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Coisa de Antônia: Mude o nude

No “Coisa de Antônia” de hoje no ATL Girls da Rede Atlântida, vamos criar umas regrinhas para usar a “cor” do momento sem pagar mico.

Tira a roupa e vai pra lá, é só clicar no botão:

antônia no divã - mude o nude (insta)

Dar, ou não dar, eis a questão.

“Dá logo, Antônia!”, “Tá com vergonha do que?!”, “E só tirar se você não gostar.” “Vai deixar ele ali pedindo? Dá logo pra ele!”. 1993. 4ª série. Recreio da escola. Era a primeira vez que eu encarava a pergunta que ia me assombrar para o resto da vida “dar ou não dar pra ele”. Ele, no caso, era o Marquinhos da 5ª série. O objeto do seu desejo, e da minha animada torcida de amigas, era a minha mão. O Marquinhos queria que eu desse a minha mão pra ele segurar. Não dei. Fiquei com medo que ele me achasse muito acessível, ou que as outras garotas da série do Marquinhos rissem de mim. O Marquinhos não aceitou muito bem a negativa. Jogou minha mola-maluca no chão e disse que nem queria a minha mão mesmo. Chorei sozinha no banheiro. Eu tinha certeza que a culpa era minha.

Depois disso eu fui crescendo, e de fato levei muito mais tempo do que as outras garotas pra dar qualquer coisa para alguém do sexo oposto. Enrolei-me anos pra dar o meu primeiro beijo. Eu fui a última da minha turma a perder a virgindade. Óbvio que a ideia de algo rompendo dentro de mim não colaborava para o amadurecimento da minha sexualidade, ainda mais se tratando do tal do hímen, que ficava Deus lá sabe onde. Mas esse não era o meu maior temor. Eu como toda garota que veste o manto de virgem, me perguntava: “e depois que eu transar, o que os outros vão pensar?”. Verdade é que sendo Virgem Maria ou Maria Madalena, as pessoas iam falar de qualquer forma. Isso logo eu aprendi. Mas eu segui intrigada com esta decisão em cada etapa da vida. Dar ou não dar, eis a questão.

Por conta disso levei o tema sobre o real efeito do “dar ou não dar” a consideração de amigas e amigos. Para ser mais específica na discussão, e visto a velocidade dos relacionamentos de hoje, perguntei sobre o efeito da primeira transa (→ o Word insistiu na substituição do termo “transa” por “relação amorosa”, e eu não concedi), ou melhor, eu queria entender o efeito da percepção da mulher, caso o primeiro encontro terminasse em sexo. Veja, algumas pessoas diriam que o tema por si só já é machista. Eu entendo. Quanto abordei algumas amigas sobre o que elas achavam que os homens pensavam sobre mulheres que transavam no primeiro encontro, muitas delas responderam “eu não ligo para o que eles pensam”, e louváveis sejam elas, cheias de confiança. Eu, Antônia, não gozo de tanta. Desta forma, precisei mergulhar na pauta que me atormentava desde os tempos do Marquinhos.

Após entrevistar informalmente homens e mulheres sobre o assunto, sem qualquer responsabilidade por amostragem e estatística, concluí que hoje estamos no limiar de uma mudança. Quando eu tinha 20 e poucos, eu jamais transaria no primeiro encontro – “mas aí é porque você era mais nova, e mais insegura”. Também. Mas também porque os tempos eram menos gentis com quem decidia “soltar a piriquita”. Hoje os termos são um pouco mais democráticos. Ainda que com alguns pré-conceitos escondidos embaixo da nossa modernidade pró-feminismo – tem muita Maria Madalena sendo falada no Whatsapp, eu sei. Mas hoje ninguém mais sai apontando pras safadinhas a luz do dia, simplesmente com medo de soar pré-histórico. As mulheres mudaram. Os homens mudaram. Alguns conceitos já se foram e outros permanecem. Existe, no entanto dois pontos de convergência no assunto:

Conquista X Atitude

Eu posso soar vitoriana, mas segundo a minha averiguação o cortejo não saiu de moda. Eu juro. Eles acontecem hoje em dia em questão de 4 horas e sete coquetéis, e não mais em seis meses de conversas vigiadas e um pedido formal de namoro. O jogo da sedução, entretanto – e mesmo que com o velocímetro alterado – permanece em alta com eles, e com elas. Homens serão eternamente conquistadores por natureza, e tem a competição no sangue. Junte isso a um par de seios, e taa-rãm, você tem um verdadeiro cavaleiro em uma missão. Para alguns é um investimento de auto-provação, assim como um certificado de virilidade. Eles não batem mais em nossas cabeças com um tacape e nos arrastam para copular. Mas eles ainda querem nos convencer a entrar na caverna, ora bolas. Nós mulheres, da mesma forma, apreciamos o cortejo e não gostamos dos afobadinhos. Sentimos prazer em sermos conquistadas, do contrário o “não” está cada vez mais difundido e sem peso na consciência.

A atitude aqui é o divisor de águas. É como funciona a lei da demanda e da procura. Se for abundante (no sentido de fácil acesso), perde o valor. Se for raro, o mercado valoriza. E eu sei que eu estou falando de mulheres, e não de diamantes, mas lógica é similar. O que acontecia antes, é que quando uma mulher transava logo de cara, alguns mal orientados julgavam que esta não prestava. Uma vez que nos demos conta e passamos a não aceitar que este fundamento não se aplicava a eles, a coisa começou a mudar.  Então a lição de tirei nesta “pesquisa”, que tem margem de erro de três machistas para mais ou para menos, é que dar no primeiro encontro não desvaloriza a mulher, principalmente se o clima fluiu pros dois – a inteligência da ação e a atitude são ditadas por elas. Dar no segundo encontro é muito mais sedutor. E não dar, mesmo quando se está afim por conta do que os outros pensam, é coisa de tapada. Ponto final.

Atitude delas x Atitude deles

Então entramos na era da escolha feminina em que nós decidimos que caverna queremos adentrar. Bom, perceba que aí a confusão deles realmente começa. Um amigo confessou-me “Tenho um pouco de medo de vocês hoje em dia. Não sei muito que fazer, ou que esperam de mim.” Entendi ele muito bem. Afinal, como mulher eu convivera com esse drama a minha vida inteira. Não me admira que eles, como novatos na pauta da percepção alheia, se sentissem desconfortáveis. Outro amigo revelou um agravante ainda maior, “mulheres sexualmente ativas são mais desafiadoras, difíceis de satisfazer. Eu já deixei de sair com uma mulher por medo de não satisfazê-la.”“você jura?”, pergunto incrédula. “Juro,” – e ele explicou: “pior do que vocês transarem na primeira vez é nós transarmos mal nela” disse com ar de seriedade. Confesso que me solidarizei com a causa. É fácil fingir um orgasmo – tente fingir uma ereção!

Mas eu sei, nem todos têm as melhores intenções no coração, meninas. Nesta alteração de papéis há ainda aqueles que separem as “pra casar” das “não é pra casar” baseados em quem dá ou não dá de primeira. Buenas, sou grata a todos eles. Pois nos poupam do risco de casarmos com pessoas de percepções limitadas (se é que é casamento o que você busca do frigir dos ovos, claro). Deixe-os nos  julgarem pela capa. Garanto-lhes que muitos deles mal conseguiriam terminar um capítulo nosso, quanto menos entender nossa historia. Então, entenda que durante esta troca de lugares, existe uma grande parcela que não sabe muito bem como se comportar. Sejamos tolerantes.  Muito do sexo oposto já entendeu que as mulheres vão mesmo fazer o que querem, e nos respeitam e admiram por isso. Há também aqueles que vão postar fotinho com cartaz dizendo “eu não mereço mulher rodada”. Bom, mas aí a gente vai lá e roda a baiana na cara deles. Simples assim.

Mas a pergunta é dar ou não dar, eis a questão. Em uma era de relacionamentos tão voláteis, em tempos de Whatsapp, que ligação virou “eu te amo”, concluo que devermos ser sinceros com a parte mais importante do sexo. A nossa parte. Sem fazer juízo porque foi de primeira, de segunda, ou de terceira. Mas porque partiu de um desejo genuíno de se misturar um pouco mais com o outro. “Ah então lavou tá novo?”, não, calma! Cuide de seu corpinho, do que entra e do que sai dele, se proteja – seu corpo não precisa ser um templo, mas também não pode ser a casa da Mãe Joana. “Ah, então vou me guardar.” Não, também não! Vai guardar na gaveta? Junto com todos os orgasmos e momentos geniais que você perdeu porque ficou preocupada(o) com o que fulano (a) vai pensar? Pára! Se for pra dar, dê porque te deu na telha. Bem assim!

