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Ano novo, velha zoeira

Abro os olhos para 2016, tendo a certeza que pulei do 1º dia de janeiro direto para o carnaval. Unidos da Velha Ressaca  está  ensaiando seu samba enredo dentro da minha cabeça. “Se o ENGOV não tomar, olé olé olá, de ressaca vai acordar”, canta a bateria entre bumbos e maracatus fazendo BUM-PRATACÁ PARATI BUM-BUM. Acredito que comi lentilha junto à todas as rolhas disponíveis, considerando o gosto de cortiça velha que tenho na boca. Aliás, lentilha, rolha e cigarro. Ou seria um charuto? Será que fumei um charuto? Mas que porra de cama estranha é essa? Ah, não, reparo que eu é quem deitou ao contrário. Lara está do meu lado atravessada da mesma forma. Ok, ela é bem mais sensata que eu, devo ter vindo direitinho pra casa. Aliás, como mesmo que eu cheguei em casa? (nova história, velha história) E.. onde… caralho, MEU CELULAR??! Ufa, encontro-o embaixo da minha bochecha, levemente (muito) babado, mas ainda assim, inteiro. Nele percebo o Facebook aberto com um contato adicionado pendente e uma mensagem que enviei, ainda sem resposta – Deus meu, quem é esse cara que eu adicionei? Ai! Um flashback da noite. Mais um marrento pra conta! Eu sempre faço isso.

Feliz ano novo, e velha zoeira.

Não adianta. Eu vou planejar, prometer e escrever os meus votos de ponderação, sensibilidade e juízo para o ano que inicia, e começar todos eles com a ressaca moral de sempre, arrotando borbulhas infinitas. Julguem-me, mas a desordem me persegue. Aliás, não só me persegue, como vem em formato de amigas – potencializando o alvoroço. Encontro a Carol na sala, com a mesma cara de Deus-nos-acuda que acordei usando.  “Oi Antônia! Viu minha irmã?” – ela pergunta sonolenta. “Oi amiga. Tá dormindo ali na cama. Chegou bem em casa?” – pergunto a ela enquanto tento ajeitar a minha cara. “Aham, acabei vindo a pé”. “Carol, como veio a pé, são mais de 7km da festa que estávamos?!”“Ah, sim, na verdade fiz um pedaço de bicicleta” – diz ela com ares despreocupados – “COMO ASSIM DE BICICLETA? Tu não tem bicicleta.”“Não tenho, é que eu peguei carona com um garoto na praia, ele devia ter uns 15 anos”. “Carol, tu conseguiu achar alguém mais desgraçado que tu às 8h da manhã pra pedalar 7km carregando tua bunda até aqui?”“Sim, mas ele curtiu. Ainda zoava com os caras dirigindo suas caminhonetas importadas voltando sozinhos da balada.”“Isso é a tua cara, Carol, entrar 2016 na carona de uma bike, fazendo a alegria de um adolescente, emocionado só de te carregar. Preciso de uma Coca-Cola, vamos pra rua?” – ela concorda. “Por que estou com a música ‘Cara caramba caracaraô’ na cabeça?” questiono-a ao chegarmos no elevador, e Carol ri, “por que tu cantou ela do momento da virada até de manhã cedo”. 

Descemos e encontramos com a Alana em uma destas inúmeras ruas movimentadas de um litoral qualquer do Brasil – já que todos são iguais – em que todo mundo faz votos de ser melhor no ano que inicia, mas deixa o lixo do réveillon a beira mar. “Tudo bem com você?” – pergunto a Alana – “Tudo certo, e vocês?” – Carol concorda com a cabeça, enquanto eu faço cara de interrogação: “Mais ou menos, amiga, falta-me preencher umas da noite de ontem.”“Nada fora do normal, dançamos até o chão, você fez amizade com uma sobrevivente de um acidente de carro e um garoto gay lá na área de fumantes – trocaram telefones pra continuar um projeto, algo sobre mudarem o mundo. Bebeu o que pôde, e quando já não pôde, ficou com cara de guria cagada. Beijou um marrento com ares de “odeio estar aqui” (adoro), e depois de um tempo começou a se comunicar apenas por sinais. Nunca entendi porque você fica bêbada e começa a falar com gestos. Enfim, viu? Nada mudou.”“EXATO! Olha que puta oportunidade que perdi de fazer tudo diferente. 2016 podia ser o ano em que eu ia começar com o pé direito, e não cambalear a minha carcaça pela pista de dança. Me tornar alguém mais ajustada, polida e elegante! Eu já não tenho mais idade pra isso.”  – Alana e Carol me olham com estranheza, quase ofendidas com meu comentário sobre a idade, idade que elas e eu regulamos com diferença de poucos anos – “Ah, Antônia, bem menos” ,”Toma essa Coca-Cola”  – disparam as duas.

