo a mais” – pensei surpreendida. Aquela informação confirmava outra teoria que eu tinha: você estava a pelo menos um passo na minha frente em tudo.

Nossas famílias, vizinhas e amigas, seguiram suas vidas criando os filhos juntos. Não tenho uma memória de infância ou da adolescência em que você não estivesse lá. Com o tempo e afinidade, desenvolvemos uma linguagem própria para falar contigo.  E você nos ensinou outras formas de comunicação. Hora com sons, hora com referências, hora com olhares. Usava de toda paciência do mundo para me explicar tuas ideias, quando eu não conseguia – por alguma deficiência minha – entender o teu universo. Produzias um som, que te acompanhou a vida inteira, que expressava tua satisfação e felicidade – como a zumbido de uma abelhinha. Aliás, hoje penso que todos nós deveríamos desenvolver um som que anunciasse a nossa alegria – desta forma ela não passaria despercebida por ninguém, algo tipo “zzZZZzzz…  Ei! Olhem! Tô feliz!”.

Por causa de ti, desde muito cedo, entendi que todo mundo era diferente, de alguma forma. Da infância a fase adulta, por conta de meu contato próximo contigo, fui educada à ideia de que tu não eras menos capaz, menos inteligente ou de maneira nenhuma desprivilegiada. Só diferente. Olhava o mundo com outros olhos, tinha outra velocidade. E que “diferente” não era um problema. A convivência contigo me obrigou a tratar todas as pessoas que conheci com igualdade e respeito. Cromossomos a mais ou não. Talvez não fosse por ti, eu teria sido uma criança mal educada, daquelas que pratica bullying. Ou pior, um adulto intolerante.

Fato é que você cresceu, e hoje, uma mulher, continua me surpreendendo. Eu enxergo mais empatia nos teus olhos puxadinhos, do que outros cidadãos desprovidos do teu cromossomo extra. Já te vi apaixonada exatamente como eu. Sofrendo e se reerguendo após um término de namoro, como eu. Dormindo cedo, batendo ponto, pagando conta, como eu. De TPM, irritadiça e revoltada. Como eu. Vi também você me acolhendo no teu colo, dando teus conselhos e dividindo teu otimismo inabalável por dias melhores.

Mas não foi só em ti, que vi força em superar o preconceito. Vi em Débora Seabra, a primeira professora com Síndrome de Down a ganhar o prêmio de educação por uma câmara de deputados. Vi no kikito do ator Ariel Goldenberg, pelo filme “Colegas”. No maestro, conferencista, apresentador, escritor e ator espanhol Pablo Pineda. Como na também espanhola Angela Bachiller e sua posição de prestígio na câmara de vereadores da cidade de Valladolid. E outros tantos exemplos.

Nesta semana, o dia 21 de março foi marcado pelo Dia Internacional da Síndrome de Down. E eu vim aqui agradecer. Quero demonstrar a minha gratidão a todos os portadores da síndrome, que não apenas executam todas as tarefas diárias, mas que superam os preconceitos e ainda educam pessoas mundo a fora sobre inclusão, unicidade e respeito. Agradeço a perseverança e coragem de pais, que precisam lidar com a falta de estrutura no sistema educacional brasileiro, e que não desistem de mudar e melhorar o cenário atual. Agradeço a todas as empresas que contratam, preparam e promovem uma vida com dignidade e independência a este capital humano tão especial, quanto capaz.

Mas principalmente agradeço a Manuela Magalhães, a minha Manu – amiga, companheira, e exemplo de felicidade em cada etapa de seu crescimento e do meu. A tua participação na minha vida, Manu, elevou os meus conceitos a patamares mais dignos de humanidade. Talvez por isso a síndrome não devesse ser chamada Síndrome de Down* (*referência ao sobrenome do descobridor da síndrome, mas que no inglês poderia significar “baixo”). Talvez a síndrome devesse ser renomeada a Síndrome de “Up” (alto), uma vez que ela tem a capacidade de elevar o espírito e o orgulho de toda pessoa que tem o privilégio de conviver e aprender com alguém que nem você, Manu (Débora, Ariel, Pablo, Angela…).

