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10 coisas que eu odeio em você

A primeira vez que vi o filme “10 Coisas Que Eu Odeio Em Você”, dei-me conta de que o longa-metragem não era apenas a versão hollywoodiana da obra de Shakespeare de “A Megera Domada”. A obra era também muito de como eu via a minha própria vida fora das telas. Kat, uma das protagonistas, é aquela rebelde bacanona que todo mundo quer ser, com senso de humor sarcástico, eloquência felina e um desinteresse pelo óbvio. Eu me vi nela no primeiro ato/cena. Assim como ela, me enxergava como uma garota com gosto pela escrita, com uma confiança que às vezes era confundida com arrogância, pouquíssima paciência para papo furado, e um coração molenga disfarçado por trás de um nariz empinado. (E minha mestria em dramas shakespearianos, claro!).

Além da semelhança na atitude, Kat e eu dividíamos um fraco por caras marrentos com incontestável talento para a malandragem. Mesmo que contando com certo senso crítico para quase tudo, eu, como Kat, sempre escorreguei na marra alheia, como quem se esborracha numa casca de banana. Mas com o tempo e alguma experiência, aprendi que não era qualquer malandro que me pegava ou qualquer mentira que me enrolava. Bom, isso era o que eu pensava até você chegar.

Não era um Heath Ledger em seus coturnos juvenis, mas arrancava alguns suspiros de menina por onde passava. Eu prometi que não ia me dobrar aos teus discursos de promessas fáceis e teu charme irritantemente irresistível. E quando achei que alguma parte de mim já tinha azedado para o romance, me surpreendi ao ver a megera aqui domada muito mais fácil do que previ. Bastou um saco de pinhão (coisa do sul), meia dúzia de chamegos e algumas manhãs divididas. Pronto! E há quem diga que eu sou difícil de me apegar.

Entre suspiros e pirraças eu me aventurei por onde tinha prometido não ir tão cedo. Acostumei-me com tua presença e provei teu gosto incontáveis vezes, até preferir você à sorvete. E eu adoro sorvete. Escrevi-te mil versos, entre borboletas, banhos, roncos e todas as recaídas entre o “dar certo” e os nossos finais. Guardei tuas e minhas mentiras junto das lágrimas que prometi não derramar na frente de ninguém. Evitei teus caminhos buscando proteção, mas como evitar o algoritmo da vida sempre tão randômico? E foi voltando a te encarar, que assim como a megera Kat do filme, eu fiz a minha lista. A lista das 10 coisas que eu odeio em você.

Eu odeio o jeito como você me deixa vulnerável, caindo por terra toda essa persona confiante que eu demorei meses para construir. Que para você um simples toque no braço, não significa o tremelicar de um corpo inteiro. Que olhares não instiguem pequenas erupções dentro do peito, remexendo em tudo o que já foi, e o que eu não quero mais que seja. É difícil acalmar um vulcão.

Odeio esse teu jeito relaxado de quem está com a vida ganha, de quem sempre dorme bem à noite e de quem não nutre nenhuma paranoia. Eu pareço louca perto de você, sim, porque eu tinha todo um plano pra ficar de boa na tua presença, mas eu não vim com o kit “be cool” de fábrica. Você sim veio com o kit, o teu e o meu provavelmente, porque tenho impressão que cada passo seu tem a leveza de um passeio no parque, enquanto eu sou perita em pisar em ovos.

Odeio que você desafia cada um dos meus argumentos, e me questiona com a precisão de um investigador de sobrenome Holmes. Não se intimida por mais que eu fale grosso, use as minhas doses cavalares de veneno ou desista de tudo e faça beiço. Você segue com seu discurso que tem tudo que eu quero ouvir, e nada do que devia querer lembrar. Minha fala fica completamente limitada, e minhas justificativas são tão profundas quando o balbuciar de um bebê. Nessas horas me pergunto onde fica o meu lado escritora para te reescrever mudo, me ouvindo tendo razão sem você contestar?

Odeio como teu cheio é sempre bom e fica grudado em mim ao menor contato com a minha pele. Fico com raiva do meu perfume que, como eu, se rende facilmente à tua intervenção. Parece que nada que é meu é pareô para o que tu trazes pra mesa. E eu odeio perder. Meu orgulho fica muito magoado.

