Arquivo da tag: saudade

Adeus, tchau e até logo

Escrevo essa sessão de um lugar que gosto mais que um bom divã. Um aeroporto. O dia não amanheceu ainda, mas o meu pânico de perder um voo por conta do trânsito, me trouxe ao aeroporto Internacional de Guarulhos um pouco depois das 4h da manhã. Munida de um café hiperinflacionado, eu observo a movimentação sonolenta de funcionários e passageiros que como eu, aguardam as horas mais efetivas do dia. Não sei por que demorei tanto para comentar sobre essa viagem aqui. Talvez porque ainda que esteja a algumas horas de cruzar o globo, essa viagem tem um ar de tranquilidade e pouca presunção. O destino já é conhecido: Austrália, com alguns dias de pura alegria na Indonésia. Tempo estimado de viagem: 2 meses. Ou seja, eu vou logo “ali” e “já” volto.

O que me impressionou nesta viagem em particular foi a comoção alheia com a movimentação que, em tese, dizia respeito apenas a mim. Amigos, familiares e conhecidos, dedicaram bom tempo a especulações sobre o meu retorno e sobre a intenção com o meu deslocamento para lá onde Judas perdeu as botas (Timberland, possivelmente).  Não importava quantas vezes eu explicasse com tranquilidade que logo voltava e minimizasse o drama envolvido em alguns dias de ausência física. Sim, física, porque depois do Whatsapp, ninguém tem um minuto mais de reclusão na vida. Houve lágrimas, ansiedade crescente e horas de explicações pouco compreendidas (pra não dizer abafadas pelas lágrimas infundadas).  Para muitos, a minha viagem não era logo “ali” e tão pouco era um “já” volto.

Acuso esse fenômeno desconcertante que precede uma viagem, como a síndrome do  desconhecimento sobre a diferença entre o adeus, o tchau e o até logo. Não posso ser injusta com meus amigos. Ora, eu sou uma viajante incorrigível, então a ideia de eu não voltar a criar raízes não é tão absurda. Isso agravado pelo fato de que meu retorno do mundo para a pequena cidadezinha que chamo de lar no interior do Rio Grande do Sul, nunca ser suave. É como tentar usar dois pares de sapatos nos meus únicos dois pés.  É um desequilíbrio constante tentar existir perto da minha morada fixa, e aquela que habita o peito e segue solta pela estrada. Existe também chance de encontrar um amor em outros portos. A possibilidade de um livro. A conquista de uma nova cidadania. Ok, talvez eu tenha sido dura demais avaliando o drama envolvido das minhas despedidas. Eu tenho muito pelo que partir.

Mas eu também tenho muito pelo que voltar. Certo dia, um amigo que mora justamente na Austrália, me perguntava do que eu mais gostava na minha pequena cidadezinha, afinal eu havia trocado o mundo, para voltar pra lá. E a minha respostar não podia incluir a minha família e amigos. Fiquei consternada ao descobrir que além dos meus amores, o meu bar preferido era a única coisa que ocupava a minha lista. Ok que o bar em questão fazia tele-entrega de bêbada na minha casa, vez que outra quando necessário. Mas ainda assim, não conseguia justificar que meu único elo com a cidade se resumia ao local onde eu bebia. Em conversa com o dono do mesmo bar, reclamava preocupada sobre meu drama, quando ele me mostrou que a pergunta do meu amigo era injusta.  Porque o “além da minha família e amigos” imposto na minha resposta, era justamente o fundamentava todo meu existir. E até a escolha do bar só reforçava o meu “além”. Porque era onde eu encontrava com quem eu amava, além da minha casa.

Eu evitei despedidas antes de chegar a este aeroporto, hoje, às 4h da madruga. Mas o meu esforço foi totalmente em vão. Vivi os últimos dias com gente que fez plantão na minha casa, até quando eu dormia, para ter certeza de que curtiriam os últimos momentos, antes dos próximos, na minha companhia. Recebi mensagens de quem eu sequer avisei sobre a minha partida. Eu bebemorei amizades mais do que meu corpo aguentou nas últimas horas, e confesso que meu fígado odeia despedidas mais do que eu, neste momento. Eu vi meus pais reforçarem o poder das minhas asas, mais do que a importância do meu ninho, provando que amor é mesmo deixar livre para poder voltar. E que embora todo mundo duvide da diferença entre adeus, tchau e até logo, tem algumas certezas que são irredutíveis. De que às vezes é preciso ficar longe de todo mundo, para poder ficar perto da gente mesmo. E que nada no mundo é melhor do que ter motivos pelos quais voltar pra casa.

É bom ir embora pelas razões certas, eu garanto. Mas nada supera voltar pelas mesmas ou novas razões. E se existe dúvida em relação onde e porque a gente faz raízes, não existem dúvidas de que somos todos passageiros. Então faz sentido apenas aproveitar a viagem. Cheia de partidas e chegadas. Despedidas e reencontros.  A vida é muito curta para ficar parado, e importante demais para não ter ao que se apegar.  Então acreditem, eu vou até “ali” e “já” volto. Bon Voyage.

Fim da sessão.

Ps: O divã segue com suas sessões, com cronograma um pouco bagunçado em razão de fuso, e horas intermináveis de diversão. A meta inclui o famoso livro, que eu comunico aqui com a intenção única de botar pressão em mim mesma. Quem quiser curtir o divã na estrada pode me acompanhar pelas redes sociais – Facebook ou Instagram (@antonianodiva). Mandem dicas, convites para café e cerveja além dos mares, ou apenas seus desejos de boa viagem. É preciso ir embora, sim,  mas não quer dizer que não quero todos vocês juntos comigo. Vem também.

 

Irmão é…

Ouvi dizer em algum lugar que a nossa construção é formada pela média das cinco pessoas com quem nos relacionamos. Lembro que o estudo provava por A+B que a nossa personalidade era a massa liquidificada dos nossos pais, irmãos, amigos, amores, na mesma proporção. Apesar de ser um estudo bem fundamentado, eu tive certeza que eu não era parte da amostra. Isso porque eu sei que metade de mim sempre foi, e sempre vai ser pilha do meu irmão. O restante dos 50% até pode espremer outras influências. Mas uma metade inteira é consolidada pelo elo que fiz com o meu primeiro e melhor amigo da vida toda.

