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Não diga “eu te amo”, diga “vamos viajar”.

Já faz algum tempo que viajar mudou a minha vida, como poucas coisas neste mundo conseguiram. Eu sei, oportunidades de emprego são maravilhosas, conquistar algum poder aquisitivo também, um pedido de namoro é algo especial, mas nenhuma destas conquistas fala tanto com o meu coração cigano, quando um convite para pegar a estrada.

Eu fui do tipo de viajante dita “loba solitária”. Não que eu não quisesse ninguém comigo, do contrário, eu viajei muito sozinha justamente para me pré-dispor a conhecer pessoas. O fato de botar a mochila das costas e marcar um encontro com o mundo proporcionou-me conhecer algumas das pessoas mais fantásticas que tive o prazer de cruzar. E eu celebro os amores e amizades que espalhei por aí até hoje, num misto de saudade e euforia a cada novo contato.

Mas algo sobre convidar alguém para viajar faz o meu estômago dar cambalhotas e cair em espacato. Primeiro porque viajar é um ato que por si só exige muita coragem. Você sai da zona de conforto, e isso exige todo tipo de preparo mental para os perrengues do caminho.  Viajar acompanhado exige um preparo ainda maior. Sim, porque você se vê obrigado a discutir como resolver cada situação e concordar com as soluções necessárias a cada novo dilema. É como consertar a roda da bicicleta enquanto anda nela. Viajar acompanhado é abrir mão do que “EU” quero fazer, e achar harmonia no que “NÓS” iremos fazer. E para uma viajante independente como eu, abrir mão de algo no momento mais egoísta da vida – aquele tempo que eu tiro para desbravar o mundo – é o maior ato de altruísmo que alguém pode esperar de mim.

A exemplo das maravilhas de dividir estes momentos, eu posso citar a sensação maravilhosa de chegar numa praia nunca explorada antes e olhar para o lado e ver a boca cheia de dentes de uma melhor amiga no maior sorriso do mundo. Talvez o sorriso seja mais belo que a própria praia. Dividir a cama de um hostel com aquela sua outra amiga que fez questão de te encontrar num pais distante (mas que esqueceu de fazer uma reserva) pode ser considerada uma forma de amor também. Segurar na mão de alguém enquanto admira a vista de uma alta colina na Escócia tem o mesmo frisson de um orgasmo. Beijar sob luz das estrelas e ver acompanhada o sol nascer na ilha grega de Ios, é uma memória que jamais vai se esvair da minha mente.

Então perceba que viajar é um ato de amor próprio. E dividir esses momentos especiais é algo sublime.

Na semana passada eu me despedi de alguém que conquistou rapidamente um lugar no meu coração. E como eu sou masoquista fui até o aeroporto dizer o meu “até breve”  – aeroporto, aquele lugar que sozinho já me desestabiliza. E nesse exercício de ir embora e deixar ir embora, eu fiquei para trás no portão de embarque lembrando-me de tanta gente que amo e que em algum momento já se despediu de mim. Naquelas despedidas, me dei conta que muito mais do que dizer “eu te amo”, eu dizia “te espero lá, vem viajar comigo”. Era esse o meu jeito de dizer que amava – provando que eu estava disposta a dividir o melhor do mundo com aquela pessoa – seja ela pai, mãe, irmãos, amigas, amores.

E isso aconteceu comigo mais uma vez nesta semana, mas desta vez eu estava do outro lado da mesa da proposta. Lá da Austrália, eu ouvi a minha frase preferida “ei lindona, vamos viajar, vem pra cá passar um tempo comigo”. Pronto! Talvez um convite de casamento não tivesse me arrancado uma euforia maior. Comuniquei uma amiga sobre a proposta, e ela disse “vem pra cá mesmo, eu te ajudo com a passagem”. Eu tive dois convites de amor em um mesmo dia. Eu pude jurar que eu era a garota mais sortuda do mundo.