Odeio a tua intimidade comigo, servindo o meu copo, cutucando a minha cintura ou falando da minha vida como quem já me sacou inteirinha. Eu tenho raiva de como você conhece (ou acha que conhece) o meu enredo. Mas pior ainda, eu odeio a forma como eu fico previsível perto de ti, ainda que tenha ensaiado sacadas diferentes e novos passos para usar nesse nosso tango argentino.

Odeio quando tu olhas nos meus olhos com a petulância de quem entra na minha cabeça sem pedir licença. Eu te evito, encaro os teus pés e conto as voltas dos teus cadarços, as pontas duplas do meu cabelo, ou finjo brincar com o copo de cerveja para não ter que te encarar. Não sei o que pode acontecer se eu te encarar, e nem quero saber. Onde se toma vacina pra essa porra que você me causa?

Odeio tuas conversas fáceis, promessas rasas e alegações duvidosas. E de como tu enfeita a tua fala com doçuras de um passado que eu levei meses para sufocar.  Odeio como eu queria acreditar na tua história, como quem acredita na fada do dente ou no monstro do lago Ness. Odeio como tu te ofendes que eu não acredito em ti, ainda que nenhuma das tuas atitudes combine com as firulas que caem da tua boa.

Odeio a tua boca. Na verdade odeio o conjunto dos teus olhos com a tua boca. Especialmente quando sorriem. Eles formam aquele pacote de sorriso + olhos fechadinhos que eu odeio tanto quanto amo. Mas na tua cara eu odeio. Parece que eles compactuam um complô, isso sim. Um convite como quem diz, “entre neste universo, você vai se ferrar, mas pelo menos o convite é lindo”. Lindo tanto quanto o gelo que eu ei de levar dias depois, quando você mudar de ideia mais uma vez, e cansar de sorrir para mim. Ei garoto, nem comece, você está proibido de sorrir pra mim, ouviu?

Odeio que tu nega que foram falsas promessas, e que a gente deveria se ver mais, conversar mais, enquanto tudo que eu penso é menos, menos deste teu sorriso, das promessas, menos de você. Menos de nós dois, a gente é tão passado neste presente. E ainda assim, cá estou, escrevendo meus versos mais uma vez, para quem eu duvido ter guardado uma sílaba minha. Que dirá um verbo conjugado no futuro com sujeito no plural. Quem sabe você seja apenas estímulo mesmo, tipo uma entidade da mitologia grega, que tem como única intenção inspirar (versos, sentimentos, paranoias, confusões). Talvez você tenha sido/seja o meu “Erato“, ao invés de amor. E fui eu, a artista, que confundiu tudo.

Eu sei que essa história nunca vai acabar com você cantando “Can’t Take My Eyes Off You” na frente de todo mundo, enquanto eu fico corada e assumo que sou tímida. Sei que tu não é do tipo de malandro que se redime (aliás, não se fazem mais malandros como antigamente). Mas algo entre nós acaba como no filme. Essa nossa história termina do mesmo jeito que o poema de redenção da megera domada.

O que eu mais odeio em você, entre todas as coisas e sem sombra de dúvidas, é o fato de não conseguir te odiar. 

Quanto a isso, eu não te perdoo.


Fim da sessão

Não me leve a mal, me leve a praia

Tem sempre um pedaço da estrada que ainda não tá bom, uma ponte que não está pronta, e o trânsito maluco para tolerar. As malas vão apertadas no porta-malas, dividindo espaço com a expectativa. Muita expectativa. Pranchas se engarrafam pela estrada antes mesmo de se engarrafarem no outside. A gasolina está um absurdo, a pousada está cara, e a crise um dia ainda vai comprometer o churrasquinho. Se você não é o sortudo dono de uma vida na praia, todo feriado é uma tortura até o paraíso. Afinal, praia tem que merecer.

