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Amores de verão

Lembro de amores de verão datando o mesmo tempo que lembro de ir para a praia. Eles acontecem como aquelas tempestades de final de tarde. Você nunca prevê quando e como elas chegam, mas sabem que elas são garantidas na temporada de férias, tal como praia cheia, milho caindo na areia e uma tostada do sol. Amores de verão estão no itinerário da estação e para eles não tem protetor – ardem e deixam marcas.

O meu primeiro amor de verão foi o Marquinhos. A gente tomava sorvete todo início de noite sob a supervisão da irmã mais velha dele. Na verdade, nós dois eramos a desculpa da irmã dele para dar um rolê, pois na maior parte do tempo em que eu tomava sorvete com o Marquinhos, a Carla, irmã mais velha dele, se amassava na praia com um garoto de tatuagem tribal no braço. A Carla voltava para o camping e me entregava para os meus pais, e depois ia para casa com o irmão mais novo dizendo que ele havia se comportado, disfarçando os lábios esfolados de tanto beijar. Eu adorava o Marquinhos e o sorvete. Mas não via a hora de queimar na mesma febre da Carla – os amores fervorosos da estação mais quente.

Todo verão, não importava a minha idade, eu me despedia de um amor de verão com juras de comprometimento eterno – de resguardar-me o ano todo. Prometia escrever e visitar. Poucos destes romances resistiam as águas de março. Ao longo dos meus amores de verão, eu fui aprendendo que eles não subiam a serra – não por uma questão de regra, mas muito mais por uma tendência. Era como se alguns calafrios pertencessem somente aquele período que a gente tira para curtir a vida. Alguns abraços só surgissem acima das dunas, e alguns beijos necessitassem da água do mar. Mas sua curta duração era proporcional a sua intensidade.

Tenho fraco por amores de verão, da mesma forma que tenho fraco pela vida que se leva na praia. Talvez porque as coisas sejam mais simples, e as decisões não tenham tantas ponderações. Tudo pode começar com um “fica comigo essa noite” ou “vamos ficar juntinhos” sem que isso soe como uma proposta indecente ou o primeiro passo para um relacionamento complicado. “Fica comigo” às vezes pode durar uma temporada. Ou tem a duração de um sol nascendo. O tempo não faz a regra aqui.

E para alguém que é um furacão como eu, que faz tudo demais, pensa demais, fala demais, analisa demais, é alívio encontrar situações que me fazem parar e esquecer do tempo. Encontrar pessoas que anulem o resto das mais de 7 bilhões de pessoas na Terra e alguns marcianos, nem que seja por alguns instantes. E os amores de verão são assim. São únicos, intensos e marcantes.

Penso que a culpa pode ser do mar. Uma influência do ambiente. Não tem nada que me desconserte mais que um banho de mar acompanhada. Não sei se é falta de roupa entre os corpos, ou se o cheiro do sal misturado com o suor. Me convidar para um banho de mar tem o mesmo frisson de um primeiro beijo. Uma adrenalina a cada onda. Acho que Iemanjá gosta de ver corpos entrelaçados, e por isso promove uma gostosa hidromassagem com o ritmo das marés para os casais recém-formados. Eu faço uma prece sincera por cada beijo salgado que já ganhei, dei ou roubei.

As vezes me pego pensando que a culpa também pode ser da areia. Um abraço a milanesa me parece ter o mesmo apelo que um bife da mesma modalidade – é uma camada a mais de gostosura. Dica: peça alguém para massagear seu pé sujo de areia –  a mão carinhosa unindo forças a milhares de grãos em uma esfoliação natural. Você vê estrelas mesmo com o sol a pico, eu prometo. E por falar em sol, não quero nem começar a falar sobre a minha percepção em relação a passar o protetor solar em curvas recém-descobertas. Pescoço, costas, aquela linha da cintura que termina no caminho da virilha, bermuda a dentro. Pedro Bial não ama tanto o filtro solar como eu, garanto.

