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Viagens reais e imaginárias

Quarentena

Parte 1 – “No meio do caminho tinha uma pedra”

Parte 2- “O garoto e a pedra”

A alta do hospital veio cheia de dúvidas. Se com o seguro válido havia sido complicado autorizar a primeira e segunda cirurgia, uma terceira estava quase fora de cogitação. Informei meus amigos e meu pai que estava tudo resolvido, pois a expectativa de autorizar novos procedimentos sob a atenção de uma plateia angustiada era algo que eu não queria repetir. Expliquei para a minha mãe que tentaria encerrar minha situação médica na Austrália, mas que estaria no primeiro voo para o Brasil caso não tivesse sucesso.

Mas o caminho do sucesso era árduo e demorado.

O seguro obviamente não tinha interesse (ou obrigação) nenhuma de me atender em uma terceira cirurgia. Ainda que tivessem usado duas semanas da minha franquia tentando autorizar o primeiro procedimento. Foram necessárias longas e acaloradas discussões no telefone, e uma carta de recomendação bem argumentada do meu urologista para que depois de quatro dias de negociações, a última etapa de remoção da minha pedra fosse finalmente autorizada.

O tempo todo deste processo burocrático, eu lidava com a recuperação que incluía um cateter que me repuxava a alma a cada xixi, um corte nas costas que vazava urina em um pequeno saquinho ligado a um curativo e uma autoestima localizada abaixo da sola do meu pé. Quando a autorização finalmente veio, a minha imunidade estava tão comprometida que desenvolvi uma tosse horrenda. Em contato com o consultório do urologista, fui informada de que não poderia me operar sem curar a minha tosse. Desta forma fui colocada em observação médica por 14 dias – ou seja, eu tinha 2 semanas para melhorar.

Em consulta ao GP (general practice) – a médica do centro clínico da Gold Coast me informa outra má notícia. A minha tosse era sintoma de uma virose chamada “Influenza” que estava atacando a população local. Para piorar a médica informa que não havia nada que eu pudesse fazer para melhorar a não ser ingerir líquidos e aumentar a minha imunidade.

Naquela situação eu não sabia se chorava ou se tossia, e na dúvida eu fiz os dois.

A Influenza me derrubou de tal forma, que passei dias entre leves melhoras, e fortes quedas. Febres e dores do corpo passaram a fazer parte da minha rotina – rotina essa que já andava complicada com a recuperação da cirurgia. A peste era tanta que meu apetite desapareceu, e em algumas crises de tosse chegava a vomitar pelo nariz a pouca comida que administrava colocar para dentro. Vomitar na cama do Boy – que fique registrado, para dar o devido drama a minha situação.

A minha condição debilitada começou a afetar meu espirito, e me peguei chorando inúmeras vezes no sofá por não ter ideia de como me sentir melhor. Tomava banhos escaldantes para controlar meus calafrios, e sobre muito protesto fazia gargarejos de vinagre e sal que o Boy recomendava. Passamos a discutir por conta do meu estado de definhamento – ele queria que eu reagisse, saísse para caminhar, fizesse o meu sangue circular. Tudo que eu conseguia fazer era dormir longas horas, me arrastar em seus pijamas e sonhar com uma ponte aérea “sofá  > colo da minha mãe”.

A minha mãe ligava e me pedia para ser forte, e eu derramava lágrimas inconformadas por me sentir tão carente. Eu nunca tinha ficado doente daquela forma – e agora somava uma quarentena de dias em que eu me sentia imprestável, horrorosa e fraca. Muito fraca. A balança marcava 7kg a menos. O meu rosto celebrava olheiras profundas e uma herpes labial que tomava conta de metade do lábio inferior e uma parte enorme do queixo. Pensei muito naquelas pessoas que tem que lidar com doenças de longo prazo e me senti uma idiota por meu corpo se mostrar tão frágil, e meu espírito se quebrar tão fácil. Eu odiava sentir pena de mim mesma.

O aniversário do Boy veio em um daqueles famosos churrascos australianos ao ar livre. Evento que participei hora entre os convidados, e hora dormindo dentro do carro como uma criança pequena que precisa ser protegida do frio. Pensava comigo “como esse garoto ainda não me despachou de volta?”. E como mágica, ele aparecia por perto, me beijava a testa e dizia “nós vamos sair dessa, linda” – como se pudesse ler meus pensamentos.

Duas longas semanas adentro da Influenza, veio a data reagendada da minha cirurgia. O dinheiro do seguro? Nada.

– “Srta Antônia aqui é a fulana do hospital Pindara, a Srta tem uma cirurgia hoje de tarde e gostaríamos de saber como irá pagar?”- uma funcionária solicitava do outro lado da linha.

Boa pergunta. Estávamos há duas semanas da autorização e nada da transferência de fundos. Faço uma ligação rápida para o seguro – considerando o fuso, penso que o dinheiro poderia estar a caminho. “Deve chegar ainda hoje, Antônia” – a supervisora me “tranquiliza”. “Deve chegar”. Meu estômago dá pulos de angustia. Preparo-me para a cirurgia de qualquer forma. Ajeito a mochila. Leio as instruções. “Fazer 4 horas de jejum antes da cirurgia”. Preparo um purê de batata e me alimento com dificuldade – culpa da virose e do estresse causado pela incerteza da minha situação.

A confirmação do dinheiro chega à 1h da minha baixa no hospital. A minha tosse a esta altura já cedia um pouco, mas não estava completamente curada e eu só rezava não apresentar nenhuma febre no meu pré-operatório. A enfermeira me examina – temperatura normal. Ufa. Despeço-me do Boy com esperança no olhar – “vai acabar tudo hoje!”. “Avisa esse urologista que chega de ter livre acesso a tua vagina” – ele brinca de volta, mais tranquilo.

Última cirurgia. O anestesista aparece para confirmar alguns dados. “Antônia, confirma pra mim uma informação do teu prontuário, você está há 4h de jejum?”“sim – comi um pequeno purê de batatas há 4h”, respondo como uma boa aluna. “Então nós temos um problema” – ele anuncia preocupado – “O jejum indicado para este procedimento é de 6h, alguém te passou uma informação errada. Se fizermos tua cirurgia agora você corre o risco de vomitar e aspirar purê de batata para os seus pulmões ”.  Por Jeová – “eu nem queria ter comido”, esbravejo sozinha. Agora o maldito purê de batatas era a pedra no caminho de remover a minha pedra.

Desabo. Se Deus estava querendo me ensinar paciência, eu estava na aula dos repetentes.

O anestesista entra no bloco cirúrgico apressado para discutir a situação com Dr. Tracey. De fora do bloco – já em meu avental descartável – ouço meu urologista advogar em minha causa. Longos minutos depois o anestesista volta – “Ok, Antônia. Vamos te deixar um tempinho esperando, pois Dr. Tracey quer muito fazer tua cirurgia hoje devido a tudo que te aconteceu –  (uma luz no fim do túnel chamado Dr. Tracey! O Boy que me desculpasse, mas esse homem merecia o livre acesso a minha vagina) – o anestesista continua: “Iremos te buscar em uma hora e meia no pré-operatório, ok?”.  Concordo disfarçando as minhas lágrimas de alívio.

Horas depois sou novamente posicionada embaixo das assustadoras luzes da sala de cirurgia. Olho com gratidão para Dr. Tracey e arrisco um pedido – “Leave nothing behind, ok?” (“não deixe nada pra trás, ok?”) – ele sorri e concorda.

“Ok, Antônia, hora de contar até 5. Pense em um lugar bonito que você gostaria de estar”.

“5,4,3…”

Ouço as ondas batendo nos corais ao fundo da praia. A água tem uma mistura interessante de tons azuis e verdes. Vindo da sacada, sinto o ar fresquinho da manhã. Da cama típica indonesiana – daquelas com estrutura de madeira e tecidos leves caídos por toda volta da cama – posso enxergar as lindas curvas do corpo de um surfista na beira da praia. Levanto-me e caminho sonolenta até a entrada do bangalow. A chuva da noite passada deixara um cheiro de mato límpido que preenche os pulmões.