Irmão é aquele cara que acredita que você pode consertar o redemoinho na franja dele com uma tesoura, e aguenta os próximos meses com um corte de cabelo ridículo por ter acreditado em você. É dividir cama de solteiro, e brigar pelo cobertor. É o cara que finge gostar de palhaços, quando você decidiu aparecer na festa dele fantasia como uma, esquecendo que ninguém mais gosta de palhaços aos 10 anos. E é também o mesmo pré-adolescente que te convida para ir ao banheiro de madrugada, quando você finge – junto com ele – que não tem medo do corredor escuro. É por quem você briga com garotos na praia, enchendo a boca deles de areia quando ousaram falar mal do seu irmãozinho.

Irmão é o primeira pessoa que vai fazer cara feia para os babacas que vão entrar na sua vida, fantasiados de príncipes encantados. Que vai acobertar tuas saídas furtivas para um sorvete com segundas intenções, e ouvir com atenção quando você contar que o seu primeiro beijo foi um nojo (e foi mesmo). Irmão é cara que vai brigar contigo pela internet discada, quando você insiste em namorar horas pelo telefone, com alguém com quem você acabou de passar o recreio junto. E vai tolerar teus ataques ciúmes e tua constante inquisição de irmã mais velha perguntando com quem você anda, e o que você faz quando não está por perto.

Irmão vai sair de casa com você, quando “casa” já não for mais sinônimo de tranquilidade. Vai morar num quarto de hotel por um mês enquanto as coisas se ajeitam , e te mostrar felicidade nas omeletes do café da manhã, quando nada mais parecer ter sentido. É quem vai segurar tuas lágrimas quando você estiver atrapalhada ou com medo. Dar-te força quando o futuro for incerto. Irmão é aquela pessoa que nunca te deixa sentir sozinha, mesmo quando o caminho é sinuoso, e você já não enxerga um palmo de alegria à frente do nariz. É o cara cujo amor você marca na pele, junto a um trevo de quatro folhas.

Irmão é a certeza da proximidade quando se está distante. É sintonia na descoberta de uma atração pop, e o back vocal certeiro naquele rock antigo que foi composto antes de vocês dois nascerem. É cara que te ensina a gostar de livros estranhos, e a quem você – depois de muita insistência – convence a dar aos musicais uma chance. Irmão é Londres, é Barcelona, é Madrid. É brigar na véspera de Natal, e fazer as pazes antes do ano novo. É morar junto, é brigar pela pia suja. Aliás, irmão é o único ser humano que vai tolerar encontrar seu vômito na pia do banheiro, sem lhe dar uma bela e merecida camaçada de pau – afinal o vaso com a descarga estavam tão pertinho. “Poxa irmã – você é a mais velha, cadê teu juízo?!”.

Irmão é nunca sentir-se só. Ou louca. É uma insanidade combinada, familiar. Uma tolerância garantida, não pelos traços genéticos, mas pelo amor forjado a ferro e fogo. Suor, sangue e lágrimas. É a única pessoa no mundo que não se esquece do teu aniversário. Ainda que nunca se lembre de te dar presente. Irmão é pra sempre… não é?

É. Irmão é pra sempre. E talvez por isso não ter mais o meu irmão ao meu lado seja a maior prova de que tudo o que passou valeu a pena. Porque cada perrengue dividido foi único e precioso, e me ajudou a juntar a coragem que eu hoje tenho de seguir adiante, ainda que os problemas não diminuam. Cada risada e musica cantada é a prova de que a vida é linda, e merece ser celebrada. E cada sonho construído não é apenas mais um compromisso com o futuro em construção, mas um ato de honra ao passado que edificamos juntos. Porque no fim de tudo, como eu dizia para o meu irmão, a gente só quer poder olhar a vida, e dizer “foi ducaralho, senhoras e senhores!”. Irmão é saudade para todo e sempre, com a certeza de que foi ducaralho, senhoras e senhores.

E se o meu irmão é o que acredito ser a metade de mim, e vice versa, a má notícia é que com sua partida, uma metade de mim também se foi. Mas a boa notícia (e essa que eu guardo com alegria no coração) é que a metade dele, em mim ficou.

Irmão é pra sempre, Léo. E neste 15 de março, no teu aniversário, eu vou seguir celebrando a melhor metade de mim.


Fim da sessão.

A vida perfeita

Ontem me peguei chorando pela rua.

O vento bagunçava meus cabelos, as folhas das arvores chacoalhavam como percussão musicando o meu caminho. E como em raras oportunidades (e que sem CNH, futuramente nem tão raras) voltava a pé do trem, e passei pela cobertura dourada – palco de tantas das nossas estripulias – de onde o céu brilhava com ares superiores (porque se dissesse “angelicais” tu farias piada).

Ontem me peguei chorando pela rua. Mas era um choro alegre. Ri da sorte que tenho de viver contigo dentro de mim.

Sabe, irmão, eu te culpei por ter me deixado, porque uma vez a minha vida já foi perfeita. Mas ontem, caminhando despretensiosamente pela rua, e por motivos que fogem a minha compreensão, eu entendi que ela segue sendo perfeita – afinal ela só tornou-se perfeita um dia, porque nossos carmas se cruzaram/escolheram.

Hoje cada vez que fico perdida, olho para aquela cobertura – a mais alta da cidade – como um farol me orientando pelo mar revolto – e ele anda tendo dias de ressaca (não das boas).

O farol, ele próprio, tem um paradoxo interessante – pois é responsável pela luz, da mesma forma que é pela escuridão. Nada mais justo, sabendo que a vida e a morte também tem o mesmo apelo contraditório. Luz e escuridão. Perder e encontrar-se. Chega a ser poético.

E eu vou seguir te sentindo perto, e falando contigo como se estivesse caminhando do meu lado. E de certa forma está. Talvez por isso a vida vá seguir sendo perfeita.

The perfect life.