Esse cromossomo a mais, merece uma dose extra de respeito e admiração. Sem dúvidas!


Fim da sessão.

Não sou da geração Pugliesi

Eu admiro para caralho as pessoas que sentem prazer em se exercitarem. Juro. De verdade. Às vezes quando num domingo, estou segurando o meu copo de chopp em um boteco qualquer, e passa alguém correndo, suando os poros para fora, eu tenho vontade de me levantar e bater palmas. Porque o sujeito que levanta do sofá num domingo para ir correr na rua, sem o incentivo de uma arma apontada para a sua cabeça, é digno de ser ovacionado publicamente.

Eu nunca fui fã de exercício físico. Eu dancei a vida toda e isso sempre teve mais sentido pra mim do que o ato puro e simples de “queimar calorias”. Eu não entendo (nem critico) a glória envolvida em ser blogueira fitness, tipo Pugliesi. Além disso, eu sempre odiei academias. Do cheiro, ao contexto social envolvido. “Não eu não quero dividir o aparelho”. E quem diz que não se importa em dividir tá mentindo por vergonha de não pertencer a “vibe” da academia. Ninguém quer trocar suor com estranhos, ainda que raramente eles carreguem suas toalhinhas (igualmente encharcadas) para disfarçar as cachoeiras que desaguam por suas virilhas, axilas, e outros lugares produtores do “doce” néctar dos campeões. Eu odeio academia.

Mais que a academia, eu odeio a atitude promovida nestes locais. Por que, ó mellll dells, por que vocês fortões precisam urrar e jogar os pesos no chão? Eu tomo susto sempre achando que estou sendo atacada por uma matilha de pitbulls. Se vocês conseguem levantar essa merda pra cima, custa acomodar os pesos no chão com suavidade? Ou o estrondo do impacto de 300kg de anilhas somado a um grunhido animalesco são necessários para construir músculos? E por falar em músculos – malhem perna! Esse formato triangular de peitão + bração e canela de graveto promove um medo danado no que diz respeito a gravidade. Base fraca não sustenta topo descomunal – fica a dica, e olha que eu nem sou Pugliesi. E larguem essa porra deste celular, ou desocupem aparelhos. Cês tão acumulando testosterona ou seguidores?

E como se não bastassem os meninos para liquidarem as calorias da minha paciência, vem as meninas. Magras, que diferentemente de mim, poderiam tranquilamente trocar o cardio da academia por uma volta no shopping, sem nenhum problema. Maquiagem, cabelos soltos, roupa combinando. Sério? Que inveja deste talento para plenitude que vocês têm. Eu me assumo recalcada nisso. Na contra-partida estou eu: usando uma camiseta promocional que ganhei de alguma marca sem nenhum senso estético, enquanto o meu cabelo – que inicialmente estava amarrado em um coque – figura o que parece um ninho de ratos impenetrável, e para finalizar, a minha cara tem a vermelhidão de um incêndio, e o tamanho da minha bunda. Não sei por que o meu rosto sempre fica do tamanho da soma das minhas nádegas quando tento diminuir medidas dos dois.

Então veja, eu não sou uma pessoa feita para espaços públicos de malhação. Eu odeio que peguem os aparelhos que estou usando no meu circuito (isso inclui a bola de pilates que uma senhorinha certa vez arrancou de mim ENQUANTO EU ESTAVA DEITADA NELA!). Eu tenho pavor da musica exageradamente animada que toca no ambiente, enquanto tento calibrar meu agachamento no ritmo de Menina Veneno do Zezé de Camargo e Luciano. E se a minha cara de descontente não deixa claro, que o mundo saiba que eu abomino conversar na academia. Sobre qualquer assunto. Porque diferentemente das demais pessoas deste espaço- eu ainda não domino a arte de respirar certo, não perder a contagem da minha série e ser eloquente sobre o novo botox da Anitta, durante um papo que rola enquanto um coleguinha espera para revezar comigo o aparelho (aquele que deixei claro que “SIM, eu me importava em dividir”).