Gasto um tempo observando o surfista. Há alguns minutos atrás, antes de deixar o travesseiro ao meu lado, ele tentava me acordar com beijos na boca, e outros pelo corpo até as pontas dos meus pés. Pés que ele insiste em chamar de “delicinhas”. Observo de longe a nuca dele e as lindas linhas das costas que vão até a entrada da bermuda.  Ele encara o oceano fazendo uma prece por boas ondas – eu tenho certeza. Caminho até o seu encontro e o abraço por trás, sentindo a areia fofa abraçando os nossos pés. Ao nosso redor, palmeiras infinitas são a moldura de uma cena bonita. Ermitões transitam com suas conchinhas nas costas e pequenos siris caminham entre os corais trazidos pela maré alta até a areia branca. Eles são as únicas testemunhas do nosso beijo matinal, e de nosso olhar contemplativo sobre o paraíso daquela ilha deserta.

– “Acordou finalmente.” – ele me abraça apertado, e eu sinto o cheio gostoso da sua pele.

– “Parece que não” – respondo suspirando e sorrio encarando aqueles lindos olhos verdes.

– “Fica tranquila, linda, eu te garanto que isso não é um sonho.” – e então me beija a boca com gosto de sol da manhã.

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Saudações das Ilhas Mentawais, queridos leitores. SENANG.

Fim da sessão.

ps: O nome do Boy é Leonardo. Achei importante pontuar que, como escritor, Deus adora uma ironia.

O garoto e a pedra

(Parte 1) –  No meio do caminho tinha uma pedra

A anestesia durou tempo suficiente para que eu sentisse o tubo respiratório sendo removido da minha garganta ao acordar. Queria ter sonhado por mais alguns segundos para não sentir o plástico duro arranhando as minhas profundezas até a boca. Frio. O meu corpo inteiro treme sem obedecer a comandos básicos. Um grupo de ritmadas enfermeiras arrumam meus travesseiros, posicionam cobertores. Máquinas de massagem são colocadas nas minhas pernas, além de meias muito apertadas – “para evitar embolia”, penso eu. Como se eu soubesse o que é embolia. Eu perguntaria para o meu irmão o que é embolia. Meu irmão! Lembro-me do meu pedido antes de entrar na cirurgia – “eu não morri”.

Eu sei, parece dramático achar que um furo nas costas pudesse me matar. Mas ao lembrar-me das lágrimas da minha mãe ao saber da cirurgia, sinto que passei a cultivar receios que antes não tinha. Cautelas que antes só conhecia através do dicionário. Minha mãe. Preciso avisar minha mãe que deu tudo certo. “Vou deixar que ela avise meu pai” – penso comigo – ela sabe como falar com ele. Coitado do meu pai – eu lamento – deve estar pensando mais uma vez que Deus está nos castigando. Meu pai não passou um dia desde a nossa tragédia familiar sem pensar que estamos todos recebendo um castigo divino. Sempre tento explicar que somos pessoas boas, que castigo não é o caso. “Pessoas boas não tem a filha operada do outro lado do mundo” – ele deve estar pensando agora mesmo.

Sinto uma dor no peito. Culpa? Saudade? A maquininha do meu lado começa fazer um bip-bip descompassado. O ar evapora dos meus pulmões. A enfermeira aperta alguns botões e ajusta uma máscara de oxigênio no meu rosto.

– “Você está apresentando oxigênio baixo, vamos ter que te manter na máquina mais ou pouco, ok?” – ela explica.

Por ironia do destino, havia parado de fumar fazia 30 dias (graças a minha falta de dinheiro muito mais do que força de vontade, confesso). A sensação da falta de ar me fez repensar os meus 10 anos de fumante. Aqueles que eu nunca admito aos médicos. “Fumante, Srta Antônia? – “Eu? Ahn, como você caracteriza alguém como ‘fumante’?” – eu enrolava. Agora estava eu, numa cama de hospital, aos 32 anos, lutando por ar, tendo a certeza de que a culpa era toda minha.

Hora de ir para o quarto. As enfermeiras do andar aparecem para se apresentarem e entender mais sobre o novo caso vindo do bloco cirúrgico. “Antônia tem 32 anos, apresentava um massivo cálculo renal no rim esquerdo, Dr. Tracey realizou uma “!@#$%¨&&*#$” (nome do procedimento de remover uma pedra pelas costas), ela está com um tubo ligado ao rim pelas costas e outro cateter através da uretra.” – “EU ESTOU COM UM TUBO ONDE????????????” – interrompo assustada. “Nas costas” – a enfermeira do bloco responde sorrindo. Coloco a mão na lombar e sinto um tubo da grossura de um dedo saindo de um curativo colado na pele. Vou tateando com a mão e vejo que o mesmo está ligado a uma bolsa – com um líquido amarelo e pequenos volumes transitando, como o trânsito de pedras numa marginal amarela.

“Eu acho que vou vomitar” – anuncio.

“É o efeito da anestesia, vamos te medic…” – Era tarde demais.

Uma hora mais tarde, a porta da qual transitavam enfermeiras a todo instante,  abre-se para uma visita mais esperada. Um alento para o meu peito cansado. Aqueles grandes olhos verdes me receberam com uma mistura de alívio e expectativa. Dei-me conta, pela primeira vez, do quanto esse garoto deveria estar assustado. Num minuto convida uma maluca para passar umas semanas na Austrália, e no outro tem de levá-la as pressas ao hospital e administrar o contato com a família e amigos dela (todos igualmente malucos) para dar notícias. Não tinha sido esse o nosso combinado, eu sabia.

Ele me abraça por entre tubos enfiados por veias e orifícios. Suspira longamente. “Eu estou bem” – lhe asseguro. “Foi moleza” – sorrio, forçando um pouco a barra. Ele beija a minha mão, e diz que eu estou linda. Agora ele forçava a barra. Comento o pouco que sei da cirurgia e dos variados tubos que tenho grudados em mim. Uma enfermeira entra para verificar o oxigênio – que agora é fornecido por um pequeno tubo no nariz, ao invés da mascara. “Esse é seu namorado?” – “NÃOOOO!!” – respondo em pânico antes que ele pudesse responder.

Desejei que ele não tivesse ouvido – mas sei ouviu. Não queria dar ao Boy o peso de perguntas complicadas por cima de uma situação já complicada o suficiente. Fiquei com medo que a máquina ligada aos meus batimentos cardíacos acusasse meu sobressalto. Olhei para ele sem graça enquanto ele sorria, com aquele grandes olhos verdes que combinavam com meu avental descartável.

Tudo se tornou real, entretanto, quando o efeito da medicação para dor chegou ao fim, sem qualquer aviso. O Boy que chegava de volta da cafeteria, cruzou com uma enfermeira apressada que saia do meu quarto ao som dos meus gritos.  Pausa para contextualização: se você já teve cólica renal ou se já encarou a dor de um parto vai me entender. A dor renal sai da intensidade do 0 ao 10 em questão de segundos. Faz você sentir um misto de sensações assassinas e suicidas ao mesmo tempo. Naquele momento o Boy entrou no quarto para encontrar uma Antônia emitindo grunhidos viscerais, audíveis por todo corredor, carregadas de feições faciais dignas do filme “O Exorcista”.  Não era nada bonito.

Enfermeiras entram, conferem meus dados, e aplicam uma injeção na minha coxa com algo que deveria ser parente da morfina. A cena toda durou apenas alguns minutos, mas o suficiente para ser traumatizante para alguém que nunca lidou com cólicas renais antes. O lindo garoto de olhos brilhantes estava em choque observando tudo da porta do quarto. Foi naquele momento que o vi perdendo o “cool” dele. Vi o medo e a responsabilidade jogando a falsa tranquilidade que eu havia lhe dado pela janela. Segundos depois da injeção, voltei a ser eu mesma. A transformação foi como uma cena do filme do Incrível Hulk ou O Médico e o Monstro. Eu estava finalmente melhor – mas não havia injeção para o estado de pânico que o garoto agora se encontrava.