Meu primeiro amor

Nesta semana em que celebramos o dia da criança, me doeu ver a infância lá de casa ser ameaçada pelas decepções envolvidas com a dura arte de crescer. O Murilo foi encontrado às lágrimas pela minha mãe na volta da escola. O motivo era dos mais nobres: ele tivera o coração partido. Após o que foram longínquos 4 dias de um namoro “tórrido” (incluía dar as mãos em público) com uma garota de alcunha Sofia Andrade, o objeto de desejo do Murilo terminou a semana dando um beijo na bochecha de ninguém menos e ninguém mais do que o Mateus – o irmão do Murilo. A coisa toda teve um quê de novela mexicana para mim. Dois irmãos disputando o amor de uma garota, cujo nome é sempre pronunciado de forma completa e com tom solene. “Sofia Andrade. Sofia Andrade”. Já imaginei os dois duelando com espadas de massinha de modelar antes do jantar.

Eu quis xingar Sofia Andrade de nomes feios. Aliás, com todo respeito, e bem xinguei-a assim que soube da polêmica e do coração partido do Murilo. “Aquela puta!” – esbravejei. “Antônia!!!” – minha mãe gritou em choque com minha atitude desbocada – “Pelo amor de Deus, ela tem só 6 anos de idade. E de mais a mais foi o safado do teu irmão Mateus que ficou cortejando ela”. E foi ali que me dei conta. Eu estava culpando a Sofia Andrade de uma trama complexa que tinha muito mais a ver com a competitividade masculina, do que o puro amor de uma mulher/menina. E confesso, estava sendo pouco empática com o drama de Sofia Andrade – se eu estivesse sendo disputada por dois loiros, também estaria confusa, para dizer o mínimo. Pedi perdão em silencio a dama em questão, para que nem Murilo ou Mateus achassem que eu estava tomando partidos.

Mas confesso, fiquei muito mal. Pior que o Murilo, possivelmente.

Acho que o que realmente mexeu com o meu humor foi na verdade que o episódio do Murilo lembrou-me do meu primeiro amor, que obviamente foi seguido de uma tremenda decepção. O nome dele era William e nós tínhamos 8 anos. Ele tinha uma motinho e era a única criança motorizada do nosso camping, mas eu pouco dava bola para os luxos automobilísticos no auge dos meus 8 anos (ou tampouco depois deles). Entretanto eu me lembro com riqueza de detalhes de como eu me sentia quando ele me dava uma carona, e de como na garupa da motinho eu sentia o perfume dele no vento que ele cortava com velocidade. A gente tinha horário para se recolher, mas tinha tempo o suficiente para eu ver a lua cair na lagoa, iluminando os olhos dele nos luaus que promovíamos. Eu sempre sonhava com o William, e escrevi minhas primeiras histórias de amor em nome dele. Até ele provar ser um moleque, e começar a me provocar em todos os finais de semana dizendo que não voltaria mais no camping, para o desespero do meu coração apaixonado. 4 anos depois eu dei o meu primeiro beijo no William, e o segundo de toda a minha vida. Claro que ele se apaixonou por mim. Eu? Eu, agora queria rapazes mais velhos, para o desespero do coração apaixonado do William. O amor sabe ter um timing bizarro, não sabe?

Mas o episódio do Murilo resgatou uma saudade não do meu primeiro amor, mas do meu “eu” lá no primeiro amor. Quando eu tinha um coração novinho em folha, livre de ponderações. Fato é que nós somos, incontestavelmente, a soma das nossas relações passadas. E esse é o problema das decepções, as dores não são eternas, mas falhamos ao eternizar as decepções, carregando-as para as relações seguintes. Talvez não seja a Sofia Andrade que vai lidar com a fúria da primeira decepção do Murilo. Talvez seja a próxima garota com outro nome pomposo, que ele vai decepcionar antes de se ver decepcionado. “Eu nunca mais vou falar com a Sofia Andrade, maaaaanhhhhêêê” – O Murilo berra em meios às lágrimas, enquanto escrevo este texto. O Mateus dá risada. A Sofia Andrade, mesmo sem querer, fez a primeira contribuição para o Murilo ser um filho-da-mãe com as mulheres ( ou ao menos deu-lhe uma desculpa conveniente, da mesma forma como os caras problemáticos que cruzaram a minha vida todos culparam uma Sofia Andrade). Talvez o Murilo deixe de ser o último romântico e vire o próximo cafajeste mesmo. O Mateus, bem, esse parece que já nasceu com talento para ser safado, talento bem disfarçado nos cachos de anjo.

Sendo o primeiro ou último amor, sempre que me pego analisando um relacionamento ou mesmo fim dele, não consigo deixar de avaliar o contexto. E se eu não tivesse sido magoada tantas vezes, será que teria sido mais tolerante? Se eu nunca tivesse sido enganada, eu confiaria mais? Se eu não tivesse visto o divórcio dos meus pais virar um drama, temeria o casamento? Será que me acalmaria mais fácil se não tivesse vivido a inquietude e fascínio de encarar o mundo de forma mais independente? Onde enfio as minhas teorias, decepções, rancores, e preocupações para então, dar espaço a um amor? Um novo amor. Um primeiro amor de novo.

Eu tive saudade do meu idealismo, vendo as lágrimas do meu irmão, velando o fim de seu primeiro romance. E acho que fiquei mal por nós dois. Por saber que ele ainda vai passar por muitas destas. E por lembrar que eu mesma já carrego essa bagagem emocional muito mais do que gostaria. A diferença entre nós dois, é que eu tenho a experiência que o Murilo desejaria ter. E ele, bem, ele tem a inocência de um coração serelepe que se entrega sem medo. Eu queria chorar mais por amor. Sofrer mais, e esperar mais dele. Eu morro de medo de ficar apática, uma vez que sofro cada vez menos quando tudo se acaba numa relação. E torço pelo dia em que uma pessoa vai chegar e vai me fazer sentir o mesmo frenesi que o Murilo sentiu com a Sofia Andrade. E eu vou agradecer, por nunca ter dado certo com nenhuma outra pessoa.


