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Socorro: tem alguém dormindo na minha cama

Dividir a cama com alguém, sempre foi tabu pra mim. Ok deixe-me reformular esta frase. Dividir a cama para dormir com alguém, sempre foi tabu pra mim. Eu não tenho tantos problemas em dividir a cama para ficar acordada (ui, adoro!). Mas perceba que sexo – por vezes – pode ser pura e simplesmente um ato de prazer. Dormir junto, no entanto, é um ato de intimidade. E é aí que eu me atrapalho.

Eu simplesmente odeio dividir a cama. Pergunte as minhas amigas sobre nossos inúmeros verões na praia. Eu sou a primeira a me atirar num colchão no chão, contanto que não tenha que dividi-lo com ninguém. Note, eu me mexo pra caralho, fico horas futricando no celular antes de dormir, sou fumante e sensível ao cheiro (que sei que não agrada ninguém) e ronco. Jesus amado, como ronco. Botaram uma britadeira no lugar do meu sistema respiratório, só pode. Além disso, acordar perto de mim é uma atividade de alto risco. Sou daquelas que acha que deveria ser ilegal conversar com as pessoas antes do primeiro café.

Sendo assim, e considerando os meus anos de solteira, confesso que já virei muita noite em claro, pela simples inabilidade de relaxar e adormecer do lado de alguém.

Acontece que há algumas semanas, socorro, tem alguém dormindo na minha cama. Ok, pretensão a minha dizer isso. Mais sinceramente, tem alguém dormindo na cama dele. Ou não dormindo, no caso. Eu. Nas primeiras noites, o desconforto bem conhecido. A busca eterna por uma posição de conforto, horas encarando o teto, o malabarismo a lá Cirque Du Solei para tirar um cotovelo enorme de cima da minha teta e a tentativa ridícula de parecer linda ao acordar. Que gastura!

Mas lá fui eu, tentar entender a mágica da tal da conchinha, tendo quase certeza que sou mesmo é um ouriço de pijama. Eu não sei onde enfiar meus braços. Fico desconfortável pra ir ao banheiro /tomar água/ir no banheiro de novo. Tenho medo que meus cabelos sufoquem meu companheiro de travesseiro. E sofro com nossos fusos incompatíveis.

Dormir acompanhado é muito cansativo pra mim. Até a bela noite em que eu – exausta – relaxei e dormi por algumas horas, apenas para despertar no meio de um peido, furtivo e sonoro, que me acordou num susto. Eu quis morrer. Espiei com um olho aberto e outro fechado por trás do meu travesseiro se a outra parte da cama reconheceria a intimidade inadequada do meu intestino grosso. Nada – ou dormia solenemente, ou me fez a cortesia de ignorar a minha vergonhosa sonoridade. Como se o ambiente não fosse turbulento sem a minha flatulência… Enfiei a cara no travesseiro e fingi dormir até o outro dia. O peido só podia ser o meu castigo por adormecer.

Acontece, no entanto, que a privação de sono também pode enlouquecer (e ninguém aqui precisa ficar mais louca né). Depois de uma semana inteira tentando controlar o incontrolável, eu cedi à trama intricada de dois pares de pernas disputando harmoniosamente o mesmo edredom. Eu continuei com a minha rotina maluca, e indisciplinada de nunca ter hora pra dormir, mas aprendi a me deitar mais cedo pelo genuíno prazer de me aquecer ao toque da pele de alguém que me abraça com carinho. Na contrapartida, ele – que é de rotina matinal pré-cantar-do-galo – passou a vestir-se no escuro para não me acordar e a me enrolar como um temaki no edredom sempre que não podia me entregar mais “cinco minutinhos” de carinho por conta do trabalho.

Eu larguei o cigarro (ainda que em análise) e passei a celebrar beijos matutinos antes de escovar os dentes – realidade que eu achava que existia somente nos filmes. Abri mão de tentar ficar bonita ao acordar, porque ele tem mania de tirar fotos minhas dormindo e manda-las no meio da manhã, com a legenda “linda” logo abaixo – e por Jeová, como não ficar feliz quando alguém enxerga beleza no meio de uma macega de cabelos embaraçados e remelas? Gosto quando preciso de um espaço e ele negocia “um pezinho pelo menos” que eu tenho que deixar a disposição para que ele se encoste. Ou de como entende que por vezes eu preciso testar o outro lado da cama, porque ainda não entendo muito bem essa coisa de “lado da cama”.

Adoro buscar a luz dos olhos dele antes de sair catando a luz da tela do celular. Ou de como eu me sinto uma idiota sorrindo ao vê-lo dormir, ainda que com o maldito cotovelo em cima da minha teta – mas perto o suficiente para que eu possa sentir o cheiro da sua respiração. Eu que me condenava uma rebelde da conchinha, entendi que nos lençóis certos vale a pena pegar num sono. E cultivar sonhos de horas mais longas na cama – fazendo não muito mais do que dormir agarrado, feito um coala.