Ele sentou na cadeira do lado da minha cama, e encarou longamente a parede com os olhos marejados. “Lindo, eu estou bem! Eu juro.” – eu dizia insistentemente. “Me dá uns minutos, Antônia” – ele pediu com a voz tremula. Eu me senti péssima por assustá-lo. Senti-me pior ainda por fazê-lo pensar que ele era responsável por mim, naquele país, tão longe de casa. Como eu podia privar meus pais dos detalhes doloridos da minha operação, e fazer alguém, que genuinamente entrou nesta de gaiato, passar por isso?

“Lindo, vai pra casa”. – exigi sem demora. “Amanhã você volta”.

“Vou ficar aqui contigo, eu só fiquei assustado que pudesse ter algo de errado contigo, e acontecesse algo de grave, e aí eu ia …”- a voz dele trava.

“São só dores, e elas vão vir e voltar a noite inteira hoje. E vai ficar tudo bem. Amanhã você volta. Vá agora”.  – Ele me beijou a testa inseguro, e com uma tristeza no olhar foi embora. A despedida foi curta o bastante para evitar que ele presenciasse uma nova crise de cólicas.

As crises duraram a noite inteira, como eu previ. E a noite inteira eu as encarei com a convicção de que devia passar por aquilo sozinha – porque é isso que a gente faz quando a gente cresce – esse foi mais um dos meus aprendizados. A gente protege quem a gente ama e quer bem, daquelas dores que só a gente pode aguentar. A gente protege os nossos pais. E os garotos bonitos que não suportam nos ver sofrer. E nessas situações a gente escolhe que algumas pedras a gente tem lidar sozinha – pelo menos por uma parte do caminho.

Nos dias que se passaram – entre uma segunda cirurgia pela uretra e outros três dias de internação, lá estava ele, com seus olhos curiosos e coração em prontidão. O Boy me viu ficar anojada diariamente com toda a medicação que recebia. Viu meu corpo inchar em 5kg de puro líquido como parte do processo de limpeza do meu rim. Por Deus, esse garoto me viu mijar pelas costas por um tubo. Viu-me arrastar até o banheiro com um cateter pendurado no meio das pernas. E me viu praguejar um hospital inteiro quando cheguei ao meu terceiro dia com o intestino absolutamente constipado, onde tudo que eu queria na vida era cagar (e só conseguia falar disso). Esse garoto só não viu a enfermeira enfiar um supositório no meu único orifício livre, porque eu pedi que ele saísse do quarto.  Fora isso – e o eventual efeito do supositório – ele esteve do meu lado o tempo inteiro.

Ele esteve do meu lado quando o urologista anunciou que eu precisaria de uma terceira cirurgia, pois um pedaço da pedra e um cateter haviam ficado para trás. Viu-me preocupada com o meu futuro, pois a esta altura o meu seguro previsto para 2 meses de viagem, já havia vencido. Eu não tinha certeza de como proceder sobre o futuro. E a ideia de ilhas desertas com o meu surfista parecia cada vez mais distante.

Mas dentre todas as angustias que eu ainda ia encarar com a minha saúde nos dias que viriam, uma certeza permanecia. A presença incondicional daquele garoto, apesar de todas as pedras no caminho.

Sabe, aos 32 anos, eu já não me apaixono mais tão fácil. Os meus relacionamentos esbarram no ciúme de um, na falta de ambição do outro – ou nem chegam a virar algo mais quando recebo um “vosê” no whatsapp. Então ver minha admiração por alguém crescer de forma consistente e tão justificável, foi como uma dose de morfina em um coração doído. Veja, eu sou uma pessoa legal de ter por perto na sua melhor forma – mas ali eu sabia que eu estava muito longe da minha melhor forma. E ver alguém ficar ao meu lado, depois de enxergar tudo aquilo que se encontra embaixo do bonito, do agradável, do sexy, me ajudou a curar outras partes de mim que nada tinham a ver com o meu rim.  

Eu não sabia o que o futuro reservava para nós dois. Mas eu sabia que o garoto ia ficar marcado em mim, como a cicatriz de uma cirurgia. Aquela marca que precisou ser feita para poder desbloquear algo vital de que se precisa para seguir vivendo. E amando.

Fim da Continuação na próxima sessão.

No meio do caminho tinha uma pedra

Quando ele ligou nos primeiros dias deste verão não entendi o contato. Era um amigo de longa data, que há tempos havia se mudado para a Austrália e estava passando o verão em Florianópolis. Não entendi a ligação pelo simples fato de que, dentre tantas pessoas que ele poderia sentir saudade, a nossa falta de contato nos últimos 6 anos me indicava que eu não era uma delas. Mas respondi com meu ar de boa praça de sempre. “Oi (espanto), sim, quanto tempo! É, nos encontramos? Claro, hoje? Ok, hmmm, sim, te busco, forró? Pode ser. Combinado, nos vemos.”

Naquela noite abafada de segunda-feira, me encaminhei para o que parecia ser um programa de índio. Forró na Praia da Joaquina pra encontrar com um cara com quem eu não falava há anos. Mas o meu ceticismo sempre teve tendências monstruosas a levar uns tapas na cara do destino, então lá foi eu.

Fui recebida com lindos olhos brilhantes, um abraço apertado e uma alegria sincera de reencontro. No forró, entre uma cerveja e outra, meu amigo admitiu que me acompanhava de longe, lia minhas intervenções online, e nutria uma enorme admiração. Eu tagarelava sem parar timidez adentro, falando sobre a sorte de ele viver num país organizado e de como a pequena cidade do interior, cenário do nosso passado, não havia mudado nada. Fiquei com as bochechas vermelhas ao reparar como os anos o haviam deixado atraente, e sorria sem graça todas as vezes que ele repetia como era bom me encontrar. Horas depois de atualizarmos nossas histórias sobre a última meia década, o dinheiro da cerveja acaba. Era hora de ir embora.

No caminho de volta, erro a velocidade num quebra-molas, e por reflexo – como as mães fazem com quem senta no banco do carona – coloco a mão no peito dele para evitar que a inércia o jogasse pra frente. No mesmo instante ele segura a minha mão em seu peito. Aperta-a contra ele mesmo.  Olho para o lado e encontro aquele belo par de olhos sorrido, enquanto segura carinhosamente a minha mão. Depois disso foram, deste pequeno e simbólico encontro de mãos – correram-se 20 dias de um amor de verão e uma dolorida despedida no aeroporto.

– Vem me visitar na Austrália – encorajou ele.

– Vou mesmo – eu disse com a convicção de quem não precisa muito para fazer as malas e pegar a estrada.

Meses se passaram e veio a data da esperada viagem. Com o coração cheio de dúvidas encarei as 36h cruzando o globo. Uma viagem adicional de duas semanas com as amigas em Bali foi o que precisei para poder dizer para mim mesma que não estava atravessando o mundo APENAS por causa de um caralho (por melhor que o caralho fosse). Bali veio e foi um sonho vivido do lado das pessoas que eu já sabia que amava. E então, sem muita demora, eu peguei o caminho da Austrália para encarar a aventura de ficar na casa do Boy (vamos chama-lo assim). Sim, aventura porque nada mais extremo que viver um amor de verão num minuto e no outro ir “morar” na casa do cara – ainda que por algum tempo. 

A primeira semana passou como mágica, regada pela alegria do reencontro, horas infinitas de sexo de saudade e o conhecimento da rotina dele. Esforcei-me para parecer bem organizada, bem composta, e supeeeer confortável em dividir a cama. Teve a primeira festa com os amigos dele, a primeira briga, a primeira menção sobre uma possível conversa sobre um possível futuro. O Boy me convidou para estender a minha viagem a Mentawais, outra parte remota da Indonésia formada por ilhas praticamente desertas. Era como um sonho se realizando. Eu, um surfista e uma ilha deserta. Não foi difícil começar a estudar a possibilidade.