Reunimos-nos no apartamento do resto do grupo para nos atualizarmos do status quo da outra parte da equipe. Vanessa quase perdeu tudo que tinha na volta pra casa. Pulou pra dentro de um taxi com outros três estranhos, achou que perdeu a bolsa no caminho, apenas para dar-se conta de que ela é a bolsa ainda estavam no taxi. Pegou o telefone e ligou para Alana, para avisar que haviam lhe roubado o celular. “Amiga” – disse Alana para Vanessa com toda a paciência do mundo – “não roubaram teu celular, você está falando nele comigo” – “Aé, ufa!” – respondeu Vanessa aliviada. Manuela que foi pra casa de uns amigos que tiveram a casa arrombada, ligou para a Clarissa e pediu que Alana (santa Alana) fosse lá resolver o crime. Clarissa sugeriu chamarem a polícia, ao invés da Alana que naquele momento estava também ocupada tentando um taxi para que ela, Clarissa e eu voltássemos pra casa – quando finalmente entendi, como fui parar na minha cama. “Tá” – faço uma pausa inquieta – “Mas por que então a Carol voltou de bicicleta e não conosco ou com a Lara, que é irmã dela?” – “Porque as duas brigaram?” responde Clarissa dando risada. “Por que?” – indago tentando acompanhar a trama. “Essa é a parte engraçada, nenhuma delas lembra direito o que de fato aconteceu, hahaha”. Largo os ombros frustrada. “Mais um réveillon da pá virada nas costas. Ano que vem precisamos fazer melhor.” – concluo com convicção, enquanto ganho uma encarada do grupo. Todas caem na risada.

Na volta pra casa, vou fazendo uma retrospectiva da noite. Aquela que esperamos o ano inteiro como um marco de renovação. Alana percebe a preocupação no meu semblante, e investiga “vai me contar o que está te preocupando, ou vai ficar noiando aí sozinha?”. “Sabe amiga, fico aqui pensando nessa minha ambição de ser mais correta, como se a nossa arruaça fosse indigna. É como se meu cérebro fosse programado para sentir culpa dos momentos de diversão, ainda que por vezes de diversão exagerada, sendo que é deles que vamos lembrar quando ficarmos velhinhas – se tivermos sorte de ficarmos velhinhas, já que a vida pode ser tão curta. Fico pensando o que os outros vão dizer, ou como vão julgar meu comportamento que costuma sempre tombar para o lado do tendéu. Acho que a gente coloca ênfase demais nas resoluções de ano novo e no aperfeiçoamento dessas personas que criamos pra nós mesmos. É um conflito eterno. Sei que devo abrir mão de alguns velhos erros, mas alguns deles me fazem exatamente quem eu sou.” – Alana me olha instigada e dispara: “Ora, pois então assuma. Grite ao alto que você gosta mesmo da zoeira, e curta ela até o dia que mudar de ideia”. “Vou fazer” – concordo com ela – “Já está mais do que na hora de eu parar de me julgar por conta da minha idade, e aproveitar meu restinho de juventude como eu achar melhor. Com todos os meus velhos erros assumidos.”

– “Isso!” – conclui a Alana.

– “Isso!” – reforço com confiança.

“E o marrento que você beijou? Respondeu a sua mensagem?” – ela pergunta.

– “Não, e não vai responder. Lembrei-me de algo que disse a ele ontem a noite quando nos encontramos na festa” – digo envergonhada.

– “O que?” – Alana arregala seus olhos castanhos. 

– “Disse que ele velho demais pra estar na zoeira” – assumo, em meio a um sorriso amarelo.

– “É talvez você precise mesmo se livrar de alguns velhos erros”.

– “Mas ele não era velho, tinha apenas 39”.

– “Velho erro refiro-me a sua língua de trapo, Antônia. Talvez você devesse mesmo ficar com a linguagem dos sinais”.

– “É culpa do ano novo, amiga”.

– “E da velha zoeira!”.


Fim da sessão.

Aperta o play e cai pra dentro de 2016 comigo:

“alô galera eu parei de zoar
agora sou um rapaz sério, muito sério…
Por que ? Por que ?
thuthurudaum pretendendo me casar”

 

Não me leve a mal, me leve a praia

Tem sempre um pedaço da estrada que ainda não tá bom, uma ponte que não está pronta, e o trânsito maluco para tolerar. As malas vão apertadas no porta-malas, dividindo espaço com a expectativa. Muita expectativa. Pranchas se engarrafam pela estrada antes mesmo de se engarrafarem no outside. A gasolina está um absurdo, a pousada está cara, e a crise um dia ainda vai comprometer o churrasquinho. Se você não é o sortudo dono de uma vida na praia, todo feriado é uma tortura até o paraíso. Afinal, praia tem que merecer.