Mas talvez o que mais me seduz nos amores de verão é a celebração da alegria do outro. Eu sou suspeita já que para mim não existe nada mais sedutor em alguém do que a sua felicidade. E férias promovem uma mudança no nosso status quo. Verão proporciona essa alegria, e assim as pessoas ficam mais bonitas, mais saborosas. Pessoas alegres são mais atraentes, não tem discussão.

Amores de verão são como aquele picolé do melhor sabor que congela o nosso cérebro, porque o tomamos muito rápido sabendo que ele pode derreter e se esvair.

Ora, mas pode ser que eu ainda esteja sob efeito do amor de verão ao ponto de super valorizá-lo. Eu ainda tenho os lábios esfolados de beijos na praia (a irmã do Marquinhos manjava dos paranauês), e a cabeça girando de tantas batidas que dei nas estrelas do céu na carona de um foguete chamado “preliminares de horário de verão” – que entregam sempre uma hora a mais. Quem sabe esse tipo de amor só exista mesmo na minha cabeça, que é apaixonada pela primeira estação do ano e tudo que ela traz.

Ou não, ou de fato estes amores sejam mesmo um fenômeno de verão, que vão e volta com as marés, mudam com o vento, ou chegam de repente como as tempestades tropicais. E se assim for, meu único desejo é deixar molhar mesmo. No mar, na chuva, ou no calor incomparável dos amores de verão.

Fim da sessão.

Meu primeiro amor

Nesta semana em que celebramos o dia da criança, me doeu ver a infância lá de casa ser ameaçada pelas decepções envolvidas com a dura arte de crescer. O Murilo foi encontrado às lágrimas pela minha mãe na volta da escola. O motivo era dos mais nobres: ele tivera o coração partido. Após o que foram longínquos 4 dias de um namoro “tórrido” (incluía dar as mãos em público) com uma garota de alcunha Sofia Andrade, o objeto de desejo do Murilo terminou a semana dando um beijo na bochecha de ninguém menos e ninguém mais do que o Mateus – o irmão do Murilo. A coisa toda teve um quê de novela mexicana para mim. Dois irmãos disputando o amor de uma garota, cujo nome é sempre pronunciado de forma completa e com tom solene. “Sofia Andrade. Sofia Andrade”. Já imaginei os dois duelando com espadas de massinha de modelar antes do jantar.

Eu quis xingar Sofia Andrade de nomes feios. Aliás, com todo respeito, e bem xinguei-a assim que soube da polêmica e do coração partido do Murilo. “Aquela puta!” – esbravejei. “Antônia!!!” – minha mãe gritou em choque com minha atitude desbocada – “Pelo amor de Deus, ela tem só 6 anos de idade. E de mais a mais foi o safado do teu irmão Mateus que ficou cortejando ela”. E foi ali que me dei conta. Eu estava culpando a Sofia Andrade de uma trama complexa que tinha muito mais a ver com a competitividade masculina, do que o puro amor de uma mulher/menina. E confesso, estava sendo pouco empática com o drama de Sofia Andrade – se eu estivesse sendo disputada por dois loiros, também estaria confusa, para dizer o mínimo. Pedi perdão em silencio a dama em questão, para que nem Murilo ou Mateus achassem que eu estava tomando partidos.

Mas confesso, fiquei muito mal. Pior que o Murilo, possivelmente.