O segundo final de semana veio com uma gripe. A dele passou com a chegada da segunda-feira. A minha piorou com a necessidade de uma ida ao hospital. Meu estado tinha cara de problema. Uma pedra no caminho da minha viagem. Mas em toda a minha imaginação, eu só não imaginava o tamanho da pedra.

Na emergência do hospital indicado pelo meu seguro, o diagnóstico. Estava sofrendo de uma infecção urinária medonha. As dores lombares alertaram o médico que me atendia para a necessidade de um CT Scan. O resultado do exame confirmava a pedra no caminho: A parte interna do meu rim esquerdo, tinha sido tomada completamente por um cálculo renal imenso. Uma pedra monstruosa. Um aerólito. Assusto-me por um minuto, mas percebo que o Boy parece mais assustado que eu, então tento manter a compostura até a chegada do especialista.

Da boca do urologista, em um inglês australiano tranquilo, ouvi aquilo que ninguém quer escutar a 13mil quilômetros de distância de casa (e com o dólar 3 vezes o valor dos meus míseros reais). Eu precisava de uma cirurgia. Urgente, já que meu rim estava sofrendo. Dei baixa no hospital para lidar com a minha infecção urinária e mandei o Boy pra casa para lidar sozinha com toda a onda de pavor que tomava conta de mim.  Lembrei-me da pedra no rim que havia removido 12 anos atrás e das cólicas renais memoráveis. Aquela que eu haveria de encarar, tinha nada menos que a mesma proporção do dólar – 3x maior.

No dia seguinte de volta a casa, iniciei o processo de autorização da minha cirurgia pelo meu seguro de viagens. Intermináveis ligações durante dias, uma pá de documentos e exames, e o maior número de e-mails que já mandei na vida, justificavam a necessidade da cirurgia. A autorização veio, para o nosso alívio (meu e do Boy que pipocava angustiado ao meu lado durante as negociações). O grande problema estava na transferência de fundos. E  fica aqui o meu primeiro grande aprendizado desta história – a transição internacional de dinheiro nunca é simples.

O meu caso, por exemplo: o hospital não aceitava o cartão de crédito do meu seguro, então para que eu fizesse a cirurgia, o seguro deveria transferir dinheiro para o hospital. Até aí sem problemas. Acontece que para realizar uma transição internacional, o seguro precisava de uma nota fiscal com os valores da cirurgia, e o hospital só emitiria a nota fiscal após a cirurgia, mas também só realizaria a cirurgia depois que o seguro transferisse o dinheiro. Entendeu? Meu rim entrou num loop burocrático infinito. A esta altura, já somávamos duas semanas de negociações e nada da minha cirurgia.

Mas aqui cabe outro grande aprendizado desta história – quando você mais precisa, você pode encontrar um amigo em um estranho. Ao acompanhar a minha trama, Dr. Tracey, meu urologista, ficou compadecido de certa forma com a minha história. Pela minha viagem interrompida pela pedra. Pelo tamanho da pedra. E pelo drama com o financiamento da minha cirurgia. Foi quando sugeri ao seguro pedir ao Dr. Tracey – em uma última tentativa  – que ele emitisse a nota com o valor do hospital, recebesse o dinheiro do seguro, e assim pagasse as custas do hospital. E foi na bondade de um estranho, que consegui organizar minha ida para o centro cirúrgico.

Neste dia, pela primeira vez, vi o belo par de olhos do meu lado, chorar de alívio e alegria.

Dia da operação, e eu estava animada. Depois de 15 dias de espera e angustia, estava pronta para entrar na faca e liberar meu pobre rim das pedradas desta vida. Pesquisei meu procedimento no YouTube. Pareceu-me não ter mistério – os caras iam furar as minhas costas até o meu rim, e de lá começariam a remover meu aerólito. “De boua” – pensei. O restante do que ficasse faltando, seria removido pelo canal da uretra – ou como eu gosto de dizer, pelo buraco que Deus me deu, lá pela vagina.

O Boy me deixou no pré-operatório com feições mais dramáticas do que ele normalmente me olhava. Os olhos lindos agora eram carregados de preocupação, enquanto eu fazia piadas idiotas sobre a “transferência do corpo” estar inclusa no seguro. Eu tenho tendências a idiotice quando estão para perfurar meu rim – agora eu sei. “Fica tranquilo – vou sentir só uma picadinha!” – tentava acalmá-lo em vão. Na entrada do bloco cirúrgico, usando minhas roupas descartáveis – fazia brincadeiras com a equipe com a tranquilidade de quem ia “logo ali se operar e já voltava”. Dr. Tracey apareceu por entre as portas do bloco (com seu sorriso de alívio por finalmente me ver no hospital) e garantiu “Nós cuidaremos de você”.

– “Não tenho palavras em inglês ou português para agradecê-lo” – digo com os olhos mareados.

Fico um minuto sozinha enquanto a equipe prepara a sala. Sem ninguém para entreter ou me tranquilizar, me ocupo do futuro desconhecido. “Eu não posso morrer”. Frase que passei a mentalizar sempre que fico com medo. Na turbulência de um avião. Num pequeno acidente de carro. Numa possibilidade de assalto. Antes da minha cirurgia. “Eu não posso morrer”. Eu não posso morrer e tirar dos meus pais mais um filho. Não posso morrer. Não posso ter uma lápide, não posso ir para o céu. Não ainda.

Eu nunca me ocupei da minha morte antes de perder o meu irmão. Sempre achei que morrer jovem seria até mesmo poético – com minha pele boa, antes de ter remorso demais da vida ou das pessoas. Pois não mais. Parece que com a despedida do meu irmão, a minha vida já não me pertencia mais. Pensei nos meus pais e chorei as lágrimas que escondia de todos até aquele momento. Agradeci por passar por esse processo bem longe deles. Não aguentaria tê-los na sala de espera, aguardando notícias minhas. Rezei para o meu irmão, pela primeira vez pedindo um favor. “Léo, por favor. Eu não posso morrer.”

– Está pronta, Antônia? – a enfermeira interrompe meu pedido.

– “Não. ‘Léo, por favor. Eu não posso morrer’ (mentalizo)”.  – Abro um falso sorriso de confiança – “Pronto. Agora sim, estou pronta”.  

Sou posicionada abaixo daquelas luzes enormes (e assustadoras) da sala de cirurgia.

– Oi Antônia, sou o anestesista, você vai sentir um piquizinho. Conte até cinco e pense num lugar que você queira visitar em seus sonhos.

– “Ok.  – respondo prontamente – ‘Léo, por favor. Eu não posso morrer’ (mentalizo de novo)”. “5,4,3 – …”

Fim da Continuação na próxima sessão….

Fiquei offline

Fui viajar e acredite, a internet não importou tanto assim. Confesso, pra uma heavy user como eu foi uma bela desintoxicação. Esqueci de pagar a conta do provedor do meu site, atrasei pautas para editores, já que por alguns dias, a minha presença “nas internê” já não era tão crucial. Nenhum desrespeito a editores ou leitores, eu juro, não era isso. Mas a vida real me chamou lá fora, exigiu a minha atenção. E quando a vida chama com tamanha intensidade, curtir publicações fica menos importante que curtir momentos. Vocês entendem, não é?

Eu fiquei offline porque o sol insistiu em brilhar lá na rua. Mudei a minha localização geográfica para um país que vive feliz com muito pouco. Ou talvez “pouco” tenha sido um valor distorcido na minha vida de acumuladora. Claro que tive que acumular dinheiro, para poder acumular histórias em outros cantos do mundo. Mas acumular roupa suja, joelhos encardidos e amizades novas me pareceu uma atitude de valor inestimável nos meus dias na Indonésia. Sendo assim o Wi-fi foi usado quase que exclusivamente para avisar a minha família de que eu estava feliz e com saudade e talvez compartilhar uma foto aqui ou outra ali. O apelo visual foi uma ferramenta utilizada quando me faltaram palavras para descrever a alegria que vivi.

