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O meu irmão gordo não cabia neste mundo

“A indústria da dieta é o único negócio lucrativo do mundo com um índice de insucesso de 98%.”

eatingdisorderfoundation.org

Para vocês que acompanham estas sessões públicas de terapia, essa não é uma daquelas que termina com um grande aprendizado de espírito elevado, ou uma celebração das lições da vida. Não, essa não será uma destas sessões. Essa sessão é daquelas que você levanta do divã tendo a certeza de que teve de engolir um brejo inteiro, ao invés do sapo.

Aos 20 e poucos anos meu corpo mudou drasticamente. E confesso, tem uma parte de mim que acha que foi proposital. Note, sem qualquer arrogância pretendida, eu nunca fui alguém que passou desapercebida. Eu sempre fui aquela garota dita “popular”. As pessoas sabiam meu nome (aliás, meu sobrenome que aparentemente me garantia uma imagem mais pomposa) antes mesmo que eu soubesse o delas. Eu não tinha uma vida pública – mas tudo que era meu parecia não ser privado. Namorados, tropeços, primeira transa. Aquilo que as pessoas celebram como popularidade, eu via como o desgosto de crescer e me desenvolver sob a lente de um microscópio.

“Ora, por favor, quem não gostaria do mundo aos seus pés?”. Eu não gostaria. Tive a bunda fotografada em diversos ângulos por um garoto na escola, que publicou-as em um site (em uma época que ninguém sabia fazer sites) para que minhas bochechas inferiores ficassem sempre a disposição. Tive propostas de relacionamento muito mais ligadas à minha aparência (ou a apostas) do que a minha personalidade. As pessoas lembravam que eu tinha um corpo de bailarina, mas tinham pouquíssimo interesse no meu discurso. Eu participava de trabalhos sociais desde muito nova, mas era o “social da novinha” que excitava o interesse. Era um saco.

“Óh… pobre menina bonita (adicione sua dose favorita de ironia aqui).” Eu sentia que nada que eu fizesse era mais importante do que como eu aparentava. Me encolhia sob os olhares de interesse e de constante julgamento. Cuidava do meu visual com demasiado sofrimento. Repensava as minhas frases duas vezes antes de pronuncia-las em público. Se as outras garotas odiavam o anonimato, eu aprendia pouco a pouco, o peso cavalar do holofote.

E foi com peso que me vi aliviando essa atenção. Bom, isso podia ser o plano original, ainda que na época, fosse inconsciente. No término da faculdade, eu precisei entregar o meu TCC em 30 dias, por conta de uma crise crônica de procrastinação. Então eu me deleitei naquilo que julgava uma compensação pelas longas horas de escrita. Pizzas, energéticos e guloseimas foram os meus companheiros contra o relógio do TCC durante aquele mês. E na contrapartida do relógio, a balança. 1kg para cada ponto que ganhei na minha dissertação: eu tirei 10.

Peguei meus 10kg e fui pra Londres longe do olhar julgador de conhecidos. Adquiri mais uns 4kg bem conscientes entre longos happy hours e novas culinárias. Perdi 7kg só de desespero na primeira visita ao Brasil. Tive medo que o tamanho alargado dos meus quadris fosse a única coisa que as pessoas iam comentar, deixando de lado as minhas suadas conquistas – como o trabalho numa grande corporação internacional e o MBA na Inglaterra. Ali, eu aprendi que se antes o foco das pessoas estava ligado a minha imagem externa, agora, bem… nada havia mudado. Talvez apenas piorado.

Eu aprendi que meu corpo virou uma pauta pública (mais uma vez e agora de forma depreciativa). Pessoas se sentiam a vontade para falar sobre o meu sobrepeso e de como eu ERA bonita (conjugado no passado). Eu havia – de certa forma – conseguido o que queria. Não era julgada pela minha beleza. Eu só não imaginava, que seria pela “falta” dela. Fato é que pra maioria do mundo, você é o que você come. A minha grande surpresa foi que mesmo comendo coisas gostosas, eu jamais seria uma com as minhas novas formas. É como se o meu (o seu, o nosso) valor fosse medido numa escala interpretada apenas por quilos sobre a balança. Quando vi, passei a colecionar olhares de pena, no lugar daqueles que antes eram de inveja ou interesse. Eu não sabia o que era pior.

Eu não sabia o que era pior até ver a mesma situação – em uma magnitude estratosférica – acontecer com o meu irmão. Desde a adolescência ele havia brigado com a balança, até atingir a vida adulta com o dobro do peso que deveria ter para ser “socialmente aceitável” (ânsia de vomito aqui) e cautelosamente saudável. Se para mim, com apenas alguns quilos a mais, era difícil não pertencer ao grupo das bonitas, para o meu irmão com excesso de peso imensamente maior, era triste não pertencer mais ao grupo dos bem-vindos.

