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Vá, gina. Vá ser feliz.

Eu vivo em constante conflito com a minha vagina. Aliás, pobre dela que não tem culpa nenhuma. Eu vivo em constante conflito com o fato de ser dona de uma vagina. Talvez seja coisa da idade, fase em que embora eu tenha muita coisa pra definir ainda, algumas eu já gostaria de ver com mais tranquilidade. E é uma montanha-russa de emoções, essa coisa de ser mulher. Para algumas o processo é super natural, e surge como o desabrochar de uma rosa. Eu nunca fui rosa. Eu mal e mal me considero uma couve-flor – mas ainda assim me esforço para ser reconhecida, importante e comida como uma couve-flor.

Hoje é difícil falar dos dilemas de ser mulher, sem parecer uma extremista. Já falei aqui que eu preferia não ser feminista, se os meus direitos fossem entregues de mãos beijadas. Não sendo o caso, eu preciso ser uma feminista. E este é um desafio diário. Há algum tempo atrás fui convocada para uma reunião com o alto escalão da minha empresa, na qual me pediram para que eu desse feedback/corretivo em um integrante da minha equipe. Comentei que o caso era uma reincidência, e sugeri tomar uma ação mais incisiva, através de uma advertência formal para a atitude desaprovada pela empresa. Foi quando me foi sugerido que, ao invés da advertência, a conversa fosse feita entre o meu gerente e o funcionário, numa linha assim mais… “de homem pra homem”. O que me espantou não foi a oferta do meu gerente fazer a intervenção no meu lugar, dada a sua posição superior na hierarquia. O choque veio porque ele se ofereceu pra ir no meu lugar, porque eu tinha uma vagina. Eu tenho pós-graduação em uma universidade bananinha de Londres, uma especialização em otimização de profissionais, curso que conclui com distinção (e em outra língua, for God’s sake!!!) e 10 anos de experiência. Ah, e uma vagina! Uma vagina bilíngue e pós-graduada, mas ainda assim, uma vagina. Tá me entendendo?

Ao passo que meu amadurecimento sexual vem sendo desenvolvido, dilemas deste tipo passaram a me assombrar não apenas na esfera de onde se ganha o pão, mas também onde se come a carne. Em uma recente conversa com um amigo gay mais experiente (pra não dizer mais velho), conversávamos sobre as diferenças de aplicativos de paquera e os divergentes comportamentos nas relações hétero e homo – mais especificamente, sobre a praticidade e igualdade nos relacionamentos entre homens. Durante a nossa conversa aquela bicha (com todo o meu respeito e admiração) disparou a sua sinceridade como um tiro de fuzil na minha cabeça. “Vocês mulheres evoluíram tanto sexualmente. Já conseguem falar abertamente sobre prazer, fantasia e desejo. Hoje vocês já tomam atitude. Entretanto, por que diabos vocês seguem fingindo orgasmos por aí?”.  Olhei para baixo encarando o chão. Tinha medo de olhar para os olhos do meu amigo e ter meu clitóris transformado em pedra, como quem encara a Medusa (do sexo). Como eu, uma pseudo – feminista, não conseguia me libertar desta “obrigação” de agradar na cama? E a custa do meu próprio prazer? Fiquei furiosa comigo por conta daquela conversa. E de novo, coitada da minha vagina!

Aprofundei-me na minha análise sobre o comportamento feminino de “fingir e esconder”. Concluí espantada que pouquíssimas das amigas moderninhas que tenho, são capazes de adquirir ou mesmo admitir, serem donas de seu próprio vibrador. Algumas alegam que o aparelho não substitui o contato, outras fogem da questão como se eu estivesse promovendo o anticristo. Eu mesma demorei anos pra ter meu primeiro vibrador – o Ricky Martin, presente de uma amiga muito mais inteligente que eu. E quer saber, o número de idiotas com quem eu transava apenas por querer transar caiu pela metade – pela metade! Eu me tornei mais seletiva. E se a vontade me pega desprevenida, não tem mais telefone vibrando na madrugada para um booty-call. É “un, dos, tres. Un pasito pa’delante María, e Ricky e eu vivemos “la vida loca” a noite toda, se eu quiser. Não estou aqui dizendo que eu trocaria um homem de verdade por um par de pilhas. Estou falando sobre a escolha de se conhecer, se curtir, e ser dona do próprio prazer. Parece simples, mas não é.  E quebrar essa tabu é difícil – gozar através dele, nem tanto 🙂 . E sua vagina agradece – eu garanto.

E se ser mulher no trabalho ou na cama é um perrengue, no contexto social não muda muito. Dia destes minha mãe encontrou uma antiga amiga minha em um evento, e me contou como ela achava que a Fulana devia estar feliz com a gravidez do segundo filho, e seu casamento estável. Foi até o momento do marido da Fulana começar a proferir insistentes grosserias contra a minha amiga, na frente da minha mãe. Naquele momento, ela parou de fantasiar o futuro da própria filha, e passou a admirar o presente dela – sim, o presente de uma solteira de 30 anos, mas de uma solteira feliz, longe de um relacionamento abusivo. Na ocasião deste papo comigo, minha mãe me abraçou e suspirou aliviada “ai, prefiro te ver mãe solteira, e estar condenada a infelicidade de um casamento disfuncional”. Fingi a ofendida – “Caraca mãe, essas são minhas duas opções: maternidade voo solo ou relacionamento abusivo?”. Ela riu das imposições sobre o futuro, com ares de culpada. De fato, eu nunca vi ninguém da minha família preocupar-se com o futuro amoroso do meu irmão, ao contrário do que ocorre comigo vez que outra. Talvez por eu ser mais velha. Ou simplesmente por ter uma vagina.

