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A filha de alguém

Quando eu tinha uns 9 anos, o meu primo de 14 me fez sentar no colo dele. Ele me disse que era a nossa brincadeira secreta, um “futebol humano”, jogo em que eu era a bola, e ele me segurava sentada bem em cima da cintura dele, antes de me lançar para frente como um jogador faz em um impedimento. Eu nem sabia o que era impedimento, e muito menos como impedir aquela brincadeira. Aconteceu uma vez só, e eu odiei como eu me senti. Contei para a minha mãe, que prontamente tomou as providencias. Deve ter conversado com a minha tia, pois o episódio nunca mais se repetiu. Hoje o meu primo tem uma filha menina. E fico pensando se ele teme que um primo também brinque com ela, do jeito que ele brincou comigo.

Quando eu tinha uns 12 anos, eu comecei a ouvir de um tio que eu estava ficando “gostosinha”. Eu não sabia nem da onde ele tirava aquela expressão, pois dos meus seios inexistentes e da minha cintura sem curvas não devia ser. Lembro-me do desespero da minha avó abotoando todos os botões do meu vestido, rapidamente depois do banho, porque mocinha não podia mostrar as costas. Não entendia como as minhas costas ofendiam a minha castidade, ou a religiosidade da minha avó. E muito menos, não entendia como os meus botões eram pecaminosos, enquanto todo mundo achava o apontamento do meu tio normal. “Vai dar trabalho essa minha sobrinha!”, ele dizia enquanto dava um tapa na minha bunda. Eu odiei todas as vezes que isso aconteceu, e meu pai, filho do patriarcado, achava que era só um elogio, enquanto a minha mãe bufava. Hoje meu tio tem uma filha menina, e fico pensando se ele gostaria que outro tio comentasse ~insistentemente~ como ela é “gostosinha”.

Aos 14 anos tive o meu primeiro namorado, cujo relacionamento tinha orientações claras da minha mãe para não evoluir em nada que eu me arrependesse, ou pelo menos, nada sem antes conversar com ela. A minha mãe nem imaginava que eu morria de medo de perder a minha virgindade, e por conta disso ela não precisava se preocupar comigo. Em um almoço de família na casa do meu namorado, o meu então “sogro” perguntou ao meu namorado se ele já estava “comendo essa vaca” na frente de todos os convidados. Todos riram, inclusive o meu namorado. Eu quis sumir pra dentro do meu hímen intacto. O meu sogro na época tinha uma filha um pouco mais velha que eu. Eu sempre me perguntei se ele se preocupava com o filho ou pai de outro alguém, comendo ou comentando sobre a virgindade da filha dele em um almoço de domingo.

Aos 21 anos eu tive o meu primeiro relacionamento abusivo. Ele gritava, humilhava, e ficava violento. Usava o meu dinheiro sem nenhum constrangimento – “depois eu te pago” ou “tu ganha mais, pode pagar pra nós dois”, eram as justificativas que eu ouvia. Quando ele não queria transar, alegava que eu estava ficando gorda, e eu, que começava a ter um corpo de mulher, tive a autoestima destruída. Eu me afastei das minhas amigas e da minha família por vergonha dos abusos constantes. Ele conseguiu me convencer que era a melhor pessoa do mundo pra mim. Roubou todos os meus sorrisos de conquistas, alegando que eu “sempre tinha que me aparecer”. Em certas ocasiões, ele segurou meu pescoço e torceu meu braço. Eu mesma me tornei arisca como um gato escaldado. Ainda assim, ele vivia me dizendo que me amava como ninguém. Foram anos de abuso ainda que eu fosse bem instruída, bem nascida. Tempos depois da minha libertação daquele relacionamento, descobri que meu ex tornara-se tio de uma menina linda. Desde então fico pensando se ele gostaria de alguém como ele para “amá-la como ninguém”, do mesmo jeito que ele me “amou”.

