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Preciso de um amor pra velhice

Preciso de um amor pra velhice

Eu nunca me vi tendo a necessidade de um relacionamento. Sabe, eu gosto de enrolar meus pés em alguém querido embaixo das cobertas. Amo beijos estalados. E adoro sexo com sentimento. Mas eu nunca pensei comigo “meu Deus, preciso de um relacionamento”. Eu preciso de dinheiro na minha conta. Preciso baixar meus triglicerídeos. Preciso trocar o óleo do meu carro. Ou seja, eu não preciiiiiso de amor. Amor me parece muito mais uma escolha do que uma necessidade, concordam?

OK, talvez eu esteja sendo um pouquinho infame quanto a “não precisar” de um amor porque a minha idade ainda me permite algum desdém (ou certa infantilidade). Veja, eu ainda olho pra minha bunda no espelho e consigo me achar um tesão. Cuido da maioria dos meus perrengues com um pé nas costas. Adoro a minha companhia, e dificilmente me sinto sozinha. Minha família me quer (na maioria das vezes) por perto. E eu tenho uma pá de amigos que largariam tudo para tomar uma gelada comigo. E isso é muito legal, mas é também uma condição associada à juventude. Foi aí que pensei que amor e necessidade poderiam sim, estar relacionados, quando colocarmos o fator idade na equação.

Hoje me peguei catando conchinhas na beira da praia. Fui de manhã cedo quando o sol não estava tão forte. E porque segundo um amigo-aspirante-a-companheiro me disse, eu tinha que “movimentar a minha carcaça preguiçosa” para viver mais anos. E ele não podia estar mais certo. Enquanto eu escolhia as conchas de cores lindas com cautela, o rapaz de corpo atlético e olhos da cor do mar, caminhava alguns passos a frente, dando soquinhos no ar, simulando uma luta – como os garotos fazem, sabe? Ele aguardou com paciência eu pegar uma a uma das conchas que queria. E quando finalmente o alcancei no fim da praia, beijou a ponta do meu nariz e disse como eu ficava linda sob a luz do sol.

Foi ali que eu me dei conta de que em algum momento, eu vou sim precisar do amor de alguém. E não estou dizendo aqui que todo mundo precise. Mas eu vou precisar. Quando a minha bunda não for mais motivo de orgulho, eu quero que alguém ainda olhe pra ela com interesse – me convencendo de que a beleza da minha retaguarda, será por onde ela já sentou para olhar o nascer ou pousar do sol. Quero que alguém beije as minhas marcas de sorriso – aquelas injustamente chamadas de “pés de galinha” – e as aprecie por serem marcas da alegria de uma vida inteira. Quero alguém preocupado com meus triglicerídeos e com o óleo do meu carro, quando a minha memória tirar o melhor de mim.

Alguém que faça questão da minha companhia, quanto eu já não for mais tão independe, e meus filhos já não tiverem mais paciência para a minha rabugentice. Ou quando a maioria dos meus amigos já tiver partido para festa no andar de cima. Alguém que me ajude a achar meus óculos, quando os mesmos estiverem na cabeça.

Preciso de um amor pra velhice porque em algum momento da vida a gente precisa ser lembrada que valor não tem validade, que a beleza está além do colágeno e também porque já não serei tão jovem a ponto de achar que sei de tudo. Preciso de um amor pra velhice, pra fazer dela a melhor idade. Aliás, preciso e quero um amor pra velhice.

Nem que seja pra ver aquele belo sorriso e a aquela careca refletindo o sol, aguardando pacientemente, enquanto eu pego conchinhas na beira da praia.

Fim da sessão.

Cuide de seus pais

Eu fico impressionada com a quantidade de planejamento que é feito para a chegada de um bebê. Quer dizer, aquela pessoinha é menor que um antebraço, caberia tranquilamente numa caixa de sapato, e movimenta mundos e fundos antes mesmo de sua estreia. Pelo novo rebento a gente monta quartos, visita médicos, compra pencas de modelitos que vão durar 6 meses, e estoca uma quantidade de fraldas capaz de drenar um tsunami. Nós tapamos todas as tomadas da casa, cercamos piscinas, protegemos quinas de móveis. E se pudesse, enrolava a criança em plástico bolha.

Entretanto hoje, eu já cheguei na idade em que alguns dos papeis mudaram. Quem se preocupa e pega no pé sobre comportamento sou eu. “Pai, larga isso, é pesado demais para as tuas costas”, “Quando tu vai começar a planejar tua aposentadoria?”, “Calma, eu te ajudo com o computador”. Meu pai é aquele cara que nunca vai se admitir idoso, nem perante a lei. Ele se nega a pegar a fila preferencial em qualquer circunstância, porque tem medo de que isso o torne de alguma forma, menos capaz. Acho que ele preferiria partir dessa para uma melhor, antes de sentir-se improdutivo. Ele é impaciente com a tecnologia, porque não admite não “dar conta” das novidades. Lúcido e criativo, tem a energia e pretensão de alguém convicto de que vai viver para sempre.