Vi ele sucumbir no silêncio de seu quarto, enquanto a minha família lutava para lhe oferecer toda a estrutura e apoio necessário na luta contra a obesidade. Ele tinha vergonha de se servir na frente dos outros. Nunca entrava em lojas para, sequer, olhar as roupas de longe. E quando muitas vezes usávamos transporte público enquanto viajávamos, ele só sentava se fosse ao meu lado, num semi-pânico de possivelmente invadir o espaço de um passageiro desconhecido. Falar sobre o assunto era demasiadamente doloroso e com um pesar associado sempre a muita vergonha.

Você já imaginou sentir-se completamente exposto 24h/dia?

Era como se ele andasse pelado na rua. Sabe, quando você vira referência? “Quebra a direita no corredor onde está parada aquela gordinha.” “Fulano, sabe, aquele que é bem gordo”. Você vira o que você pesa e ponto final. De repente tudo que as pessoas queriam era discutir as métricas do meu irmão, como se ele por acaso saísse falando do Botox que via na cara das minhas tias ou dos pêlos no nariz daquele cidadão que não via desde criança. Entendemos o real sentido do termo “gordofobia”. O corpo dele parecia que não era mais dele, e a reclusão foi a saída de emergência mais próxima. A comida virou um circulo vicioso de: vergonha > ânsia por satisfação > mais vergonha.

Quando o Leonardo decidiu fazer a bariátrica, eu fui contra. Não que não quisesse ver o meu irmão receber a ajuda que precisava, não é isso. Mas achava que deveria haver um tratamento preparatório maior, do ponto de vida psicológico. Sabe, preparar a pessoa para esse novo corpo, essa nova vida. O meu irmão já era um adulto, quase um médico formado, então ainda que respeitasse as minhas ressalvas, ele seguiu em frente. E teve meu apoio incondicional em cada parte excruciante do pós-operatório.

O Leonardo viu seu corpo reduzir drasticamente. Pela metade. Ficou obcecado pela perda de peso, que parecia nunca ser o suficiente. E com todo o peso perdido, os cabelos, as unhas. Tinha que tomar vitaminas e um calhamaço de cuidados que teria de ter pro resto da vida. Sofria de constantes quebras de consciência. Estava comigo num minuto, de repente, no outro, não estava mais. Começou apresentar variações na fala. E em duas ocasiões diferentes, convulsões que o levaram ao chão. Nos exames dele, tudo normal.

Na vida dele, para os outros, tudo melhor. O Léo começou a receber uma atenção nunca antes sentida. Era convidado para finais de semana na casa de praia de familiares. Ganhava constantemente presentes de pessoas não tão próximas. Recebia cantadas de mulheres e homens. Convites nunca recebidos para todo tipo de programação. Era como se com a capa de gordura, ele tivesse também removido a capa de invisibilidade que ele antes vestia.

E eu? Tive crises de ressentimento e muito rancor. Rancor por todas as pessoas que passaram enxergar atratividade estética, onde eu sempre vira beleza. A beleza do meu irmão, acima de qualquer coisa. O meu irmão era um jovem brilhante, sensível e gentil, com uma carreira cheia de conquistas e um futuro promissor e excitante. Mas tudo o que a maioria das pessoas enxergavam era um cara gordo. Ou naquele novo corpo, um cara magro. Eu guardei seus rostos e nomes na minha memória. Intitulei a lista como “amigos da beleza conveniente”. Tive raiva de cada aproximação interesseira que presenciei. Mas me nutri da alegria que meu irmão sentia por toda essa nova sensação de interesse, “bem querer” e pertencimento.

Meses atrás, um pouco antes de tirar umas férias da vida que deixei pra fora da minha mochila, eu terminei de ler um livro que meu irmão havia comprado. Achei o livro em seu armário e esperei um ano e meio antes de ter coragem de lê-lo. O livro era “Grande Irmão” de Lionel Shriver. O bestseller conta a história de Pandora, uma mulher que larga tudo em sua vida para ajudar o irmão na difícil tarefa de perder peso. Eu devorei o livro a procura de respostas. Achei que ali poderia encontrar uma pista do que eu poderia ter feito. Me deparei com a tragédia na arte, da mesma forma como me deparei com a tragédia na minha vida. Entendi que certas fatalidades são inevitáveis na literatura ou fora dela. A personagem do livro, perdeu o irmão gordo para complicações da obesidade. Eu, perdi o irmão magro para as complicações que ele passou a ter depois da cirurgia.

Foi difícil de encara a inevitabilidade de ambas as histórias.