E no andar da carruagem do auto-conhecimento feminino, a gente tenta se convencer que estas questões não nos abalam, quando blindar-se da influencia negativa é tarefa árdua. Por mais segura que uma mulher seja, verdade é que ela se depara diariamente com questões complexas, dado o simples fato de ter uma vagina. Elas têm medo de sair à noite por ter uma vagina.  Elas sentam com as pernas fechadas por ter uma vagina. Elas toleram conversas nada bem-vindas durante a gravidez, porque todo mundo tem uma opinião sobre suas vaginas (trocar de lugar na hora do parto normal ninguém quer, né?). Elas regulam seu apetite sexual, pra não ter uma vagina “mal falada”. Elas são promovidas ou não são promovidas por ter uma vagina. E foi justamente por estar preocupada com tantas questões envolvendo a minha vagina que procurei uma especialista – uma ginecologista. Nada além de exames de rotina, pré-câncer (FAÇAM PRÉ-CÂNCER!) e uma preocupaçãozinha mínima sobre a queda da minha libido. Andava “desestimulada” até para brincar sozinha e aquilo vinha me preocupando. A gineco me disse que estava tudo certo comigo, não fosse uma “depressãozinha” da minha querida. Lembrei-me de Charlotte, na 4ª temporada de Sex and the City e seu dilema da vagina deprimida. A minha vagina estava triste, e apesar dos lábios, a pobrezinha não podia dizer nada a respeito num divã. A médica me explicou que era uma fase ligada ao meu psicológico, e que logo ela voltaria a ficar mais animadinha.

Óbvio que a minha vagina está triste. Não fosse todos os problemas que eu já enfrento, repare a quantidade de dilemas que ela ainda me causa. Aliás, de novo, coitada dela. Ela é só uma vagina. Mas para o meu chefe, ela resume a minha incapacidade. Para muitos ela tem mais obrigação de dar prazer, do que receber. Ela não pode nem ter brinquedos, ou deve tê-los em segredo. Ela é estuprável. Ela é casamenteira. Parideira. Ela é libertina. Depilada – pra sempre depilada. Ela é temperamental. Ela é deprimida. Mas no fundo, ela só queria ser uma vagina.

Sei que apesar de todas as dificuldades impostas, nós sairemos juntas desse momento de desânimo, a minha vagina e eu. Até porque dependemos uma da outra para sermos felizes. Então não importa quanto tempo vai levar, ou quantos tabus haveremos de quebrar, ou quanta intolerância e incompreensão teremos de derrubar. Um dia todas nós seremos livres destas amarras que nos abatem. E poderemos  dizer com tranquilidade: vá-gina, vá ser feliz.


Fim da sessão.

Eu queria ser só mulher

Eu queira ser só mulher. Sim, só mulher, assim como homens são só homens.

Ao defender direitos de gêneros, de igualdade no tratamento de homem e mulher, queria ser só mulher. Eu não queria ser feminista. Só mulher tava bom.

Quando tenho TPM, queria ser só mulher lidando com meus hormônios. Não queria ser temperamental, instável ou maluca. Só mulher.

Quando eu quero chegar em um carinha que eu quero conhecer, não queria ser fácil ou atirada. De novo, eu só queria mesmo era ser mulher.

Queria ser só mulher quando sou solteira. Nem encalhada, nem solteirona, nem titia. Mulher.

Na Índia queria ser só mulher, não dalit, nem intocável, nem estuprável, nem mártir. Só mulher.

Na África não queria ter lábios decepados pra manter minha pureza. Queria ser apenas mulher, com todos os lábios que Deus me deu.

Nas ruas de qualquer lugar também queria ser só mulher. Passando por construções, becos ou avenidas. Não queria ser “oh gostosa”, “senta aqui morena” ou “te chupava toda”. Só mulher tava de bom tamanho.

Quando eu declarar gostar de sexo, com palavras ou ações – e eu gosto mesmo – queria ser só mulher. Nem puta, nem safada, nem transarina, ou aquela que não é pra casar. Mulher.

Se não tiver as unhas ou depilação em dia, mulher.

Quando alcançar algum sucesso, nem “aquela que deu pro chefe”, ou “a filha do ‘homi’”. Só mulher tava bom.

Quando enfrentando o dilema de uma gravidez acidental, não queria ser assassina, criminosa, paciente ilegal. Mulher.

No volante, só mulher. E não “tinha que ser mulher”.

Se for curvilínea, nem gorda, nem relaxada: mulher.

Se for sarada, nem fútil, nem bombada: mulher.

Se for magra, nem anoréxica, nem fresca: mulher.

Se for feia, não quero ser puta-feia. Mulher.

Se for bela, não quero ser puta-gata. Mulher.

E se eu achar que está tudo errado, que meu lugar é onde eu bem entender, e se eu resolver não pedir permissão pra ninguém pra ser quem eu sou, ainda assim e independente do que pensem: mulher. Nem chata. Nem “moderninha”. Nem autossuficiente. Nem “mal comida”.

E isso vale pras Madalenas, Cassandras, Carens, Fridas, Joanas, Marias, Amélias, Malalas, Beyonces, Tinas, Anitas e Antônias. Todas elas e cada uma delas.

Porque ser tudo isso aí que as más-línguas dizem sobre nós é muito fácil.

Difícil…  difícil é ser só mulher.


Fim da sessão.