Não sei o que acontece com o meu peito nômade, mas essa proposta tem um poder sobre mim como nenhuma outra. Talvez porque eu sei que viajar junto dá trabalho. Ou porque eu tenha certeza que as memórias de uma viagem são intensas, especiais e marcantes. Ou simplesmente porque o meu ideal de relação envolva justamente a ideia de alguém querendo me entregar o mundo, de celebrar meu anseio por liberdade e de querer me ver dançar a alegria de conhecer novos territórios. Pode ser que seja porque eu sou a melhor versão de mim com uma mochila nas costas, e o amor seja mais convidativo. Ou apenas porque eu sou louca por viajar e nenhuma outra analogia seja necessária.

De qualquer forma, não importa se a viagem é até a praia logo ali, ou se o convite é para atravessar o mundo. Eu não me preocupo se um lance é um lance, ou se vai ser romance. O convite não precisa vir de um amor arrebatador, pode ser um amigo, ou alguém que tenha saudades. Amor para mim fica óbvio com a sugestão de visitar essa minha velha amiga chamada estrada. Receber um convite meu para uma viajem, é, sem dúvidas, ter a oportunidade de ocupar o lugar de maior prestígio na minha vida. Não precisa de promessas de amizades eternas, juras de amor, alianças ou outras provas tradicionais de carinho.

Só dois passaportes e o mundo.

Então se quiser provar que ama um viajante, não diga “eu te amo”. Diga “vamos viajar”. Eu tenho certeza que ele vai amar e arrumar as malas correndo. E neste caso, não responda “eu te amo também”, diga “eu estou indo!”.

Fim da sessão.

Cinderela Americana – uma opereta croata

9:45 os motores da balsa ligam. Tempo estimado de chegada em Dubrovnik: 18:45. Faça as contas.

Era a minha segunda parada da Croácia, após o que foi um sonho chamado Jelsa (que merece um capitulo a parte). Frustrada com a perda do meu bilhete de railtrain que valia 550 euros e representava o meu passe-livre pela Europa, achei uma cadeira naquela balsa para dormir um pouco, e assim fingir por um minuto que não tinha perdido meu principal documento naquela viagem que estava apenas na metade. Uma menina com a pele naturalmente bronzeada e olhos de oliveiras me pergunta se pode sentar-se ao meu lado. Eu concordo, viro-me para o outro lado e desmaio em sono profundo.

O sol do meio-dia me desperta. Eu estava prestes a fechar as cortinas, mas a vista era surpreendente demais para ser ignorada.  Montanhas enormes de rochas brancas, pequenas ilhotas e as águas do mar verde-azul brilhante. Mihaela, a bela garota croata sentada ao meu lado, sorri para a minha cara de sono. “Você gosta?” – referindo-se a visão da janela  “O que não amar nesta vista?!”  respondi atônita.  Pegamos-nos a falar e assim descobri que Mihaela morava em Dubrovnik e trabalhava como fisioterapeuta em Split. Pensei comigo que se ela vivia na maravilhosa Dubrovnik, onde diabos ela devia passar as férias.

Mihaela concorda em vigiar a minha mochila enquanto eu desfrutaria de algum bronzeamento no convés superior. No convés tento adiantar o meu livro, curto um pouco o sol e logo fico entediada – como é esperado após 6h no mar. Mas não por muito tempo. De repente, eu vi esse cara que surpreendentemente preenchia todas as aspirações da minha lista de desejos: cabelos loiros que refletiam de volta para o sol, barba por fazer, queixo quadrado, sorriso largo, abdominais meticulosamente trabalhados e uma pele levemente dourada.  Eu precisava de água. Gelada.