Mas quem acredita sempre alcança. E depois de um feriado de quatro dias, é impossível não encher os pulmões e a mente de inspiração e oxigenar aquela vidinha intoxicada de monóxido de carbono e conta pra pagar. Não há tensão que a massagem da areia não desfaça. Não há coração que não se aqueça com os beijos do sol. Não há mente que não se acalme com água do mar. Lá o mundo funciona em outra vibração. Desacelerado. Desapegado. Exigir o que frente à imensidão do mar?

O caminho para a praia normalmente é a pé e a trilha tem perfume de maracujá/terra molhada/mata nativa – e quando foi a ultima vez que você parou para sentir o cheiro das coisas? Na praia você repara as borboletas do caminho. Divide o crepe com o cachorro de rua. Falando em comida, a gastronomia da praia tem um cronograma muito particular. Café da manhã vira almoço, almoço vira janta, janta vira lanche da madrugada e nem invente de querer alterar a ordem. Beliscadas, água gelada e chimarrão na beira da praia são obrigatoriamente coletivos. Juntar o lixo também é um processo coletivo. O seu lixo e do babaca que não o fez, afinal você faria o mesmo dentro da própria casa – e praia é ainda melhor que casa.

Na praia não precisa ter 3G, 4G, 5G. Claro que a gente se fala muito mais ao Vivo. Na versão em inglês a gente fica mais NextpraTell”. E quem precisa de Tim quando se temOi, muito prazer, tim-tim!”?  Bom mesmo é desconectar dos aparelhos e conectar-se com as pessoas. Seja com aquele surfista loiro que tem um projeto de mudar o mundo e causa suspiros em qualquer garota. Seja com aquele amigo que tem uma cantada ensaiada em parceria onde todo mundo se dá bem. A comunicação na praia é cheia de teorias infundadas e planos infalíveis de felicidade. Lá todo mundo tem um apelido – “Ursinho”, “Beethoven”, “Musa”, “Alemoa”, “Berfort”. É lugar de corpo-a-corpo e não de Whatsapp. De piscadas presenciais e não emojis. Risadas incontáveis, como as ondas do mar.

Corpos desnudos revelam que não tem nada mais sexy que marquinha de biquíni recém-feita ou nucas cheias de sal. Mas se for pra ficar vestido, na praia não existe “a minha mala” ou “as minhas roupas”, toda vestimenta é coletiva. Toda canga / toalha é dividida, e as cadeiras de praia circulam em revezamento. A programação noturna tem planejamento de corporativa multinacional, com avaliação de impacto sociológico (“pra onde vai a galera?”), financeiro (“tem cortesia, nome na lista, choro, combo – dá pra pagar no cartão?”) e logística (“como mesmo eu cheguei na minha cama/ sua cama / aqui no chão?”).

Joelhos são ralados, panturrilhas ficam doloridas, braços são esgotados, e roxos por todo o corpo fazem parte do pacote. “Onde foi que eu me bati?” – o mistério vem e vai embora junto com os hematomas, pois na praia se vive ativamente, envolventemente. Pode ter sido o escorregão numa pedra, a batida mal calculada numa onda, uma bolada de frescobol, o swing-samba-funk até o chão. De corpo e alma, o jeito é aceitar que pequenos acidentes são sempre previsíveis. Um pequeno preço que se paga por dias lindos de pés descalços e espírito livre. Na praia, meus amigos, a gente fica sensível à qualidade do tempo que nos damos pra ser feliz.

Praia, paraíso que decidi há muito tempo chamar de meu, sendo dona temporária apenas de um pedaço de areia onde couberem meus amigos e um guarda-sol. E é lá, sob os olhos vigilantes de Iemanjá, que consigo lembrar que a vida não é feita só de despedidas, mas também de reencontros. Não só de reunião, mas também de congregação. Lembro-me que ela não é feita só de escolhas difíceis, mas também das bem fáceis. De que nem tudo é incerteza, mas também momentos e prazeres em que você se joga de cabeça e de olhos fechados. É do meu castelo de areia que lembro que depois de cada tempestade ou chuva de verão (na praia ou na vida), haverá sempre um céu cor de rosa pronto pra me conquistar.

