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Muito obrigado, doadores!

Em tempos em que ficou tão raro e difícil olhar ao próximo, que bom é perceber que com um pouquinho de amor, a gente pode fazer muito. Aqui está o resultado da nossa campanha de doação de sangue de 2017.

Agradecimentos especiais aos heróis e heroínas que fizeram bonito neste ano:

1. Leonardo Silva
2. Amanda Talasca
3. Vinicius Ludtke
4. Nathalia Travi Canabarro
5. Carine Moreira
6. Laura Zaparoli Zanrosso
7. Aline Mazzocchi
8. Lindonira dos Santos
9. Tiago Braga
10. Jean Maito Ragnini
11. Mineia Vinch
12. Eduardo Birkheuer
13. Tchay Ávila
14. Amanda Gros
15. Ana Carolina Siqueiras B. Melo
16. Nhaiobi Ruivo
17. Andréia Nunes dos Santos
18. Flávia Gomes
19. Amanda Lima Primo
20. Tatiane Theobald
21. Ivan Ferri
22. Conceição Mendes
23. Daniel Scherer
24. Mariana Nakamura
25. Irina Satie Goya
26. Bianca K. Medeiros
27. Rejane K. de Medeiros
28. Nestor de Medeiros
29. Rita Diogo
30. Neia Diogo
31. Maurício Afonso Ferreira
32. Ana Cristina Mello
33. Ana Paula Paes
34. Thalita Mendes
35. Amanda Schenkel
36. Juliane Kappke
37. Graziella Paniz
38. Valentina Metsavaht Cara
39. Josiane Sds
40. Jamile Hallam
41. Iwan Zemczak
42. Rita Engel
43. Dai Passinato dos Santos
44. Dionatas de Andrade
45. Camille Schneider Ribeiro
46. Melina Mello
47. Isadora Mahle

Agradeço também a todo mundo que tentou doar, divulgou a campanha e torceu por nós. E é claro, a minha mãe, ao Mateus e ao Murilo por sempre apoiarem os meus projetos, e ao Léo que me manda toda luz e inspiração do mundo de onde quer que ele esteja. Muito obrigada!


Fim da sessão, mas nunca da gratidão.

Você não está sozinh@

Na mesma madrugada que o incidente de Orlando aconteceu, resultando em 50 vítimas fatais na boate gay Pulse, em um terrível atentado a vida, ao amor e a liberdade, eu batia cabelo em um bar local, lugar igualmente frequentado pela comunidade LGBT. O que eu fazia num bar gay? Meus amigos estavam lá. Tinha cerveja gelada. E eu sou da teoria de que “Gay DJs know best”, ou seja, DJs gays sabem melhor. Aliás, diga-se de passagem, eu não precisava de uma justificativa para estar lá, bastava o interesse. A minha vontade. E a liberdade que tenho de ir e vir sem ter que pedir licença para o preconceito alheio.

Eu frequentei e frequento lugares como estes desde o meu amor à primeira vista pelo bairro Soho em Londres, o mais colorido e animado conjunto de bares e boates da capital inglesa. Nunca sofri preconceito por ser hétero nesses lugares, a não ser por um encostão acidental que dei certa vez num cara, quando não estava usando sutiã, e ele gritou “ui… boobs” (ui… seios!) com uma tremenda cara de nojo. Eu levei na boa, e nunca mais fui ao KU Bar (eu adoro o nome!) sem meus protetores de seios. Esse foi o pior episódio, e desde então eu coloquei o peito (ambiguidade aqui) em perspectiva.

Se eles dividiam a pista de dança comigo, por que diabos sofríamos tanto em dividir espaço com el@s?

Quando o meu melhor amigo se assumiu, toda a minha estrutura mudou. Isso porque ele teve um receio gigante em me contar (ainda que a gente tenha vivido boa parte da vida juntos – e eu no fundo já soubesse). A partir dali eu recebi a minha educação. Por causa do meu amigo, comecei a ler sobre questões de gênero, sobre apoio e sobre as lutas da comunidade LGBT. Quando mais eu me informava, mais eu fui tendo razões para me juntar a luta. A ponto de nesta segunda-feira pós atentado, receber um inbox questionando “se a minha luta declarada pela causa gay, não seria devido a uma grande vontade minha de sair do armário”. Ri alto, lendo a pergunta. Na cabeça do meu indagador, eu, uma garota hétero, não tinha motivos para rufar tambores pelas cores da bandeira arco-íris. Quanta miopia.