Por falar em coala, aqui na Austrália já é hora de dormir. Que felicidade.


Fim da sessão.
ps: tenho certeza que ele ouviu o meu peido

Grelo Azul – a sina de um tesão não atendido

Eu juro que fiquei temerosa quando senti pela primeira vez. Segurei o segredo comigo, e jurei que tinha alguma coisa errada lá em baixo. Eu já havia ouvido falar sobre as tais “bolas azuis” ou “roxas”, condição descrita pelos rapazes quando ficavam muito excitados e por algum motivo repreendiam a “descarga elétrica”. Mas eu era uma garota, não tinha pinto, ou tampouco bolas, e por isso fiquei preocupada quando pela primeira vez o tesão me deixou na mão e uma dor latente bateu na porta do meu prazer. Tum-tum-tum ecoou na minha vagina.

A primeira atitude foi procurar um médico, claro. Expliquei a minha condição e a ginecologista deu de ombros. Disse que não havia muita incidência do que eu havia descrito, e depois de me examinar alegou que eu estava saudável, e que não havia nada de errado lá em baixo. Ou dentro. Ou em qualquer área envolvida com a minha libido. Não satisfeita, fui pesquisar a minha conjuntura na internet. Encontrei uma ampla bibliografia sobre a condição masculina – é claro – em que as famosas “bolas azuis” eram descritas por entendidos como o “represamento” do líquido seminal dentro da próstata, das vesículas seminais e também dos testículos.  Nada fazia referência à natureza feminina deste “represamento”. Por dias me peguei pensando se haviam bolas azuis dentro de mim.

Fui mais afundo na minha inquisição – eu não conseguia aceitar a ideia de seguir com aquela inquietação – nas calcinhas e na cabeça. Medicina ou bibliografia nenhuma podia ser fonte mais segura do que os bons e velhos grupos de Whatsapp dazamigas. E foi lá, na intimidade de grupos só de meninas, que para a minha surpresa, eu descobri que não era a única que sofria da condição que batizei de “grelo azul”. A minha pesquisa levou-me de encontro a mulheres de todas as idades – cuja excitação não “atendida”, resultava em uma dor latente que podia ser tanto no interior da barriga (abaixo do umbigo), como também uma pressão, quase uma dormência, sobre os grandes lábios.

Ouvi as vítimas desta aflição temporária de forma atenta e curiosa. Fiquei feliz por encontrar outras que como eu, sofriam da mesma forma com o rala-e-rola interrompido. O meu grelo-azul não estava mais sozinho. E na falta de bibliografia mais científica, eu decidi compor uma ideia mais poética do saudosismo deixado por uma excitação que partiu.

Dor de tesão ou “grelo azul” é a presença da ausência. Ausência das delicias que foram insinuadas pelo restante do corpo, quando abruptamente o prazer mudou de rumo.  É o aquecimento fulminante encerrado por um balde de gelo, quando o corpo não teve oportunidade/tempo de esfriar naturalmente. É a indignação de um clitóris. O estresse de uma periquita. O injuriar de uma pepeca. O lamento de uma lubrificação perdida. O reclamar em alto e em bom tom dos grandes lábios. É o latejar físico da desesperança. A fome insaciada. O desejo agonizando.  A ânsia, a agonia e angústia de ver a chance de um orgasmo dizer adeus, ou pelo menos “até breve”. É o aprisionamento da vontade. E dói. Dói de verdade.

O grelo azul não é lenda urbana. E tão pouco uma invenção das moderninhas. Muito menos uma condição digna apenas das “safadas”. Não importa se a interrupção do tesão foi porque não havia tempo, ou por conta de uma intervenção externa, ou ainda se no caso mais comum, porque faltou estrutura para entrar em campo – o famoso “eu não tenho camisinha”.  Às vezes a dor surge de uma conversa acalorada ao pé do ouvido, um nude sacaninha no celular ou aparece na lembrança de um tesão que mora longe. O grelo azul existe, e sofre junto com a gente.

Durante este pequeno estudo que fiz – sem compromisso com amostragem, e que tem margem de erro de duas pepecas para mais ou para menos – eu me convenci que não existe necessidade de comprovação científica para justificar a nossa inquietação (até porque pouco estudo se dedica ao libido feminino – para muitos o nosso orgasmo ainda é um mito). Entretanto esse represamento de alegria de fato lateja em muitas de nós mulheres, para ser considerado uma condição exclusivamente masculina. Mesmo porque se o tesão é compartilhado, a consequência de sua falta também, não faz sentido? Até o dia – é claro – em que a excitação represa para aventuras mais promissoras. E acha seu rumo nas descargas mais genuínas.