Acho que o que realmente mexeu com o meu humor foi na verdade que o episódio do Murilo lembrou-me do meu primeiro amor, que obviamente foi seguido de uma tremenda decepção. O nome dele era William e nós tínhamos 8 anos. Ele tinha uma motinho e era a única criança motorizada do nosso camping, mas eu pouco dava bola para os luxos automobilísticos no auge dos meus 8 anos (ou tampouco depois deles). Entretanto eu me lembro com riqueza de detalhes de como eu me sentia quando ele me dava uma carona, e de como na garupa da motinho eu sentia o perfume dele no vento que ele cortava com velocidade. A gente tinha horário para se recolher, mas tinha tempo o suficiente para eu ver a lua cair na lagoa, iluminando os olhos dele nos luaus que promovíamos. Eu sempre sonhava com o William, e escrevi minhas primeiras histórias de amor em nome dele. Até ele provar ser um moleque, e começar a me provocar em todos os finais de semana dizendo que não voltaria mais no camping, para o desespero do meu coração apaixonado. 4 anos depois eu dei o meu primeiro beijo no William, e o segundo de toda a minha vida. Claro que ele se apaixonou por mim. Eu? Eu, agora queria rapazes mais velhos, para o desespero do coração apaixonado do William. O amor sabe ter um timing bizarro, não sabe?

Mas o episódio do Murilo resgatou uma saudade não do meu primeiro amor, mas do meu “eu” lá no primeiro amor. Quando eu tinha um coração novinho em folha, livre de ponderações. Fato é que nós somos, incontestavelmente, a soma das nossas relações passadas. E esse é o problema das decepções, as dores não são eternas, mas falhamos ao eternizar as decepções, carregando-as para as relações seguintes. Talvez não seja a Sofia Andrade que vai lidar com a fúria da primeira decepção do Murilo. Talvez seja a próxima garota com outro nome pomposo, que ele vai decepcionar antes de se ver decepcionado. “Eu nunca mais vou falar com a Sofia Andrade, maaaaanhhhhêêê” – O Murilo berra em meios às lágrimas, enquanto escrevo este texto. O Mateus dá risada. A Sofia Andrade, mesmo sem querer, fez a primeira contribuição para o Murilo ser um filho-da-mãe com as mulheres ( ou ao menos deu-lhe uma desculpa conveniente, da mesma forma como os caras problemáticos que cruzaram a minha vida todos culparam uma Sofia Andrade). Talvez o Murilo deixe de ser o último romântico e vire o próximo cafajeste mesmo. O Mateus, bem, esse parece que já nasceu com talento para ser safado, talento bem disfarçado nos cachos de anjo.

Sendo o primeiro ou último amor, sempre que me pego analisando um relacionamento ou mesmo fim dele, não consigo deixar de avaliar o contexto. E se eu não tivesse sido magoada tantas vezes, será que teria sido mais tolerante? Se eu nunca tivesse sido enganada, eu confiaria mais? Se eu não tivesse visto o divórcio dos meus pais virar um drama, temeria o casamento? Será que me acalmaria mais fácil se não tivesse vivido a inquietude e fascínio de encarar o mundo de forma mais independente? Onde enfio as minhas teorias, decepções, rancores, e preocupações para então, dar espaço a um amor? Um novo amor. Um primeiro amor de novo.

Eu tive saudade do meu idealismo, vendo as lágrimas do meu irmão, velando o fim de seu primeiro romance. E acho que fiquei mal por nós dois. Por saber que ele ainda vai passar por muitas destas. E por lembrar que eu mesma já carrego essa bagagem emocional muito mais do que gostaria. A diferença entre nós dois, é que eu tenho a experiência que o Murilo desejaria ter. E ele, bem, ele tem a inocência de um coração serelepe que se entrega sem medo. Eu queria chorar mais por amor. Sofrer mais, e esperar mais dele. Eu morro de medo de ficar apática, uma vez que sofro cada vez menos quando tudo se acaba numa relação. E torço pelo dia em que uma pessoa vai chegar e vai me fazer sentir o mesmo frenesi que o Murilo sentiu com a Sofia Andrade. E eu vou agradecer, por nunca ter dado certo com nenhuma outra pessoa.


Fim da sessão

ps: Garotos, numa pauta um pouco mais feminista, se cuidem. Sempre que vocês acharem que são malandros, vai ter uma Sofia Andrade ditando as regras. E pensando bem, elas é que estão certas.