Miopia em especial porque aquela não era a pergunta mais importante. A pergunta que deveria ser feita é por que não estamos TODOS numa luta declara pela causa gay e outras causas de gênero? E assim como fiz questão de esclarecer na minha timeline ontem, disse-lhe (e digo-lhes) que eu também sou a favor do fortalecimento da cultura negra, ainda que seja branca como papel. Eu sou a favor do acesso a educação de milhares de meninas indianas, e eu sou brasileira e nunca botei o pé na Índia. Eu também sou a favor da proteção das baleias e dos coalas, e não preciso de barbatanas ou subir em árvores para me importar. Eu vim com o kit da empatia de fábrica e aprendi cedo a importância de unir forças. Além disso, eu não estou de maneira nenhuma roubando a voz de ninguém não. E nem colocando agenda pessoal oculta na minha fala. Isso é coisa de enrustido, destes que dizem “eu não tenho preconceito, mas…”.

Então a pergunta que fica pra mim do questionamento que recebi essa semana é: se você não precisa de barbatanas para proteger as baleias, por que precisaria ser gay para defender o direito de outras pessoas serem? (Essa pergunta, na verdade veio da minha mãe, discutindo a questão).

Essas questões de gênero e intolerância me assustam, eu confesso. Especialmente dado o exaustivo tempo que tem levado para evoluírem. E mais, tratando de números, pensemos que existiam no mínimo 50 pessoas boas na boate Pulse, e bastou apenas um monstro com acesso indiscriminado a armas, uma influência nefasta disfarçada de religião, e uma intolerância ao diferente, para exima-las deste mundo. 50 famílias que perderam filhos, filhas, pais, mães, irmãos e irmãs. Eu sei a dor de perder alguém bom. Não imagino a dor de tê-lo arrancado de mim de forma tão covarde, como aconteceu com tanta gente em Orlando.

E se uma pessoa ruim pode fazer tanto mal, quantas pessoas boas em silêncio têm o mesmo poder?

Quando nos calamos frente a uma piada homofóbica, não estamos assim nos unindo ao autor da homofobia? Quando apoiamos parlamentares que são declaradamente contra a comunidade LGBT, não estamos dando passe livre para que seus direitos sejam alvejados, da mesma forma como 50 pessoas foram alvejadas no último sábado?

“Mas Antônia, o caso de Orlando não foi homofobia, foi terrorismo.”

De fato, um terrorismo contra uma minoria muito específica que resultou na maior aniquilação de cidadãos americanos depois de 11 de setembro. Isso sem falar no cara que foi preso com alta munição dentro do carro, rumo à parada gay de Los Angeles. Terrorismo? Ou homofobia?  As pessoas tem dificuldade de se enxergarem em assassinos. Terroristas estão lá longe, no Oriente Médio. Homofóbicos não, estes estão na mesa do lado no escritório, na porta vizinha da sua rua, ou dentro da sua casa, nos amigos do Facebook. Mas e o que você tem a ver com isso? Você é parte de uma das nações que mais mata e espanca membros da comunidade LGBT. Será que ainda somos dignos ao ficarmos em silêncio?

Hoje essa sessão não é para falar da Antônia, mas das 50 pessoas que morreram por pensar diferente. Por amar diferente da maioria. É uma sessão para pedir ajuda, estimular que todos nós unimos força levantando as cores desta bandeira. Eu podia ser uma das pessoas alvejadas na boate gay, neste sábado, aqui nos confins da minha pequena cidade de interior. E não sendo, juro aqui, vou usar a voz que tenho para dizer, VOCÊS NÃO ESTÃO SOZINHOS. Não estão mesmo.

E se eu tiver que ser gay para defender essa causa, eu beijarei todas as garotas do mundo para garanti-la. Pode organizar a fila.


Fim da sessão.

