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Papa-Gringo

“Garota, você ia pirar na Vila Olímpica”.

Essa foi a mensagem de uma amiga direto do Rio. No meio de um grupo de whatsapp de 17 mulheres, foi para mim direcionado o foco dos romances intercontinentais.  “Papa-gringo”, algumas amigas  me chamam tirando sarro, devido ao meu interesse pelos espécimes que vem de fora. Não que ele seja exclusivo para os artigos importados. Eu amo o produto nacional. O que me faz colecionar bandeiras é primordialmente o meu tesão por falar inglês… o resto, bem, o resto é consequência.

O meu primeiro flerte cross-ocean foi um australiano. O pai dele tinha um parque para o cuidado e procriação de tubarões, e foi aí que ele me ganhou. Na minha cabeça jovial ele era selvagem e exótico como eu nunca tinha visto nada na vida. Isso claro, e o cabelo louro-dourado, olhos cor de mar, e físico de quem surfa desde que aprendeu a andar. Ele passava as férias na Praia do Rosa, enquanto eu passava os minutos planejando a nossa casa em Fresh Water, de frente pro mar. O romance durou 2 dias, mas perdurou por anos no meu imaginário.

O primeiro relacionamento intercontinental sério que tive foi com um tailandês de família chinesa. Eu morava em Londres há poucos meses, e tropecei nos olhos puxadinhos do Brett sem pensar duas vezes. Ainda que o namoro tivesse engatado rápido, o sexo era outra história. Depois de diversos amassos entre a gente, e nada dele tomar a iniciativa, eu perguntei se ele tinha algum impasse comigo. “Respeito”, ele disse. E me lembro de ter ficado em choque. Enquanto eu estava ouriçada como um animal no cio, o meu namorado estava puramente respeitando o meu tempo. Óbvio que “o meu tempo” levou só até o fim daquela conversa. Mas aí eu não culpo a minha brasilidade por isso.

Nesta mistura de culturas entre Brasil e Ásia, alguns pontos me chamaram a atenção. O fato de o meu namorado ter um irmão gêmeo, (e sendo isso na Ásia uma benção divina), fez com que os rapazes tivessem sido criados sempre juntos, e por isso nunca se desgrudavam (tipo, NUNCA). Por vezes eu tive a sensação bizarra de que estava num relacionamento com os dois. Outra situação inusitada foi em nossa viagem a Tailândia, em que fomos notícia em um site de fofocas – porque 1) o Brett, que tinha sido VJ na MTV por anos, estava de volta a Bangkok depois de muito tempo, e 2) porque ele trazia uma namorada “fora de padrão”, segundo o que contava o site.  Óbvio que minhas curvas não cabiam dentro da expectativa tailandesa, só não imaginava iriam torna-se notícia.

Mas as estranhezas não pararam ali. Ainda que o Brett e eu estivéssemos namorando há mais de um ano, na casa da minha sogra, tivemos que dormir em quartos separados. E claro, a mais bizarra experiência desta viagem, é que eu não pude participar de um almoço da família do Brett, em virtude do avô dele, o patrocinador de seus estudos em Londres e patriarca extremamente conservador, sentir-se-ia ofendido com a minha presença. Afinal, o Brett estava em Londres para estudar, e não para arrumar uma namorada brasileira. (Soube que este ano o velho teve que engolir a esposa Venezuelana com quem o Brett casou-se numa ilha tailandesa).  O Brett e eu terminamos numa boa, ainda que ele nunca mais tenha falado comigo, ou respondido minhas mensagens de despedida ou parabenização pelo casamento. Ele tinha promovido o mesmo isolamento com outra ex- namorada enquanto namorávamos, e entendi que aquele era o comportamento padrão de término dele (ou da cultura dele).

Tempos depois do Brett, acabei conhecendo um britânico e ele me chamou para sair. Durante a nossa conversa sobre diferenças culturais, o inglês comentou como nós brasileiros gostávamos de tocar nas pessoas enquanto falávamos. Propus então um desafio, que nós contássemos quantas vezes eu encostaria nele, e quantas vezes ele encostaria em mim durante o nosso “date”. 2 horas e muitos drinks se passaram e eu encostei 78 vezes nele. Ele? Duas. Uma na chegada, e outra na despedida. E juro que desde então, controlo sempre as minhas mãos quando conheço alguém – brasileiro ou não.

E assim eu segui, entre trancos e barrancos, me relacionando com bandeiras globais, sem muita comoção, até o meu primeiro e grande amor platônico por um galês. Bem, basta dizer que por ele, eu aprendi a falar “bom dia, boa tarde e boa noite” no idioma do País de Gales, que é campeão internacional de uso de consoantes impronunciáveis.