Não adianta procurar outra cura. Nas doçuras cantadas por Nando Reis, fica claro qual o remédio para os males da cabeça e do coração: “A gente só não inventa a dor, a gente que enfrenta o mal, quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor”.

Então não me leve a mal, nesta terça-feira pós-feriado. Me leve de volta a praia, vai?


Fim da sessão.

Antes só vinho, do que meio acompanhada

Neste domingo, um grande número de amigas que há tempos não se via reuniu-se para uma celebração. O evento pra mim era duplamente proveitoso: eu ia matar a saudade das minhas amigas e de quebra voltar pra casa cheia de ideias para as minhas sessões. Atualizávamo-nos de nossas vidas (nada) amorosas, quando me dei conta de uma realidade alarmante. Estávamos todas ficando com o mesmo cara. Sim, todas. As mesmas desculpas, as mesmas saídas pela esquerda, os sumiços repentinos, reaparecimentos randômicos e as mesmas artimanhas de virada de jogo. Eu escutava uma a uma delas, pensando “meu Deus, mas essa história é minha!”. E não era. Era a nossa.

Algumas conferencias de nomes Vs fotos do Facebook verificamos que de fato, literalmente não estávamos envolvidas com a mesma pessoa – quem duvida que o mundo é minúsculo é louco – entretanto no lado figurado da questão, a história só mudava de CPF e tamanho do… do pé (vamos deixar o pé).  Negava-me a acreditar que mulheres tão diferentes, com desejos tão singulares, envolvidas com caras nada parecidos pudessem estar sofrendo da mesma angustia. Examinei com cuidado as histórias pensando que tamanha coincidência podia ser uma coisa regional, ou de uma determinada faixa etária, ou ainda talvez fosse um defeito de um grupo social específico. Não, não era possível tanta similaridade. Deixei a pauta de lado, visto que desconfiava de certo nepotismo da minha parte decorrente do encerramento do meu atual pseudo-romance. Tinha certeza que estava distorcendo as histórias para fortalecer o meu despeito.

Acontece que a pauta ganhou nova força na segunda-feira, quando me deparei com um texto do Daniel Bovolento. Conheci o trabalho do Daniel, autor do blog “Entre Todas as Coisas”, quando o mesmo gentilmente me escreveu elogiando um texto meu que havia viralizado. Desde então passei a acompanhar o trabalho do Daniel, que apresenta uma sensibilidade bem rara nos assuntos do coração – razão pela qual ele tem centenas de fãs e uma enxurrada de suspiros a cada post. Pois ele, um homem, estava deparando-se com a mesma sina em sua piscina de opiniões. O autor do blog pediu para que suas leitoras que indicassem motivos pelos quais elas estavam largando os caras de mão. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que a pesquisa dele, reproduzia exatamente o meu papo de domingo com as minhas amigas.

Foram elencadas 7 principais mancadas propagadas pelos cuecas: 1) “Vamos marcar/A gente se fala”. 2) “Você não deu a entender que tava afim”, ou como eu prefiro chamar a virada de jogo ou ainda o pulo do lambari. 3) “A gente ainda não tem nada”. 4) “Ta fazendo alguma coisa agora?”, ou como as minhas amigas e eu chamamos, o ressurgimento das cinzas. 5) “Tô querendo conhecer alguém legal e ver no que dá”, ou em outra interpretação, se eu disser que é só sexo vou parecer cachorro. 6) “Não tinha visto a sua mensagem”, o famoso vácuo. 7) “Tava ocupado esses dias”, ou em outra analise contornando a situação pra não perder a moita. Pelamordedeus. O texto (clique aqui) era praticamente um roteiro da minha ultima D(n)R – discutindo o não-relacionamento. Com interpretações e dicas bem pessoais do autor, mas ainda sim, tão minhas. Tão nossas.