A filha de alguém

Quando eu tinha uns 9 anos, o meu primo de 14 me fez sentar no colo dele. Ele me disse que era a nossa brincadeira secreta, um “futebol humano”, jogo em que eu era a bola, e ele me segurava sentada bem em cima da cintura dele, antes de me lançar para frente como um jogador faz em um impedimento. Eu nem sabia o que era impedimento, e muito menos como impedir aquela brincadeira. Aconteceu uma vez só, e eu odiei como eu me senti. Contei para a minha mãe, que prontamente tomou as providencias. Deve ter conversado com a minha tia, pois o episódio nunca mais se repetiu. Hoje o meu primo tem uma filha menina. E fico pensando se ele teme que um primo também brinque com ela, do jeito que ele brincou comigo.

Quando eu tinha uns 12 anos, eu comecei a ouvir de um tio que eu estava ficando “gostosinha”. Eu não sabia nem da onde ele tirava aquela expressão, pois dos meus seios inexistentes e da minha cintura sem curvas não devia ser. Lembro-me do desespero da minha avó abotoando todos os botões do meu vestido, rapidamente depois do banho, porque mocinha não podia mostrar as costas. Não entendia como as minhas costas ofendiam a minha castidade, ou a religiosidade da minha avó. E muito menos, não entendia como os meus botões eram pecaminosos, enquanto todo mundo achava o apontamento do meu tio normal. “Vai dar trabalho essa minha sobrinha!”, ele dizia enquanto dava um tapa na minha bunda. Eu odiei todas as vezes que isso aconteceu, e meu pai, filho do patriarcado, achava que era só um elogio, enquanto a minha mãe bufava. Hoje meu tio tem uma filha menina, e fico pensando se ele gostaria que outro tio comentasse ~insistentemente~ como ela é “gostosinha”.

Aos 14 anos tive o meu primeiro namorado, cujo relacionamento tinha orientações claras da minha mãe para não evoluir em nada que eu me arrependesse, ou pelo menos, nada sem antes conversar com ela. A minha mãe nem imaginava que eu morria de medo de perder a minha virgindade, e por conta disso ela não precisava se preocupar comigo. Em um almoço de família na casa do meu namorado, o meu então “sogro” perguntou ao meu namorado se ele já estava “comendo essa vaca” na frente de todos os convidados. Todos riram, inclusive o meu namorado. Eu quis sumir pra dentro do meu hímen intacto. O meu sogro na época tinha uma filha um pouco mais velha que eu. Eu sempre me perguntei se ele se preocupava com o filho ou pai de outro alguém, comendo ou comentando sobre a virgindade da filha dele em um almoço de domingo.

Aos 21 anos eu tive o meu primeiro relacionamento abusivo. Ele gritava, humilhava, e ficava violento. Usava o meu dinheiro sem nenhum constrangimento – “depois eu te pago” ou “tu ganha mais, pode pagar pra nós dois”, eram as justificativas que eu ouvia. Quando ele não queria transar, alegava que eu estava ficando gorda, e eu, que começava a ter um corpo de mulher, tive a autoestima destruída. Eu me afastei das minhas amigas e da minha família por vergonha dos abusos constantes. Ele conseguiu me convencer que era a melhor pessoa do mundo pra mim. Roubou todos os meus sorrisos de conquistas, alegando que eu “sempre tinha que me aparecer”. Em certas ocasiões, ele segurou meu pescoço e torceu meu braço. Eu mesma me tornei arisca como um gato escaldado. Ainda assim, ele vivia me dizendo que me amava como ninguém. Foram anos de abuso ainda que eu fosse bem instruída, bem nascida. Tempos depois da minha libertação daquele relacionamento, descobri que meu ex tornara-se tio de uma menina linda. Desde então fico pensando se ele gostaria de alguém como ele para “amá-la como ninguém”, do mesmo jeito que ele me “amou”.