Mas dentre todas as fobias de academia e dramas envolvidos em fazer exercícios, uma crescente me assustou. Os efeitos da ausência de exercícios na minha carcaça balzaquiana. Aumento de peso, mudança de medidas, dor nas costas e falta de resistência física até para o sexo. Agora o lance tinha ficado sério. Tomei uma atitude drástica. Contratei o único homem que já mandou em mim – um personal da academia que frequentei – e acertamos um atendimento na minha casa. De manhã cedo, para eu não dar desculpas. Paguei dois meses adiantados, para eu não dar desculpas. Expliquei para o cara que tinha tendência ao sedentarismo, bohemismo, tabagismo, procrastinação e a mentira, para eu não dar desculpas. E a gente blindou cada uma das minhas estratégias de auto sabotagem.

Fato é que eu dediquei tanto tempo odiando o exercício físico, que acabei esquecendo que esse habito estava associado a tendência de me odiar ao mesmo tempo. Odiar a minha postura. Minhas dores no corpo. Odiar transar de luz acesa. Odiar comprar roupa. Odiar ir à praia. Odiar fazer um monte de coisas que eu costumava amar. E não que eu acredite que eu deva ser magra para ser bonita ou me sentir bem. Mas me dei conta de que cuidar do meu corpo é uma necessidade indiferente do tamanho dele. Nem que seja para eu viver mais. Ou transar melhor. Mesmo que odiando o processo.

“ah, mas a endorfina vai ajudar você a gostar!” – Cadê esta m* então?

Acho que fiquei tanto tempo desdenhado o exercício físico, que minhas glândulas produtoras de endorfina atrofiaram. Então cá estou eu, completando duas semanas de exercícios físicos diários, praguejando cada minuto da experiência. Mas amando o desaparecimento das minhas dores nas costas, e a ideia de que um dia as minhas coxas não vão roçar e ficar assadas. Eu também não tenho pretensão de ter menos raiva do meu personal trainer cada vez que ele aparece todo animado na porta da minha casa – mas prometi pra mim mesma que não vou matá-lo, num esforço pessoal pelo bem estar de nós dois.

Eu entendi que não preciso ser da geração Pugliesi, aficionada pelo próprio corpo. O que não quer dizer que eu não tenha responsabilidades com o meu.

Então se por acaso um dia você estiver num barzinho num domingo, e me ver correndo pelas ruas sem uma arma apontada para a minha cabeça, faça aquilo que eu nunca fiz. Levante-se e bata palmas. Porque se alguém um dia disse que era fácil, era pura mentira. E as palmas não vão ser porque eu tô correndo – afinal, não é mais do que a minha obrigação cuidar de mim. Mas porque desviar de um chopinho e decidir seguir correndo … isso sim é um ato sobre-humano.


Fim da sessão.

PS: Lamento o meu nível de mau humor desta sessão. Até o fim dela ainda não achei a tal da endorfina.

Tá fora do carnaval

Preparem suas cuícas, pois ele está chegando. Para os foliões, um alívio ao ver o tão esperando carnaval entrando na avenida das nossas vidas. Para os que odeiam o carnaval, a boa notícia é que logo ele passa, e o ano brasileiro finalmente começa.

Aproveitei o clima de alegria para fazer o contrário da massa. Já que o carnaval é reconhecido como o momento de “liberar geral”, me ocupei de uma listagem daquilo que deveria ficar fora do samba-enredo deste ano.  Alalalôoooooo! Segura o meu batuque:

1) Tá fora do carnaval não entender que não é não.

Desistimos de vez do papinho de que tudo não passa de charminho e acreditemos da literalidade da negativa. “Siga em frente com o resto do bloco, meu bem!”. Foco nos sorrisos convidativos das outras investidas e desista de forçar a barra, a custo de ser confundido com neandertal, e levar um shade (ou um BO) em praça pública no meio da alegria.

2) Tá fora do carnaval julgar a fantasia do coleguinha.