Não tem antídoto mais gostoso para essa dor do que o prazer atendido. E aí minha gente, não tem grelo azul que não fique colorido. Aí é a vida que fica mesmo TUDO AZUL.


Fim da sessão.

Amores de verão

Lembro de amores de verão datando o mesmo tempo que lembro de ir para a praia. Eles acontecem como aquelas tempestades de final de tarde. Você nunca prevê quando e como elas chegam, mas sabem que elas são garantidas na temporada de férias, tal como praia cheia, milho caindo na areia e uma tostada do sol. Amores de verão estão no itinerário da estação e para eles não tem protetor – ardem e deixam marcas.

O meu primeiro amor de verão foi o Marquinhos. A gente tomava sorvete todo início de noite sob a supervisão da irmã mais velha dele. Na verdade, nós dois eramos a desculpa da irmã dele para dar um rolê, pois na maior parte do tempo em que eu tomava sorvete com o Marquinhos, a Carla, irmã mais velha dele, se amassava na praia com um garoto de tatuagem tribal no braço. A Carla voltava para o camping e me entregava para os meus pais, e depois ia para casa com o irmão mais novo dizendo que ele havia se comportado, disfarçando os lábios esfolados de tanto beijar. Eu adorava o Marquinhos e o sorvete. Mas não via a hora de queimar na mesma febre da Carla – os amores fervorosos da estação mais quente.

Todo verão, não importava a minha idade, eu me despedia de um amor de verão com juras de comprometimento eterno – de resguardar-me o ano todo. Prometia escrever e visitar. Poucos destes romances resistiam as águas de março. Ao longo dos meus amores de verão, eu fui aprendendo que eles não subiam a serra – não por uma questão de regra, mas muito mais por uma tendência. Era como se alguns calafrios pertencessem somente aquele período que a gente tira para curtir a vida. Alguns abraços só surgissem acima das dunas, e alguns beijos necessitassem da água do mar. Mas sua curta duração era proporcional a sua intensidade.

Tenho fraco por amores de verão, da mesma forma que tenho fraco pela vida que se leva na praia. Talvez porque as coisas sejam mais simples, e as decisões não tenham tantas ponderações. Tudo pode começar com um “fica comigo essa noite” ou “vamos ficar juntinhos” sem que isso soe como uma proposta indecente ou o primeiro passo para um relacionamento complicado. “Fica comigo” às vezes pode durar uma temporada. Ou tem a duração de um sol nascendo. O tempo não faz a regra aqui.

E para alguém que é um furacão como eu, que faz tudo demais, pensa demais, fala demais, analisa demais, é alívio encontrar situações que me fazem parar e esquecer do tempo. Encontrar pessoas que anulem o resto das mais de 7 bilhões de pessoas na Terra e alguns marcianos, nem que seja por alguns instantes. E os amores de verão são assim. São únicos, intensos e marcantes.

Penso que a culpa pode ser do mar. Uma influência do ambiente. Não tem nada que me desconserte mais que um banho de mar acompanhada. Não sei se é falta de roupa entre os corpos, ou se o cheiro do sal misturado com o suor. Me convidar para um banho de mar tem o mesmo frisson de um primeiro beijo. Uma adrenalina a cada onda. Acho que Iemanjá gosta de ver corpos entrelaçados, e por isso promove uma gostosa hidromassagem com o ritmo das marés para os casais recém-formados. Eu faço uma prece sincera por cada beijo salgado que já ganhei, dei ou roubei.

As vezes me pego pensando que a culpa também pode ser da areia. Um abraço a milanesa me parece ter o mesmo apelo que um bife da mesma modalidade – é uma camada a mais de gostosura. Dica: peça alguém para massagear seu pé sujo de areia –  a mão carinhosa unindo forças a milhares de grãos em uma esfoliação natural. Você vê estrelas mesmo com o sol a pico, eu prometo. E por falar em sol, não quero nem começar a falar sobre a minha percepção em relação a passar o protetor solar em curvas recém-descobertas. Pescoço, costas, aquela linha da cintura que termina no caminho da virilha, bermuda a dentro. Pedro Bial não ama tanto o filtro solar como eu, garanto.

Mas talvez o que mais me seduz nos amores de verão é a celebração da alegria do outro. Eu sou suspeita já que para mim não existe nada mais sedutor em alguém do que a sua felicidade. E férias promovem uma mudança no nosso status quo. Verão proporciona essa alegria, e assim as pessoas ficam mais bonitas, mais saborosas. Pessoas alegres são mais atraentes, não tem discussão.

Amores de verão são como aquele picolé do melhor sabor que congela o nosso cérebro, porque o tomamos muito rápido sabendo que ele pode derreter e se esvair.