Depois de uma vida namorando, tive alguns momentos de solteirice, que me levaram a ter relacionamentos mais curtos e levianos. Em um deles, no meio de uma relação, o cara arrancou a camisinha do pênis dele, e entrou em mim sem proteção e sem me avisar. Ele achou que tinha o direito de decidir por mim os riscos que eu podia correr. Meses depois, encontrei-o numa festa e fingi que não o vi, anojada da lembrança. Ele veio até mim e me perguntou em tom agressivo se eu era dessas de “dar para um cara e depois virar a cara”. Sorri constrangida e não consegui admitir em voz alta que a minha antipatia era fruto da invasão que ele tinha promovido. Tempos depois, estava saindo com outro cara, e passados alguns encontros ele decidiu que tinha intimidade suficiente para tirar fotos minhas pelada, enquanto eu dormia depois do sexo. Descobri as fotos usando o celular dele para chamar um táxi, com a intenção de não acordá-lo de seu sono de domingo (sim, como eu sou legal). Esses caras tinham irmãs, mães, tias, amigas, mas eu não era nenhuma delas. Eu era a filha de outro alguém. Irmã, de outro alguém. Talvez uma vagabunda, ou uma qualquer. Eu não podia ser só uma mulher, tinha que ser propriedade, objeto, descartável.

Na rua, sempre andei com medo. Dos tapas da bunda de caras de bicicleta, dos velhos tarados segurando o pau enquanto eu passava. Eu sempre odiei “fiu-fiu” de qualquer tipo. E de uns tempos pra cá, toda essa sensação de abuso constante começou a não caber mais dentro do peito. Eu comecei a enfrentar os atrevidos e encarar os bagaceiros. Eu passei a fazer barraco em festa, se alguém passasse a mão em mim. Eu cheguei a um ponto de tirar satisfação de um segurança de banco, que disse que ia “me chupar todinha” com uma escopeta na mão. Não bastava ser um homem, nojento, com duas vezes o meu tamanho. Ele mexia comigo sabendo que além de toda a opressão que ele inspirava, ele ainda estava armado. Não me calei, e não tenho mais me calado. Talvez eu esteja mesmo ficando maluca. Maluca, chata, feminista, revoltada. E eu estou consciente que eu posso ser todas essas coisas. Mas oprimida, nunca mais. Violada, nunca mais. Diminuída, nunca mais.

Na semana passada, em que todos nós tivemos que lidar a dor de uma jovem violentada por 33 homens, eu revivi cada um dos meus abusos – destes contados aqui, como todos os outros já vividos. Ironicamente, na mesma semana/feriado em que acorreu o caso, eu viajei para a praia na companhia apenas de homens, os meus amigos. Conversamos longamente sobre o caso, sobre as repercussões, e todas as formas de abuso que a gente precisava desconstruir. As piadas, os compartilhamentos, as posturas. Sempre que um deles ficava confuso sobre a cultura do estupro, eu botava a mãe no meio. Respeitosamente, claro. “E se fosse com tua mãe, essa situação?”; “E se falassem isso da tua irmã?”, “E se fossem fotos da tua amiga?”. Pouco a pouco, até mesmo as questões mais polêmicas, iam se enchendo de empatia. E conversando, a gente foi aprendendo juntos. Talvez em razão da enxurrada de conhecimento que se espalhou pelas redes nos últimos dias. Ou talvez porque com este caso, finalmente muitos dos homens – inclusive os meus amigos – se deram conta que toda mulher abusada, violada, humilhada, é sim, filha de alguém. Basta empatia para comover-se com suas histórias. Basta empatia para pôr um fim nisso tudo. Por todas nós.

Estupro nunca mais. Abuso nunca mais.

Somos todas filhas de alguém.


Fim da sessão.

(vídeo - você deverá estar logado no Facebook)

Gatedo, se você não é parte da solução, você é parte do problema.

Denuncie:180

Agradecimento #MeuPresenteProDrLéo

* Nota de atualização: no final da semana deste post totalizamos      71 doações; 


Apensar de cheia de palavras, me faltam verbos, substantivos e fofices para agradecer o amor, carinho e empatia que recebemos durante toda a campanha.  Mas vou tentar!

Muito obrigada pelas 65 doações reunidas com a campanha #MeuPresenteProDrLéo!!

doe (3)

Queria agradecer a todos que tentaram doar, e por algum motivo não puderam, a todo mundo que divulgou, apoiou e mandou representantes durante a coleta. Entretanto o meu agradecimento especial, como não poderia deixar de ser, é deles! Os 65 guerreiros que promoveram mais de 26 litros de amor.