Não importa se é uma diaba bem comportada, ou uma freira di-di saiiiiinha. Se o amigo resolveu vestir as cores do arco-íris (adoro), ou tomou goles de griter e deixou RuPaul no chinelo. Celebre a diversidade naquilo que é tida como a festa mais democrática deste país, sem piada ou atitude retrógrada. Larga desta de “ai que saco, carnaval politicamente correto”, e arrume formas mais originais de se divertir do que à custa do outro.

3) Tá fora do carnaval mijar no que é do outro.

Como uma amante da cerveja, e dona de uma bexiga que parece ser de grávida, eu sei que a tarefa não é fácil. Mas pense na tristeza de quem acorda na quarta-feira de cinzas e tem a calçada inteira tomada pelo mijo alheio. E mijo de bêbado sabe ser cruel, num é? Ah! Senhores donos de restaurantes e barzinhos: deem aquela força pra galera vai! Liberem o banheiro. Quem mija mais, bebe mais e isso é interesse de vocês também.

4) Tá fora do carnaval beber e dirigir.

E não tem mais desculpa. Vai de Uber, vai de Cabify, vai de bus, vai de taxi, vá a merda, mas não vá no volante.

5) Tá fora do carnaval se comportar como se não houvesse amanhã.

Calma! Haverá. E aí haja amanhã pra tanto ontem. Evite passar o ano inteiro de ressaca moral. Carnaval tem todo ano. Use com parcimônia.

6) Tá fora do carnaval ser idiota na cama.

Sim, é sabido que a galera transa mais no carnaval – mas não precisa transar pior. Na alegoria do “Sai Sai da Minha Cama” está aquela gente que não entende o que é preliminar, e só quer ver a mangueira entrar antes mesmo da apoteose estar liberada e “lavada”. Os despreocupados da “Vila de Não tô nem aí pra você” que não perguntam qual a sua alegoria preferida. Os sambistas das antigas da “Salgueiro é meu pau sem camisinha” que forçam sua existência, constrangem passistas e acabam com a folia. Os juízes de escola de samba que criticam quando a escola que desfila está demorando para chegar no ápice. O mestre-sala que tem nojo de descer na porta bandeiras. O abre alas que exige depilação digna de tapa-sexo. A rainha de bateria que finge orgasmo porque acha que é obrigada. Ou a “Vila da Maria vai com as Outras” que cede a pressão dos(as) amigos por qualquer motivo.

7) Tá fora do carnaval também ser idiota fora da cama.

Fingir que não conhece o/a coleguinha de escola de samba no dia seguinte. Tirar fotos de desfile intimo e divulgar para a arquibancada. Chamar foliões de nomes depreciativos porque estão na rua pra sambar. Regular beijo quando se está afim. Acreditar que amor de carnaval, não pode ser amor da vida inteira.

E por último mas não menos importante: Tá fora do carnaval não se divertir. E que a sua diversão, entenda e respeite a diversão do outro.

Afinal, respeito tem desfile nota 10, faça parte dele.


Fim da sessão

Bônus – Samba as Avessas de Pâmela Amaro, democratizando a malandragem:

Sessões TOP 5

Oi gatedo!

Estou passando aqui pelo blog só para avisar que me dei essa semana de férias, e para você não ficarem com saudades, estou deixando aqui as 5 sessões mais acessadas de 2016. Aproveitem e coloquem nos comentários quais as suas sessões preferidas do ano que passou.

Mandem mensagem, mandem beijos, só não mandem mais nudes – eu tava brincando quando dizia para mandar nudes. 😉

1) É preciso ir embora

2) É preciso deixar ir embora

3) Desculpe o transtorno, mas eu cansei de falar de ex.

4) Despatriados

5) Irmã mais velha

E que venha 2017!

Fim da sessão retrospectiva.

Festa da firma

Mais certo que a enxurrada de amigos secreto na nossa agenda de final de ano, é a pragmática festa da firma. Sim, dia de fazer festa ao lado do chefe, fingindo plenitude no meio da manguaça paga pela empresa. Me diz, por que o mundo corporativo achou produtivo promover um evento que exige ao mesmo tempo tanto descontração quanto formalidade?