Ora, mas pode ser que eu ainda esteja sob efeito do amor de verão ao ponto de super valorizá-lo. Eu ainda tenho os lábios esfolados de beijos na praia (a irmã do Marquinhos manjava dos paranauês), e a cabeça girando de tantas batidas que dei nas estrelas do céu na carona de um foguete chamado “preliminares de horário de verão” – que entregam sempre uma hora a mais. Quem sabe esse tipo de amor só exista mesmo na minha cabeça, que é apaixonada pela primeira estação do ano e tudo que ela traz.

Ou não, ou de fato estes amores sejam mesmo um fenômeno de verão, que vão e volta com as marés, mudam com o vento, ou chegam de repente como as tempestades tropicais. E se assim for, meu único desejo é deixar molhar mesmo. No mar, na chuva, ou no calor incomparável dos amores de verão.

Fim da sessão.

Ahhh novinho…

Eu sempre gostei de caras mais velhos que eu. Sempre. Desde a adolescência, e para o desespero dos meus pais, os rapazes com mais idade sempre atraíram a minha atenção. Eu ouvi dizer que as mulheres amadurecem mais cedo, e eu usava essa teoria para justificar minha admiração pelos anos a mais que meus affaires detinham. E foi assim, por um bom tempo.

Eis que como tudo na vida se transforma, estou numa fase engraçada quanto a relacionamentos e faixas etárias. Perceba que os caras da minha idade – 30 e poucos, ainda buscam mulheres mais novas – 20 e poucos. E os caras de 20 e poucos, bem, esses também, quase que na maioria, não procuram parceiras muito longe da sua geração. É como se em uma reunião dançante (sim, eu sou dessa época), todo mundo fosse escolhido para dançar, e eu aquela que ficou com a vassoura.

Ok, essa não é nenhuma ciência exata, quanto menos uma teoria metodologicamente fundamentada. É muito mais um ibope segundo Antônia, sem nenhuma preocupação com exatidão dos fatos, e quantificado pela minha experiência pessoal, que outras mulheres podem ou não se identificar. E talvez isso não tenha nada a ver com a idade, mas sim com afinidade. Ainda assim, o fenômeno me inquieta. O que aconteceu com o mercado das balzaquianas?

Analisando o conjunto da obra, às vezes tenho impressão que a culpa é do marketing que gira em torno da minha geração. Sou do grupo de mulheres que são julgadas como “as mulheres que querem casar”, e assim parece que fomos tomadas por algum tipo de doença cujo sintoma principal é a urgência sangrenta em carregar pobres almas para o altar. The Walking Dead to get Married. Ah, ainda tem quem diga que as mulheres de trinta têm o fantasma do útero-bomba-relógio fazendo tic-tac ditando regra para as nossas vidas e escolhas. Agora vem cá, não tá na hora de demitir os responsáveis por essa campanha de marketing que diz que a balzaca é a porta das desesperadas? Vocês estão ferrando com a minha turma!

Talvez por conta da escassez de homens da minha idade na minha horta, eu comecei a olhar para a horta vizinha. E posso dizer que tive a feliz experiência de parar de julgar os novinhos, e beber desta fonte da juventude. Assim como tantas mulheres da minha idade, eu também não tenho pressa em casar, e sei que nem todo lance vira romance, e sendo assim, muito despretensiosamente, eu cai pra dentro da toca do coelho e fui para no país das maravilhas.

Eu deixei um novinho entrar no meu mundinho e também nos meus lençóis, e a surpresa foi pra lá de positiva. E aqui, que fique bem claro que o “novinho” em questão tem mais de 20 anos e é responsável pelas próprias decisões. O que descobri é que o novinho compensa a falta de experiência com energia e criatividade. Ele pode não saber o que fazer com precisão, mas não vai ter vergonha de perguntar o caminho certo. Usa a língua como sua arma, e não pensa duas vezes em botar um gelo ou um Halls preto pra jogo. A velocidade pode ser um pouco acelerada, mas o combustível dura longas viagens, o que faz da aventura uma experiência sensacional e deliciosamente exaustiva.

O novinho não tem muitos pudores em fazer contato ou falar que está afim. Talvez porque ele não carregue tantas decepções nos “quilômetros de desvantagens” que acumulei de viagens passadas. Ele me chama de “amor” sem compromisso, mas quando vê meus olhos arregalados responde em tom de deboche – “eu chamo todas assim, pra não errar o nome”, e dá risada, enquanto sou obrigada a rir também de sua petulância moleca. Ele adora provocar, e depois me adocica com um novo “amor” aqui e um tapa na bunda ali. É o tipo de cara que pula de trás do sofá para me dar um susto, ou liga a água do chuveiro no gelado só pra me ouvir gritar. Faz-me rir, além de gozar. Dá leveza tanto ao carinho quanto a sacanagem.