Durante os meus 2 meses de mochila nas costas pela Europa, um flerte aqui, e um lance ali, fui aprendendo e aproveitando a solteirice em outras línguas. Por conta destas aventuras, comecei a ponderar alguns comportamentos, e registrar todos as minhas efemérides em outro blog que guardei a sete chaves. Visito o blog até hoje sempre me dá saudade dos amores que deixei em cada porto, como a marinheira que sempre sonhei ser. Colecionando bandeiras e suspiros, com o tesão de quem descobre o mundo também na saliva e carinho do outro.

De volta ao Brasil, lembro com saudade da Copa do Mundo, aliás, a “copa da pegação” como a apelidaram aqui nos confins do Brasil. Recordo que escrevi o meu primeiro texto viral, muito antes de ter o Antônia no Divã, falando sobre as delícias de ter o mundo no nosso quintal. Ora, é claro que a minha amiga ia lembrar-se de mim na Vila Olímpica.

Recentemente, coletei minha primeira bandeira germânica, aqui, na minha própria cidade, e confesso que me vi atrapalhada. Eu, brasileira explosiva, passional até o último fio de cabelo, num romance temporário intercontinental de chacoalhar a minha desordem.

O alemão tinha pouco ou nenhum interesse pelos meus faniquitos – o que para uma aquariana egocêntrica é o mais azedos dos remédios. Corrigia-me sem nenhum constrangimento. Prestava atenção em tudo que eu falava (e eu falo pra [email protected]$#*) como quem observa um experimento acontecer, e toma notas mentais. Ligava no final de cada dia para contar do trabalho e fazer planos. E ao fim de de duas semanas, ele já sabia o que cada uma das minhas expressões queria dizer, ainda que me forçasse a falar toda vez que eu fazia beiço – “eu posso até entender inglês, ou mesmo aprender português, Antônia, mas ainda não leio a sua mente. Melhor falar o que está te aborrecendo”. Como fazer drama com alguém que veio do país que praticamente inventou a engenharia de precisão?

Que saudade que eu estava deste choque de culturas.

Dentre amores e desamores, alguns aprendizados ficaram com este meu coração viajante: 1) Eu gosto de romances intercontinentais pela riqueza da troca cultural. É isso que me seduz. Então “Papa-gringo” ou não, eu já assumi que eu amo conhecer o mundo com todas as suas ferramentas. 2) Ainda que fã dos romances intercontinentais, eu não fui feita para relacionamentos à distância. E por último, mas não menos importante: 3) Mesmo que tudo comece pela vontade de falar inglês… gozar é sempre em português. O meu orgasmo não tem tradução. 🙂


Fim da sessão.

Session end.

Pen y sesiwn.

Sitzungsende.

ปลายเซสชั่น

Dar, ou não dar, eis a questão.

“Dá logo, Antônia!”, “Tá com vergonha do que?!”, “E só tirar se você não gostar.” “Vai deixar ele ali pedindo? Dá logo pra ele!”. 1993. 4ª série. Recreio da escola. Era a primeira vez que eu encarava a pergunta que ia me assombrar para o resto da vida “dar ou não dar pra ele”. Ele, no caso, era o Marquinhos da 5ª série. O objeto do seu desejo, e da minha animada torcida de amigas, era a minha mão. O Marquinhos queria que eu desse a minha mão pra ele segurar. Não dei. Fiquei com medo que ele me achasse muito acessível, ou que as outras garotas da série do Marquinhos rissem de mim. O Marquinhos não aceitou muito bem a negativa. Jogou minha mola-maluca no chão e disse que nem queria a minha mão mesmo. Chorei sozinha no banheiro. Eu tinha certeza que a culpa era minha.

Depois disso eu fui crescendo, e de fato levei muito mais tempo do que as outras garotas pra dar qualquer coisa para alguém do sexo oposto. Enrolei-me anos pra dar o meu primeiro beijo. Eu fui a última da minha turma a perder a virgindade. Óbvio que a ideia de algo rompendo dentro de mim não colaborava para o amadurecimento da minha sexualidade, ainda mais se tratando do tal do hímen, que ficava Deus lá sabe onde. Mas esse não era o meu maior temor. Eu como toda garota que veste o manto de virgem, me perguntava: “e depois que eu transar, o que os outros vão pensar?”. Verdade é que sendo Virgem Maria ou Maria Madalena, as pessoas iam falar de qualquer forma. Isso logo eu aprendi. Mas eu segui intrigada com esta decisão em cada etapa da vida. Dar ou não dar, eis a questão.