Fim da sessão

ps: Garotos, numa pauta um pouco mais feminista, se cuidem. Sempre que vocês acharem que são malandros, vai ter uma Sofia Andrade ditando as regras. E pensando bem, elas é que estão certas.

Bônus: Do tempo que Macaulay Culkin ainda era fofo.

A garota do lenço na cabeça | Coisa de Antônia

Talvez porque nos últimos dias eu esteja mais sensível, ou mesmo por uma coincidência improvável, esta semana também me fez relembrar de outra história de amor e despedida. Promovida pela saudade ou mesmo pelo início do Outubro Rosa, lembramos na Rede Atlântida através do ATL Girls a história da Duda, uma guerreira de carne, osso e lenço na cabeça. E depois do nosso encontro, levo desde então não apenas uma saudade, mas o desejo de encarar a minha vida como um milagre – exatamente como a Duda fez. Fica aqui uma inspiração e um convite a se emocionar e transformar.

Clique na imagem abaixo:

a-garota-do-lenco-na-cabeca

365 dias sem você

Eu prometi para mim que não contaria os dias da tua ausência. Mas essa foi mais uma das vezes que me enganei para poder sobreviver a nossa separação. Como uma dependente química em recuperação. “Hoje eu sobrevivi mais um dia sem meu irmão”. Fato é que eu contei cada um dos dias desde a tua partida, e neste domingo chegamos a marca de 365 dias sem você.

Eu iniciei uma relação bem estranha com o tempo desde que você se foi. O tempo, esse desgraçado, passou a coexistir em duas velocidades: às vezes parece que um vida inteira já aconteceu desde a nossa despedida. Em outros dias, sinto que foi ontem que te vi pela última vez. O tempo ele é impiedoso, sabe? Eu passei a ter raiva de como ele passa de forma tão despretensiosa.  Como ele pode correr livremente  se por vezes me sinto paralisada?

365 dias. Cheios de primeiras vezes que nunca planejei. Foi a primeira vez que eu quis morrer com todas as minhas forças. Não porque não queria mais viver, mas porque não queria mais sentir dor. Uma dor tão estranha e aguda. Foi a primeira vez que eu não consegui sair da cama por 30 dias, sendo que em 7 deles que eu não comi ou tomei banho. E quando saí foi pra enfrentar a minha primeira guerra pela tua memória, no famoso episódio do teu diploma. Talvez ali eu tenha me reconhecido pela primeira vez de novo, porque estava no papel de tua irmã, travando um duelo entre titãs: o nosso luto Vs a falta de empatia.

Teve o primeiro Natal sem você e suas desculpas esfarrapadas pelos atrasos de sempre, como senti falta do teu jeitinho espaçoso de entregar o presente que eu tinha comprado para a mãe, sem nunca me pagar a tua parte. Coisa de irmão mais novo. O meu primeiro aniversário, o teu primeiro aniversário, o aniversário dos teus irmãos, da mãe, do pai. Datas em que eu pirei calada tentando inutilmente compensar a falta do teu  “parabéns a você”. Ninguém podia imaginar como eu sofri tentando minimizar a saudade gritada que pairava sobre o teu silêncio.

365 dias que eu calculei tudo que tu teria feito. Quantos shots tu teria tomado na tua formatura. Quem de nós tu carregaria bêbada na formatura das tuas amigas. Contei na minha cabeça quantas ligações minhas tu ignoraria, para então depois do meu discurso afetado, quantas desculpas tu pediria, como tu fazias com todas as pessoas que tu gostavas. Fiz uma planilha de Excel com projeções de quantas pessoas tu terias ajudado através da medicina, e travei uma meta de propósito de fazer mais pelo mundo para compensar a falta da tua benfeitoria.

Eu contei cada cheesecake que comi e que teria divido contigo, ainda que brigando pela maior fatia. Cada série de Netflix que gostaria de ter feito review do teu lado. Fiz um inventário de todas as músicas que deveriam ter sido embaladas com o gingado tosco e hilário que tu fazias imitando as divas. Perdi-me no controle das lágrimas acrobatas que me escorreram sem aviso. Ou de quantos cigarros eu fumei na sacada olhando para o céu implorando de forma egoísta por um sinal teu.  Eu sei que tu estás onde precisava estar, ainda assim faz 365 dias que Deus e eu não conseguimos nos acertar. Eu também sei que a culpa não é dele, mas a minha imaturidade e humanidade me fazem errante inclusive nesta pauta.

365 dias que eu finjo ser forte. Para a maioria das pessoas por pura convenção. Eu nunca sei quantos minutos de tolerância vou ter das pessoas antes delas tentarem desviar o assunto quando me pego falando em ti. Ao passo que também finjo ser forte para não lidar com as reações de pena que as pessoas separam para mim, sempre que por iniciativa dos outros o teu nome surge na conversa. Faz 365 dias que eu forço sorrisos e digo “tá tudo bem” quando não está. 365 dias que não paro de me remoer de culpa sempre que eu tento seguir a diante e de fato consigo, porque nunca imaginei a vida sem você – e por conseguir viver, me assusto. Um ano inteiro de momentos felizes que dependem de eu me distrair da impossibilidade de tu dividires comigo as minhas risadas, memórias e momentos que teriam sido separados só pra ti.

Faz 365 dias que eu sigo interpretando uma versão mais iluminada de mim mesma toda vez que o Murilo pergunta algo de ti, ou que o Mateus faz planos de te visitar no céu.  Eu tento explicar que não tem como te visitar ainda que tenha o mesmo desejo dos teus irmãos de 6 aninhos. Eu também queria te visitar no céu. Eu morro por dentro um pouquinho a mais, toda vez que o pai repensa maneiras de ter evitado uma fatalidade. Ele nunca vai assumir a humanidade dele, porque ele é teu pai, e isso tem um peso enorme de herói que machuca muito. 365 foi o número de vezes que eu fingi ser indestrutível ao lado da mãe e por toda a pá de coisas que ela teve de lidar desde que tu partiste. Eu inventei uma série de maneiras para levantar ela do chão,  fazê-la sorrir e mentir que vai ficar tudo bem, quando eu não tenho certeza de nada. Eu aprendi neste ano que não existe termo para quem perde um filho, como quem perde os pais se chama de órfão, ou quem perde o cônjuge é viúvo ou viúva. Perder um filho é tão injusto e brutal que ninguém ousou dar nome pra esse lugar.