Talvez por conta disso eu tenha decido nunca perdoar as pessoas que trataram o meu irmão com descaso ou despeito quando ele era gordo. Gente que entende prestígio da mesma forma que encara a arroba de um boi. Eu nunca vou esquecer dos nomes daqueles que enxergaram o meu irmão apenas quando ele foi magro, e de alguma forma, o convenceram de que a única forma de ser reconhecido, era tornando-se padrão. Mediano. Custasse o que custasse.

E aqui talvez seja crueza ou até crueldade da minha parte dividir essa sessão tão visceral. Visceral a ponto de não ser lapidada para o grande público em forma de uma significativa e poderosa lição ou de um comportamento exemplar. Visceral porque surgiu de mais uma noite que perdi o sono com esse assunto. De mais um dia que chorei porque alguém sugeriu que eu tivesse que emagrecer, e eu lembrei que o peso deste assunto vai muito além do meu corpo. E que a perda é muito mais profunda que a dos quilos.

O meu irmão gordo não cabia neste mundo. Nem nas roupas. Nas cadeiras frágeis. Não cabia nos elevadores. Na foto. Na praia. Na luz do dia. Na turminha. Nos olhares de reprovação. No destaque positivo.

E por conta disso eu passei a cultivar um outro peso, que é o peso do rancor. Do rancor e da pena. Com o tempo eu também passei a sentir pena daquele grupo de pessoas que segue medindo valor humano baseado na circunferência da cintura alheia ou dos IMCs. Porque enquanto eu conseguia enxergar a beleza do meu irmão durante todos os dias de sua vida, teve quem se limitou a visão de um caixão bem magro no fim dela.

E como avisei pra vocês. Essa não é uma daquelas sessões que faz a gente se sentir melhor. Não, é. Eu lamento.

Fim da sessão.

Observação importante: Eu poderia falar horas sobre obesidade, cirurgia bariátrica, tudo que vivi e pesquisei. Os prós e os contras que aprendi de perto, e senti muitas vezes na pele. Mas aqui eu vou fazer um único apelo, a qualquer pessoa que considere a cirurgia bariátrica: estude muito bem os efeitos colaterais pouco divulgados, como as convulsões, as perdas de consciência, nutrientes, quedas agressivas de cabelo, mal estar, e em casos graves, até o alcoolismo e o óbito. Não quero com a história do meu irmão vender a ideia de que a cirurgia não deve acontecer. Não é isso. Obesidade também é um grande problema de saúde que deve ser tratado. Mas caso a cirurgia seja a última opção, que seja uma decisão com intenso acompanhamento – físico e psicológico – entendendo que é uma decisão que terá consequências e cuidados para o resto da vida.

Acima de tudo. Ame-se. Você tem motivos de sobra para se amar, eu garanto.

Negra, poderosa e politizada | Coisa de Antônia

Ok, que Beyoncé arrasa, ninguém discute. Mas aí veio o 50° Super Bowl, e a coisa foi elevada a um nível em que até os conservadores tiveram que engolir a diva pop. Não por causa do carão e da caminhada baphônica. Não. Mas porque Bey ousou esfregar na cara dos Estados Unidos em seu principal evento esportivo, que o racismo merecia atenção. Não está sabendo da polêmica? Ficou vendo a Mangueira entrar e perdeu Queen-B sambando na cara dos preconceituosos? Não tem problema, aqui está a apresentação histórica de Beyoncé no Super Bowl de domingo (07/02):

Essa não foi a primeira ocasião em que Bey levantou uma bandeira politizada. Antes disso Queen-B já defendia o feminismo com suas letras empoderadoras e muita atitude. E se falar sobre feminismo já tinha dado pano pra manga, tratar da questão racial foi uma atitude digna de uma guerreira da terra dos livres e lar dos bravos. O single “Formation”, lançado apenas 1 dia antes do SuperBowl, chamou a atenção do mainstream para as questões raciais existentes no país, como o uso de violência policial contra comunidades negras. Mas Beyoncé não vai lá e simplesmente dá o recado – ela canta, grita, repete, desenha e dança a sua mensagem no maior evento televisionado da América do Norte. A apresentação no Super Bowl foi executada com perfeição em suas inúmeras referências culturais, além de dar um show de semiótica, com declarações menos óbvias e ainda assim, cruciais.