  1. Adriana Gomes
  2. Alessandra Willand
  3. Alexandra Evaldt
  4. Aline Mazzocchi
  5. Aline Raupp
  6. Aloha Boeck
  7. Amanda Schenkel
  8. Amanda Talasca
  9. Ana Cristina Mello
  10. Ana Julia Monteiro
  11. Ana Teté Freitas
  12. André Luiz Konrath
  13. Andrea Pereira
  14. Andreia Nunes
  15. Ariane Cacenot
  16. Arthur Daudt
  17. Betina Mallmann
  18. Betina Vargas
  19. Bianca Bitelo
  20. Bruno Machado
  21. Carine Moreira
  22. Carlos Eduardo
  23. Caroline Bistrot
  24. Caroline Voltz
  25. Evandro Rizzoto
  26. Fernanda Costa
  27. Flavia Maria
  28. Francine Reis
  29. Geovane Schwanck
  30. Gilnei Tatsch
  31. Gustavo Leal
  32. Henrique Scalabrin
  33. Jamille Hallam
  34. Jean Ragnini
  35. Juliane Kappke
  36. Lauren Burmann
  37. Lindonira dos Santos
  38. Loredana Magalhães
  39. Louise Silveira
  40. Luisa Backes
  41. Marcelo Schilling
  42. Marcos Mendes
  43. Marcos Schott
  44. Maria José Menezes
  45. Mariana Felin
  46. Marília Schmitz
  47. Milena Demaman
  48. Minéia Vinch
  49. Mona Dall’Agno
  50. Nanny Ruivo
  51. Paola Mlanarczyki
  52. Voluntário de Pato Branco 1
  53. Voluntário de Pato Branco 2
  54. Voluntário dePato Branco 3
  55. Voluntário de Pato Branco 4
  56. Fabiana Werner (Pato Branco 5)
  57. Patricia Ferraz Neis
  58. Sabrina Padilha
  59. Sidnei Fernando Blos
  60. Suany Morais
  61. Susan Luchtemberg
  62. Tatiani Teixeira
  63. Vanderlei Camargo
  64. Vanessa Trindade
  65. Vitória Polmann

E já que as palavras escritas às vezes não transmitem a emoção, aqui vai a versão falada/engasgada do meu agradecimento:

A cobertura completa da campanha tá na Rede Atlântida através do post “Dando o Sangue” no ATL Girls – acesse o post clicando abaixo:

Dando o sangue

Obrigada demais, gatedo! Vocês são muito especiais. Assim como o meu irmão foi, e segue sendo.

Beijo grande.


Fim da sessão-gratidão SEM FIM

 

Celebrar a vida, mesmo depois dela | Coisa de Antônia

A convite da minha editora no ATL Girls, o Coisa de Antônia de hoje fala sobre a campanha #‎MeuPresenteProDrLéo‬. Fui lá, de coração aberto como sempre, e contei o presente que quero dar pro meu irmão, na esperança de muitos vão se juntar a nós.

Clique nas lindas pessoas abaixo e corre pra ler (e doar)!

POST - INTERNO

O corredor

Fumei meu quinto cigarro do lado de fora daquela sala abarrotada. Era uma tarde quente de quarta-feira, e as horas se arrastavam naquela espera angustiante. O cheio de suor e da falta de banho tomava conta daqueles metros quadrados que antecediam a entrada, cujo acesso se dava por uma porta bipartida amarelada. E se eu estava ali apenas algumas horas, não podia imaginar a impaciência de quem ali fazia plantão por dias à espera de uma chance. Meu pai andava de um lado para o outro tentando fazer algum sentido daquela cena. Meu tio, seu irmão, estava sentado no murinho da desilusão, com seu olhar perdido no medo e também na movimentação daquela porta. A porta era a entrada do atendimento do SUS do hospital, e o que tinha atrás dela era um misto de saúde e sorte (ou a falta de ambos).