365 dias que eu me distraí buscando conforto. Eu bebi minhas dores, sendo que eu sempre havia bebido as minhas alegrias. 365 dias que eu reconheci o fundo do poço da tristeza. Que voltei para a terapia. Saí da terapia. Me dei alta, fiquei alta, fiquei puta. Eu nunca fiquei tão puta da vida como nestes 365 dias. 365 dias que eu me senti imensuravelmente sozinha, não porque não tive amparo, mas porque tu és e sempre serás insubstituível. Uma presença latente viva nos meus pensamentos, sonhos, lágrimas e sorrisos. Ouço há 365 dias que tu estás vivo em mim, e me indigno por sentir que não é suficiente.

Eu escrevi esse texto dentro de um avião, cruzando os céus – tão perto mas não longe de ti. Chorei o caminho inteiro de São Paulo a Porto Alegre lembrando que foi exatamente nestas condições que eu me despedi de ti pela primeira vez. Tu me esperavas chegar de um voo tarde, daqueles que eu tinha mania de pegar e por isso ninguém queria me buscar. Mas tu ias. Porque passou a ser mais responsável com as minhas necessidades nos últimos anos. E porque gostava de aeroporto, como eu. Recebeu-me com o Django no colo, e me abraçou sonolento. Perguntou da minha viagem e me deu dois livros de presente – “para inspirar o teu livro”, me disse encorajando o velho sonho. Me contou sobre a troca da tua música de formatura, fez planos de uma viagem que faríamos juntos no teu pós e me beijou a bochecha dando boa noite. Faz 365 noites que elas não são mais boas.

365 dias. 8.760 horas. 525.600 minutos. Todos cheios de saudade. Uma saudade imensurável, mas ainda assim, somada dia após dia. Até a gente se encontrar de novo.


Fim da sessão.

Edição da leitora: sugestão de trilha feita por uma grande amiga do meu irmão e querida leitora deste blog. Adequação a partir da mensagem da música e do grande amor que o Léo e eu dividíamos por musicais.

Seasons Of Love

Vai ficar tudo bem, pai.

É engraçado que quando somos crianças nós não percebemos que as nossas brincadeiras e joguinhos, instintivamente nos preparam para sobreviver à vida adulta. Brincar de casinha, nos dá pequenas noções de sermos responsáveis por um espaço, ou quando brincamos de carrinho, imaginamos como manusear um veículo com cuidado, assim como bonecas e bonecos nos fazem imaginar interações com nossos futuros filhos, maridos, esposas e assim por diante. Infelizmente nenhuma destas brincadeiras nos prepara para uma das tarefas mais difíceis da vida adulta, que é cuidar dos nossos pais. Claro, como nós íamos imaginar que em algum momento, aqueles que sempre nos cuidaram, precisariam de cuidados? Era uma conclusão ilógica do ponto de vista da hierarquia e da maturidade. Então, a vida, essa brincalhona, vem e nos surpreende.

Eu comecei cedo a cuidar dos meus pais. Em especial do meu pai. Não que ele seja um cara incapaz, sob qualquer aspecto. Meu pai é novo, ativo e inteligente. Mas por vezes na nossa jornada, ele ficou um tanto perdido, e foi na minha mão que ele segurou. Foram duas vezes, em que tive que enfrentar um tratamento de saúde ao seu lado – eu e meu irmão – já que na época os meus pais já estavam separados. Durante os meses de tratamento intensivo, o meu pai teve medo da morte – e eu, medo da vida sem ele, e essa era uma sensação insuportável no auge dos meus 20 e poucos anos. Ainda que minha mãe estivesse sempre por perto, me dando apoio, cuidar do meu pai, passou a ser uma tarefa minha, e durante algum tempo, de mais ninguém.

Do meu lado, ele passou a se preocupar com o futuro dos negócios, e viu em mim uma aliada. Além de herdeira, eu passei a ser um dos braços direitos dele na empresa – e sofrer junto com ele, mês a mês, por resultados. Passei também a me preocupar com seus relacionamentos – coisa que antes era tarefa única, exclusiva dele: “mas quem é essa fulana?”, “De quem é essa jaqueta de mulher aqui?”, “Quando tu vai apresentar essa beltrana?”, até que finalmente, tivemos a tranquilidade de uma companheira de verdade entrar na vida do meu pai. Ainda assim, entramos naquela fase em que eu passei a questionar as atitudes e decisões dele, todo e qualquer momento: “como assim não vai tirar férias, tu precisa descansar!”, “tu tá indo no psiquiatra?”, “já foi no médico ver essa pintinha estranha?”, “que remédio é esse que tu tá tomando?”, “larga esse negócio pesado, tu acha que tu tem 20 anos, e não 60?”. E confesso, não é fácil. A hierarquia fica confusa, até porque sempre foi ele que botou as minhas atitudes e decisões à prova. Aceitar que os papeis eventualmente mudassem, foi confuso, e exigiu (e exige) muita paciência, tolerância e negociação.

Mas confuso, difícil, intolerável, ganhou todo outro sentido há algum tempo, como vocês sabem. Domingo é dia dos pais, e o primeiro sem o meu irmão. Assim como o primeiro natal, aniversário, dia das mães, esse é o primeiro dia dos pais sem o Leonardo. E se tudo que é a primeira vez, desde então, ficou insuportável, o dia dos pais, é a minha prova de fogo. Talvez porque o luto do meu pai, ainda é para mim, o mais complexo. Complexo porque meu pai busca respostas, das quais a minha mãe e eu, já abrimos mão. Complexo porque para o meu pai, a nossa situação hoje tem peso de castigo.  De um “preço alto” que estamos pagando. É complexo porque nunca antes na minha vida eu quis tanto pegar meu pai no colo, e embalar seu pranto, como só as mães conseguem fazer.