Percebi que aquele deus saído do Olimpo estava com outros três amigos, e como eles estavam sentados ao meu lado, pude perceber que eram americanos. Como Dubrovnik era um dos poucos destinos da minha viagem que eu não tinha reservado alojamento, pensei que seria uma boa ideia verificar onde eles estavam hospedados. Descubro que o grupo era de Chicago. Depois de pegar duas indicações de alojamentos, despedi-me de forma ponderada (apesar do coração palpitando lhufas ao lado do loiro-cor-de-sol) agradecendo as indicações.

Chegando ao porto, Mihaela me mostra algumas casas interessantes pela costa, como uma casa com um elevador de vidro de frente para o mar e outra com um aquário de crocodilos (sim, porque não basta morar em Dubrovnik…) e uma pequena praia deserta onde Mihaela tinha dado seu primeiro beijo. Anotei o e-mail da bela croata no meu livro, torcendo que ela arrumasse um tempo naquele final de semana para um drink.

Despedi-me de Mihaela  e me dirigi ao ponto de ônibus. Uma longa viagem de ônibus lotado depois, chego a Cidade Velha de Dubrovnik. Bato perna por longos minutos pedindo orientações sobre alojamento e nada. Nenhuma chance de uma cama. Frustrada e cansada, me dirijo ao escritório de turismo da cidade quando dou de cara com os americanos novamente. Desculpei-me afirmando que eu não estava seguindo eles, mas que talvez seria uma boa ideia acompanhá-los para verificar a possibilidade de um quarto no hostel deles. Felizmente ao chegar ao nosso destino, o anfitrião gentil e engraçado do local arruma um quarto para mim. Iniciamos bem.

Mochila no chão, banho no corpo, e eu estava na rua para verificar a Cidade Velha. Perdi-me sem rumo nas milhares de arruelas de  Dubrovnik, até chegar a um bar chamado Buza bem em tempo de desfrutar a minha parte favorita do dia: o pôr do sol. Todas as cores lindas do céu, escondendo-se por de trás dos muros enormes de pedra e deitando-se preguiçosas sobre o mar. Percebi também que havia um lugar maravilhoso para saltar na água, e eu fiz uma nota mental para voltar no dia seguinte para um mergulho.

Presenteei-me com um delicioso macarrão para o jantar – o mar entre a Croácia e a Itália, obviamente não era suficiente para mantê-las separadas, já que a maioria dos restaurantes da cidade eram italianos. Cheguei ao alojamento a tempo de conhecer minha nova companheira de quarto. Uma gatinha, que fez questão de dormir dentro da minha mochila. Adormeci entre o ronronar da bichana e as ondas batendo nos rochedos do forte de Dubrovnik.

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No dia seguinte, começo cedo. Alugo um áudio-guia e passeio por toda a cidade, aprendendo  sobre as histórias de batalhas, inovações (primeira farmácia na Europa), ofertas de diplomacia, incêndios e os terremotos de Dubrovnik. Como é que este lugar sobrevivera a tantas lutas e tragédias e ainda assim parecia intocado?  Uma parada para um banho de mar azul anil era perfeito para tirar o cansaço da longa caminhada da manhã. No mar conheço garotas divertidas de Marrocos, que resultou na troca de contatos e um happy hour agendado para mais tarde. No porto velho, me sento em uma das peixarias tradicionais para um almoço rápido – peixes frescos fritos, com muito limão siciliano. Ahhh como eu queria ser Mihaela e morar ali pra sempre.

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Descansei minha preguiça depois do almoço ao lado do porto onde se banham os moradores da cidade. Tomei o meu tempo ao sol, enquanto apreciava o mar lambendo os dedos dos meus pés e deixei a vista massagear meus olhos com suas belezas. Percorri todo o caminho das muralhas da cidade, contando a minha sorte em cada tijolo. Antes de ir de volta para o alojamento, uma parada rápida na delegacia – sim, porque é bem coisa de Antônia precisar fazer uma B.O. da perda de passagem de trem para talvez conseguir acionar o meu seguro.  A aventura burocrática começa. Ninguém na delegacia fala inglês. Ótimo. Converso com um cara que sabia dizer algumas palavras. Papel e caneta e lá estou eu, do outro lado do mundo, escrevendo o meu próprio relatório policial em inglês. Entrego-o a um dos oficiais. 40 minutos e 20 kunas (algo como £ 3) mais tarde, eu finalmente tenho a ocorrência registrada conforme desejado. Bem, não exatamente. O relatório me é entregue em croata. O que diabos eu podia fazer com uma ocorrência policial em croata?