Tentei por horas justificar o injustificável. Coloquei-me no lugar deles e tentei entender o que provoca essa ausência de clareza entre os wannabe-lovers. As meias verdades. Meias desculpas. Meias conversas. Meias presenças. Pensei que talvez eu pudesse não deixar claro que eu prefiro fazer sexo a fazer jogo – aliás que eu odeio fazer jogo. Mas eu sei que me entrego com todos os versos que encontro, mesmo que por vezes me vejo tola sobrevivendo da lembrança de contatos esporádicos no meio de angustiantes desaparecimentos. Me indaguei se de repente o que faltava entender este Clube do Bolinha , é que nós realmente preferimos as verdades inteiras e o papo reto sem firulas ou açúcar. Nós já não somos mais as mesmas desde a obra “Ele simplesmente não esta afim de você”. O que também não quer dizer que queremos arrastar alguém para o altar simplesmente por não tolerar nos colocarem na prateleira ao bel-prazer.

Talvez a culpa seja realmente minha. Ou nossa. Quando eu comecei a namorar lá na adolescência, minha mãe disse que eu devia começar mais tarde – óbvio que eu, teimosa como toda rebelde boba, contrariando a orientação dela, me entreguei bem cedo aos delírios e tragédias do amor. Anos se passaram e com eles um acúmulo de cicatrizes, e uma pá de mentiras e desculpas que não me pegam mais. Todo novo inicio prometo que vou começar leve, tentar deixar minha bagagem emocional bem longe da cama – e perto da geladeira onde ela pode esfriar. De fato o que a minha mãe anunciava há 15 anos é que a minha tolerância com meias entregas, meias verdades ia ficar comprometida. E ela estava certa. Ela irritantemente sempre está.

Eu tenho a paciência curta pra enrolação. Não me assusta a decepção de uma rejeição, ninguém é obrigado a gostar de mim. Eu respeito os pontos finais. São deles que surgirão novas linhas, novos personagens, novas historias. Por isso não me venha com reticências, ponto e vírgula, interrogações, frases incompletas, ausência de contexto. Faz história quem tá presente, do contrário é memória.

A esta altura na minha existência afetiva, concluí que se for pra estar por perto, eu não trabalho meia fase. Quero tesão, assistência, energia, retorno – não precisa ser namoro, casamento, relacionamento, eu escolho o discernimento. Basta ter coerência, consistência, coesão. Guarde suas 7 (e outras) desculpas, pois eu não vou esperar você decidir se vai me escolher para provar. Lembre-se que única coisa que fica boa com o tempo esperando ser escolhida da prateleira é vinho. E convenhamos, então antes só vinho, do que meio acompanhada.

Taça pra uma pessoa, por favor.


Fim da sessão.

Nota para as minhas amigas/leitoras: Vinho e fé♥, garotas. Meu sincero agradecimento pelas contribuições nesta sessão.

O pacto

 

Algumas histórias a gente não conta. Fica com medo de verbaliza-las porque uma vez materializadas, algo pode acontecer. A nossa história eu escondi debaixo de sete chaves. Tinha medo que se a soltasse ao vento ela iria embora pra nunca mais voltar.  Tinha medo que nos ouvidos dos outros ela se distorcesse. Tinha medo que se a contasse, ela seria apenas mais uma história. A nossa história eu queria que fosse só nossa, eu não queria dividir com mais ninguém. Até que um dia, tudo mudou.

Eu nem lembro direito como ela começou. Acho que foi quando chorava as pitangas de um desamor que havia despedaçado o meu coração, quando você, pela primeira vez fincou o pé de forma dura contra mim: “Pare de chorar por mané, Preta! Uma mina preza como tu choramingando por um cara que nunca te mereceu. Tu merece coisa melhor!”

Na época quis ficar com raiva de você pela verdade dura e crua. Mas como podia? Você era meu amigo há mais tempo do que eu lembrava, sempre por perto, sempre atencioso. E claro – confesso que me ganhava na discussão cada vez que me chamava de Preta, Pretinha, Morena, ou qualquer referencia a minha longa crina castanha. “Tu merece melhor!” – você repetia. Mas como você podia saber?

Pouco tempo depois, nos apertávamos no bar de sempre, tomando cerveja com outros amigos, ao som de um samba rock que você insistia não saber dançar. Logo você – cheio de malandragem e de uma malemolência ao andar que deixava qualquer amiga minha de perna bamba. Tá, eu também ficava um pouquinho de perna bamba, mas você era meu amigo, e eu não podia olhar você assim. Podia? Não, não podia. Então teimava em te apresentar para todas as garotas que eu conhecia, mesmo sabendo que nenhuma delas merecia mais do que um sorriso teu.