Eu fiquei offline porque a conexão com templos era impossível de ignorar. Ou porque macacos selvagens tinham mania de roubar celulares, então por muitos momentos ele ficou guardado por precaução. Fiquei sem bateria incontáveis vezes, depois de tentar de forma frustrante tirar fotos e fazer vídeos que fizessem justiça ao que meus olhos presenciaram ao vivo, e falhei em todas as vezes. Fiquei sem bateria no corpo também, porque ser feliz cansa. Embaraça o cabelo, que passou a cultivar dreadlocks que levaram dias para serem desfeitos. Talvez uma dica do vento dizendo pra não me preocupar com o alinhamento das coisas, que a vida é mesmo um emaranhado de sentimentos, sonhos, angústias, paixões, e que tudo isso não é páreo para condicionador e pente.

Fiquei offline porque as pessoas a minha volta exigiram atenção. Gritante e espalhafatosa atenção. Com suas peripécias malucas, histórias incabíveis e impublicáveis. Larguei o celular pra pegar na mão de amigas, abraçar novos conhecidos, viver novas paixões e reencontrar comigo mesma. E eu adoro reencontrar comigo mesma. Larguei o celular porque ele não cabia na carona de uma moto, ou dirigindo um carro com 9 meninas lindas, na mão inglesa, que é a contrária daquela que aprendi, enquanto tentava falar “buzinês balinês” numa terra que não entende o uso do pisca. Abri mão dos eletrônicos porque eles não são bem vindos no mar, e precisava das mãos pra pegar conchas, admirar corais, e tentar (inutilmente) não escorregar de pedras nas cavernas que descobri. Precisei das mãos para fazer uma prece de gratidão a cada passo do caminho. E abrir uma cerveja Bintang a cada novo tropeção.

Fiquei offline por necessidade, mas também por escolha. Perdi aniversários de amigos, momentos dramáticos na política, não respondi e-mails importantes, e chateei muita gente por falta de retorno. Me perdoem, entretanto não foi por mal.

Às vezes a vida pede “presença presente”, ativa, contribuinte e alerta na vida real. Talvez são os momentos em que a gente se importa mais com estar vivo, do que estar online.

Agora tudo volta à “normalidade”. Com o coração pulsando pela próxima oportunidade de me desconectar do mundo, e me reconectar com o melhor de mim. Essa conexão sim, eu curto muito, e compartilho.

 

Fim da sessão.

ps: tem mais sobre Bali vindo aí, por hora: Tera Makasih.

Adeus, tchau e até logo

Escrevo essa sessão de um lugar que gosto mais que um bom divã. Um aeroporto. O dia não amanheceu ainda, mas o meu pânico de perder um voo por conta do trânsito, me trouxe ao aeroporto Internacional de Guarulhos um pouco depois das 4h da manhã. Munida de um café hiperinflacionado, eu observo a movimentação sonolenta de funcionários e passageiros que como eu, aguardam as horas mais efetivas do dia. Não sei por que demorei tanto para comentar sobre essa viagem aqui. Talvez porque ainda que esteja a algumas horas de cruzar o globo, essa viagem tem um ar de tranquilidade e pouca presunção. O destino já é conhecido: Austrália, com alguns dias de pura alegria na Indonésia. Tempo estimado de viagem: 2 meses. Ou seja, eu vou logo “ali” e “já” volto.

O que me impressionou nesta viagem em particular foi a comoção alheia com a movimentação que, em tese, dizia respeito apenas a mim. Amigos, familiares e conhecidos, dedicaram bom tempo a especulações sobre o meu retorno e sobre a intenção com o meu deslocamento para lá onde Judas perdeu as botas (Timberland, possivelmente).  Não importava quantas vezes eu explicasse com tranquilidade que logo voltava e minimizasse o drama envolvido em alguns dias de ausência física. Sim, física, porque depois do Whatsapp, ninguém tem um minuto mais de reclusão na vida. Houve lágrimas, ansiedade crescente e horas de explicações pouco compreendidas (pra não dizer abafadas pelas lágrimas infundadas).  Para muitos, a minha viagem não era logo “ali” e tão pouco era um “já” volto.

Acuso esse fenômeno desconcertante que precede uma viagem, como a síndrome do  desconhecimento sobre a diferença entre o adeus, o tchau e o até logo. Não posso ser injusta com meus amigos. Ora, eu sou uma viajante incorrigível, então a ideia de eu não voltar a criar raízes não é tão absurda. Isso agravado pelo fato de que meu retorno do mundo para a pequena cidadezinha que chamo de lar no interior do Rio Grande do Sul, nunca ser suave. É como tentar usar dois pares de sapatos nos meus únicos dois pés.  É um desequilíbrio constante tentar existir perto da minha morada fixa, e aquela que habita o peito e segue solta pela estrada. Existe também chance de encontrar um amor em outros portos. A possibilidade de um livro. A conquista de uma nova cidadania. Ok, talvez eu tenha sido dura demais avaliando o drama envolvido das minhas despedidas. Eu tenho muito pelo que partir.

Mas eu também tenho muito pelo que voltar. Certo dia, um amigo que mora justamente na Austrália, me perguntava do que eu mais gostava na minha pequena cidadezinha, afinal eu havia trocado o mundo, para voltar pra lá. E a minha respostar não podia incluir a minha família e amigos. Fiquei consternada ao descobrir que além dos meus amores, o meu bar preferido era a única coisa que ocupava a minha lista. Ok que o bar em questão fazia tele-entrega de bêbada na minha casa, vez que outra quando necessário. Mas ainda assim, não conseguia justificar que meu único elo com a cidade se resumia ao local onde eu bebia. Em conversa com o dono do mesmo bar, reclamava preocupada sobre meu drama, quando ele me mostrou que a pergunta do meu amigo era injusta.  Porque o “além da minha família e amigos” imposto na minha resposta, era justamente o fundamentava todo meu existir. E até a escolha do bar só reforçava o meu “além”. Porque era onde eu encontrava com quem eu amava, além da minha casa.

Eu evitei despedidas antes de chegar a este aeroporto, hoje, às 4h da madruga. Mas o meu esforço foi totalmente em vão. Vivi os últimos dias com gente que fez plantão na minha casa, até quando eu dormia, para ter certeza de que curtiriam os últimos momentos, antes dos próximos, na minha companhia. Recebi mensagens de quem eu sequer avisei sobre a minha partida. Eu bebemorei amizades mais do que meu corpo aguentou nas últimas horas, e confesso que meu fígado odeia despedidas mais do que eu, neste momento. Eu vi meus pais reforçarem o poder das minhas asas, mais do que a importância do meu ninho, provando que amor é mesmo deixar livre para poder voltar. E que embora todo mundo duvide da diferença entre adeus, tchau e até logo, tem algumas certezas que são irredutíveis. De que às vezes é preciso ficar longe de todo mundo, para poder ficar perto da gente mesmo. E que nada no mundo é melhor do que ter motivos pelos quais voltar pra casa.

É bom ir embora pelas razões certas, eu garanto. Mas nada supera voltar pelas mesmas ou novas razões. E se existe dúvida em relação onde e porque a gente faz raízes, não existem dúvidas de que somos todos passageiros. Então faz sentido apenas aproveitar a viagem. Cheia de partidas e chegadas. Despedidas e reencontros.  A vida é muito curta para ficar parado, e importante demais para não ter ao que se apegar.  Então acreditem, eu vou até “ali” e “já” volto. Bon Voyage.

Fim da sessão.

Ps: O divã segue com suas sessões, com cronograma um pouco bagunçado em razão de fuso, e horas intermináveis de diversão. A meta inclui o famoso livro, que eu comunico aqui com a intenção única de botar pressão em mim mesma. Quem quiser curtir o divã na estrada pode me acompanhar pelas redes sociais – Facebook ou Instagram (@antonianodiva). Mandem dicas, convites para café e cerveja além dos mares, ou apenas seus desejos de boa viagem. É preciso ir embora, sim,  mas não quer dizer que não quero todos vocês juntos comigo. Vem também.