No alojamento, tento traduzir a ocorrência de croata para inglês na internet, quando ouço os americanos pedindo ao nosso anfitrião informações sobre o horário do ônibus para Split, lugar para onde eu voltaria. No meu caminho até a rua para fumar um cigarro, entreguei aos meninos o cronograma de horários de ônibus que tinha encontrado no meu quarto na noite anterior. Pedi o cronograma de volta quando eles terminassem de consultá-lo, para que eu organizasse a minha partida no dia seguinte, também de ônibus, já que sem o meu bilhete de railtrain, voltar de balsa seria muito caro.

De volta ao meu quarto tento contato com as meninas de Marrocos, mas sem sucesso. Quando eu estava aceitando outra noite tranquila com a Nik (a gatinha de Dubrovnik), alguém bate na minha porta. Por de trás da minha porta surgem aqueles grandes olhos azuis e o cabelo loiro-cor-do- sol. Ele me entrega o cronograma do ônibus em meio a um largo sorriso e me agradece. Antes de sair do meu quarto, me pergunta se eu tinha planos para aquela noite, e se eu gostaria de jantar com ele e seus amigos em meia hora. Agradeci-lhe educadamente, mas disse-lhe que eu já tinha comido. “Bebidas então?” – sugere. Como dizer não pra alguém que brilha como o sol? “Claro, me avisem quando saírem”.

30 minutos mais tarde, quatro rapazes estavam prontos para jantar ao lado da minha porta. Pergunto ao loiro se o convite ainda estava de pé, e ele faz uma cara de pensativo e dá uma piscadinha. Amoleço discretamente (assim espero). E foi assim então que eu conheci oficialmente Luke (também chamado mentalmente por mim de “blondie”, loirinho), Nick, Matthew e Tyler.

A partir dali foi uma noite de jazz e conversa fiada. Passeamos de bar em bar, e concordamos que Dubrovnik apesar de incrível, era uma cidade de noite pacata e destino de férias de muitos casais. Sugiro então pub irlandês ao lado do nosso alojamento. Afinal, sabia pela minha experiência com os irlandeses, que o pub não nos decepcionaria. E não decepcionou. Lá, doses cavalares de cerveja, muito bate-papo, e nossas listas de TOP-5 de pessoas com quem transaríamos – e uma pausa enorme para todos rirem da minha atração por Vin Diesel (me julguem!).  Bombas de Jägermeister  (RedBull + Jägermeister), e pronto, finalmente tínhamos uma festa.

Horas mais tarde, o pub irlandês finalmente nos expulsa e seguimos em direção ao alojamento assumindo a nossa derrota. Luke sugere mais uma cerveja que ele tem em seu quarto, mas os outros estão muito cansados e desistem. Permaneço em silêncio tentando não ser sempre a última dos moicanos da noitada. Um cigarro depois, Matthew, Nick e Taylor dizem boa noite, Luke e eu ficamos para mais um. Sentados nas escadas de pedra da Cidade Velha, conversamos sobre o gosto de Luke por drinks tipicamente femininos e seu novo apelido, “blondie”. Ele ri e diz que gosta de como eu sou direta e digo tudo o que eu penso (rio sem graça, já que aquilo nunca tinha me sido dito como um elogio).