Nesta noite discutíamos tua lerdeza na paquera. Eu te acusava de tímido. Tu te proclamavas “seletivo”.  A discussão seguiu até o meu  desafio deveras infantil. Se a “seleção” era o empecilho, te desafiei a escolher e beijar a menina mais bonita do bar. Aquela que você desejasse mais. Qualquer menina que, na tua concepção, era digna da tua atenção.

Você passou os braços por debaixo dos meus bem devagar. Com um braço segurou a minha cintura, e com o outro orientou meu corpo pra perto do teu, segurando a minha nuca. Mirou profundamente meus olhos com tuas bolitas negras  (não como quem pede licença, mas como quem avisa “isso vai acontecer”), suspirou profundamente e me beijou a boca como eu nunca fui beijada. Eu perdi o fôlego. Perdi o chão embaixo dos meus pés. Perdi todos os sentidos na malícia da tua cor. Eu só queria que aquele momento durasse pra sempre.

Como que nesta vida, a palidez da minha existência tinha chamado a atenção da tua melanina?

Você então me contou que me mirou muito antes de eu perceber. “Desde o primeiro dia que te vi, naquele posto de gasolina do centro, de shortinhos e blusinha laranja, a caminho de Tramandaí” – isso tinha acontecido muitos anos antes da gente se conhecer, e virar amigos. “Você nunca notou porque estava ocupada namorando manés”. Ri sem graça tentando assimilar – “Então você não era só meu amigo? ” perguntei ainda tímida – “nunca quis só isso, Preta”, e entrelaçou os dedos nos meus cabelos, e com a boca calou todas as dúvidas dos meus lábios.

Não demorou muito pra eu perceber a diferença de gostar de você. A mudança do sentimento de amigo para um algo mais foi natural, gradual e deliciosa. Tu me deixavas livre e eu sempre voltava. Tu enrolavas os pés nos meus, e minha vida toda desenrolava em volta. Você trouxe a simplicidade para a minha complexidade. Reduziu minha ansiedade, calibrou minhas ambições. Do teu lado eu só queria sombra e água fresca, e qualquer outra necessidade parecia supérflua quando éramos nós dois. O teu “Calma, Morena” tinha o poder do mais forte ansiolítico e o frescor de um banho de água salgada.

E quando me acalmava, eu me perdia decorando as linhas das tuas tatuagens, como uma boa aluna estudando sua lição preferida. Aquele dragão. Ah, aquele dragão da tua cintura, que ficava com a metade escondida pra dentro da tua bermuda. Eu quis ser dragão desde pequenininha. Eu tinha pouquíssimo ou nenhum controle quando aquele dragão me encarava. Eu queria admitir que eu estava perdendo o controle de mim. Mas eu tinha medo de te dizer.

Com você não era diferente. Você dizia que eu te deixava nervoso, com uma queimação no estômago e com as mãos suando. Brincava que eu era algo como uma febre. Que a única solução era deixar queimar. Você que sempre foi bicho solto, surpreendentemente estava sempre por perto. Eu queria te dizer que eu sabia que te tirava do centro. Mas eu tinha medo de te dizer.

Quando a gente brigava, e por algum motivo eu tinha te magoado, amarrava flores no teu portão. Quando a gente brigava e por algum motivo você tinha me irritado, você se enfiava no meu pescoço, e beliscava meus braços dizendo “ai Pretinhaaaaa…” e eu logo caia na gargalhada. Não tinha como ficar braba com você. Eu quis muitas vezes. Principalmente quando te perguntava o que estava acontecendo entre a gente, procurando entender ou rotular aquilo que crescia dentro do meu peito. Você sorria um sorriso displicente e me dizia “sou teu pretinho e tu é minha preta”. Aquela indefinição me matava. Agora  quem queria mais era eu. Mas eu tinha medo de te dizer.

