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Negra, poderosa e politizada | Coisa de Antônia

Ok, que Beyoncé arrasa, ninguém discute. Mas aí veio o 50° Super Bowl, e a coisa foi elevada a um nível em que até os conservadores tiveram que engolir a diva pop. Não por causa do carão e da caminhada baphônica. Não. Mas porque Bey ousou esfregar na cara dos Estados Unidos em seu principal evento esportivo, que o racismo merecia atenção. Não está sabendo da polêmica? Ficou vendo a Mangueira entrar e perdeu Queen-B sambando na cara dos preconceituosos? Não tem problema, aqui está a apresentação histórica de Beyoncé no Super Bowl de domingo (07/02):

Essa não foi a primeira ocasião em que Bey levantou uma bandeira politizada. Antes disso Queen-B já defendia o feminismo com suas letras empoderadoras e muita atitude. E se falar sobre feminismo já tinha dado pano pra manga, tratar da questão racial foi uma atitude digna de uma guerreira da terra dos livres e lar dos bravos. O single “Formation”, lançado apenas 1 dia antes do SuperBowl, chamou a atenção do mainstream para as questões raciais existentes no país, como o uso de violência policial contra comunidades negras. Mas Beyoncé não vai lá e simplesmente dá o recado – ela canta, grita, repete, desenha e dança a sua mensagem no maior evento televisionado da América do Norte. A apresentação no Super Bowl foi executada com perfeição em suas inúmeras referências culturais, além de dar um show de semiótica, com declarações menos óbvias e ainda assim, cruciais.

Durante a apresentação, assistida por 115 milhões pessoas, as bailarinas de Beyonce desfilaram um figurino inspirado na organização Panteras Negras, organização fundada em 1966 para proteger moradores dos guetos negros da Califórnia contra a brutalidade policial. O grupo, assim como o Super Bowl, comemora 50 anos de história em 2016. A coreografia não ficou para trás no simbolismo, quando em dado momento as bailarinas posicionam-se em formato de “X” no gramado, em uma referência ao líder negro Malcom X, que lutou pela aprovação da Lei de Direitos Civis que apoiava o fim da segregação racial e do linchamento dos negros. Beyoncé dançou orgulhosa com um figurino que remetia a outra grande referência da cultura negra, o Rei do Pop Michael Jackson, que se apresentara no mesmo evento em 1993.

O show do intervalo do Super Bowl, entretanto, era apenas extensão do soco que foi o vídeo clipe da mesma música. Lançando na véspera do Super Bowl, o vídeo de 5 minutos mostra imagens do descaso com a população negra de Nova Orleans e as consequências do furacão Katrina de 2005, como também referências aos protestos do movimento Black Lives Matter”, que balança os EUA há um ano e meio, desde a morte do adolescente Michael Brown. Para quem não se lembra do caso, Brown estava desarmado e foi morto a tiros por um policial em Ferguson, no Missouri, e o processo resultou na absolvição do policial. Casos similares ao episódio de Brown aconteceram posteriormente em outras cidades norte-americanas, sem nenhuma apreensão ou desqualificação de membros da polícia.

Em uma das imagens mais fortes do clipe uma criança dança em frente a policiais que se “rendem”, enquanto um muro pichado surge com a mensagem “parem de atirar na gente”. Martin Luther King aparece na capa de um jornal com a manchete “Mais do que um sonhador”, em referência ao famoso discurso “I Have a Dream”. O clipe traz ainda a valorização dos traços da cultura negra, com cabelos “baby e afro” e “narinas de Jacksons 5”, e nos leva a um passeio sombrio às fazendas escravocratas norte-americanas. Cada detalhe colocado com precisão cirúrgica para balançar qualquer fagulha de preconceito existente. O clipe incomodou tanto os grupos conservadores americanos, que eles iniciaram um boicote a Queen-B alegando que ela teria feito uso de um espaço midiático americano para vender uma bandeira “pessoal” e de que a mesma estaria invocando a população contra as forças policiais. Políticos alegam que Beyoncé não tem propriedade para falar do assunto (apesar de ser negra, com pais oriundos de cidades escravocratas como Luisiana e Alabama). E a polêmica segue desde domingo incendiando os noticiários do país (e fora dele), neste que é o mês da História Negra nos EUA – e que provavelmente não teria tamanha repercussão, não fosse por “Formation”.

Então perceba que esta podia ter sido só mais uma apresentação, só mais um clipe, ou só mais uma música, mas Beyoncé se aproveitou do timing para promover a discussão e fez de sua música um hino de empoderamento de uma minoria. Um posicionamento que reforça outra polêmica sobre o mesmo tema envolvendo a 88ª cerimônia de entrega dos Academy Awards, o Oscar (28/02), que neste ano conta com sua primeira presidente negra, e nenhum representante negro entre os nomeados a estatueta. Ou seja, eventos que convocam o público a pensar sobre forças (declaradas ou sutis) que tentam inferiorizar a cultura afro-descente em qualquer posição social. Precisamos falar de Formation e Beyoncé porque tratar-se de um marco na cultura pop que promove o fim das antigas/atuais amarras do preconceito.

Mas quem sou eu pra falar disso, apenas uma garota branca de classe média, que nunca sofreu racismo na vida? Sim, eu mesma. E eu uso este espaço para falar disso porque hoje acredito que não preciso ser negra para entender a importância deste movimento, visto que me basta empatia para fazer questão de apoiá-lo, promovê-lo. E o que você tem com isso? Bom, você mora no país dos Amarildos, que são alvejados e torturados diariamente, tal como o caso de Ferguson. Onde a maior representatividade de destaque da cor negra é encontrada no futebol, em meio a cachos de banana atirados no campo. País em que um pai é criticado por fantasiar o filho de Abu (macaco e melhor amigo do personagem Aladdin da Disney) mas não é aclamado por tê-lo adotado (67% das crianças na filha de adoção são negras e pardas). Então, meus lindos, precisamos todos falar de racismo.

Claro que Beyoncé deu um show de entretenimento no Super Bowl, mas ela arrasou mesmo foi cutucando o preconceito. Então palmas pra ela que é negra, poderosa, politizada e deu voz para esta causa. E pode chorar e boicotar quem achou ruim a atitude dela. Convenhamos que se a gravidade não derruba a abelha rainha:

O preconceito e o conservadorismo é que não vão.

antonianodiva.com.br

PS: E tratando de polêmica, racismo e Super Bowl, Concussion (Um Homem entre Gigantes) estreia dia 3 de março e promete dar o que falar.