E pra concluir, divido uma pérola de conhecimento que recebi de um cara muito legal – com quem eu transei de primeira – que me explicou o seguinte: “vocês mulheres têm que crescer a despeito da vontade, o corpo de vocês é implacável. Uma menina vira mulher querendo ou não, e depois começa a contagem regressiva. O homem não. Vive e goza a passagem do tempo, e seu corpo começa a falhar bem mais tarde. Por isso as mulheres são mais sensatas, e muitos homens irão morrer adolescentes”.  O pensamento dele me deu duas orientações para a vida. A de que a sensatez das minhas escolhas terá de ser minha, e só minha. E também de que alguns homens vão morrer adolescentes, a despeito de a gente optar dar ou não dar de primeira. E se não conseguir diferencia-los logo de cara, se permita não errar duas vezes.

Ah, e só pra que fique bem claro o que hoje sei. Marquinhos, se você estiver lendo esse texto: A MÃO É MINHA E EU DOU ELA PRA QUEM EU QUISER.


 

Fim da sessão.

Todo mundo nu

Parem as máquinas! Tá todo mundo nu.

Quem tem acompanhado as notícias no sul do país, percebeu que na pequena província de Porto Alegre, um movimento está acontecendo. Representantes do naturalismo saíram às ruas com o modelito que a cegonha lhes deu.

O fato de alguns cidadãos de bem saírem pelados pelas ruas, gera obviamente, certo espanto. Até aí tudo bem. Acontece que o nu é tão atípico, que ninguém acredita que a vontade brote do puro desejo por liberdade/libertação. Tão logo enxergamos a pele desnuda, nos pegamos questionando a índole, a causa ou mesmo a sanidade mental de quem tira as roupas. Ora bolas, afinal, fomos treinados a nos tapar – mesmo no país do carnaval.

Isso não é de hoje. Com a chegada da cultura judaico-cristã a Roma e com a conversão do Império Romano ao cristianismo, o nu é abolido primeiramente da arte e o pudor se espalha pelo mundo. O negócio chegou a tal ponto que a igreja teve a coragem de mexer na obra prima de Michelangelo “Juízo Final”  da Capela Sistina. Quando Michelangelo entregou sua arte “ousada”, o Vaticano rapidinho chamou um estagiário que cobriu  a “dignidade” da obra com o intuito de não deixar ninguém constrangido (ou excitado). Na última restauração do afresco, restaurou-se também a beleza dos corpos nus, para sorte e deleite dos tempos modernos.

Falando-se de Antônia, a igreja que me desculpe (ou não) – o nu sempre me seduziu. Eu amo ficar pelada. “Oi meu nome é Antônia, e eu amo ficar pelada.” – “Oi, Antônia”, ouço um grupo de naturalistas me apoiarem em uníssono. Eu só comecei a usar sutiã porque me vi obrigada, e quando no meu quarto não durmo de roupa nem por decreto. A pauta ganhou ainda mais força para a dona deste divã, quando voei as tranças por terras mais “liberais” – liberais entre aspas porque estamos falando de lugares com monarquias, alemães ordeiros e as populações mais idosas da Europa.

O meu primeiro ensaio de nudismo foi em Majorca, na Espanha. Achei que ia desmaiar quando tirei tão somente a parte de cima do biquíni. “Joguem a boia! Seios descobertos ao mar!” Só tomei vergonha na cara da minha frescura quando vi, às margens daquelas mesmas águas que eu me banhava, uma senhora de uns 80 anos baixar completamente o maiô para lavar a areia do corpo. “É assim que se faz, gata!”, pensei comigo. Ninguém olhou. Ninguém apontou. Era tudo muito natural. Depois disso me atirei na água pelada sempre que pude: Ios na Grécia, La Pedrera no Uruguay, Jelsa na Croácia, e teve também um incidente numa fonte em Roma, mas esse foi sem querer e é assunto pra outra sessão.