Ele então sugere uma última cerveja,  e eu concordo. No meu quarto a cerveja dele brindou a minha pequena garrafa de absinto de Praga. Luke me contou sobre suas lutas greco-romanas, o quanto ele gostava de tocar guitarra, e sua futura carreira como um consultor. Nós mostramos nossas playslists mais tocadas, ele me apresentou sua banda favorita. Todo o tempo eu não pude deixar de sorrir olhando para a luz da lua cheia que entrava pela minha janela e refletia nos belos olhos verdes-azuis dele. Assim como o mar croata. O resto da noite… bem, isso fica entre o Luke, eu e a lua cheia.

Na manhã seguinte, levanto cedo para pegar o ônibus de volta a Split. Arrumo tudo correndo, e percebo pertences que não são meus. Um par de tênis.  “Luke”, penso imediatamente. Mochila nas costas, deixo o par de tênis no corredor em frente a sua porta, com um bilhete de despedidas.

Achei que Cinderela deixava apenas um dos sapatos. Foi um prazer, blondie. Até a próxima. Beijos, Antônia”.

Pé na estrada de novo .

Não quis me despedir pessoalmente do Luke, ainda que tenha o beijado longamente antes de ele ir para o quarto dele na noite anterior. Abri mão do “bom-dia” constrangido, daqueles de quem se divertiu na noite anterior, mas não tem intimidade suficiente para admiti-lo. Preferi guardar o Luke na minha memória, sob a luz da lua e promessas de reencontro. Talvez em outro lugar com um mar tão lindo quanto o de Dubrovnik, para combinar com os seus olhos azul-Adriático.

Peguei o caminho triste da estação de ônibus, triste como nunca em toda a minha viagem. Eu tive que deixar a Croácia, e toda a diversão e belezas  pra trás, rumo ao meu infortúnio destino de voltar para Londres, já que sem meu bilhete de trem, não poderia seguir viagem.

No porto de Split decidi que não faria mal verificar qualquer novidade no escritório que já havia me confirmado por telefone nunca ter encontrado o meu bilhete. Ainda que tivesse sido o último lugar que lembrava de ter pego o maldito bilhete de railtrain. Lá expliquei a menina a minha situação, dei-lhe meus dados e ela logo começou a procura-lo ao redor das mesas e prateleiras, sem sucesso. Batendo a cabeça na parede do escritório, eu estava prestes a dizer a menina para não perder o seu tempo, quando a sorte bateu na minha cara – literalmente. Fixado na mesma parede em que eu batia a cabeça, em frente aos meus olhos, estava o bilhete perdido. Eu não podia acreditar! Agarrei o bilhete e a menina, e rodopiei ambos no ar em euforia.

Com meu bilhete e passaporte na mão, peguei o ferry rumo à Itália. Atravessando o Mar Adriático no deck superior dei adeus à Croácia e seu pôr do sol rosado, agradecendo o país por ter sido tão generoso comigo, enquanto encarei incrédula a beleza do sol se pondo pra mim atrás de suas montanhas pela última vez.

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Bem. Pelo menos até a próxima vez. 😉 Hvala, Croácia. Hvala.


Fim da sessão

ps: A ocorrência em croata está emoldurada e pendurada no meu quarto. Um lembrança do meu talento para o drama e da minha sorte.

O muro e eu

Quando decidi fazer as malas e viver no velho mundo, o que sempre me atraiu foi a história. Eu queria andar nas ruas onde se passaram revoluções, respirar ares de onde fatos marcantes aconteceram. Eu sabia que para tal, não bastava apenas vagar por arruelas importantes, devia reconhecê-las. Entendê-las. Estudá-las. Assim, quando finalmente decidi retornar ao Brasil, não podia fazê-lo sem o tão sonhado mochilão pela Europa. Reservei 60 dias para a estrada, fiz meu roteiro e cai nos trilhos do trem acompanhada apenas de coragem e minha aguçada curiosidade. O plano era simples, conhecer lugares lindos, encontrar gente divertida e, de quebra, aprender um pouco sobre o caminho. Baixei todos os guias de áudio do Rick Steves no meu celular, comprei os guias mais recomendados, tracei alguns objetivos e achei que estava pronta para aprender. Amsterdã e Bélgica foram as primeiras cidades da Eurotrip, e rapidamente percebi que estava alimentando-me mais de spice cake e cerveja belga do que conhecimento. Achei que dali pra frente a viagem ia ser ladeira abaixo, exclusivamente na avenida da diversão. Mas então veio Berlin.