Depois de uma vida namorando, tive alguns momentos de solteirice, que me levaram a ter relacionamentos mais curtos e levianos. Em um deles, no meio de uma relação, o cara arrancou a camisinha do pênis dele, e entrou em mim sem proteção e sem me avisar. Ele achou que tinha o direito de decidir por mim os riscos que eu podia correr. Meses depois, encontrei-o numa festa e fingi que não o vi, anojada da lembrança. Ele veio até mim e me perguntou em tom agressivo se eu era dessas de “dar para um cara e depois virar a cara”. Sorri constrangida e não consegui admitir em voz alta que a minha antipatia era fruto da invasão que ele tinha promovido. Tempos depois, estava saindo com outro cara, e passados alguns encontros ele decidiu que tinha intimidade suficiente para tirar fotos minhas pelada, enquanto eu dormia depois do sexo. Descobri as fotos usando o celular dele para chamar um táxi, com a intenção de não acordá-lo de seu sono de domingo (sim, como eu sou legal). Esses caras tinham irmãs, mães, tias, amigas, mas eu não era nenhuma delas. Eu era a filha de outro alguém. Irmã, de outro alguém. Talvez uma vagabunda, ou uma qualquer. Eu não podia ser só uma mulher, tinha que ser propriedade, objeto, descartável.

Na rua, sempre andei com medo. Dos tapas da bunda de caras de bicicleta, dos velhos tarados segurando o pau enquanto eu passava. Eu sempre odiei “fiu-fiu” de qualquer tipo. E de uns tempos pra cá, toda essa sensação de abuso constante começou a não caber mais dentro do peito. Eu comecei a enfrentar os atrevidos e encarar os bagaceiros. Eu passei a fazer barraco em festa, se alguém passasse a mão em mim. Eu cheguei a um ponto de tirar satisfação de um segurança de banco, que disse que ia “me chupar todinha” com uma escopeta na mão. Não bastava ser um homem, nojento, com duas vezes o meu tamanho. Ele mexia comigo sabendo que além de toda a opressão que ele inspirava, ele ainda estava armado. Não me calei, e não tenho mais me calado. Talvez eu esteja mesmo ficando maluca. Maluca, chata, feminista, revoltada. E eu estou consciente que eu posso ser todas essas coisas. Mas oprimida, nunca mais. Violada, nunca mais. Diminuída, nunca mais.

Na semana passada, em que todos nós tivemos que lidar a dor de uma jovem violentada por 33 homens, eu revivi cada um dos meus abusos – destes contados aqui, como todos os outros já vividos. Ironicamente, na mesma semana/feriado em que acorreu o caso, eu viajei para a praia na companhia apenas de homens, os meus amigos. Conversamos longamente sobre o caso, sobre as repercussões, e todas as formas de abuso que a gente precisava desconstruir. As piadas, os compartilhamentos, as posturas. Sempre que um deles ficava confuso sobre a cultura do estupro, eu botava a mãe no meio. Respeitosamente, claro. “E se fosse com tua mãe, essa situação?”; “E se falassem isso da tua irmã?”, “E se fossem fotos da tua amiga?”. Pouco a pouco, até mesmo as questões mais polêmicas, iam se enchendo de empatia. E conversando, a gente foi aprendendo juntos. Talvez em razão da enxurrada de conhecimento que se espalhou pelas redes nos últimos dias. Ou talvez porque com este caso, finalmente muitos dos homens – inclusive os meus amigos – se deram conta que toda mulher abusada, violada, humilhada, é sim, filha de alguém. Basta empatia para comover-se com suas histórias. Basta empatia para pôr um fim nisso tudo. Por todas nós.

Estupro nunca mais. Abuso nunca mais.

Somos todas filhas de alguém.


Fim da sessão.

(vídeo - você deverá estar logado no Facebook)

Gatedo, se você não é parte da solução, você é parte do problema.

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Ah, eu sou gaúcho. 

Essa frase já foi o ecoar do orgulho dos pampas. Não importa onde você está ou em que tipo de congregação, haverá sempre um gaúcho a proclamar seu amor pela origem, pela tradição e orgulho de pertencer à terra de Getúlio Vargas, Bento Gonçalves e Anita Garibaldi. Ser gaúcho sempre pareceu a mais importante das causas. O Hino Rio-Grandense é ensinado até hoje nas escolas, decorado com amor e proclamado a cada clássico GreNal ou evento de mesma importância. Quem morou fora muitas vezes se pegou dizendo, “sou gaúcho, do Brasil” como sendo uma estirpe superior de brasileiro. Nosso chimarrão é dito como o melhor dos mates. Nosso povo dotado como o mais garrido. Nossas revoluções ditas as mais nobres, visto que o 20 de setembro ainda brilha orgulhoso acima de todos os porongos. Nossas façanhas se dizem valer de modelo a toda Terra.