Não importa se sua empresa é uma séria corporação do ramo petrolífero ou uma startup descoladinha que quer mudar o mundo. Festa da firma sempre dá o que falar, e talvez por isso ela seja agendada pré-recesso. Precisamos de tempo para assentar algumas novidades promovidas por doses de vodka com o CEO, os beijos furtivos do TI com a garota do financeiro, ou o ragatanga sem camisa do gerente de vendas. Ahhh, nada como uma meta que envolva copos de tequila para incentivar uma equipe.

Festa da firma é dia de maldade. Dia de lavar roupa suja sobre aquele e-mail esquentadinho que a gente engoliu durante o ano, mas que com três champanhotas na cabeça vira motivo para queda de braço com o colega de ilha. Dia de dar com a língua nos dentes sobre as fofocas da festa da firma do ano passado. De contar o apelido do chefe para o chefe.

Festa da firma é suprassumo das temáticas. Dia de vestir a fantasia, realizar uma, dia de travestir o ego. Festa da firma é dia de pintar o rosto, pintar o sete. De sair do armário do pré-julgamento. De reparar como o cara do jurídico fica lindo fora do terno e usando All Star, ou como a sua coordenadora fica sexy de cabelos soltos.

Festa da firma é dia de dar moral para o gato do RH, de tomar coragem de dizer pro mina de projetos que você gosta mais dela do que dos post-its que vive pedindo emprestado. Dia de lembrar que onde se faz o pão não se come a carne, e de esquecer da regra depois de dançar Wando juntinho.

De rebolar a bunda como se não houvesse amanhã ao som de Anitta, e cantar 50 Reais no alto dos pulmões como se fosse a dona da história, e de promover a histeria coletiva tocando Evidências. “E nesta louuuuucura, de dizer que não te queeeeero…”. Dia de fazer trenzinho segurando na cintura do coleguinha. Dia de cair tombo no salão, ora quem nunca?

Festa da firma é momento de fazer discurso dizendo o que pensa, mas que talvez não devesse falar. “Chupaaaaa departamento X!”. Dia de roubar o microfone e cantar desafinado. De tirar fotos que vai se arrepender depois, de mandar nude sem querer para  o grupo de trabalho e de acordar com uma tremenda ressaca física, e uma descomunal ressaca moral. Festa da firma é o M da merda, ainda que todo mundo se diga profissional. É o mal necessário do encerramento de ciclo. E pauta para o resto do ano, ou pelo menos assunto até a próxima festa da firma.

Aliás, haja segunda-feira para tanta festa da firma.


Fim da sessão.

PS: queria aproveitar e pedir desculpas para os meus colegas que receberam o nude que mandei ontem. Era para ser só para o Paulinho da TI, foi mal!

A maldita calcinha suja [vídeo]

Para quem conhece o blog há mais tempo, vai lembrar que a crônica “A maldita calcinha suja”, marcou a história do blog.

Não por sua improbabilidade, mas pela cara de pau e deboche de quem conta. Ela foi a primeira sessão pública no Antônia no Divã, e frequentemente é solicitado que ela seja contada por sua protagonista.

No sábado passado, ao final da minha palestra no Movimento de Expansão (que tratava de assuntos muito mais profundos do que a calcinha), me rendi aos pedidos do público de contar aquela que é uma das histórias mais despudoradas deste meu divã. Ora, a coisa toda só podia acabar em risada. Pobre do meu pai que estava presente. hahaha.

– Gatilhos: linguagem forte, conteúdo de conotação sexual, [18+]
– Imagens e comentários: Amanda Schenkel
– A maldita calcinha suja: https://goo.gl/OytjDM
– A maldita calcinha suja – episódio 2: https://goo.gl/DYk8sC

Na hora da morte

Confesso que quis escrever este texto desde o velório do meu irmão, no ano passado. Na época, eu estava amarga, e provavelmente a minha língua felina tiraria o melhor de mim, então eu decidi esperar. Depois de toda a experiência bizarra de ter de enterrar a pessoa que eu mais amei na vida, eu quis criar um manual de etiqueta do que fazer ou não fazer nestas ocasiões – para ajudar as pessoas a se comportarem em momentos inquietantes como estes. Infelizmente, depois do meu irmão, tive a oportunidade de aprimorar a minha lista mais do que gostaria, já que a minha vida encontrou com a morte em pelo menos mais três ocasiões no período de 12 meses.