Bônus: Do tempo que Macaulay Culkin ainda era fofo.

Papa-Gringo

“Garota, você ia pirar na Vila Olímpica”.

Essa foi a mensagem de uma amiga direto do Rio. No meio de um grupo de whatsapp de 17 mulheres, foi para mim direcionado o foco dos romances intercontinentais.  “Papa-gringo”, algumas amigas  me chamam tirando sarro, devido ao meu interesse pelos espécimes que vem de fora. Não que ele seja exclusivo para os artigos importados. Eu amo o produto nacional. O que me faz colecionar bandeiras é primordialmente o meu tesão por falar inglês… o resto, bem, o resto é consequência.

O meu primeiro flerte cross-ocean foi um australiano. O pai dele tinha um parque para o cuidado e procriação de tubarões, e foi aí que ele me ganhou. Na minha cabeça jovial ele era selvagem e exótico como eu nunca tinha visto nada na vida. Isso claro, e o cabelo louro-dourado, olhos cor de mar, e físico de quem surfa desde que aprendeu a andar. Ele passava as férias na Praia do Rosa, enquanto eu passava os minutos planejando a nossa casa em Fresh Water, de frente pro mar. O romance durou 2 dias, mas perdurou por anos no meu imaginário.

O primeiro relacionamento intercontinental sério que tive foi com um tailandês de família chinesa. Eu morava em Londres há poucos meses, e tropecei nos olhos puxadinhos do Brett sem pensar duas vezes. Ainda que o namoro tivesse engatado rápido, o sexo era outra história. Depois de diversos amassos entre a gente, e nada dele tomar a iniciativa, eu perguntei se ele tinha algum impasse comigo. “Respeito”, ele disse. E me lembro de ter ficado em choque. Enquanto eu estava ouriçada como um animal no cio, o meu namorado estava puramente respeitando o meu tempo. Óbvio que “o meu tempo” levou só até o fim daquela conversa. Mas aí eu não culpo a minha brasilidade por isso.

Nesta mistura de culturas entre Brasil e Ásia, alguns pontos me chamaram a atenção. O fato de o meu namorado ter um irmão gêmeo, (e sendo isso na Ásia uma benção divina), fez com que os rapazes tivessem sido criados sempre juntos, e por isso nunca se desgrudavam (tipo, NUNCA). Por vezes eu tive a sensação bizarra de que estava num relacionamento com os dois. Outra situação inusitada foi em nossa viagem a Tailândia, em que fomos notícia em um site de fofocas – porque 1) o Brett, que tinha sido VJ na MTV por anos, estava de volta a Bangkok depois de muito tempo, e 2) porque ele trazia uma namorada “fora de padrão”, segundo o que contava o site.  Óbvio que minhas curvas não cabiam dentro da expectativa tailandesa, só não imaginava iriam torna-se notícia.

Mas as estranhezas não pararam ali. Ainda que o Brett e eu estivéssemos namorando há mais de um ano, na casa da minha sogra, tivemos que dormir em quartos separados. E claro, a mais bizarra experiência desta viagem, é que eu não pude participar de um almoço da família do Brett, em virtude do avô dele, o patrocinador de seus estudos em Londres e patriarca extremamente conservador, sentir-se-ia ofendido com a minha presença. Afinal, o Brett estava em Londres para estudar, e não para arrumar uma namorada brasileira. (Soube que este ano o velho teve que engolir a esposa Venezuelana com quem o Brett casou-se numa ilha tailandesa).  O Brett e eu terminamos numa boa, ainda que ele nunca mais tenha falado comigo, ou respondido minhas mensagens de despedida ou parabenização pelo casamento. Ele tinha promovido o mesmo isolamento com outra ex- namorada enquanto namorávamos, e entendi que aquele era o comportamento padrão de término dele (ou da cultura dele).