Uma carinha conhecida surge detrás daquela porta. Apesar de toda a estranheza daquela situação, aqueles olhinhos de gotinha eu reconhecia. Meu irmão apareceu naquela recepção equipado de um RedBull nas mãos, estetoscópio no pescoço, jaleco branco emoldurando o peito e um ar de seriedade. Levantamos-nos todos em silêncio e seguimos meu irmão porta adentro. Era a primeira vez, desde o início da jornada do Leonardo na medicina, que víamos em primeira mão, ele atuando como futuro médico. E aqui não estou falando da minha dor de garganta que ele examinava vez que outra. Tratava-se de uma situação com um familiar cujo futuro nos preocupava. Em meio ao caos do SUS, passamos por um corredor abarrotado de desesperados e desesperança. A luz piscava, iluminando de maneira insuficiente aquele corredor comprido. No caminho muitos solicitavam a atenção do meu irmão e de outros médicos que estavam de passagem, e estes iam orientando e respondendo com atenção e rapidez, enquanto caminhávamos para um consultório. No consultório, o Dr.Meu-Irmão nos apresentou os fatos sobre a saúde do meu tio, explicou exames e calibrou a nossa expectativa. As mãos dele tremiam, acusando que para ele, aquela primeira vez também tinha peso. A voz não tremeu. Nem por um minuto.

Do meu lado, meu pai caiu em prantos. Perguntei se era de nervosismo, e ele respondeu engasgado – “Não, é de orgulho”, disse sorrindo. Acho que dentre tantos cheques para universidade do meu irmão, era a primeira vez que ele se dava conta que investia não apenas no filho, mas de certa forma na saúde da família e na saúde em si. Eu entendi bem o orgulho de meu pai. Muito embora eu já fosse fã do meu irmão desde o tempo em que ele era um bebê fofo que fechava os olhos quando sorria. E ele sorria muito. Para mim o brilho do jaleco branco somente destacava a pessoa especial que ele sempre foi. Saímos de lá orientados sobre os dias difíceis que viriam – internação, cirurgia e a burocracia brasileira em todas as etapas.

Os dias se passaram e meu irmão foi posto à prova não apenas como futuro médico, mas como familiar de um paciente que dependia do Sistema Único de Saúde neste país. Contrariando qualquer orientação de seu curso de medicina – o meu irmão se envolveu ativamente no caso de um familiar. Como julgá-lo? O Leonardo cobrou favores, pesquisou leitos e acompanhou cada etapa da enfermidade do meu tio. Ele perdeu o sono. Lembro-me de convidá-lo para um chopp, certo dia, e ele não conseguiu ficar 15 minutos no boteco. Após um plantão de 50 horas, me deu um beijo e saiu do bar apressado. Passou em casa e munido de travesseiro, radinho de pilhas e jornal para o meu tio, ele voltou ao hospital e acompanhou as primeiras 24h do meu tio aguardando atendimento naquele corredor. Corredor comprido. Sinuoso. Como uma cobra que pode ser tanto o veneno quanto a cura. O meu irmão ficou lá, ao lado do irmão do meu pai, zelando por ele sob a luz que piscava como um batimento descompassado de um coração doente.

Dias de tratamento depois, chegava a tão esperada cirurgia. Precisávamos de 10 doadores de sangue para repor os estoques do hospital. Em uma família composta de 10 irmãos, cada qual com um cônjuge e mínimo de dois filhos (isso sem contar amigos, conhecidos ou benfeitores desconhecidos), você pensaria que a tarefa seria fácil. E aí veio a grande surpresa. Três pessoas se apresentaram no banco de sangue em nome do meu tio: um dos filhos dele, o meu irmão e eu. Você pode estar pensando agora “mas que tipo de família é essa?!”  – e eu lhes respondo: uma família exatamente igual a todas as outras. Com seus compromissos inadiáveis, suas justificativas plausíveis e suas viagens pré-agendadas – assim como todo mundo. E claro, a minha família também se provou vítima daquele eterno sentimento humano de “se eu não fizer…  alguém vai fazer”. “Eu não vou, mas tenho certeza que os outros vão”. Coisa de gente ocupada, assim como você e eu.

E assim construímos uma sociedade inteira, entusiasta na crítica pela internet, mas que não bota o pé na rua para mudar coisa nenhuma. Lembro-me do olhar frustrado e quase indignado do Leonardo no banco de sangue. Ele que tinha conseguido leito, médicos, tempo, disposição, e que agora se via praticamente sozinho na luta por algo tão vital quanto abundante: sangue.  Seriam apenas 450ml de um cidadão comum. Mas a atitude exigia duas coisas que não estamos acostumados a abrir mão facilmente: o nosso tempo e nossa empatia ativa. Apesar da nossa derrota na coleta, meu tio foi operado com sucesso e todos os recursos necessários – dentre eles, o sangue.