Peguei o clima do dia de finados e tentei, de toda forma ser didática. Hoje eu já não sou mais amarga com a postura em velórios, entendendo que é mesmo muito difícil saber o que fazer. Hoje eu sou mais sensata com o assunto – e por isso decidi falar sobre ele. Até porque, como sociedade, a gente pouco discute a morte, o que deixa a maioria de nós completamente sem noção quando ela bate na nossa porta. Alguns vão torcer o nariz pra essa postagem porque ela tem um ar sombrio. Outros vão entender, até porque, como já falei por aqui, falar sobre morte, é obrigatoriamente falar sobre vida. E como muitas etapas da vida merecem um protocolo (batizados, casamentos, formaturas) e uma postura a ser seguida, nada mais justo, do que ensaiar um protocolo para velórios. Tudo, é claro, como sugestão com base nos meus aprendizados:

O que NÃO fazer


* Não deseje força para quem perdeu alguém. Força é uma das poucas coisas que se consegue ter naquele momento, e tudo que a pessoa que está se despedindo de alguém não quer, é ficar pensando que ela está sendo fraca. Alternativamente deseje coragem, porque viver a saudade de alguém querido depende muito mais de coragem, do que força. Força só o tempo entrega.

* Não dê chilique. O nível de comoção deve ser proporcional à relação com o falecido. Mães, pais, irmãos, cônjuges e pessoas mais idosas têm o direito de se comoverem a ponto de perder o controle. Você não quer ser a tia-prima de terceiro grau gritando grudada no caixão achando que é a única pessoa do mundo que está sofrendo. Respeitar e promover um ambiente tranquilo para as pessoas mais próximas, é o mínimo que uma pessoa de bom senso pode fazer.

* Não medique ninguém. A menos que seja médico. Ou na pior das hipóteses, a menos que pessoa esteja pedindo e você saiba a dosagem segura. A coisa que mais me incomodou nos últimos velórios que fui, é a necessidade das pessoas de minimizar a dor alheira com medicação. O que acontece é que quem é medicado acaba sofrendo duas vezes, porque remédio nenhum cura a dor da despedida, apenas prorrogam os momentos de tristeza. Quando a medicação perde o efeito, a pessoa vive o ápice da dor depois do velório, num momento em que normalmente não tem todas as pessoas por perto para dar apoio. Deixe a dor doer – ela é parte do processo.

* Não aumente a dor da família. Se a pessoa que partiu estava doente, não enfatize o quanto ela sofreu, mas o quanto ela LUTOU. Não discuta teorias da conspiração do que você pensa que realmente aconteceu, o que poderia ter sido feito para evitar a partida do falecido. Abafe toda e qualquer curiosidade mórbida que é inerente na maioria dos seres humanos, afinal, já diz o ditado, que em boca fechada não entra mosca.

* Não reivindique o morto alheio. Quem decide onde e quanto o finado é velado é a família mais próxima – pais, irmão, cônjuges. Discutir se a pessoa deve ser cremada ou enviada para o jazido da família não é democracia para todo mundo, entenda o seu lugar nesta pauta.

* Não lave roupa suja no velório. Com ninguém. Não importa se apareceu um herdeiro que ninguém conhecia, ou mais de uma viúva. Respeito o momento da despedida, e leve a roupa suja para casa.

* Não mexa no falecido em demasia. Parece uma dica de mau gosto, mas é preciso lembrar que somos matéria, e matéria passa por um processo de transformação após a passagem. Seja gentil no toque, e evite ficar pegando muito no rosto do falecido, acredite, você não vai querer passar pela experiência de ter que enterrar alguém de boca aberta, porque uma tia insistiu em alisar constantemente o cavanhaque do finado.