Por conta disso levei o tema sobre o real efeito do “dar ou não dar” a consideração de amigas e amigos. Para ser mais específica na discussão, e visto a velocidade dos relacionamentos de hoje, perguntei sobre o efeito da primeira transa (→ o Word insistiu na substituição do termo “transa” por “relação amorosa”, e eu não concedi), ou melhor, eu queria entender o efeito da percepção da mulher, caso o primeiro encontro terminasse em sexo. Veja, algumas pessoas diriam que o tema por si só já é machista. Eu entendo. Quanto abordei algumas amigas sobre o que elas achavam que os homens pensavam sobre mulheres que transavam no primeiro encontro, muitas delas responderam “eu não ligo para o que eles pensam”, e louváveis sejam elas, cheias de confiança. Eu, Antônia, não gozo de tanta. Desta forma, precisei mergulhar na pauta que me atormentava desde os tempos do Marquinhos.

Após entrevistar informalmente homens e mulheres sobre o assunto, sem qualquer responsabilidade por amostragem e estatística, concluí que hoje estamos no limiar de uma mudança. Quando eu tinha 20 e poucos, eu jamais transaria no primeiro encontro – “mas aí é porque você era mais nova, e mais insegura”. Também. Mas também porque os tempos eram menos gentis com quem decidia “soltar a piriquita”. Hoje os termos são um pouco mais democráticos. Ainda que com alguns pré-conceitos escondidos embaixo da nossa modernidade pró-feminismo – tem muita Maria Madalena sendo falada no Whatsapp, eu sei. Mas hoje ninguém mais sai apontando pras safadinhas a luz do dia, simplesmente com medo de soar pré-histórico. As mulheres mudaram. Os homens mudaram. Alguns conceitos já se foram e outros permanecem. Existe, no entanto dois pontos de convergência no assunto:

Conquista X Atitude

Eu posso soar vitoriana, mas segundo a minha averiguação o cortejo não saiu de moda. Eu juro. Eles acontecem hoje em dia em questão de 4 horas e sete coquetéis, e não mais em seis meses de conversas vigiadas e um pedido formal de namoro. O jogo da sedução, entretanto – e mesmo que com o velocímetro alterado – permanece em alta com eles, e com elas. Homens serão eternamente conquistadores por natureza, e tem a competição no sangue. Junte isso a um par de seios, e taa-rãm, você tem um verdadeiro cavaleiro em uma missão. Para alguns é um investimento de auto-provação, assim como um certificado de virilidade. Eles não batem mais em nossas cabeças com um tacape e nos arrastam para copular. Mas eles ainda querem nos convencer a entrar na caverna, ora bolas. Nós mulheres, da mesma forma, apreciamos o cortejo e não gostamos dos afobadinhos. Sentimos prazer em sermos conquistadas, do contrário o “não” está cada vez mais difundido e sem peso na consciência.

A atitude aqui é o divisor de águas. É como funciona a lei da demanda e da procura. Se for abundante (no sentido de fácil acesso), perde o valor. Se for raro, o mercado valoriza. E eu sei que eu estou falando de mulheres, e não de diamantes, mas lógica é similar. O que acontecia antes, é que quando uma mulher transava logo de cara, alguns mal orientados julgavam que esta não prestava. Uma vez que nos demos conta e passamos a não aceitar que este fundamento não se aplicava a eles, a coisa começou a mudar.  Então a lição de tirei nesta “pesquisa”, que tem margem de erro de três machistas para mais ou para menos, é que dar no primeiro encontro não desvaloriza a mulher, principalmente se o clima fluiu pros dois – a inteligência da ação e a atitude são ditadas por elas. Dar no segundo encontro é muito mais sedutor. E não dar, mesmo quando se está afim por conta do que os outros pensam, é coisa de tapada. Ponto final.

Atitude delas x Atitude deles

Então entramos na era da escolha feminina em que nós decidimos que caverna queremos adentrar. Bom, perceba que aí a confusão deles realmente começa. Um amigo confessou-me “Tenho um pouco de medo de vocês hoje em dia. Não sei muito que fazer, ou que esperam de mim.” Entendi ele muito bem. Afinal, como mulher eu convivera com esse drama a minha vida inteira. Não me admira que eles, como novatos na pauta da percepção alheia, se sentissem desconfortáveis. Outro amigo revelou um agravante ainda maior, “mulheres sexualmente ativas são mais desafiadoras, difíceis de satisfazer. Eu já deixei de sair com uma mulher por medo de não satisfazê-la.”“você jura?”, pergunto incrédula. “Juro,” – e ele explicou: “pior do que vocês transarem na primeira vez é nós transarmos mal nela” disse com ar de seriedade. Confesso que me solidarizei com a causa. É fácil fingir um orgasmo – tente fingir uma ereção!