 

5 razões para viajar | Vai para o Mundo

A grande maioria das pessoas que viaja por diversão, pouco se dá conta de que o ato de viajar é também um aprendizado intenso sobre o mundo, e o melhor, sobre você. A convite do blog Vai para o Mundo, e também para provar minha teoria, listei abaixo 5 razões para você botar a mochila nas costas, e seguir direto para essa escola chamada mundo:

1) Planejamento de projeto de curto, médio e longo prazo

Viajar exige um planejamento que vai desde destino, acomodações e métodos de deslocamento, até um estudo financeiro otimizado de um projeto que pode durar duas semanas, ou até um ano de volta ao mundo. Esse plano ajuda viajantes a calibrar expectativas, prever riscos e ter planos de contenção de crises. Cria hábitos saudáveis de autoproteção. Desenvolve a comunicação e poder de resolver problemas. Talvez a lição não fique tão óbvia porque você está se divertindo, mas o aprendizado começa antes de você sair de casa.

2) Conhecimento íntimo de novas culturas

Esse ponto é vendido como o bom e velho clichê de conhecer o mundo fora dos livros, mas é de fato uma boa oportunidade de entender questões sócio-políticas do mundo. Em sociedades que a globalização ganha cada vez mais velocidade, entender como novas culturas funcionam, vivenciando-as, pode ajudar você a entender o que acontece e porque acontece além das fronteiras do seu quadrado. Ajuda a formar opiniões com base em experiências, mais do que o que a mídia diz através da sua televisão ou redes sociais.

3) Acesso a novas fontes de inspiração

Viajar sempre fomenta a inquietude existente dentro de todos nós. O fato de sair do nosso lugar seguro, provoca todo tipo de criatividade que estava lá, guardadinho num lugar escuro do nosso inconsciente. Viajar é fonte interminável de inputs criativos, seja através da arte, da arquitetura, da música, e por aí vai. Não é a toa que grandes ideias e projetos surgem depois de uma viagem. Quer inspirar-se? Caia agora no mundo.

4) Renovação da fé

Ok, ok. Mesmo que você não seja religioso(a), entenda que viajar é um ótimo exercício de renovar a fé nas pessoas. Sim, porque ser viajante é constantemente encarar perrengues, e não existe nada mais gratificante que encontrar ajuda em um estranho cheio de boas intenções. Então se não for para renovar a sua fé através de uma visita a uma igreja linda, um templo budista inspirador, ou conhecendo uma curandeira de uma tribo, viajar pode ser uma boa pedida para botar fé na humanidade. Afinal, nestes momentos a gente percebe a divindade do outro que estende a mão. E isso nos torna mais humanos, e mais divinos.

5) Reconexão com você

Não existe verdade mais permanente entre viajantes de que viajar é conhecer o mundo, e talvez a melhor forma de conhecer seus limites pessoais, sua essência. É uma terapia de choque. É você com você mesmo, na alegria da descoberta de uma nova praia, ou na tristeza de ter as malas extraviadas. É a prova viva da sua adaptabilidade, do seu poder de superação. E é sem duvidas, uma gentil oportunidade de se apaixonar por você. E viciar nesse encontro – de você com o mundo, mas também, de você com você mesmo.

Convenceu-se a pegar a estrada? Bom, se estas 5 razões não forem suficientes para encarar a aventura, viaje porque é bom. Porque é divertido. Viaje porque você merece. E porque visitar e viver o mundo lá fora, pode fazer maravilhas com seus limites e as fronteiras de dentro.

Viaje! Vai para o mundo.

Fim da sessão.

  • Essa sessão foi escrita especialmente para o blog Vai para o Mundo, um projeto querido das minhas amigas Gabriela Brunelli, Gabriela Sarturi e Amanda Schenkel que como eu, são viajantes de carteirinha.  Confere lá!

Não diga “eu te amo”, diga “vamos viajar”.

Já faz algum tempo que viajar mudou a minha vida, como poucas coisas neste mundo conseguiram. Eu sei, oportunidades de emprego são maravilhosas, conquistar algum poder aquisitivo também, um pedido de namoro é algo especial, mas nenhuma destas conquistas fala tanto com o meu coração cigano, quando um convite para pegar a estrada.

Eu fui do tipo de viajante dita “loba solitária”. Não que eu não quisesse ninguém comigo, do contrário, eu viajei muito sozinha justamente para me pré-dispor a conhecer pessoas. O fato de botar a mochila das costas e marcar um encontro com o mundo proporcionou-me conhecer algumas das pessoas mais fantásticas que tive o prazer de cruzar. E eu celebro os amores e amizades que espalhei por aí até hoje, num misto de saudade e euforia a cada novo contato.

Mas algo sobre convidar alguém para viajar faz o meu estômago dar cambalhotas e cair em espacato. Primeiro porque viajar é um ato que por si só exige muita coragem. Você sai da zona de conforto, e isso exige todo tipo de preparo mental para os perrengues do caminho.  Viajar acompanhado exige um preparo ainda maior. Sim, porque você se vê obrigado a discutir como resolver cada situação e concordar com as soluções necessárias a cada novo dilema. É como consertar a roda da bicicleta enquanto anda nela. Viajar acompanhado é abrir mão do que “EU” quero fazer, e achar harmonia no que “NÓS” iremos fazer. E para uma viajante independente como eu, abrir mão de algo no momento mais egoísta da vida – aquele tempo que eu tiro para desbravar o mundo – é o maior ato de altruísmo que alguém pode esperar de mim.

A exemplo das maravilhas de dividir estes momentos, eu posso citar a sensação maravilhosa de chegar numa praia nunca explorada antes e olhar para o lado e ver a boca cheia de dentes de uma melhor amiga no maior sorriso do mundo. Talvez o sorriso seja mais belo que a própria praia. Dividir a cama de um hostel com aquela sua outra amiga que fez questão de te encontrar num pais distante (mas que esqueceu de fazer uma reserva) pode ser considerada uma forma de amor também. Segurar na mão de alguém enquanto admira a vista de uma alta colina na Escócia tem o mesmo frisson de um orgasmo. Beijar sob luz das estrelas e ver acompanhada o sol nascer na ilha grega de Ios, é uma memória que jamais vai se esvair da minha mente.

Então perceba que viajar é um ato de amor próprio. E dividir esses momentos especiais é algo sublime.

Na semana passada eu me despedi de alguém que conquistou rapidamente um lugar no meu coração. E como eu sou masoquista fui até o aeroporto dizer o meu “até breve”  – aeroporto, aquele lugar que sozinho já me desestabiliza. E nesse exercício de ir embora e deixar ir embora, eu fiquei para trás no portão de embarque lembrando-me de tanta gente que amo e que em algum momento já se despediu de mim. Naquelas despedidas, me dei conta que muito mais do que dizer “eu te amo”, eu dizia “te espero lá, vem viajar comigo”. Era esse o meu jeito de dizer que amava – provando que eu estava disposta a dividir o melhor do mundo com aquela pessoa – seja ela pai, mãe, irmãos, amigas, amores.

E isso aconteceu comigo mais uma vez nesta semana, mas desta vez eu estava do outro lado da mesa da proposta. Lá da Austrália, eu ouvi a minha frase preferida “ei lindona, vamos viajar, vem pra cá passar um tempo comigo”. Pronto! Talvez um convite de casamento não tivesse me arrancado uma euforia maior. Comuniquei uma amiga sobre a proposta, e ela disse “vem pra cá mesmo, eu te ajudo com a passagem”. Eu tive dois convites de amor em um mesmo dia. Eu pude jurar que eu era a garota mais sortuda do mundo.