Ahh novinho, que grata surpresa te descobrir nesta fase em que me cobram buscar um compromisso, posar de bela, recatada e do lar. O novinho cozinha um prato elaborado que ele pesquisou no YouTube, enquanto joga os lençóis suados da minha cama na máquina de lavar. E eu já não me importo que ele ande pelado pela minha casa como se fosse o dono do pedaço, ou que me mande fotos de cueca enquanto tento parecer concentrada no trabalho. Adoro quando ele pede para que eu escolha a sua camisa, quando finalmente decide se vestir. Tem uma displicência tolerável, quase invejável, no novinho. Eu odeio/amo como ele me atiça e me faz parecer mais nova do que ele, sedendo às suas instigações e pirraças. Talvez seja exatamente isso que eu goste no novinho. Da lembrança de que eu também sou nova, de fato, não importa o que o marketing social injusto tenha feito pela a minha geração.

Eu sei, dizem que idade é só um numero, mas às vezes precisamos de um lembrete de que este número não deveria nos definir. E eu aprendi isso com um novinho. Isso e o valor do Halls preto.

Ahh novinho… você sabe muito.

Fim da sessão.

Meu primeiro amor

Nesta semana em que celebramos o dia da criança, me doeu ver a infância lá de casa ser ameaçada pelas decepções envolvidas com a dura arte de crescer. O Murilo foi encontrado às lágrimas pela minha mãe na volta da escola. O motivo era dos mais nobres: ele tivera o coração partido. Após o que foram longínquos 4 dias de um namoro “tórrido” (incluía dar as mãos em público) com uma garota de alcunha Sofia Andrade, o objeto de desejo do Murilo terminou a semana dando um beijo na bochecha de ninguém menos e ninguém mais do que o Mateus – o irmão do Murilo. A coisa toda teve um quê de novela mexicana para mim. Dois irmãos disputando o amor de uma garota, cujo nome é sempre pronunciado de forma completa e com tom solene. “Sofia Andrade. Sofia Andrade”. Já imaginei os dois duelando com espadas de massinha de modelar antes do jantar.

Eu quis xingar Sofia Andrade de nomes feios. Aliás, com todo respeito, e bem xinguei-a assim que soube da polêmica e do coração partido do Murilo. “Aquela puta!” – esbravejei. “Antônia!!!” – minha mãe gritou em choque com minha atitude desbocada – “Pelo amor de Deus, ela tem só 6 anos de idade. E de mais a mais foi o safado do teu irmão Mateus que ficou cortejando ela”. E foi ali que me dei conta. Eu estava culpando a Sofia Andrade de uma trama complexa que tinha muito mais a ver com a competitividade masculina, do que o puro amor de uma mulher/menina. E confesso, estava sendo pouco empática com o drama de Sofia Andrade – se eu estivesse sendo disputada por dois loiros, também estaria confusa, para dizer o mínimo. Pedi perdão em silencio a dama em questão, para que nem Murilo ou Mateus achassem que eu estava tomando partidos.

Mas confesso, fiquei muito mal. Pior que o Murilo, possivelmente.

Acho que o que realmente mexeu com o meu humor foi na verdade que o episódio do Murilo lembrou-me do meu primeiro amor, que obviamente foi seguido de uma tremenda decepção. O nome dele era William e nós tínhamos 8 anos. Ele tinha uma motinho e era a única criança motorizada do nosso camping, mas eu pouco dava bola para os luxos automobilísticos no auge dos meus 8 anos (ou tampouco depois deles). Entretanto eu me lembro com riqueza de detalhes de como eu me sentia quando ele me dava uma carona, e de como na garupa da motinho eu sentia o perfume dele no vento que ele cortava com velocidade. A gente tinha horário para se recolher, mas tinha tempo o suficiente para eu ver a lua cair na lagoa, iluminando os olhos dele nos luaus que promovíamos. Eu sempre sonhava com o William, e escrevi minhas primeiras histórias de amor em nome dele. Até ele provar ser um moleque, e começar a me provocar em todos os finais de semana dizendo que não voltaria mais no camping, para o desespero do meu coração apaixonado. 4 anos depois eu dei o meu primeiro beijo no William, e o segundo de toda a minha vida. Claro que ele se apaixonou por mim. Eu? Eu, agora queria rapazes mais velhos, para o desespero do coração apaixonado do William. O amor sabe ter um timing bizarro, não sabe?