O problema é que, diferentemente de outros amores, você era bom demais para eu perder. E o medo que isso acontecesse me sufocava, me enlouquecia. Com raiva desta insegurança, eu te magoei. E lá, naquele momento, eu não sabia mais como voltar pro teu abraço. As flores no portão secaram. As minhas lágrimas não. Eu estava indo embora do país e não conseguia pedir desculpas e nem me despedir.

Você não discutia, não me xingava, apenas me oferecia o pior tratamento possível – o teu silencio. Dias antes de embarcar você me escreveu perguntando se eu já tinha ido embora. Respondi que ainda estava perto, mas de novo – morrendo de medo que você não quisesse me ver . Para a minha surpresa, você declarou em tom dolorido que precisava me ver. Quando voltei pro teu abraço, quis me explicar. Pedir desculpas. Você secou o meu rosto, me abraçou bem forte  e disse que nada daquilo importava.  Você só queria poder enrolar teus pés nos meus uma última vez antes de eu ir embora. Eu queria TANTO te dizer que eu te amava. Mas eu tinha medo de te dizer.

Quando voltei ao Brasil, anos depois, te encontrei no mesmo bar onde tudo começou. Eu quis resistir, com medo de cair de novo na tentação da tua malemolência. Eu não tive a chance! A tua cor era tudo que meus olhos cansados queriam enxergar. Teu cheiro tudo que eu queria sentir. E tua boca, tudo o que a minha queria de novo provar. Depois de tantos encontros, desencontros e reencontros eu já não tinha mais medo do que queria falar. Disse que era contigo que eu queria ficar. Sem pausas. Sem meias palavras e indefinições.

Você então me propôs um pacto.

Disse que no auge da minha sabedoria balzaquiana, eu sabia que a vida ainda ia jogar umas bolas curvas. E que se depois de toda a confusão passasse, se depois de tudo que eu vivesse e não encontrasse alguém melhor do que você, a gente se casaria. “Tu tá achando que eu vou casar com 40 anos??!” – vomitei raivosa. “Preta, se tu tiveres 40 anos, e ninguém for melhor que eu pra estar no teu lado, eu quero ficar velhinho contigo – numa casa na praia. Deixa toda essa pá de gente casar antes. Quando eles tiverem se separando, a gente vai estar na melhor fase”. Eu enfureci e te joguei tudo que alcancei no teu apartamento, e disse que não ia esperar PORRA nenhuma. Você segurou as minhas mãos, me olhou bem sério (como dificilmente fazia) com aquelas bolitas negras e disse “Eu prometo que nunca vou te enganar, Preta. Eu prometo que se até lá tu me escolher pra ser só teu, eu vou ser. Mas eu não quero ficar contigo agora, casar com 30, te magoar e me divorciar com 40. Eu quero ficar velhinho contigo. Te fazer sorrir.”

E na profundidade do teu olhar, eu entendi que o pacto era sincero.  Você tinha que voar solto. E eu sabia que toda a tua intensidade não podia ser contida. Não agora. Assim como eu sabia que você queria me poupar dos teus exageros, vícios, incertezas e confusões. Muito provavelmente você também soubesse que não conteria os meus. Mas eu queria me jogar no teu mar, mesmo de ressaca. Ainda que perigando me afogar ou ser derrubada por uma onda mais forte. Você me prometeu mares calmos e tranquilos, para refrescar minha pele, beijar meu corpo e aliviar minha cabeça. Numa fase de maré boa, daquelas abençoadas por Iemanjá, que rende frutos.

O pacto era justo, e eu não imaginava melhor plano do que passar os melhores anos da minha vida do lado do meu melhor amigo, do meu amor mais sincero que já tive – aquele que eu cuidava com mais zelo e precaução. Então eu apertei teu minguinho com o meu, e selei o pacto com um beijo misturado a um sorriso. Eu ia ficar velhinha contigo. E nada mais importava. Eu não tinha mais medo. Eu abri mão do medo pra pegar na tua.

Mas foi quando abri mão do medo de ter perder, que o medo me encontrou.

Era um domingo quente de verão. O telefone tocou com a terrível notícia de que você tinha partido. Acelerou rumo ao infinito, para um lugar onde eu não podia entrar. Eu perdi o fôlego. Perdi o chão embaixo dos meus pés. Perdi todos os sentidos na ausência da tua cor.