Não sei o que acontece com o meu peito nômade, mas essa proposta tem um poder sobre mim como nenhuma outra. Talvez porque eu sei que viajar junto dá trabalho. Ou porque eu tenha certeza que as memórias de uma viagem são intensas, especiais e marcantes. Ou simplesmente porque o meu ideal de relação envolva justamente a ideia de alguém querendo me entregar o mundo, de celebrar meu anseio por liberdade e de querer me ver dançar a alegria de conhecer novos territórios. Pode ser que seja porque eu sou a melhor versão de mim com uma mochila nas costas, e o amor seja mais convidativo. Ou apenas porque eu sou louca por viajar e nenhuma outra analogia seja necessária.

De qualquer forma, não importa se a viagem é até a praia logo ali, ou se o convite é para atravessar o mundo. Eu não me preocupo se um lance é um lance, ou se vai ser romance. O convite não precisa vir de um amor arrebatador, pode ser um amigo, ou alguém que tenha saudades. Amor para mim fica óbvio com a sugestão de visitar essa minha velha amiga chamada estrada. Receber um convite meu para uma viajem, é, sem dúvidas, ter a oportunidade de ocupar o lugar de maior prestígio na minha vida. Não precisa de promessas de amizades eternas, juras de amor, alianças ou outras provas tradicionais de carinho.

Só dois passaportes e o mundo.

Então se quiser provar que ama um viajante, não diga “eu te amo”. Diga “vamos viajar”. Eu tenho certeza que ele vai amar e arrumar as malas correndo. E neste caso, não responda “eu te amo também”, diga “eu estou indo!”.

Fim da sessão.

Desculpa o transtorno, a réplica dos meus ex.

À convite do ATL Girls aceitei o desafio de pedir aos meus ex-namorados uma réplica da crônica sobre Gregório Duvivier e Clarice Falcão. E aí? Acha que rolou drama ou carinho?

Clique na imagem abaixo e confira:

ex

Papa-Gringo

“Garota, você ia pirar na Vila Olímpica”.

Essa foi a mensagem de uma amiga direto do Rio. No meio de um grupo de whatsapp de 17 mulheres, foi para mim direcionado o foco dos romances intercontinentais.  “Papa-gringo”, algumas amigas  me chamam tirando sarro, devido ao meu interesse pelos espécimes que vem de fora. Não que ele seja exclusivo para os artigos importados. Eu amo o produto nacional. O que me faz colecionar bandeiras é primordialmente o meu tesão por falar inglês… o resto, bem, o resto é consequência.

O meu primeiro flerte cross-ocean foi um australiano. O pai dele tinha um parque para o cuidado e procriação de tubarões, e foi aí que ele me ganhou. Na minha cabeça jovial ele era selvagem e exótico como eu nunca tinha visto nada na vida. Isso claro, e o cabelo louro-dourado, olhos cor de mar, e físico de quem surfa desde que aprendeu a andar. Ele passava as férias na Praia do Rosa, enquanto eu passava os minutos planejando a nossa casa em Fresh Water, de frente pro mar. O romance durou 2 dias, mas perdurou por anos no meu imaginário.

O primeiro relacionamento intercontinental sério que tive foi com um tailandês de família chinesa. Eu morava em Londres há poucos meses, e tropecei nos olhos puxadinhos do Brett sem pensar duas vezes. Ainda que o namoro tivesse engatado rápido, o sexo era outra história. Depois de diversos amassos entre a gente, e nada dele tomar a iniciativa, eu perguntei se ele tinha algum impasse comigo. “Respeito”, ele disse. E me lembro de ter ficado em choque. Enquanto eu estava ouriçada como um animal no cio, o meu namorado estava puramente respeitando o meu tempo. Óbvio que “o meu tempo” levou só até o fim daquela conversa. Mas aí eu não culpo a minha brasilidade por isso.

Nesta mistura de culturas entre Brasil e Ásia, alguns pontos me chamaram a atenção. O fato de o meu namorado ter um irmão gêmeo, (e sendo isso na Ásia uma benção divina), fez com que os rapazes tivessem sido criados sempre juntos, e por isso nunca se desgrudavam (tipo, NUNCA). Por vezes eu tive a sensação bizarra de que estava num relacionamento com os dois. Outra situação inusitada foi em nossa viagem a Tailândia, em que fomos notícia em um site de fofocas – porque 1) o Brett, que tinha sido VJ na MTV por anos, estava de volta a Bangkok depois de muito tempo, e 2) porque ele trazia uma namorada “fora de padrão”, segundo o que contava o site.  Óbvio que minhas curvas não cabiam dentro da expectativa tailandesa, só não imaginava iriam torna-se notícia.

Mas as estranhezas não pararam ali. Ainda que o Brett e eu estivéssemos namorando há mais de um ano, na casa da minha sogra, tivemos que dormir em quartos separados. E claro, a mais bizarra experiência desta viagem, é que eu não pude participar de um almoço da família do Brett, em virtude do avô dele, o patrocinador de seus estudos em Londres e patriarca extremamente conservador, sentir-se-ia ofendido com a minha presença. Afinal, o Brett estava em Londres para estudar, e não para arrumar uma namorada brasileira. (Soube que este ano o velho teve que engolir a esposa Venezuelana com quem o Brett casou-se numa ilha tailandesa).  O Brett e eu terminamos numa boa, ainda que ele nunca mais tenha falado comigo, ou respondido minhas mensagens de despedida ou parabenização pelo casamento. Ele tinha promovido o mesmo isolamento com outra ex- namorada enquanto namorávamos, e entendi que aquele era o comportamento padrão de término dele (ou da cultura dele).

Tempos depois do Brett, acabei conhecendo um britânico e ele me chamou para sair. Durante a nossa conversa sobre diferenças culturais, o inglês comentou como nós brasileiros gostávamos de tocar nas pessoas enquanto falávamos. Propus então um desafio, que nós contássemos quantas vezes eu encostaria nele, e quantas vezes ele encostaria em mim durante o nosso “date”. 2 horas e muitos drinks se passaram e eu encostei 78 vezes nele. Ele? Duas. Uma na chegada, e outra na despedida. E juro que desde então, controlo sempre as minhas mãos quando conheço alguém – brasileiro ou não.

E assim eu segui, entre trancos e barrancos, me relacionando com bandeiras globais, sem muita comoção, até o meu primeiro e grande amor platônico por um galês. Bem, basta dizer que por ele, eu aprendi a falar “bom dia, boa tarde e boa noite” no idioma do País de Gales, que é campeão internacional de uso de consoantes impronunciáveis.

Durante os meus 2 meses de mochila nas costas pela Europa, um flerte aqui, e um lance ali, fui aprendendo e aproveitando a solteirice em outras línguas. Por conta destas aventuras, comecei a ponderar alguns comportamentos, e registrar todos as minhas efemérides em outro blog que guardei a sete chaves. Visito o blog até hoje sempre me dá saudade dos amores que deixei em cada porto, como a marinheira que sempre sonhei ser. Colecionando bandeiras e suspiros, com o tesão de quem descobre o mundo também na saliva e carinho do outro.

De volta ao Brasil, lembro com saudade da Copa do Mundo, aliás, a “copa da pegação” como a apelidaram aqui nos confins do Brasil. Recordo que escrevi o meu primeiro texto viral, muito antes de ter o Antônia no Divã, falando sobre as delícias de ter o mundo no nosso quintal. Ora, é claro que a minha amiga ia lembrar-se de mim na Vila Olímpica.

Recentemente, coletei minha primeira bandeira germânica, aqui, na minha própria cidade, e confesso que me vi atrapalhada. Eu, brasileira explosiva, passional até o último fio de cabelo, num romance temporário intercontinental de chacoalhar a minha desordem.

O alemão tinha pouco ou nenhum interesse pelos meus faniquitos – o que para uma aquariana egocêntrica é o mais azedos dos remédios. Corrigia-me sem nenhum constrangimento. Prestava atenção em tudo que eu falava (e eu falo pra car@$#*) como quem observa um experimento acontecer, e toma notas mentais. Ligava no final de cada dia para contar do trabalho e fazer planos. E ao fim de de duas semanas, ele já sabia o que cada uma das minhas expressões queria dizer, ainda que me forçasse a falar toda vez que eu fazia beiço – “eu posso até entender inglês, ou mesmo aprender português, Antônia, mas ainda não leio a sua mente. Melhor falar o que está te aborrecendo”. Como fazer drama com alguém que veio do país que praticamente inventou a engenharia de precisão?