Mas o episódio do Murilo resgatou uma saudade não do meu primeiro amor, mas do meu “eu” lá no primeiro amor. Quando eu tinha um coração novinho em folha, livre de ponderações. Fato é que nós somos, incontestavelmente, a soma das nossas relações passadas. E esse é o problema das decepções, as dores não são eternas, mas falhamos ao eternizar as decepções, carregando-as para as relações seguintes. Talvez não seja a Sofia Andrade que vai lidar com a fúria da primeira decepção do Murilo. Talvez seja a próxima garota com outro nome pomposo, que ele vai decepcionar antes de se ver decepcionado. “Eu nunca mais vou falar com a Sofia Andrade, maaaaanhhhhêêê” – O Murilo berra em meios às lágrimas, enquanto escrevo este texto. O Mateus dá risada. A Sofia Andrade, mesmo sem querer, fez a primeira contribuição para o Murilo ser um filho-da-mãe com as mulheres ( ou ao menos deu-lhe uma desculpa conveniente, da mesma forma como os caras problemáticos que cruzaram a minha vida todos culparam uma Sofia Andrade). Talvez o Murilo deixe de ser o último romântico e vire o próximo cafajeste mesmo. O Mateus, bem, esse parece que já nasceu com talento para ser safado, talento bem disfarçado nos cachos de anjo.

Sendo o primeiro ou último amor, sempre que me pego analisando um relacionamento ou mesmo fim dele, não consigo deixar de avaliar o contexto. E se eu não tivesse sido magoada tantas vezes, será que teria sido mais tolerante? Se eu nunca tivesse sido enganada, eu confiaria mais? Se eu não tivesse visto o divórcio dos meus pais virar um drama, temeria o casamento? Será que me acalmaria mais fácil se não tivesse vivido a inquietude e fascínio de encarar o mundo de forma mais independente? Onde enfio as minhas teorias, decepções, rancores, e preocupações para então, dar espaço a um amor? Um novo amor. Um primeiro amor de novo.

Eu tive saudade do meu idealismo, vendo as lágrimas do meu irmão, velando o fim de seu primeiro romance. E acho que fiquei mal por nós dois. Por saber que ele ainda vai passar por muitas destas. E por lembrar que eu mesma já carrego essa bagagem emocional muito mais do que gostaria. A diferença entre nós dois, é que eu tenho a experiência que o Murilo desejaria ter. E ele, bem, ele tem a inocência de um coração serelepe que se entrega sem medo. Eu queria chorar mais por amor. Sofrer mais, e esperar mais dele. Eu morro de medo de ficar apática, uma vez que sofro cada vez menos quando tudo se acaba numa relação. E torço pelo dia em que uma pessoa vai chegar e vai me fazer sentir o mesmo frenesi que o Murilo sentiu com a Sofia Andrade. E eu vou agradecer, por nunca ter dado certo com nenhuma outra pessoa.


Fim da sessão

ps: Garotos, numa pauta um pouco mais feminista, se cuidem. Sempre que vocês acharem que são malandros, vai ter uma Sofia Andrade ditando as regras. E pensando bem, elas é que estão certas.

Bônus: Do tempo que Macaulay Culkin ainda era fofo.

Desculpa o transtorno, a réplica dos meus ex.

À convite do ATL Girls aceitei o desafio de pedir aos meus ex-namorados uma réplica da crônica sobre Gregório Duvivier e Clarice Falcão. E aí? Acha que rolou drama ou carinho?

Clique na imagem abaixo e confira:

ex

O que eu quero

Depois de um tempo lidando com o passado das nossas relações, é impossível não colecionar uma lista daquilo que a gente quer evitar no futuro. E a tendência é começarmos a ficar com a casca mais grossa e um pouco mais intolerante com os desconfortos naturais causados por novos pretendentes. O que eu não quero já está super claro para mim, e considero esta lista importante porque representa um compromisso com os aprendizados do passado. É o cinto de segurança na estrada no amor. Entretanto, mais do que segurança, a gente precisa saber pra onde quer ir. A equação é mais ou menos assim: “o que eu quero” X “o que eu não quero” /dividido pela expectativa igual= caia na real. Ou seja, não é uma matemática exata, mas ajuda a balizar prioridades e concessões, sem perder o rumo da jornada.

“O que eu quero?”

Eu quero alguém que minta bem. Sério, eu tenho uma pá de romances nas costas e já tendo a certeza de que todo mundo mente, eu só queria encontrar alguém que me faça o favor de mentir bem. Se a verdade for amarga ou irrelevante, quero uma pessoa que se comprometa com uma história bem contada, para a sanidade dos personagens. Parece pessimismo, mas é de fato realismo e elemento de sobrevivência de uma relação. Se a verdade não vai ser produtiva, ok, eu consigo conviver com a mentira bem contada. Claro, tendo em mente que as intenções devem ser sempre as melhores para ambos.