* Não empurre religião garganta abaixo em ninguém. Despedidas são doloridas, e por vezes envolvem algum nível de revolta, o que é bem natural. Inclusive com as entidades superiores. É muito comum ficarmos questionando os planos da galera que coordena o cosmos, então ouvir pregação de qualquer tipo, muitas vezes, sabe ser um tapa na cara de quem está tentando passar por um turbilhão de emoções sem perder a fé. Isso vale para padres – parem de pregar em velórios (APENAS PAREM), ou de falar de pecado, dor, culpa. Contem a parte bonita da partida – seja sobre o descanso, o paraíso, o harém das virgens, sei lá. O encontro com a religião acontece com o tempo, quando as emoções já estão mais assentadas, e a busca pelo entendimento e aceitação é voluntária. Não force a barra.

* Não suma! A pior parte da despedida vem depois de todas as formalidades. No silêncio. Na volta pra casa. Nas fichas caindo. Esteja próximo de maneira gentil, para que as pessoas entendam que tem apoio, além das usuais 48h de comoção generalizada.

O que fazer

* Pelo menos em ALGUM momento durante a formalidade, ajude a certificar que existe um tempo para que a família mais próxima do finado tenha uma oportunidade de ficar sozinhos com o ente-querido. Não tive dois minutos para chorar sozinha do lado do meu irmão, e essa é uma das coisas que mais me marcou no dia – de que como essa passagem é pública, quando deveria, pelo menos por alguns instantes, íntima.

* Seja útil. Ofereça ajuda na burocracia, caso você tenha intimidade o suficiente para dar apoio à família. A maioria das pessoas envolvidas com quem partiu não está em condições de ter pensamento crítico ou prático. Ajude a tomar decisões e a garantir estrutura mínima de conforto para os presentes (providenciar café, água, comida, travesseiro para as pessoas que vão passar a noite no local).

* Ajude as pessoas a comerem. Parece uma besteira, mas a dor toma conta até mesmo do estômago. Se tiver intimidade, ajude estas pessoas a comerem o suficiente para funcionarem, e assim evitarem uma queda de pressão e desmaios no meio de toda a comoção final, que normalmente vem junto ao enterro/cremação.

* Conte histórias felizes da pessoa que partiu para a família. Divida as memórias bonitas que você guarda do finado com as pessoas que mais vão sentir saudades. Cada história é um carinho, e um tesouro a ser guardado para sempre dentro do peito.

* Respeite as formas de luto. Então evite orientar como as pessoas mais próximas do falecido devem sofrer. “Você tem que ser assim, ou assado, fazer isso, fazer aquilo”. Como eu aprendi na pele, ninguém TEM que fazer nada. Sobreviver a uma perda de um grande amor, já é em suma, uma conquista grandiosa.

* E por fim, mas não menos importante, a gente precisa começar a falar de morte, com menos tabu e mais compreensão. Assim, evitamos que estes eventos virem um circo de horrores ou um festival de gafes. Morte é parte da vida, e aprender sobre ela, é tão importante quanto qualquer outra etapa.

Eu decidi escrever sobre o tema por ter me sentido extremamente invadida em vários aspectos no falecimento do meu irmão, e vi o mesmo acontecer com inúmeras pessoas que eu gosto em outras despedidas. Só quem passou por isso de forma próxima e intensa, sabe como estas dicas são importantes. E se esta sessão puder ajudar uma pessoa que seja em um momento difícil, terá valido a pena.

Lembro que ao me despedir do meu irmão, tomei uma dose da vodka que ele havia comprado para a sua formatura, e joguei parte do meu copo no caixão – escondida, além de colocar uma carteira do seu cigarro, em meio às flores sem que ninguém notasse. Eu fiz escondida porque tive vergonha de ofender o luto de alguém – naquele evento tão público, ainda que soubesse, que o meu luto era extremamente genuíno, e adequado, já que talvez um dos últimos desejos do meu irmão, fosse justamente brindar a vida dele comigo. No meu velório, não quero ninguém com vergonha de brindar a alegria da minha vida e a saudade da despedida. Aliás, é o mínimo que eu espero de quem me conhece e me ama.

Neste dia de finados, meu grande respeito aos mortos. E flores aos vivos.

Fim da sessão