Tempos depois do Brett, acabei conhecendo um britânico e ele me chamou para sair. Durante a nossa conversa sobre diferenças culturais, o inglês comentou como nós brasileiros gostávamos de tocar nas pessoas enquanto falávamos. Propus então um desafio, que nós contássemos quantas vezes eu encostaria nele, e quantas vezes ele encostaria em mim durante o nosso “date”. 2 horas e muitos drinks se passaram e eu encostei 78 vezes nele. Ele? Duas. Uma na chegada, e outra na despedida. E juro que desde então, controlo sempre as minhas mãos quando conheço alguém – brasileiro ou não.

E assim eu segui, entre trancos e barrancos, me relacionando com bandeiras globais, sem muita comoção, até o meu primeiro e grande amor platônico por um galês. Bem, basta dizer que por ele, eu aprendi a falar “bom dia, boa tarde e boa noite” no idioma do País de Gales, que é campeão internacional de uso de consoantes impronunciáveis.

Durante os meus 2 meses de mochila nas costas pela Europa, um flerte aqui, e um lance ali, fui aprendendo e aproveitando a solteirice em outras línguas. Por conta destas aventuras, comecei a ponderar alguns comportamentos, e registrar todos as minhas efemérides em outro blog que guardei a sete chaves. Visito o blog até hoje sempre me dá saudade dos amores que deixei em cada porto, como a marinheira que sempre sonhei ser. Colecionando bandeiras e suspiros, com o tesão de quem descobre o mundo também na saliva e carinho do outro.

De volta ao Brasil, lembro com saudade da Copa do Mundo, aliás, a “copa da pegação” como a apelidaram aqui nos confins do Brasil. Recordo que escrevi o meu primeiro texto viral, muito antes de ter o Antônia no Divã, falando sobre as delícias de ter o mundo no nosso quintal. Ora, é claro que a minha amiga ia lembrar-se de mim na Vila Olímpica.

Recentemente, coletei minha primeira bandeira germânica, aqui, na minha própria cidade, e confesso que me vi atrapalhada. Eu, brasileira explosiva, passional até o último fio de cabelo, num romance temporário intercontinental de chacoalhar a minha desordem.

O alemão tinha pouco ou nenhum interesse pelos meus faniquitos – o que para uma aquariana egocêntrica é o mais azedos dos remédios. Corrigia-me sem nenhum constrangimento. Prestava atenção em tudo que eu falava (e eu falo pra car@$#*) como quem observa um experimento acontecer, e toma notas mentais. Ligava no final de cada dia para contar do trabalho e fazer planos. E ao fim de de duas semanas, ele já sabia o que cada uma das minhas expressões queria dizer, ainda que me forçasse a falar toda vez que eu fazia beiço – “eu posso até entender inglês, ou mesmo aprender português, Antônia, mas ainda não leio a sua mente. Melhor falar o que está te aborrecendo”. Como fazer drama com alguém que veio do país que praticamente inventou a engenharia de precisão?

Que saudade que eu estava deste choque de culturas.

Dentre amores e desamores, alguns aprendizados ficaram com este meu coração viajante: 1) Eu gosto de romances intercontinentais pela riqueza da troca cultural. É isso que me seduz. Então “Papa-gringo” ou não, eu já assumi que eu amo conhecer o mundo com todas as suas ferramentas. 2) Ainda que fã dos romances intercontinentais, eu não fui feita para relacionamentos à distância. E por último, mas não menos importante: 3) Mesmo que tudo comece pela vontade de falar inglês… gozar é sempre em português. O meu orgasmo não tem tradução. 🙂


Fim da sessão.

Session end.

Pen y sesiwn.

Sitzungsende.