Por que hoje em dia, no entanto, muitos de nós já não nos sentimos tão orgulhosos?

Ora, a minha querência já não é mais a mesma – por favor, tranquem as porteiras. Na semana passada abriram meu carro enquanto eu dava aula. Suspirei pelo prejuízo da porta estragada e segui minha vida como boa trabalhadora que paga seus impostos. Não me abati: “acontece!” – pensei comigo. Três dias depois do furto, entraram na casa da minha mãe, onde ela, os dois pequenos e o marido dormiam no andar de cima. No andar de baixo marginais fizeram a limpa, não deixaram pra trás nem a torta de bolacha das crianças, veja que audácia. Novamente não nos abatemos – estávamos todos bem, apesar das perdas materiais. Os vizinhos ouviram tudo durante a madrugada, ninguém chamou a polícia – talvez por não se importarem mais ou por terem a certeza de que ninguém viria ao nosso socorro. No terceiro episódio em uma semana, ontem abordaram meu pai, esposa, irmão e primo na saída do hospital. Não havia viaturas para enviar, não havia pra quem ligar. Ao arrancar os assaltantes rugiram ofensas como “Toma burguesia! Perdeu playboy!” acelerando o carro financiado rua afora. Meu irmão passa mal e convulsiona. A incerteza faz mal pra cabeça e parte o peito ao meio.

Dou-me conta que o lenço no pescoço já não identifica mais ninguém nas planícies ou serra deste estado – maragato; chimango; trabalhador; assaltante. Uma guerra sem rostos, sem propósito, sem autoridade. Nossa terra deixou de ser o berço de revolucionários, para tornar-se uma terra de ninguém.

Destranco o meu caminho com as sete chaves que uso entre a porta e o carro. Corro em direção a família assustada, como fiz na semana passada. No percurso choro não sei por que ou por quem. Se pela insegurança vivida nesta terra que já foi tão querida. Se pelos salários parcelados, ou pelas escolas fechadas, pelos trabalhadores que protestam em greve. Que liberdade é essa que comemoramos anualmente, em piquetes cada vez mais trancados com correntes e cadeados? Choro pelo sangue de farrapo espalhado pelas ruas. Penso em perguntar de forma bem sincera ao Senhor Governador, gringo da serra gaúcha como eu, o que é preciso fazer para que a segurança volte às ruas? Como reconstruir essa unidade federativa que já foi tão produtiva e agora é dada como quebrada? Flávio Dino disse no mesmo mês dos festejos de orgulho farroupilha, “Devo zelar para que o Maranhão não se transforme no RS”. Ora, será que já não somos mais “uma estrela brilhante na bandeira do Brasil”?

Fiquei pensando o que Nico Fagundes, poeta e tradicionalista, não está pensando lá de cima, sobre esta terra que ele amou desde guri. Talvez seja por isso que chove intensamente durante todo o mês no estado. Setembro foi inundado pelo choro do tio Nico e de tantos gaúchos aqui embaixo querendo poder gritar, de novo e mais uma vez com orgulho no lugar de lágrimas, “ah, eu sou gaúcho”. “Ah, eu sou gaúcho.”


Fim da sessão.

“Passam às mãos da minha geração.
Heranças feitas de fortunas rotas
Campos desertos que não geram pão
Onde a ganância anda de rédeas soltas

Se for preciso, eu volto a ser caudilho
Por essa pampa que ficou pra trás
Porque eu não quero deixar pro meu filho
A pampa pobre que herdei de meu pai

Herdei um campo onde o patrão é rei
Tendo poderes sobre o pão e as águas
Onde esquecido vive o peão sem leis
De pés descalços cabresteando mágoas

O que hoje herdo da minha grei chirua
É um desafio que a minha idade afronta
Pois me deixaram com a guaiaca nua
Pra pagar uma porção de contas

Se for preciso, eu volto a ser caudilho
Por essa pampa que ficou pra trás
Porque eu não quero deixar pro meu filho
A pampa pobre que herdei de meu pai”

Gaúcho Da Fronteira/ Vainê Darde