E eu não consigo fazê-lo. Basta-me apenas, a difícil tarefa de acompanhá-lo em seu ritual de manutenção na lápide do meu irmão – enquanto ele cuidadosamente remove as velhas flores, e troca por botões novos, que ele ressalta constantemente, durar muito do que as flores normais. Um fornecedor novo, que ele comenta ter descoberto, falando com orgulho. Ele então lava bem o potinho das flores, e esconde as orgânicas, com flores artificiais – já que as naturais são proibidas naquele espaço. Meu pai jamais deixaria meu irmão com flores de plástico, ainda que isso agisse contra as regras do próprio céu. E eu fico lá com o coração na mão, vigiando o seu empenho e sapequice  ao quebrar o protocolo daquele local de descanso.

Entre uma tarefa e outra que ele executa com precisão cirúrgica, ele fuma um cigarro. Eu engasgo o choro para dentro, enquanto vejo-o soprar a fumacinha em direção à fenda de pedra, para o caso do meu irmão – também fumante – sentisse falta de um barato proveniente dos vícios terrenos. Fico escutando suas dores, pensando em mil maneiras de aliviá-las, admitindo e aguentando as minhas próprias limitações, de que tudo que eu posso fazer pelo meu pai, estou … ali, ficando do seu lado. Escutando e entendendo. Desmistificando pouco a pouco a ideia que ele tem de que a partida do meu irmão seja um castigo, mas muito mais uma evolução, reconhecida pela entidade mais sagrada na vida e depois dela. Pelo meu pai eu finjo ser forte, mesmo quando ser forte, seria a minha última opção.

Talvez essa seja a lição mais difícil a ser aprendida, e por isso não aprendemos a cuidar dos nossos pais desde cedo. Porque a gente precisa ter a ilusão de que eles são fortes o tempo todo, para que a gente vá descobrindo a nossa própria força. Força essa, que um dia será útil até para cuidar deles, dos nossos pais.

Nesse dia dos pais eu queria agradecer a todos os pais que fingiram força pelos seus filhos uma vida inteira, mesmo quando era a sua última opção. Fingiram força, engoliram o choro, adiaram planos, parcelaram desejos, e entregaram tudo que era seu, para que nós, seus filhos, tivéssemos todas as chances de felicidade e oportunidades de sucesso deste mundo. E o meu pai sempre foi esse cara. Com todos os seus defeitos e limitações, ele sempre esteve do meu lado cuidando de mim, fingindo que era forte para enfrentar tudo.

E eu vou fazer o mesmo por ele.  Vai ficar tudo bem, pai.


Fim da sessão.

Um abraço apertado aos pais presentes e atuantes – aqueles que são os nossos heróis tão humanos.

Eu adoro aeroporto

– “Filha, não precisa me buscar no aeroporto. Eu pego o trem”.

– “De jeito, nenhum, mãe. Eu faço questão”.

Ela encerra a ligação agradecida, ainda que não tivesse tido tempo de explicar. Não que eu não fizesse questão de dar uma carona para a minha mãe, mas naquele contexto, o que eu fazia questão ali, era o aeroporto.

Eu adoro aeroporto. Gente chegando, gente indo embora. Pessoas se despedindo com lágrimas nos olhos, ou se reencontrando com sorrisos largos. Últimos beijos, primeiros abraços. Adoro chegar com antecedência e me pôr a vislumbrar histórias de partidas e chegadas, ou mesmo de inventá-las, com roteiros elaborados, dignos de blockbusters. Eu me sento com o meu pão de queijo ultra-inflacionado, um café expresso e observo os passos apressados seguidos de malas, mochilas, bolsas e travesseiros de pescoço.

Faço uma leitura visual dos passageiros, e simulo seus itinerários. “Aquela ali vai viajar pra longe da família pela primeira vez, pelo pranto da mãe. Europa, pelo tamanho da mala. Ninguém vai pra Austrália com tudo aquilo.”– concluo. “As pranchas daqueles lá indicam uma surf-trip dos amigos. Chile, provavelmente, um deles derrubou a roupa de borracha tipo long.  Mas o chapéu de palha do outro acusa que pode ser El Salvador.” “O cara de terno e micro-mala vai a São Paulo a negócios. Pela cara dele, ele trocaria a selva de pedras por qualquer mar do Caribe”. Talvez eu também devesse conhecer o Caribe…

“A Infraero informa…”. Pronto, sou retirada do meu mundo de simulações pela voz metálica da moça da Infraero. Eu adoro tudo que a Infraero informa. O tráfico de aviões, os atrasos, as chegadas antecipadas, as trocas de portões de embarque – ainda que eu nunca escute os avisos quando deveria. Esses áudios são musica para os meus ouvidos, mesmo quando em alguns aeroportos eu não entenda tudo que dizem.

Como em Abu-Dhabi, quando perdi a versão em inglês do anúncio de que trocaram a minha conexão para a Tailândia e eu quase perdi meu voo, não fosse por uma burca-preta tímida e gentil, que me apontou o telão que anunciava a informação. “Como se vai de burca para a Tailândia?”, pensava enquanto nós duas corríamos para o portão certo. Ou da vez que anunciaram em um belíssimo italiano que o aeroporto fechava durante a madrugada, e eu tive que dormir no meu saco de dormir no chão, junto as minhas amigas aranhas, sem ter como sair do recinto para um lugar mais confortável. No fundo eu estava em casa, dentro de um aeroporto. Entre a Roma e Istambul, o que eu tinha para reclamar (além as aranhas…)?

Gosto da expectativa inebriante destes saguões.  Encaro os telões cheios de voos separados apenas por alguns minutos, que chegam de todas as partes do mundo. Penso nos céus que cruzam, nos oceanos que sobrevoam. Faço uma lista mental de onde eu iria se não me sobrassem responsabilidades e me faltassem dólares, euros, yuans. Meu estômago pula, cada vez que os letreiros trocam números de voos e destinos. Penso nos aeroportos que já receberam a minha alegria, o meu cansaço, o meu atraso, e de que não existe pior sensação no mundo do que chegar atrasado em um aeroporto, e ficar pra trás em Barcelona. Bem, isso até descobrir um boteco que servia sangrias baratas até o próximo voo (caríssimo) disponível. Eu adoro aeroporto.