ปลายเซสชั่น

10 coisas que eu odeio em você

A primeira vez que vi o filme “10 Coisas Que Eu Odeio Em Você”, dei-me conta de que o longa-metragem não era apenas a versão hollywoodiana da obra de Shakespeare de “A Megera Domada”. A obra era também muito de como eu via a minha própria vida fora das telas. Kat, uma das protagonistas, é aquela rebelde bacanona que todo mundo quer ser, com senso de humor sarcástico, eloquência felina e um desinteresse pelo óbvio. Eu me vi nela no primeiro ato/cena. Assim como ela, me enxergava como uma garota com gosto pela escrita, com uma confiança que às vezes era confundida com arrogância, pouquíssima paciência para papo furado, e um coração molenga disfarçado por trás de um nariz empinado. (E minha mestria em dramas shakespearianos, claro!).

Além da semelhança na atitude, Kat e eu dividíamos um fraco por caras marrentos com incontestável talento para a malandragem. Mesmo que contando com certo senso crítico para quase tudo, eu, como Kat, sempre escorreguei na marra alheia, como quem se esborracha numa casca de banana. Mas com o tempo e alguma experiência, aprendi que não era qualquer malandro que me pegava ou qualquer mentira que me enrolava. Bom, isso era o que eu pensava até você chegar.

Não era um Heath Ledger em seus coturnos juvenis, mas arrancava alguns suspiros de menina por onde passava. Eu prometi que não ia me dobrar aos teus discursos de promessas fáceis e teu charme irritantemente irresistível. E quando achei que alguma parte de mim já tinha azedado para o romance, me surpreendi ao ver a megera aqui domada muito mais fácil do que previ. Bastou um saco de pinhão (coisa do sul), meia dúzia de chamegos e algumas manhãs divididas. Pronto! E há quem diga que eu sou difícil de me apegar.

Entre suspiros e pirraças eu me aventurei por onde tinha prometido não ir tão cedo. Acostumei-me com tua presença e provei teu gosto incontáveis vezes, até preferir você à sorvete. E eu adoro sorvete. Escrevi-te mil versos, entre borboletas, banhos, roncos e todas as recaídas entre o “dar certo” e os nossos finais. Guardei tuas e minhas mentiras junto das lágrimas que prometi não derramar na frente de ninguém. Evitei teus caminhos buscando proteção, mas como evitar o algoritmo da vida sempre tão randômico? E foi voltando a te encarar, que assim como a megera Kat do filme, eu fiz a minha lista. A lista das 10 coisas que eu odeio em você.

Eu odeio o jeito como você me deixa vulnerável, caindo por terra toda essa persona confiante que eu demorei meses para construir. Que para você um simples toque no braço, não significa o tremelicar de um corpo inteiro. Que olhares não instiguem pequenas erupções dentro do peito, remexendo em tudo o que já foi, e o que eu não quero mais que seja. É difícil acalmar um vulcão.

Odeio esse teu jeito relaxado de quem está com a vida ganha, de quem sempre dorme bem à noite e de quem não nutre nenhuma paranoia. Eu pareço louca perto de você, sim, porque eu tinha todo um plano pra ficar de boa na tua presença, mas eu não vim com o kit “be cool” de fábrica. Você sim veio com o kit, o teu e o meu provavelmente, porque tenho impressão que cada passo seu tem a leveza de um passeio no parque, enquanto eu sou perita em pisar em ovos.

Odeio que você desafia cada um dos meus argumentos, e me questiona com a precisão de um investigador de sobrenome Holmes. Não se intimida por mais que eu fale grosso, use as minhas doses cavalares de veneno ou desista de tudo e faça beiço. Você segue com seu discurso que tem tudo que eu quero ouvir, e nada do que devia querer lembrar. Minha fala fica completamente limitada, e minhas justificativas são tão profundas quando o balbuciar de um bebê. Nessas horas me pergunto onde fica o meu lado escritora para te reescrever mudo, me ouvindo tendo razão sem você contestar?