Quero alguém com vida própria. Inclusive que esta vida seja composta de algumas programações que não me incluam, por favor. Quero um vivente que valorize os espaços e os momentos de saudade. E que me ajude a perceber quando eu estiver grudando, como a boa intensa que sou. Que me lembre de que sentir falta é saudável, e estar sozinho é igualmente importante para as partes. Quero alguém que me lembre de que eu preciso fazer concessões na minha agenda, mesmo que para programações pouco estimulantes, como a festa da firma ou o campeonato de futebol de várzea. E eu não sou muito boa nisso, já aviso. Mas eu adoro aprender.

Eu sonho com alguém que entenda a diferença entre um chilique e uma crise. Aliás, quero alguém que me ajude a diferenciar os dois, pois meu lado dramático tende a me confundir. Quero alguém que faça meia-culpa e que não tenha medo de pedir desculpas. Eu também quero alguém que não entre em pânico quando eu chorar, pois vai entender que a vida às vezes transborda. Alguém que saiba levar uma piada, e fazer outra.

Quero alguém que não vá se importar de escutar os hits dos anos 90 comigo e “Ode To My Family” do The Cranberries no repeat. Alguém que mexa no meu cabelo, e não repare nos fios brancos. Espero muito poder encontrar alguém que goste de praia e de boteco – ou aquela pessoa que vai me apresentar algo mais viciante que essas duas programações. E que não se importe com as minhas calcinhas largas que eu adoro usar para dormir (nem todo amor deveria sobreviver de fio-dental). Prometo tolerância com as zorbas amarelas (porque nem todo amor deveria sobreviver de boxes Calvin-Klein).

Quero alguém que eu não possa resistir, por maior que seja a minha birra. Que eu admire muito mais pelas ações do que pela eloquência.

Uma pessoa que seja gentil com garçons, com motoristas irritados e com a minha mãe. Alguém que não abra mão da serenidade com facilidade. Alguém que se adore, apesar de seus defeitos. E que ache os meus charmosos e administráveis. Que goste das pintas do meu corpo e que me convença que eu não sou nariguda (ou gorda, ou louca, dependendo da neura do momento – mulheres…).

Alguém com quem eu adore conversar. Afinal, quando a gente ficar velhinhos, talvez seja a única coisa importante. Uma pessoa com quem eu consiga discutir, discordar, sem nunca perder o respeito, ou levantar a voz. Eu odeio quando levantam a voz, ou pior, odeio quando me vejo fazendo o mesmo. Quero amar alguém com quem eu consiga ficar confortável em silêncio, superando a minha tagarelice nervosa. Que cale meus argumentos com um sorriso. Alguém que seja o meu “oi” preferido e meu “tchau” mais difícil.

Quero muito alguém que aceite quando eu convido para dançar, mesmo se a pista estiver vazia. Ou que não pensa duas vezes em topar um eventual skinny-dipping. Um indivíduo que não leve a vida tão a sério e saiba valorizar o que de fato é fundamental nela. Alguém que me faça mudar de ideia esteja eu contrariada, desencorajada ou teimosa. E que mudar de ideia não seja o mesmo que mudar o sentimento. Alguém com quem eu troque e me ajude a ser melhor e vice-versa. E que me coloque no meu lugar – que não é acima, nem abaixo, nem à frente, nem atrás. Mas ao lado. Lado a lado nesta estrada linda que é o amor.

O que eu quero? Quero alguém que me faça agradecer por nunca ter dado certo antes. E a lutar com unhas e dentes para não precisar dar certo com mais ninguém.


Fim da sessão.

Troços e traços

A pior parte de sentir a falta de alguém é a permanência dela em objetos inanimados, coisas que antes eram inofensivas. É “um fio de cabelo no meu paletó”, já diria Chitãozinho e Xororó. Antes, aquele fio era apenas um cabelo solto, entretanto, na ausência da pessoa amada, ele é um universo de memórias. Tem cheiro, tem presença e até inconveniência. Não dá pra negar a saudade quando ela deixa provas do crime. O crime é essa falta que se sente. E a vítima é você, agarrado(a) apenas às evidencias do que já foi.

Durante a minha vida, sempre que eu terminava um namoro, gostava de exorcizar o meu apartamento de qualquer vestígio daquela relação. Pelo menos naquele tempo de lutar contra o luto, sabe? Devolvia tudo que era dele na primeira semana de separação, e lavava todas as minhas roupas para evitar resquícios de perfume. Ok, cheiro não é objeto, mas ainda assim é prova da presença-ausente do outro. Eu tocava fora as escovas de dente e de cabeços, para ter nenhum DNA daquele ex-amor.  Ficava meses sem usar alguns objetos, como taças de vinho, ou aquele cobertor que ele costumava me tapar quando pegava num sono no sofá. E quase tinha uma taquicardia quando me deparava com um CD de fotos nomeado “Frackels” (sardas) – fazendo referência às marcas que o verão deixava no meu rosto, e da coleção de momentos em que nós nos amávamos. No fim de um romance, todo mundo já teve vontade de chamar o caminhão da mudança (em alguns casos até o do lixo).