Com a minha mãe não é muito diferente. Por ser mais nova que meu pai, ou talvez por ter filhos pequenos, ela não tem nenhum plano de se aquietar tão cedo. Pensa em empreender, em trocar de emprego, de cidade. E depois de muito tempo na berlinda dela, é de mim que ela ouve orientações e cobranças. “Ligou o alarme da casa?”, “Já foi arrumar teu carro?”, “deixa que eu leio, tu estás sem óculos”. Eu preciso lembra-la de cuidar de si mesma, afinal ela está sempre ocupada cuidando dos outros. “Mas é que eu sou mãe, minha filha”, ela responde justificando as suas prioridades, e a energia de quem tá sempre com funcionando a mil pela prole.

Penso que justamente por ter sido muito amada e cuidada, que cultivo uma profunda estranheza quando percebo que nós – de maneira geral – não nos planejamos para cuidarmos dos nossos pais. Os meus pais ainda são novos e independentes. Mas e quando não forem? E quando os nossos pais chegam à idade de dependerem dos filhos? Nos preparamos de alguma forma? Modificamos as nossas casas para atender às suas necessidades? Nos planejamos financeiramente para garantir o seu descanso merecido? Estocamos fraldas, e arrisco a perguntar, ou paciência para lidar com suas demandas?

Para o aumento do meu desconforto com esta questão, eis que vejo casas de repouso com idosos largados ao próprio tédio. E eu acredito que não existe nada tão letal quando o tédio. Em razão do meu trabalho, visitei recentemente duas instituições que atendem a estes cidadãos de mais idade: uma extremamente precária, e outra com mais estrutura. Em ambas reconheci inúmeras histórias de descaso de filhos que estavam muito ocupados para cuidarem, ou mesmo, visitarem os seus pais. A única necessidade mútua entre a instituição mais simples, e aquela mais afortunada, era a atenção. Os hospedes daqueles locais pediam não muito mais do que atenção.

Quando foi mesmo que nós filhos, nos tornamos tão mal agradecidos? Por que nos preparamos para cuidarmos de bebês incapazes, e não fazemos o mesmo com os nossos pais, quando tornam-se incapazes de cuidarem-se sozinhos?

E aqui por favor, não entendam como uma crítica aqueles que optaram por casas de repousos, asilos, cuidadoras, enfermeiras. Eu entendo que muitas vezes os nossos pais vão precisar de cuidados especiais. Eu só não consigo entender a situação de isolamento social que muitos deles precisam encarar nos últimos anos de vida. A cultura oriental celebra aqueles que chegam a maioridade como entidades de extremo valor para a sociedade. A grande maioria deles é ativa, e atua como referência e fonte de inspiração para os mais novos. Suas experiências de vida são vistas como riquezas, e não uma bagagem pesada que carregam antes de mudarem-se para o andar de cima.

E não seria justamente essa, a melhor parte de envelhecer? Celebrar experiências e gozar de cuidados? Ou ainda, não seria esta uma das maiores vantagens de criar os filhos? Ter a certeza de que o cuidado que se teve com eles, será garantido quando os passos de nossos pais tornarem-se mais lentos, e a cabeça mais anuviada? E aqui não estou dizendo que para isso precisamos lhes receber em nossas casas, sem considerar as demais opções. Ou mesmo analisar estas questões naqueles que achamos que são “os últimos anos” – nós nunca saberemos quando são os últimos anos. Então porque não aproveitar os nossos pais agora, hoje? Por que afinal o tempo corre, e não perdoa ninguém. E a ideia não é justamente aproveitar o tempo que se tem, ao invés de correr atrás dele quando não houver mais o que fazer?

Certa vez ouvi de cara muito inteligente, que se tudo der certo, nós iremos enterrar os nossos pais. E quando eu digo “se tudo der certo”, parte-se do pressuposto de que pais jamais deveriam ter de enterrar um filho (isso deveria ser proibido por intervenção divina, inclusive). Então se tudo der certo, sou eu quem vai enterrar eles. Lembrar deles com saudade, ser grata, e talvez, levar-lhes flores. E de fato eu quero enterrar os meus pais, porque sei que essa é a lei natural da vida. Quero enterrá-los, sim. Mas não em vida.

Em vida, quero que eles se sintam produtivos e bem-vindos, por mais ranzinzas que se tornem com o tempo. Que recebam flores de seus netos em todas as ocasiões ou em ocasiões quaisquer. Enquanto eles estiverem aqui, quero abraçar-lhes e dizer o quanto os amo em todos os dias que estivermos juntos. E agradecer, de corpo, alma e atitude, tudo que fizeram para cuidar de mim. Dando-lhes a certeza de que eu vou sim, cuidar deles quando for a minha vez. Eu quero proteger a tranquilidade da velhice deles. E rezar para que alguém, um dia, zele por mim.

Cuide de seus pais.

Fim da sessão.