Aquele episódio seria apenas mais um dos inúmeros desafios diários enfrentados por médicos, familiares e pacientes. Apenas mais um desafio enfrentado pelo meu irmão. Depois da doação, despedi-me do Leonardo com um abraço demorado, apertando-o forte como quem diz em silêncio “não desiste!”. Ele me devolveu um sorriso cansado, tendo a certeza do que o meu abraço significava. Na saída passei de novo pelo corredor da desesperança. No meu carro chorei por gente que nunca conheci. E fiz uma oração para que a melhor pessoa que eu conhecia – o meu irmão – achasse forças pra seguir cuidando dos outros, sem deixar de sorrir, aquele sorriso fofo que ele fazia enquanto fechava os olhos.

Fim da sessão


Amigos do Antônia no Divã. Como muitos de vocês sabem, o Léo partiu em outubro após uma convulsão. Não houve doação ou intervenção que o salvasse, uma vez que algumas partidas não tem aviso prévio ou mesmo uma despedida. Dia 15 de Março é o primeiro aniversário do Léo que não teremos seu sorriso de olhos de fechadinhos por perto. Sendo assim, queremos alegrar outras famílias e evitar outras despedidas promovendo a doação de nosso bem mais precioso: a nossa vida. Bem, na verdade, apenas 450 ml dela. Queremos juntar até o dia 15 de março o mínimo de 27 doadores de sangue e medula óssea. Um doador por cada ano que o Leonardo nos honrou. Escolha o hospital ou hemocentro mais próximo e faça parte desta corrente do bem. Gente que você nunca viu na vida vai agradecer. A minha família vai agradecer. Eu vou agradecer. E o Leonardo – bem, o Leonardo diria que esse é o mínimo que todos nós devemos fazer – então faça! 🙂 Confirme sua doação por aqui, mande sua foto, use #MeuPresenteProDrLéo e promova essa ideia. Vamos encher essa data de vida – exatamente como o meu irmão gostaria.

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Retorno

Foi um daqueles encontros que acontecem quando menos se espera, mas na hora certa. Voltava de um almoço preguiçoso na minha praia preferida quando dei de cara com o Cássio. O Cássio foi colega do meu irmão, que na época de escola era dono de uma cachopinha loira e crespa que eu sabia que ia crescer majestosamente. E eu não havia me enganado. Ele parecia que tinha saído de um anúncio da Quicksilver.

Formalidades de reencontros superadas, pergunto sobre o trabalho dele, esperando que ele tivesse virando um daqueles mauricinhos que só se preocupa com surf e pegação. Foi ali que eu entendi que a embalagem era puro reflexo do seu conteúdo. O Cássio, juntamente com os sócios, havia criado o Return Project, uma empresa de soluções inteligentes de marketing 3.0, cujo objetivo principal era promover ações que tivessem RETORNO para a sociedade.  Fiquei inspirada com paixão dele. “Você se transformou no garoto que quer mudar o mundo!” – disse, enquanto ele sorria timidamente – “Só estou tentando fazer a minha parte”, respondeu enquanto me dava um abraço de despedida – “Quero ser como você quando crescer!” falei toda orgulhosa depois de bagunçar aquela cachopa loira, agora toda crescida e cheia de propósito.

Quando o Cássio me ligou dias depois, fiquei impressionada com a seriedade da missão dele. “E aí, não era você que queria ajudar a mudar o mundo? Chegou a hora!”. Marcamos um encontro e de lá parti para conhecer a AAAPIP (Associação dos Artesões Amigos e Pescadores da Ilha da Pintada), uma escola que sobrevive de poucas doações para atender suas 140 crianças em uma região de risco às margens do Rio Guaíba.