Que saudade que eu estava deste choque de culturas.

Dentre amores e desamores, alguns aprendizados ficaram com este meu coração viajante: 1) Eu gosto de romances intercontinentais pela riqueza da troca cultural. É isso que me seduz. Então “Papa-gringo” ou não, eu já assumi que eu amo conhecer o mundo com todas as suas ferramentas. 2) Ainda que fã dos romances intercontinentais, eu não fui feita para relacionamentos à distância. E por último, mas não menos importante: 3) Mesmo que tudo comece pela vontade de falar inglês… gozar é sempre em português. O meu orgasmo não tem tradução. 🙂


Fim da sessão.

Session end.

Pen y sesiwn.

Sitzungsende.

ปลายเซสชั่น

Eu adoro aeroporto

– “Filha, não precisa me buscar no aeroporto. Eu pego o trem”.

– “De jeito, nenhum, mãe. Eu faço questão”.

Ela encerra a ligação agradecida, ainda que não tivesse tido tempo de explicar. Não que eu não fizesse questão de dar uma carona para a minha mãe, mas naquele contexto, o que eu fazia questão ali, era o aeroporto.

Eu adoro aeroporto. Gente chegando, gente indo embora. Pessoas se despedindo com lágrimas nos olhos, ou se reencontrando com sorrisos largos. Últimos beijos, primeiros abraços. Adoro chegar com antecedência e me pôr a vislumbrar histórias de partidas e chegadas, ou mesmo de inventá-las, com roteiros elaborados, dignos de blockbusters. Eu me sento com o meu pão de queijo ultra-inflacionado, um café expresso e observo os passos apressados seguidos de malas, mochilas, bolsas e travesseiros de pescoço.

Faço uma leitura visual dos passageiros, e simulo seus itinerários. “Aquela ali vai viajar pra longe da família pela primeira vez, pelo pranto da mãe. Europa, pelo tamanho da mala. Ninguém vai pra Austrália com tudo aquilo.”– concluo. “As pranchas daqueles lá indicam uma surf-trip dos amigos. Chile, provavelmente, um deles derrubou a roupa de borracha tipo long.  Mas o chapéu de palha do outro acusa que pode ser El Salvador.” “O cara de terno e micro-mala vai a São Paulo a negócios. Pela cara dele, ele trocaria a selva de pedras por qualquer mar do Caribe”. Talvez eu também devesse conhecer o Caribe…

“A Infraero informa…”. Pronto, sou retirada do meu mundo de simulações pela voz metálica da moça da Infraero. Eu adoro tudo que a Infraero informa. O tráfico de aviões, os atrasos, as chegadas antecipadas, as trocas de portões de embarque – ainda que eu nunca escute os avisos quando deveria. Esses áudios são musica para os meus ouvidos, mesmo quando em alguns aeroportos eu não entenda tudo que dizem.

Como em Abu-Dhabi, quando perdi a versão em inglês do anúncio de que trocaram a minha conexão para a Tailândia e eu quase perdi meu voo, não fosse por uma burca-preta tímida e gentil, que me apontou o telão que anunciava a informação. “Como se vai de burca para a Tailândia?”, pensava enquanto nós duas corríamos para o portão certo. Ou da vez que anunciaram em um belíssimo italiano que o aeroporto fechava durante a madrugada, e eu tive que dormir no meu saco de dormir no chão, junto as minhas amigas aranhas, sem ter como sair do recinto para um lugar mais confortável. No fundo eu estava em casa, dentro de um aeroporto. Entre a Roma e Istambul, o que eu tinha para reclamar (além as aranhas…)?

Gosto da expectativa inebriante destes saguões.  Encaro os telões cheios de voos separados apenas por alguns minutos, que chegam de todas as partes do mundo. Penso nos céus que cruzam, nos oceanos que sobrevoam. Faço uma lista mental de onde eu iria se não me sobrassem responsabilidades e me faltassem dólares, euros, yuans. Meu estômago pula, cada vez que os letreiros trocam números de voos e destinos. Penso nos aeroportos que já receberam a minha alegria, o meu cansaço, o meu atraso, e de que não existe pior sensação no mundo do que chegar atrasado em um aeroporto, e ficar pra trás em Barcelona. Bem, isso até descobrir um boteco que servia sangrias baratas até o próximo voo (caríssimo) disponível. Eu adoro aeroporto.

E de aeroporto em aeroporto, eu faço planos infalíveis de dominação do globo. De juntar milhas com a mesma euforia de quem junta horas na fila do scanner. Eu sempre temo ter esquecido um líquido sagrado na mochila, que possivelmente terá de ficar ao lado da máquina de raio-x para descarte, até me lembrar que eu gasto os meus bocados muito mais com drinks do que com cremes caros. Eu me tremelico toda nas conferencias de passaporte. Já esqueci meu próprio nome em duas ocasiões distintas (talvez eu deva escrevê-lo na minha mão, na próxima). Eu sempre acho que vou ser confundida com uma prostituta em Madrid, uma traficante em Paris, confundida por sóbria demais para a Escócia, ou vítima da Ebola na saída da Johanesburgo. E eu nunca fiquei mais que 7 perguntas e alguns minutos suando frio nestes interrogatórios. É a síndrome do “não vou passar do aeroporto”. Ainda que eu adore aeroporto.

Adoro os pátios de aeroporto. Do cheiro de aventura. Cheio de aventura misturada com gasolina de aviação. Eu nunca liguei para carros, mas sou bem Maria-Gasolina-de-Aviação. É meu perfume favorito. Adoro o barulho vibratório de turbinas. O vento bagunçando o meu cabelo entre a sala de espera e um avião.  A sensação de inquietude que me causa. E se o vento faz voar um avião, imagina o que faz com as borboletas da minha barriga.  Elas voam, voam, voam, sem precisar de carona de boeing ou airbus algum.

Aeroportos me tiram do meu fuso. Quero abordar turistas e interroga-los em inglês, apenas pelo prazer que sinto do idioma dançando na minha língua. Eu me abalo cada vez que me despeço de alguém nele, nem que seja a minha mãe visitando a minha vó – abraço-a como se ela fosse cruzar o Atlântico – e a minha vó mora em Uberlândia. É culpa do aeroporto. Encaro sem vergonha os beijos apaixonados de casais recém juntados por uma conexão. Tenho vontade de abraçar famílias que nem conheço, quando recebem seus entes queridos com faixas, balões e buzinas. Celebro o reencontro deles dentro da minha cabeça, segurando a vontade maluca de me jogar junto no montinho de abraços desconhecidos. Ali, naquele desembarque onde tantas vezes o meu irmão me esperou na porta, com sua cara de sono,  o Django no colo e sorriso receptivo.  Onde me despedi de tanta gente, e reencontrei as melhores amigas do mundo.  Eu adoro aeroporto. São inícios, são meios, são fins.

Aeroporto é minha praia. Meu imaginário construído sobre concreto e asas. Ahhh são meus pés no chão e a cabeça no céu. Aeroporto é a confirmação em matéria física de que tudo é transitório, passageiro. Passageiro, sabe,  assim como você e eu.

Fim da sessão.


– “Oi filha! Tá aqui há muito tempo me esperando?”

– “Não mãe, cheguei às 11h.”

– “Mas eu te disse que o voo chegava só às 12h45.”

– “Não te preocupa, mãe. Eu tava aqui viajando.”

– “E esse cartaz?” – referindo-se a folha de papel branco com os dizeres “BEM-VINDA, MAMÃE” que eu segurava em frente ao portão de desembarque.

– “Eu gosto de celebrar reencontros.”

Ela me olha confusa – “Mas filha, eu fiquei menos de uma semana fora.”

– “Ah, mãe. Eu adoro aeroporto.”