A Alemanha não estava nos meus planos inicialmente, dado alguns pré-conceitos bitolados que sempre tive com os alemães. Quando escolhi Berlin, queria apenas ver o muro. O famoso muro de Berlin. O muro que caiu dentro de mim, entretanto, foi imensamente maior a parede de tijolos que eu visitara. Eu perdi a minha inocência em Berlin. Na capital alemã eu entendi de fato o que era maldade – eu nunca estivera exposta a tanta maldade. Eu me aprofundei na história sentindo uma dor jamais sentida antes. Dor de perda. De injustiça. Eu senti raiva andando nas ruas, raiva da história, antes vista bem de longe nos livros da escola. Da minha sala de aula ou sala de casa, eu não sentia o vazio no peito enaltecido pelo monumento Neue Wache. Do conforto da minha casa não sentia o vácuo das prateleiras no subsolo da praça em frente a Humboldt University, onde “livros ofensivos” aos olhos do nazismo foram queimados. Eu nunca havia imaginado que a genialidade de Albert Einstein e a intolerância de Hitler haviam dividiriam o mesmo cenário. Ali – naquele momento, entretanto – eram apenas prateleiras vazias. Sentimento de vazio. No Jewish Museum relembro como se fosse hoje o mal estar de caminhar sobre rostos de metal no chão de uma das instalações do museu, sentindo a insegurança dos passos e a ignorância de quem pisa em alguém.

antônia no divã - jewish museum

No Checkpoint Charlie, aprendi sobre o poder da propaganda no que foi o maior genocídio da história da Europa. Nunca, em toda a minha faculdade de publicidade e propaganda eu havia mensurado o poder de uma campanha. Berlin jogou verdade na minha cara como um soco reto. De como o ser humano pode ser irracional, cruel e devastador. De como a história respira viva acima de tantas mortes.
Lembro-me de reparar em uma fachada de um prédio todinha furada de tiros, quando perguntei confusa para a alemã que me acompanhava “por que não arrumam a fachada?”. E com uma dureza melancólica no olhar ela disse: “Para nos lembrarmos do que aconteceu aqui. É do aprendizado fortalecido pelas memórias do passado que aprendemos a fazer um futuro melhor”. Berlin me ensinou a ter memória, e respeito pelos erros cometidos. Mostrou-me a não esconder as cicatrizes e aprender com elas.

A cidade obviamente tinha mudado muito desde a queda do muro, eu agora sabia. Se tornara receptiva, colorida, moderna, uma cidade vibrante. Mas Berlin era mais do que um destino turístico, com delícias como pretzels, bier e sausages. Era um marco dentro de mim. Um muro que caiu. Arrancou-me com as unhas o meu preconceito. Mostrou-se um lugar com respeito pela própria história, que não esconde ditadura nenhuma embaixo do tapete. E que seguiu em frente evoluindo dos destroços e dos horrores dia a após dia. Depois de Berlin, viajar se tornou um ato não apenas de autoconhecimento, mas de profundo conhecimento do mundo em si.