E de aeroporto em aeroporto, eu faço planos infalíveis de dominação do globo. De juntar milhas com a mesma euforia de quem junta horas na fila do scanner. Eu sempre temo ter esquecido um líquido sagrado na mochila, que possivelmente terá de ficar ao lado da máquina de raio-x para descarte, até me lembrar que eu gasto os meus bocados muito mais com drinks do que com cremes caros. Eu me tremelico toda nas conferencias de passaporte. Já esqueci meu próprio nome em duas ocasiões distintas (talvez eu deva escrevê-lo na minha mão, na próxima). Eu sempre acho que vou ser confundida com uma prostituta em Madrid, uma traficante em Paris, confundida por sóbria demais para a Escócia, ou vítima da Ebola na saída da Johanesburgo. E eu nunca fiquei mais que 7 perguntas e alguns minutos suando frio nestes interrogatórios. É a síndrome do “não vou passar do aeroporto”. Ainda que eu adore aeroporto.

Adoro os pátios de aeroporto. Do cheiro de aventura. Cheio de aventura misturada com gasolina de aviação. Eu nunca liguei para carros, mas sou bem Maria-Gasolina-de-Aviação. É meu perfume favorito. Adoro o barulho vibratório de turbinas. O vento bagunçando o meu cabelo entre a sala de espera e um avião.  A sensação de inquietude que me causa. E se o vento faz voar um avião, imagina o que faz com as borboletas da minha barriga.  Elas voam, voam, voam, sem precisar de carona de boeing ou airbus algum.

Aeroportos me tiram do meu fuso. Quero abordar turistas e interroga-los em inglês, apenas pelo prazer que sinto do idioma dançando na minha língua. Eu me abalo cada vez que me despeço de alguém nele, nem que seja a minha mãe visitando a minha vó – abraço-a como se ela fosse cruzar o Atlântico – e a minha vó mora em Uberlândia. É culpa do aeroporto. Encaro sem vergonha os beijos apaixonados de casais recém juntados por uma conexão. Tenho vontade de abraçar famílias que nem conheço, quando recebem seus entes queridos com faixas, balões e buzinas. Celebro o reencontro deles dentro da minha cabeça, segurando a vontade maluca de me jogar junto no montinho de abraços desconhecidos. Ali, naquele desembarque onde tantas vezes o meu irmão me esperou na porta, com sua cara de sono,  o Django no colo e sorriso receptivo.  Onde me despedi de tanta gente, e reencontrei as melhores amigas do mundo.  Eu adoro aeroporto. São inícios, são meios, são fins.

Aeroporto é minha praia. Meu imaginário construído sobre concreto e asas. Ahhh são meus pés no chão e a cabeça no céu. Aeroporto é a confirmação em matéria física de que tudo é transitório, passageiro. Passageiro, sabe,  assim como você e eu.

Fim da sessão.


– “Oi filha! Tá aqui há muito tempo me esperando?”

– “Não mãe, cheguei às 11h.”

– “Mas eu te disse que o voo chegava só às 12h45.”

– “Não te preocupa, mãe. Eu tava aqui viajando.”

– “E esse cartaz?” – referindo-se a folha de papel branco com os dizeres “BEM-VINDA, MAMÃE” que eu segurava em frente ao portão de desembarque.

– “Eu gosto de celebrar reencontros.”

Ela me olha confusa – “Mas filha, eu fiquei menos de uma semana fora.”

– “Ah, mãe. Eu adoro aeroporto.”

Antes de eu morrer | Coisa de Antônia

Já pensou o que você faria se soubesse que tem os dias contados? Eu já. Vem comigo no Coisa de Antônia no ATL Girls da Rede Atlântida, clicando na imagem abaixo:

Antes de eu morrer (1)

A irmã mais velha

Sábado passado caiu a luz lá de casa. Não foi por muito tempo, somente tempo suficiente para o Mateus aparecer na minha cama em um pulo, e o Murilo sair correndo do chuveiro gritando meu nome – “MANAAAAA” – sim porque lá em casa meu nome é “mana”. Enquanto a minha mãe arrumava o disjuntor no andar de baixo, eu no andar de cima, acalmava a dupla. O Murilo, ensopado e enrolado numa toalha, chorava no meu colo desconsolado pela ausência da luz. O Mateus, por outro lado, tentava manter-se forte no escuro, mas não, é claro, sem arrumar um cantinho para sentar-se na segurança do meu joelho. Sugeri contarmos histórias enquanto a luz não voltava. O Murilo discordou, entre uma fungada e outra. Ouvindo a contrariedade do irmão, o Mateus sugeriu brincarmos de mímica, e eu achei graça: “Como podemos brincar de mímica no escuro, Mateus?” Pronto, agora os três caiam na risada.

A luz volta.

Frente à claridade, cada um retorna a seus afazeres. O Mateus voltou para o desenho dele, o Murilo foi tirar o sabão do corpo, e eu voltei pro meu quarto e para o Netflix.  Sem perigo eminente, cada um deles podia seguir seu caminho de forma independente. Frente ao perigo, eu era essencial.  A cena me jogou de volta para a minha infância. Quatro anos mais velha que o meu irmão Leonardo, algumas vezes na nossa juventude eu me peguei encarando a escuridão, tendo certeza de que eu não podia fraquejar. Lembro-me de uma época em que morávamos em um sobrado grande, que tinha um longo e assustador corredor até o banheiro, e de como o Léo sempre me acordava para acompanhá-lo durante o seu xixi no meio da noite. Eu nunca confessei para o meu irmão, mas eu devia ter mais medo do corredor que ele – mas por causa dele, eu ficava corajosa.

Como irmã mais velha de três meninos, eu não consigo minimizar a função deles no fortalecimento do meu caráter. O Leonardo, o Mateus e o Murilo são propulsores ativos da minha evolução. Sempre foram. Se dependesse só de mim, talvez eu não tivesse força ou muito menos coragem para encarar os inúmeros perrengues que a vida nos jogou. Mas esta é a mágica existente entre irmãos: como irmã mais velha, eu nunca me vi com escolha de desistir, e por conta deles, me tornei a mulher forte, determinada e destemida que sou hoje. Ou pelo menos alguém que quando precisa, finge bem todas essas características.