Mas eu sei, nem todos têm as melhores intenções no coração, meninas. Nesta alteração de papéis há ainda aqueles que separem as “pra casar” das “não é pra casar” baseados em quem dá ou não dá de primeira. Buenas, sou grata a todos eles. Pois nos poupam do risco de casarmos com pessoas de percepções limitadas (se é que é casamento o que você busca do frigir dos ovos, claro). Deixe-os nos  julgarem pela capa. Garanto-lhes que muitos deles mal conseguiriam terminar um capítulo nosso, quanto menos entender nossa historia. Então, entenda que durante esta troca de lugares, existe uma grande parcela que não sabe muito bem como se comportar. Sejamos tolerantes.  Muito do sexo oposto já entendeu que as mulheres vão mesmo fazer o que querem, e nos respeitam e admiram por isso. Há também aqueles que vão postar fotinho com cartaz dizendo “eu não mereço mulher rodada”. Bom, mas aí a gente vai lá e roda a baiana na cara deles. Simples assim.

Mas a pergunta é dar ou não dar, eis a questão. Em uma era de relacionamentos tão voláteis, em tempos de Whatsapp, que ligação virou “eu te amo”, concluo que devermos ser sinceros com a parte mais importante do sexo. A nossa parte. Sem fazer juízo porque foi de primeira, de segunda, ou de terceira. Mas porque partiu de um desejo genuíno de se misturar um pouco mais com o outro. “Ah então lavou tá novo?”, não, calma! Cuide de seu corpinho, do que entra e do que sai dele, se proteja – seu corpo não precisa ser um templo, mas também não pode ser a casa da Mãe Joana. “Ah, então vou me guardar.” Não, também não! Vai guardar na gaveta? Junto com todos os orgasmos e momentos geniais que você perdeu porque ficou preocupada(o) com o que fulano (a) vai pensar? Pára! Se for pra dar, dê porque te deu na telha. Bem assim!

E pra concluir, divido uma pérola de conhecimento que recebi de um cara muito legal – com quem eu transei de primeira – que me explicou o seguinte: “vocês mulheres têm que crescer a despeito da vontade, o corpo de vocês é implacável. Uma menina vira mulher querendo ou não, e depois começa a contagem regressiva. O homem não. Vive e goza a passagem do tempo, e seu corpo começa a falhar bem mais tarde. Por isso as mulheres são mais sensatas, e muitos homens irão morrer adolescentes”.  O pensamento dele me deu duas orientações para a vida. A de que a sensatez das minhas escolhas terá de ser minha, e só minha. E também de que alguns homens vão morrer adolescentes, a despeito de a gente optar dar ou não dar de primeira. E se não conseguir diferencia-los logo de cara, se permita não errar duas vezes.

Ah, e só pra que fique bem claro o que hoje sei. Marquinhos, se você estiver lendo esse texto: A MÃO É MINHA E EU DOU ELA PRA QUEM EU QUISER.


 

Fim da sessão.

Pegação ou não pegação, eis a questão.

Durante a Copa do Mundo tive o deleite, e por horas, o desprazer de aproveitar o maior evento esportivo do ano no sul do país. Copa do Mundo em terra de macho.  Ora mas que diferença do restante do país isso tem?! A repercussão da diversão das “gurias”.

“Grupo de gaúchos assediam suíças durante a ‘Copa da Pegação’”.

Vocês não viram essa matéria? Não? Nem a foto de gaúchos machos “pegando geral” na capa de alguns dos principais sites de “notícias”? Não viram? E sabe por quê? É porque estas matérias nunca foram escritas. Não é pauta importante dado o fato de que a azaração masculina é socialmente tolerável e esperada.

Agora pinte um cenário diferente. Coloque mulheres nas ruas, fazendo, sim, algum esforço para conhecer e interagir com nossos visitantes. Pronto! O assunto vira capa de jornal. Comentários como “papa-gringo”, “Maria-Passaporte”, ou “não se dão valor” começam a pipocar nas timelines mais afetadas do Facebook. Fala sério!

Confesso e desabafo. É muito tupiniquismo da nossa parte criticar a mulherada que está na rua investindo em conhecer gente nova, num grande evento que trás o mundo pro nosso quintal, quanto é completamente aceitável que eles façam o mesmo. Não, lamento, mesmo não, não me lembro de ter visto nenhuma menina passar a mão na bunda ou agarrar as bolas de alguém. E eu tenho que ler “jornalistas respeitáveis” ou conhecidos “esclarecidos” derramar suas limitadas percepções de como devemos ou não devemos nos comportar? Não. Nem se vocês pagassem os meus boletos. Quanto menos não pagando.