Depois de Berlin vieram muitas outras lições. Em Istambul me senti invadida por homens que nunca me olhavam nos olhos, mas encaravam meus peitos e pernas sem nenhum pudor. A burca em si me pareceu um paradigma tremendo entre a invasão e proteção. A mesma Istambul que me fez ter vontade de vestir a burca, me deixou nua em frente a uma mulher desconhecida (e também nua), que me deu o fomoso banho turco sem qualquer constrangimento. Eu, que não tinha sido banhada por outra mulher há mais de 25 anos, e muito menos por alguém que não fosse a minha mãe. E aquela turca o fez, com carinho de mãe, lavando meus cabelos, ombros, peitos e pernas, cantando uma canção tranquila que ecoava no teto em cúpula daquele lugar tão sagrado e feminino.

Na Croácia aprendi o valor de almoçar entre família embaixo de um parreiral de uvas, e de assisti uma missa inteira,  em croata – fazia anos que eu não almoçava em família, e muitos outros que não ia à missa. Nunca em croata, óbvio. Em Roma aprendi que não se pode tomar banho em fontes públicas e que devo manter meu pudor dentro do Vaticano. Em Munique conheci o prazer de ser recebida de portas abertas na casa de alguém que nunca vi antes, e que não me pediu nada em troca através do Couchsurfing – projeto lindo para quem quer receber visitantes no mundo inteiro em seu sofá.

Anos depois veio a Tailândia, onde entendi que não podia imitar poses de budas, pois me ofenderia se alguém entrasse na minha igreja e tirasse fotos fazendo a pose de Jesus Cristo crucificado. Aprendi a respeitar o silêncio dos templos. E que os tailandeses por vezes têm a sinceridade de uma criança, dizendo na porta de suas lojas, antes que você entrasse, que eles não tinham tamanho de roupa para você, e que você deveria parar de comer – assim, normalmente, como quem dá um conselho a uma amiga. Lá, eu também reforcei meu respeito pelas forças da natureza, em lugares destruídos e rotas de fugas para tsunamis. Reforcei meu respeito pela superação e sobrevivência em cada cidade reconstruída que visitei. E hoje torço que o mesmo aconteça com o Nepal.

Neste ano visitei a Austrália, e me comovi com a história dos povos indígenas/ aborígenes, enganados e comprados pelos povos europeus, e deslocados até hoje dentro de suas próprias terras. Da mesma forma como na história nada diferente dos Pataxós, Xavantes, Tupiniquins, e outros tantos no Brasilzão que eu, descendente de Italianos, chamo de lar. Na mesma Austrália aprendi que a submissão à Inglaterra é fortalecida pela insegurança de uma possível guerra. “Mas acho improvável uma nova guerra…” justifico meu desentendimento quanto a preocupação do australiano com quem conversava. “Talvez você devesse visitar o Oriente Médio então” ele respondeu com um olhar cético. Vejo hoje que foram tantas lições e lugares diferentes, que cada carimbo no meu passaporte, era outro mais profundo na minha alma.

Então perceba, não estou aqui mais uma vez pregando que é preciso ir embora (mas é!), para que você aprenda as lições da vida. E nem  dizendo que minhas andanças pelo mundo não foram banhadas a cerveja e noites mal dormidas dividindo beliches. Não é isso. O que analiso nesta sessão é a importância de não andar por aí despropositadamente. Ou como disse Dan Brown em O Simbolo Perdido, de que  “Viver no mundo sem tomar consciência do significado do mundo, é como vagar por uma imensa biblioteca sem tocar os livros”. O que reconheço aqui é o poder e o privilégio de realmente viver as ruas que recebem nossos passos, sejam eles aqui, Pindamonhangaba ou no Azerbaidjão. É preocupa-se em conhecer o mundo que foi ontem, que é hoje, para que os muros da incompreensão e intolerância não se levantem, e caso se levantem, que sejam derrubados. Aqueles muros que você mesmo construiu em volta de si, sabe?

“Berlin wird leben und die, mauer wird fallen”

 

“Berlim vai viver e o muro vai cair” – disse Willy Brandt, prefeito da cidade no ano em que o muro foi derrubado.

Então faça o mesmo. Derrube os muros.

antõnia no diva - muro de berlin


Fim da sessão.