Durante a apresentação, assistida por 115 milhões pessoas, as bailarinas de Beyonce desfilaram um figurino inspirado na organização Panteras Negras, organização fundada em 1966 para proteger moradores dos guetos negros da Califórnia contra a brutalidade policial. O grupo, assim como o Super Bowl, comemora 50 anos de história em 2016. A coreografia não ficou para trás no simbolismo, quando em dado momento as bailarinas posicionam-se em formato de “X” no gramado, em uma referência ao líder negro Malcom X, que lutou pela aprovação da Lei de Direitos Civis que apoiava o fim da segregação racial e do linchamento dos negros. Beyoncé dançou orgulhosa com um figurino que remetia a outra grande referência da cultura negra, o Rei do Pop Michael Jackson, que se apresentara no mesmo evento em 1993.

O show do intervalo do Super Bowl, entretanto, era apenas extensão do soco que foi o vídeo clipe da mesma música. Lançando na véspera do Super Bowl, o vídeo de 5 minutos mostra imagens do descaso com a população negra de Nova Orleans e as consequências do furacão Katrina de 2005, como também referências aos protestos do movimento Black Lives Matter”, que balança os EUA há um ano e meio, desde a morte do adolescente Michael Brown. Para quem não se lembra do caso, Brown estava desarmado e foi morto a tiros por um policial em Ferguson, no Missouri, e o processo resultou na absolvição do policial. Casos similares ao episódio de Brown aconteceram posteriormente em outras cidades norte-americanas, sem nenhuma apreensão ou desqualificação de membros da polícia.

Em uma das imagens mais fortes do clipe uma criança dança em frente a policiais que se “rendem”, enquanto um muro pichado surge com a mensagem “parem de atirar na gente”. Martin Luther King aparece na capa de um jornal com a manchete “Mais do que um sonhador”, em referência ao famoso discurso “I Have a Dream”. O clipe traz ainda a valorização dos traços da cultura negra, com cabelos “baby e afro” e “narinas de Jacksons 5”, e nos leva a um passeio sombrio às fazendas escravocratas norte-americanas. Cada detalhe colocado com precisão cirúrgica para balançar qualquer fagulha de preconceito existente. O clipe incomodou tanto os grupos conservadores americanos, que eles iniciaram um boicote a Queen-B alegando que ela teria feito uso de um espaço midiático americano para vender uma bandeira “pessoal” e de que a mesma estaria invocando a população contra as forças policiais. Políticos alegam que Beyoncé não tem propriedade para falar do assunto (apesar de ser negra, com pais oriundos de cidades escravocratas como Luisiana e Alabama). E a polêmica segue desde domingo incendiando os noticiários do país (e fora dele), neste que é o mês da História Negra nos EUA – e que provavelmente não teria tamanha repercussão, não fosse por “Formation”.

Então perceba que esta podia ter sido só mais uma apresentação, só mais um clipe, ou só mais uma música, mas Beyoncé se aproveitou do timing para promover a discussão e fez de sua música um hino de empoderamento de uma minoria. Um posicionamento que reforça outra polêmica sobre o mesmo tema envolvendo a 88ª cerimônia de entrega dos Academy Awards, o Oscar (28/02), que neste ano conta com sua primeira presidente negra, e nenhum representante negro entre os nomeados a estatueta. Ou seja, eventos que convocam o público a pensar sobre forças (declaradas ou sutis) que tentam inferiorizar a cultura afro-descente em qualquer posição social. Precisamos falar de Formation e Beyoncé porque tratar-se de um marco na cultura pop que promove o fim das antigas/atuais amarras do preconceito.

Mas quem sou eu pra falar disso, apenas uma garota branca de classe média, que nunca sofreu racismo na vida? Sim, eu mesma. E eu uso este espaço para falar disso porque hoje acredito que não preciso ser negra para entender a importância deste movimento, visto que me basta empatia para fazer questão de apoiá-lo, promovê-lo. E o que você tem com isso? Bom, você mora no país dos Amarildos, que são alvejados e torturados diariamente, tal como o caso de Ferguson. Onde a maior representatividade de destaque da cor negra é encontrada no futebol, em meio a cachos de banana atirados no campo. País em que um pai é criticado por fantasiar o filho de Abu (macaco e melhor amigo do personagem Aladdin da Disney) mas não é aclamado por tê-lo adotado (67% das crianças na filha de adoção são negras e pardas). Então, meus lindos, precisamos todos falar de racismo.

Claro que Beyoncé deu um show de entretenimento no Super Bowl, mas ela arrasou mesmo foi cutucando o preconceito. Então palmas pra ela que é negra, poderosa, politizada e deu voz para esta causa. E pode chorar e boicotar quem achou ruim a atitude dela. Convenhamos que se a gravidade não derruba a abelha rainha:

O preconceito e o conservadorismo é que não vão.

antonianodiva.com.br

PS: E tratando de polêmica, racismo e Super Bowl, Concussion (Um Homem entre Gigantes) estreia dia 3 de março e promete dar o que falar.