Minha cabeça rodopiou mil vezes pensando em todas as vezes que tive medo de te dizer algo, com medo de te perder. Eu gritei, eu espraguejei os céus. Eu tinha te perdido sem ter dito tanta coisa. E agora não havia mais tempo para nada. Chorava um pacto que nunca haveria de se cumprir.  Chorava pela falta da alegria que tu trazias a vida de quem tocavas. Chorava pela vida ceifada. Chorava – ainda que de forma egoísta – nunca mais poder deitar no teu peito, sentir o teu abraço e beijar teus lábios. Chorava porque você não iria nunca mais me fazer sorrir.

Jogada no chão do quarto, abraçando as antigas fotos, entendi por fim que tu foste do jeito como tu queria ser. Algo como um cometa na minha vida. Rápido, raro e tão cheio de luz. E foi embora me deixando pra sempre marcada com o teu senso de urgência, teu gosto pela vida, teu compromisso em ser sincero consigo e com os outros,  e de fazer o que se tem vontade. Eu prometi nunca mais ter medo de falar de amor.

Dias depois saí de casa pela primeira vez para encarar a vida lá fora, após ter vestido o que achei que era a melhor cara que encontrei. Parei para comprar uma água, no mesmo posto de gasolina que você me viu pela primeira vez. No meu primeiro contato visual com o mundo, um senhor de meia idade me pára, segurando-me pelos ombros:

 – “Por que tão triste, menina linda?”

Dei a versão resumida achando que ele ia desistir de me animar. Au contraire. Se parou na minha frente a falar como a vida era linda, de como eu era linda e de como tinha gente lá em cima querendo me ver sorrir.

E eu sorri. Pela 1ª vez em dias. Não de alegria, mas de gratidão, pois sei que Deus não desbanca anjos para a Terra à toa. E porque sei que tem gente lá em cima que sempre quis me ver sorrir. E essa parte do pacto eu sempre vou honrar.


Fim da sessão.


Nota sobre o disclamer: Termino essa sessão reforçando o que comecei dizendo lá no início, de que algumas histórias a gente não conta. Talvez porque são essas que a gente mais zela. Talvez porque são essas as histórias que a gente nunca gostaria de ver o fim.

Hoje precisei contar a nossa história, sendo ela a única deste divã que eu declaro como uma história verdadeira. Isso por sentir dentro do meu coração, que talvez tenha sido a única que realmente foi.


 

Saudade bandida

Elas pegaram as malas e partiram. Como eu  fiz um dia, elas foram conhecer o mundo lá fora. E eu fiquei.

Na antecipação da despedida, a gente – como boas amigas que somos – disfarçou. Fingiu que a distância nunca existiria. Fez de conta que não era adeus. Engoliu o choro, engasgou-se com os sentimentos, embebedou os últimos encontros, vestiu um sorriso torto pra esconder a dor eminente.

Mas todo grande amor tem um preço. Preço de saudade. Saudade bandida.

E quando você acha que estava encarando tudo numa boa e se distrai por um minuto, a dor da saudade bate na sua porta, bate no seu peito, bate e fica. O domingo fica com gosto amargo de coração partido. E aí, nem o mais confortante dos sofás consegue te abraçar. Você desiste e deixa as lágrimas rolarem.

E entende por fim que se separar de um amor é impreterivelmente separar-se de um pedaço de si mesmo.  Diga-se até, do melhor pedaço.

Você enxuga as lágrimas e pensa que esse choro é de egoísmo, “se ama, deixe seu amor livre”, mas como ser livre de querer perto um grande amor? “Você vai ficar bem!”, uns consolam. Vou sim, não tenho dúvidas, o problema é que junto de quem amo não fico bem, fico ótima.

Mas enfim, chega o temido dia em que cai a ficha que se renegou até aqui: com ou sem permissão, alguém pegou meu coração e resolveu exportar seus pedaços pelo mundo. Ok, eu aguento, se é preciso. Mas vou querer todos os pedaços de volta. Tenho dito