Para cada irmã ou irmão mais velho no mundo, existe um irmão mais novo desafiando a nossa fibra. Eu vi isso acontecer com o Léo, quando ele, por sua vez, se tornou corajoso pelo Murilo e pelo Mateus. A cada tosse medonha que os guris tiveram, o Léo, novato na medicina, acalmava a família frente ao desconhecido. Ninava os dois quando eles tinham suas cólicas. E muitas vezes, confortou seus pequenos corações enfrentado o escuro que precede o sono. O Léo deixou de ser unicamente o meu irmão mais novo, e decidiu ser forte, muito mais forte, como irmão mais velho dos dois pequenos.

Depois de muito tempo sendo irmã mais velha, eu finalmente entendi o que esse laço significava. Irmãos mais novos – hoje sei – não são apenas o link direto com o nosso passado, o nosso compromisso com a nossa história, o nosso cúmplice de crime. Eles são também um trampolim para o futuro. E essas etapas mudam a gente. Irmãos mais novos nos dão um preview do que é ser mãe ou pai de alguém. Ser responsável por outra vida além da nossa. Mostra-nos na prática a importância de dar exemplo, muito mais do que dar ordem. Nos forçam a comer legumes que a gente não gosta, afinal legumes são cruciais para o crescimento – eu, por exemplo, odeio beterraba. Mas como irmã mais velha, eu disfarço o nojinho pela raiz roxa e mando ver com cara de quem tá comendo pizza.

Ao lado dos nossos irmãos, a gente ensaia uma versão melhor da gente mesmo. Fuma escondido para não dar mal exemplo. Usa cinto de segurança, mesmo quando acha que “não precisa”. Na frente dos irmãos toda regra é importante. Foi com os meus irmãos e suas demandas, eu aprendi a deixar de dizer “já vou” e comecei a dizer “estou aqui”. Comecei a me preocupar com a violência, com o perigo de alimentos transgênicos e confesso, depois que virei irmã, eu nunca mais dormir sem pelo menos um olho meio aberto.  Por causa dos meus irmãos, eu comecei a querer mudar o mundo pra melhor.

O mais engraçado é que entre um colo e outro, quando a gente acha que está dando força para eles, está na verdade tomando goles de coragem que eles nos oferecem. Sim, porque não dá pra não ser guerreira(o) por um irmão ou irmã. Nós somos os heróis da vida real. Porque mesmo no meio da escuridão, são os nossos irmãos que promovem a coragem e alegria que a gente precisa na luta pelo esclarecimento. E assim, a luz sempre volta.


Fim da sessão

Hoje decidi dividir uma coisa ainda mais pessoal sobre ser irmã. A mensagem abaixo foi escrita pelo meu irmão – um dos meus escritores favoritos. Nela o Léo me desejava feliz aniversário (pela última vez), como também se admitia no desafio como irmão mais velho (pela primeira vez). É com certeza uma das mensagens que irá me tocar pelo resto da minha vida de irmã mais velha. E eu espero que faça o mesmo com todos os irmãos e irmãs aqui neste divã, para que eles nunca deixem de perceber o valor deste vínculo.

Foto: El Retiro - Jardines del Buen Retiro de Madrid
Foto: El Retiro – Jardines del Buen Retiro de Madrid.
“…e em 1768 o recinto foi aberto pra cidadãos não-nobres desde que estivessem bem vestidos e lavados” era o que dizia sobre esse lugar em um dos guias de viagem baratos que a gente comprava nas banquinhas de cada cidade que chegava.
Definitivamente não era nosso caso. As poucas libras que só nos permitiam voar de Ryanair (e comemorar cada pouso com o avião inteiro) nos davam direito a duas ou três mudas de roupas em uma mini-mala (e mais algumas peças escondidas no meu casaco tamanho gigante-plus). Assim a gente sobrevivia, lavando roupa no chuveiro frio do hostel e torcendo pra secar antes de ter que guardar na mini-mala de novo. Então bem ‘vestidos e lavados’ certamente não era o nosso caso, mas conseguimos entrar e aproveitar o ‘recinto’. Era isso que importava.  A mesma briga no início de cada manhã pra definir o plano do dia se repetia na volta pra casa pra decidir quem ia ver as fotos primeiro.
Era ali que eu percebia que não tinha porque discutir roteiro, na verdade o que realmente tinha valor era quem tava junto comigo durante ele.
E essa pessoa foi tu. Sempre tu.

Não me refiro aos 3 meses da nossa viagem, mas aos 26 anos que completo em breve. Não existiu pessoa que me deu tanto apoio e me defendeu tanto quanto tu, não importava o Atlântico de distância que a gente teve que conviver por três anos ou tu estar do outro lado do mundo, como é o caso de hoje que tu comemora teu aniversário na Austrália. A gente se obrigou a aprender que a distância geográfica é o de menos.

Há 4 anos e meio eu me tornei irmão mais velho, papel que tu exerceu praticamente a tua vida toda e acho que foram poucas as vezes que parei pra te dizer muito obrigado por ter suportado nas costas toda a responsabilidade desse cargo.

Mesmo com todos os acontecimentos dos últimos anos que multiplicaram nossa família, sempre vai ser tua a primeira imagem que me vem a cabeça quando penso na palavra irmão. Tu que não me deixou desistir da Medicina todas as vezes que (de saco cheio) cogitei isso. Tu que com o olho cheio d’água segurou minha mão em março do ano passado enquanto eu saía meio grogue do bloco cirúrgico e deitou naquele sofá duro pra só sair quando eu pudesse sair junto contigo pra casa.

Então além de te parabenizar pelos 30 anos queria te agradecer pelos 26 que tu passou do meu lado.  Nem sempre ‘bem vestidos e lavados’, mas sempre juntos.

Te amo, irmã,  feliz aniversário.

Foto de capa: Orgânico Estúdio