A parte que mais toca nestes lugares é a capacidade altruísta do ser humano, mesmo quando ele não tem nada a oferecer. Ali naquele lugar vi crianças dividindo as poucas canetinhas para finalizar um projeto escolar com material reciclado.  Na hora do lanche, uma menina entregava a outra, que tinha mais fome, metade da banana que recém tinha ganhado. Quando o Cássio perguntou as crianças o que eles gostariam de reformar na sua escola, outra grande surpresa: “Quem sabe não fazemos casas para os pobres!? Eu tenho uns tijolos lá em casa! – disse um pequeno humanitário de oito anos de idade. Ele não devia ter muito mais que uns tijolos em casa, presumo eu, mas estava disposto a doá-los à gente com menos condições que ele. Isso por si só, foi um soco na minha cara. Eu estava tendo lições de filantropia de alguém com menos de uma década de vida, enquanto eu com três, não estava fazendo nada.

No cantinho da sala, entre uma brincadeira e outra, me pego a conversar com o Luizinho – bem, na verdade me disseram que o nome dele era esse, já que o Luizinho não falava muito. Tento uma aproximação, intrigada com o único da sala que não estava disposto a conversar com os visitantes – eu que sou uma tagarela, não concebia o conceito de uma criança se abster. Fiquei sabendo que o Luizinho tinha sete anos, o que me impressionou dada sua baixa estatura e seu corpo magro, que parecia de uma criança de uns cinco anos. Peço ao Luizinho para me mostrar as placas de rua que os alunos estavam customizando como parte no projeto “Mãos a Obra”, e com essa conexão, o Luizinho pega na minha mão pela primeira vez.

No espaço onde estão as placas, crianças brincam e se alimentam com os poucos recursos disponíveis. Durante esse tempo todo, Luizinho embala uma boneca nos braços com zelo e carinho de quem entende que aquilo é assunto sério – nanar uma criança. Pergunto se a boneca é a irmãzinha dele, e ele diz que não. Pergunto se ele estava imitando o pai dele, e o Luizinho me conta que não tem pai, só mãe.  Ali na minha frente estava uma criança que não tinha pai, brincando de ser pai. Tento trocar de assunto, perguntando o que o Luizinho quer ser quando crescer: – “Professor”, diz ele sorrindo, um sorriso que esperei a tarde toda.

A história do Luizinho tocou-me porque ele é um menino que apesar da falta de referência paterna e de frequentar uma escolinha sucateada, ele entende a importância da educação – em casa e fora dela. Talvez ao embalar aquela boneca, ele só quisesse ser embalado pelo pai dele, e mesmo sem o pai, ali estava ele, disposto a dar esse carinho para alguém. Talvez quando ele diz que quer ser professor, o Luizinho quisesse que outras crianças tivessem mais recursos que ele. Então veja, mesmo com o pouco que ele tem, ele estava disposto a dar tudo que é dele em RETORNO. Depois da nossa conversa, engoli minhas lágrimas e segurei o estomago revirado dentro da barriga. O Luizinho queria me arrumar e eu não podia decepcioná-lo. Sentei na sua pequena cadeira, enquanto ele escovava meu cabelo e passava neles o pouquíssimo gel que tinha. Colocou-me os óculos de sol que encontrou entre os brinquedos, ajustou o meu lenço do pescoço e disse: “Pronto, tá linda!”. Não, Luizinho. Você é lindo. E eu quero ser igual a você quando crescer.

Na saída da escola, ganhei um abraço do Luizinho, abraço esse que dei toda engasgada. Agradeci a oportunidade ao Cássio e aceitei fazer parte do desafio Mãos à Obra, antes de rapidamente me esconder no meu carro para chorar o choro que segurei a tarde toda. Virei madrinha do Luizinho no projeto de reforma da escolinha. E vou recolher os reais necessários pra garantir que ele vai ter escola, vai ser professor e vai ser um pai muito melhor que o dele. Ele, em retorno vai fazer de mim uma pessoa que não apenas senta e assiste, mas que vai lá e faz. Alguém que não espera os governantes, ocupados demais com a corrupção, mas que arregaçou as mangas e se tornou parte da mudança. Até porque o Luizinho não vai esperar para crescer apenas quando o país decidir se vai ou não cuidar dele. O Luizinho me prometeu que em retorno vai continuar a ser um bom menino e que vai sorrir mais.

E quem de nós consegue ficar alheio à oportunidade de fazer uma criança sorrir? E sorrir em retorno?


Fim da sessão.

Quer ajudar o Luizinho e seus colegas? Mãos à Obra!

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