Fato é que objetos acabam personificando pessoas, lugares, momentos, fases, sensações. Um isqueiro esquecido por aquele amigo que botou o pé na estrada e deixou saudades. O vaso de flores secas daquela formatura memorável, cheia de momentos que não voltam mais. Aquele tamanco/tênis/chinelo que transpira a um verão especial. Um moletom que lembra o colo do pai. A blusinha que lembra alguém que você já foi, e não é mais. Todos os badulaques e tranqueiras que te lembram algum lugar do mundo, e aquele seu lado aventureiro que só floresce com a mochila nas costas.

E de fato é engraçado ver como vestimos certas indumentárias conforme a nossa necessidade. Sempre que eu estou desanimada, coloco um colar que tenho que comprei em Austrália, lá onde a minha melhor amiga anda voando as tranças. O colar tem uma bolota de vidro cheio de areia feita de conchinhas do Manly. Quando uso ele, é como se tomasse um pouco da energia de um final de tarde na praia na companhia da minha saudosa amiga, e costumo ficar mais animada. Ou quando me desespero com as minhas contas, acendo um incenso que ganhei de um hippie no Cabo Polônio, para me lembrar de que se eu quiser, também jogo tudo pro ar e vou morar sob as estrelas naquele lugar sem eletricidade. E esses cheiros e formas, de algum jeito vão mexendo conosco, mesmo sem terem a capacidade de se movimentar. Mas destapam ou cobrem as nossas angustias, afagam nossas agitações, acordam nossas saudades.

Ontem em mais uma das expedições ao apartamento do meu irmão para organizar os  pertences que ele deixou, minha mãe me encontrou chorando dentro do armário, abraçada a uma jaqueta horrorosa dele. Aquela jaqueta não tinha apenas o cheiro do meu irmão. Ela tinha gotas de sangria em Barcelona, tinha o pó dos guarda-sóis de Brighton. Tinha as brigas de quem ia ao supermercado durante o inverno. Tinha as minhas calcinhas escondidas nos bolsos quando voávamos nos minúsculos aviões de bagagens econômicas (e microscópicas). Tinha o recibo de um Starbucks que foi jogado fora, já que o meu irmão nunca lembrava da minha intolerância a lactose. Aquela jaqueta foi cobertor na praia, e aumento do assento durante inúmeros musicais ao lado dele.

Aquela jaqueta não era mais um pedaço de tecido, ela era nós dois soltos no mundo e presos um ao outro. Foi proteção, almofada, capa de chuva. Agarrada na jaqueta me dei conta de que aquela não era a minha primeira comossão frente a um “amuleto” do meu irmão. Desde que meu irmão se foi, passei a vestir suas camisetas arriadas. Assistir a todos os seus DVDs e ler seus livros. Já me peguei usando seus óculos de leitura e eu nem preciso deles. Em noites difíceis já dormi com o estetoscópio do meu irmão nos ouvidos ouvindo meu próprio coração. Passei a colecionar suas tralhas e seus tesouros numa tentativa de sobreviver a ausência dele.

E diferentemente de outras despedidas, esses vestígio de amor, essas provas de existência, não eram mais a sobra do que foi. Mas simplesmente tudo o que me restou.

E assim eu passei a dar mais valor às memórias tangíveis, desde o dia em que elas passaram a única presença física que eu tenho de um amor que não vai mais voltar. E diferentemente do que disse lá no início, hoje posso dizer que a MELHOR parte de sentir a falta de alguém é a permanência dela em objetos inanimados. Objetos que podem ser abraçados e cheirados. Talvez eu finalmente tenha entendido que esses troços, são traços de uma passagem dentro da minha casa, da minha vida, da minha alma. E me arrisco a dizer que provavelmente seja por isso que a gente não leva nada desta vida. Quem sabe essas coisas sejam mesmo um legado físico herdado por quem mais precisa de traços palpáveis de amor.


Fim da sessão

PS¹: Beijo enorme para a minha mãe, essa boa alma que mesmo depois dos meus 30 anos, segue me consolando quando eu choro dentro do armário (desde os 5 anos).

PS²: Beijo enorme para o Murilo, que aos 5 anos, sabe quando me ligar às 7:00 da manhã, depois de uma noite ruim, apenas pra dizer que tem saudades minhas.

Coisa de Antônia: Broderagem! Contra o mimimi sobre amizade entre homens e mulheres.

No Coisa de Antônia no ATL Girls da Rede Atlântida de hoje, uma discussão antiga sobre a capacidade de manter uma amizade entre Luluzinhas e Bolinhas.

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