Entretanto, de todas estas experiências,  nenhuma me marcou mais do que a minha primeira tentativa de um banho de sol, completamente pelada e em público.

Estava em Munique, e depois de algumas sugestões resolvi visitar o Englisher Garten que era um must-see da região da Bavária. Passei pelo enorme Residenz, pela Surfer’s Wave (uma onda eterna formada pela queda de um rio para a alegria de lindos surfistas alemães), para então entrar na Nude Beach – um jardim/parque enorme destinado ao nudismo.

Lá, pessoas totalmente nuas espreguiçavam-se ao sol. Eu, neste caso, era um misto de surpresa e vergonha, e ficava me perguntando como eles não queimavam as suas.. ãhn.. partes mais delicadas.

Decidi não ser crítica, e ser corajosa. Escolhi um lugar longe o suficiente das áreas de passeio (onde as pessoas vestidas passavam), e me despi completamente. Atirei a minha canga e num pulo me joguei de bruços. Optei deitar de bruços porque,  confesso, eu não estava pronta psicologicamente para um frontal completo (e também porque meses na estrada não me deram tempo para visitar uma depiladora). Mas estava lá. Firme (nem tanto) e forte!

O sentimento foi estranho, reconheço. Lembro que pensava na minha educação católica, e como esta talvez tivesse feito de mim mais puritana do que eu gostaria de admitir. Mas tudo bem. Fiquei lá tentando ficar confortável, até que algo chama a minha atenção.  Na área de nudismo havia um gordinho caminhando completamente vestido em torno das pessoas nuas. “Maluco”, pensei, já sentindo-me parte da comunidade naturalista. O cara fica a poucos metros de mim. Analiso a situação e vejo que havia inúmeras pessoas em minha volta, ou seja, não havia porque me sentir ameaçada. Continuei trabalhando no meu bronzeado. O cara então passa por mim de novo, e desta vez diz algo em alemão. Eu, por minha vez, agradeço não ser capaz de entender.

5min depois, quando eu estava realmente começando a desfrutar da arte de bronzear minha bunda incrivelmente branca, o companheiro alemão está de volta, e desta vez ele quer fazer contato.  Ele se abaixa e diz alguma coisa em alemão. Levanto a cabeça, tentando entender e ao mesmo tempo desviar do sol que batia nos meus olhos, cegando-me completamente. Quando finalmente venço minha cegueira momentânea, desejo ter os olhos engolidos pela terra. O cara, que antes estava vestido, estava sem calças. Não só isso, abaixo de sua grande barriga,  seu pênis está na altura dos meus olhos, perto o suficiente para ser tocado. Mas isso não era tudo: aquele era, sem sombra de dúvidas, o menor pênis que eu tinha visto na minha vida. Uma tímida-pequena-cabeça, não mais do que alguns cms, olhando para mim. Em seguida, começa o que eu vou lembrar para sempre ter sido a conversa mais estranha que eu já tive:

Pequeno Fritz: “Então, você é americana?” (Eu acho que ele não havia notado minha canga da bandeira do Brasil logo abaixo da minha bunda branca).

Antônia: “Não, brasileira.”

Pequeno Fritz: “Então o que você achou?”

Antônia: “Por favor, diga-me que você está falando sobre o tempo.”

Pequeno Fritz: “Haha. Sim. Você está gostando? “

Antônia: “Eu estava… até agora.”

Pequeno Fritz: “Ok, só parei para dizer ‘oi’. Aproveite Munique! “

Antônia: “Danke”.

Era isso. Fora menos de 1 minuto de bate-papo, mas eu decidi que era o suficiente para a minha primeira experiência de nudez – principalmente envolvendo certas… pequenezas da vida. Coloquei minhas roupas e voltei pra área das pessoas vestidas com algumas grandes lições. Respeitar a nudez alheia, do tamanho que ela for. E aprender vestir-se com a mesma rapidez e facilidade com a que você tira a roupa. Danke, Munchen.


Fim da sessão.

Fotos: Daniel Fama –  Mostra Fotográfica “[Nu] objeto”