Mas quem acredita sempre alcança. E depois de um feriado de quatro dias, é impossível não encher os pulmões e a mente de inspiração e oxigenar aquela vidinha intoxicada de monóxido de carbono e conta pra pagar. Não há tensão que a massagem da areia não desfaça. Não há coração que não se aqueça com os beijos do sol. Não há mente que não se acalme com água do mar. Lá o mundo funciona em outra vibração. Desacelerado. Desapegado. Exigir o que frente à imensidão do mar?

O caminho para a praia normalmente é a pé e a trilha tem perfume de maracujá/terra molhada/mata nativa – e quando foi a ultima vez que você parou para sentir o cheiro das coisas? Na praia você repara as borboletas do caminho. Divide o crepe com o cachorro de rua. Falando em comida, a gastronomia da praia tem um cronograma muito particular. Café da manhã vira almoço, almoço vira janta, janta vira lanche da madrugada e nem invente de querer alterar a ordem. Beliscadas, água gelada e chimarrão na beira da praia são obrigatoriamente coletivos. Juntar o lixo também é um processo coletivo. O seu lixo e do babaca que não o fez, afinal você faria o mesmo dentro da própria casa – e praia é ainda melhor que casa.

Na praia não precisa ter 3G, 4G, 5G. Claro que a gente se fala muito mais ao Vivo. Na versão em inglês a gente fica mais NextpraTell”. E quem precisa de Tim quando se temOi, muito prazer, tim-tim!”?  Bom mesmo é desconectar dos aparelhos e conectar-se com as pessoas. Seja com aquele surfista loiro que tem um projeto de mudar o mundo e causa suspiros em qualquer garota. Seja com aquele amigo que tem uma cantada ensaiada em parceria onde todo mundo se dá bem. A comunicação na praia é cheia de teorias infundadas e planos infalíveis de felicidade. Lá todo mundo tem um apelido – “Ursinho”, “Beethoven”, “Musa”, “Alemoa”, “Berfort”. É lugar de corpo-a-corpo e não de Whatsapp. De piscadas presenciais e não emojis. Risadas incontáveis, como as ondas do mar.

Corpos desnudos revelam que não tem nada mais sexy que marquinha de biquíni recém-feita ou nucas cheias de sal. Mas se for pra ficar vestido, na praia não existe “a minha mala” ou “as minhas roupas”, toda vestimenta é coletiva. Toda canga / toalha é dividida, e as cadeiras de praia circulam em revezamento. A programação noturna tem planejamento de corporativa multinacional, com avaliação de impacto sociológico (“pra onde vai a galera?”), financeiro (“tem cortesia, nome na lista, choro, combo – dá pra pagar no cartão?”) e logística (“como mesmo eu cheguei na minha cama/ sua cama / aqui no chão?”).

Joelhos são ralados, panturrilhas ficam doloridas, braços são esgotados, e roxos por todo o corpo fazem parte do pacote. “Onde foi que eu me bati?” – o mistério vem e vai embora junto com os hematomas, pois na praia se vive ativamente, envolventemente. Pode ter sido o escorregão numa pedra, a batida mal calculada numa onda, uma bolada de frescobol, o swing-samba-funk até o chão. De corpo e alma, o jeito é aceitar que pequenos acidentes são sempre previsíveis. Um pequeno preço que se paga por dias lindos de pés descalços e espírito livre. Na praia, meus amigos, a gente fica sensível à qualidade do tempo que nos damos pra ser feliz.

Praia, paraíso que decidi há muito tempo chamar de meu, sendo dona temporária apenas de um pedaço de areia onde couberem meus amigos e um guarda-sol. E é lá, sob os olhos vigilantes de Iemanjá, que consigo lembrar que a vida não é feita só de despedidas, mas também de reencontros. Não só de reunião, mas também de congregação. Lembro-me que ela não é feita só de escolhas difíceis, mas também das bem fáceis. De que nem tudo é incerteza, mas também momentos e prazeres em que você se joga de cabeça e de olhos fechados. É do meu castelo de areia que lembro que depois de cada tempestade ou chuva de verão (na praia ou na vida), haverá sempre um céu cor de rosa pronto pra me conquistar.

Não adianta procurar outra cura. Nas doçuras cantadas por Nando Reis, fica claro qual o remédio para os males da cabeça e do coração: “A gente só não inventa a dor, a gente que enfrenta o mal, quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor”.

Então não me leve a mal, nesta terça-feira pós-feriado. Me leve de volta a praia, vai?


Fim da sessão.