Odeio como teu cheio é sempre bom e fica grudado em mim ao menor contato com a minha pele. Fico com raiva do meu perfume que, como eu, se rende facilmente à tua intervenção. Parece que nada que é meu é pareô para o que tu trazes pra mesa. E eu odeio perder. Meu orgulho fica muito magoado.

Odeio a tua intimidade comigo, servindo o meu copo, cutucando a minha cintura ou falando da minha vida como quem já me sacou inteirinha. Eu tenho raiva de como você conhece (ou acha que conhece) o meu enredo. Mas pior ainda, eu odeio a forma como eu fico previsível perto de ti, ainda que tenha ensaiado sacadas diferentes e novos passos para usar nesse nosso tango argentino.

Odeio quando tu olhas nos meus olhos com a petulância de quem entra na minha cabeça sem pedir licença. Eu te evito, encaro os teus pés e conto as voltas dos teus cadarços, as pontas duplas do meu cabelo, ou finjo brincar com o copo de cerveja para não ter que te encarar. Não sei o que pode acontecer se eu te encarar, e nem quero saber. Onde se toma vacina pra essa porra que você me causa?

Odeio tuas conversas fáceis, promessas rasas e alegações duvidosas. E de como tu enfeita a tua fala com doçuras de um passado que eu levei meses para sufocar.  Odeio como eu queria acreditar na tua história, como quem acredita na fada do dente ou no monstro do lago Ness. Odeio como tu te ofendes que eu não acredito em ti, ainda que nenhuma das tuas atitudes combine com as firulas que caem da tua boa.

Odeio a tua boca. Na verdade odeio o conjunto dos teus olhos com a tua boca. Especialmente quando sorriem. Eles formam aquele pacote de sorriso + olhos fechadinhos que eu odeio tanto quanto amo. Mas na tua cara eu odeio. Parece que eles compactuam um complô, isso sim. Um convite como quem diz, “entre neste universo, você vai se ferrar, mas pelo menos o convite é lindo”. Lindo tanto quanto o gelo que eu ei de levar dias depois, quando você mudar de ideia mais uma vez, e cansar de sorrir para mim. Ei garoto, nem comece, você está proibido de sorrir pra mim, ouviu?

Odeio que tu nega que foram falsas promessas, e que a gente deveria se ver mais, conversar mais, enquanto tudo que eu penso é menos, menos deste teu sorriso, das promessas, menos de você. Menos de nós dois, a gente é tão passado neste presente. E ainda assim, cá estou, escrevendo meus versos mais uma vez, para quem eu duvido ter guardado uma sílaba minha. Que dirá um verbo conjugado no futuro com sujeito no plural. Quem sabe você seja apenas estímulo mesmo, tipo uma entidade da mitologia grega, que tem como única intenção inspirar (versos, sentimentos, paranoias, confusões). Talvez você tenha sido/seja o meu “Erato“, ao invés de amor. E fui eu, a artista, que confundiu tudo.

Eu sei que essa história nunca vai acabar com você cantando “Can’t Take My Eyes Off You” na frente de todo mundo, enquanto eu fico corada e assumo que sou tímida. Sei que tu não é do tipo de malandro que se redime (aliás, não se fazem mais malandros como antigamente). Mas algo entre nós acaba como no filme. Essa nossa história termina do mesmo jeito que o poema de redenção da megera domada.

O que eu mais odeio em você, entre todas as coisas e sem sombra de dúvidas, é o fato de não conseguir te odiar. 

Quanto a isso, eu não te perdoo.


Fim da sessão

Coisa de Antônia: A gente namora, mas você não sabe

No ATL Girls da Rede Atlântida o Coisa de Antônia (de Maria, de Carolina, de Tatiana, Larissa, Gabriela…) desta semana trata da habilidade feminina de criar romances… ainda que sozinha.

E você, já imaginou um amor todo seu? Pula pra lá, sua desvairadinha, e conta pra nós:

A gente namora, mas você não sabe