Mas o tema ganhou minha atenção principalmente pela falta de percepção de mundo que as críticas carregavam. Viajei uma parcela razoável da minha juventude pra dizer que em qualquer lugar do mundo, uma viagem é motivo de diversão, azaração e sim, interagir, beijar, curtir, afofar pessoas de outras nacionalidades. Isso não é mérito (ou demérito) das gaúchas. Não, prezados, e se os críticos forem além das fronteiras de Quintão poderão ver que isso acontece em qualquer alta temporada de qualquer destino de férias do Ocidente ao Oriente.

Mas esqueçamos do resto do mundo, vamos focar em Pequenópolis, o assunto é o assédio feminino das gaúchas. Oh meu Deus, segurem essas malucas. Sério? Vou dizer o que vi. Vi muitas meninas puxando assunto com os chamados gringos. Sim, tomando iniciativa, e daí?! Praticavam o inglês, alemão e juro que vi o francês quase rolando. Explicavam a situação política do país entre uma cerveja e outra. Cerveja que elas mesmas bancavam para si. Apresentavam outras amigas e amigos, mostrando quem podia falar inglês para potencializar a diversão. Ensinavam o nosso samba. Sugeriam bares e restaurantes imperdíveis da capital. Horas e horas de conversa antes de um possível, mas nem por isso obrigatório, romance temporário. Claro, também vi as afobadas, afoitas e entusiastas. Mas elas não eram maioria.

Meu lado investigativo me deixou inquieta. Não satisfeita apenas com o meu ponto de vista e com medo de minhas amigas não aguentarem mais a minha revolta com o tema, achei que era hora de pesquisar o assunto com o objeto “abusado”. Dediquei algumas horas, entrevistando voluntários em uma providencial mesa de bar de um hostel. Perguntei da forma mais neutra que encontrei sobre suas percepções e sentimentos quanto ao assédio feminino. Pouca ou quase nenhuma reclamação. Dois dos entrevistados que apareceram pedindo para dividir a mesa conosco eram tudo o que eu queria para testar minha teoria, espécimes de incontestável beleza e dignos de arrancar suspiros de uma torcida inteira, e nem os seus chamativos 1,90m de loirisse australiana e alemã reclamaram. Amigáveis, solícitas, simpáticas, confiantes, sim. Abusadas, não. Quando disse que o assunto tinha atingido a mídia, todos se espantavam “a Copa do Mundo é aqui, e o assunto são as pessoas se beijando?”. Ah pois é, tem beijo na boca que deve incomodar muita gente. Suspeito que principalmente aqueles que não conseguem um, mas que mereciam beijinho bem dado, no ombro, pro recalque passar longe, já diria a grande filosofa.

O que levo desta experiência vai muito da disputa entre certo e errado, mas sim um estudo sobre a importância do timing. Se nós somos afobadas, entendam que isso vem de origens mais profundas do que a pressa de aproveitar tudo que a Copa do Mundo tem a oferecer. Vem também da pressa com a qual nós nos relacionamos neste pedaço de chão, e como acontece a grande maioria dos assédios que sofremos. “Oi! Prazer! Vamos ficar?”. Calma. Eu falei maioria, não totalidade. E é o timing, meu caros, que está sendo o principal motivo do interesse das gaúchas (não posso falar da totalidade do Brasil) naqueles que vem de fora. Eles têm timing ponderado. Ninguém tá com pressa de sair beijando, ninguém pega na sua mão ou puxa seu cabelo, te chama de gostosa ou grita “êhhh lá em casa!”. Somado ao timing do abordagem, as interações que presenciei tiveram também um timing de pós-venda bem inteligente. Não se esperou quatro dias (ou uma vida) pra fazer contato de novo. Mesmo com a grande possibilidade de este contato ser pra sempre à distância.

Então, Copa do Mundo: Pegação ou não Pegação, eis a questão. Na visão desta árbitra, Porto Alegre apresentou uma seleção digna de ir pra final. Com mulheres de inglês afiado, educadas e surpreendendo os visitantes quanto à desenvoltura e colocação no mercado de trabalho. E se mesmo apresentando uma tática inteligente de jogada, com equilíbrio entre ataque e defesa, vai ter gente na torcida vaiando dentro do nosso estádio, ou esculhambando o time todo porque um atacante afobadinho cometeu uma entrada dura no time visitante, não desanime.

Lembre-se que só faz história quem tá em campo pra jogar. E a gente já ficou tempo demais achando que futebol era diversão só pra homem.


COPA

Fim da sessão.