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A filha de alguém

Quando eu tinha uns 9 anos, o meu primo de 14 me fez sentar no colo dele. Ele me disse que era a nossa brincadeira secreta, um “futebol humano”, jogo em que eu era a bola, e ele me segurava sentada bem em cima da cintura dele, antes de me lançar para frente como um jogador faz em um impedimento. Eu nem sabia o que era impedimento, e muito menos como impedir aquela brincadeira. Aconteceu uma vez só, e eu odiei como eu me senti. Contei para a minha mãe, que prontamente tomou as providencias. Deve ter conversado com a minha tia, pois o episódio nunca mais se repetiu. Hoje o meu primo tem uma filha menina. E fico pensando se ele teme que um primo também brinque com ela, do jeito que ele brincou comigo.

Quando eu tinha uns 12 anos, eu comecei a ouvir de um tio que eu estava ficando “gostosinha”. Eu não sabia nem da onde ele tirava aquela expressão, pois dos meus seios inexistentes e da minha cintura sem curvas não devia ser. Lembro-me do desespero da minha avó abotoando todos os botões do meu vestido, rapidamente depois do banho, porque mocinha não podia mostrar as costas. Não entendia como as minhas costas ofendiam a minha castidade, ou a religiosidade da minha avó. E muito menos, não entendia como os meus botões eram pecaminosos, enquanto todo mundo achava o apontamento do meu tio normal. “Vai dar trabalho essa minha sobrinha!”, ele dizia enquanto dava um tapa na minha bunda. Eu odiei todas as vezes que isso aconteceu, e meu pai, filho do patriarcado, achava que era só um elogio, enquanto a minha mãe bufava. Hoje meu tio tem uma filha menina, e fico pensando se ele gostaria que outro tio comentasse ~insistentemente~ como ela é “gostosinha”.

Aos 14 anos tive o meu primeiro namorado, cujo relacionamento tinha orientações claras da minha mãe para não evoluir em nada que eu me arrependesse, ou pelo menos, nada sem antes conversar com ela. A minha mãe nem imaginava que eu morria de medo de perder a minha virgindade, e por conta disso ela não precisava se preocupar comigo. Em um almoço de família na casa do meu namorado, o meu então “sogro” perguntou ao meu namorado se ele já estava “comendo essa vaca” na frente de todos os convidados. Todos riram, inclusive o meu namorado. Eu quis sumir pra dentro do meu hímen intacto. O meu sogro na época tinha uma filha um pouco mais velha que eu. Eu sempre me perguntei se ele se preocupava com o filho ou pai de outro alguém, comendo ou comentando sobre a virgindade da filha dele em um almoço de domingo.

Aos 21 anos eu tive o meu primeiro relacionamento abusivo. Ele gritava, humilhava, e ficava violento. Usava o meu dinheiro sem nenhum constrangimento – “depois eu te pago” ou “tu ganha mais, pode pagar pra nós dois”, eram as justificativas que eu ouvia. Quando ele não queria transar, alegava que eu estava ficando gorda, e eu, que começava a ter um corpo de mulher, tive a autoestima destruída. Eu me afastei das minhas amigas e da minha família por vergonha dos abusos constantes. Ele conseguiu me convencer que era a melhor pessoa do mundo pra mim. Roubou todos os meus sorrisos de conquistas, alegando que eu “sempre tinha que me aparecer”. Em certas ocasiões, ele segurou meu pescoço e torceu meu braço. Eu mesma me tornei arisca como um gato escaldado. Ainda assim, ele vivia me dizendo que me amava como ninguém. Foram anos de abuso ainda que eu fosse bem instruída, bem nascida. Tempos depois da minha libertação daquele relacionamento, descobri que meu ex tornara-se tio de uma menina linda. Desde então fico pensando se ele gostaria de alguém como ele para “amá-la como ninguém”, do mesmo jeito que ele me “amou”.

Depois de uma vida namorando, tive alguns momentos de solteirice, que me levaram a ter relacionamentos mais curtos e levianos. Em um deles, no meio de uma relação, o cara arrancou a camisinha do pênis dele, e entrou em mim sem proteção e sem me avisar. Ele achou que tinha o direito de decidir por mim os riscos que eu podia correr. Meses depois, encontrei-o numa festa e fingi que não o vi, anojada da lembrança. Ele veio até mim e me perguntou em tom agressivo se eu era dessas de “dar para um cara e depois virar a cara”. Sorri constrangida e não consegui admitir em voz alta que a minha antipatia era fruto da invasão que ele tinha promovido. Tempos depois, estava saindo com outro cara, e passados alguns encontros ele decidiu que tinha intimidade suficiente para tirar fotos minhas pelada, enquanto eu dormia depois do sexo. Descobri as fotos usando o celular dele para chamar um táxi, com a intenção de não acordá-lo de seu sono de domingo (sim, como eu sou legal). Esses caras tinham irmãs, mães, tias, amigas, mas eu não era nenhuma delas. Eu era a filha de outro alguém. Irmã, de outro alguém. Talvez uma vagabunda, ou uma qualquer. Eu não podia ser só uma mulher, tinha que ser propriedade, objeto, descartável.

Na rua, sempre andei com medo. Dos tapas da bunda de caras de bicicleta, dos velhos tarados segurando o pau enquanto eu passava. Eu sempre odiei “fiu-fiu” de qualquer tipo. E de uns tempos pra cá, toda essa sensação de abuso constante começou a não caber mais dentro do peito. Eu comecei a enfrentar os atrevidos e encarar os bagaceiros. Eu passei a fazer barraco em festa, se alguém passasse a mão em mim. Eu cheguei a um ponto de tirar satisfação de um segurança de banco, que disse que ia “me chupar todinha” com uma escopeta na mão. Não bastava ser um homem, nojento, com duas vezes o meu tamanho. Ele mexia comigo sabendo que além de toda a opressão que ele inspirava, ele ainda estava armado. Não me calei, e não tenho mais me calado. Talvez eu esteja mesmo ficando maluca. Maluca, chata, feminista, revoltada. E eu estou consciente que eu posso ser todas essas coisas. Mas oprimida, nunca mais. Violada, nunca mais. Diminuída, nunca mais.

Na semana passada, em que todos nós tivemos que lidar a dor de uma jovem violentada por 33 homens, eu revivi cada um dos meus abusos – destes contados aqui, como todos os outros já vividos. Ironicamente, na mesma semana/feriado em que acorreu o caso, eu viajei para a praia na companhia apenas de homens, os meus amigos. Conversamos longamente sobre o caso, sobre as repercussões, e todas as formas de abuso que a gente precisava desconstruir. As piadas, os compartilhamentos, as posturas. Sempre que um deles ficava confuso sobre a cultura do estupro, eu botava a mãe no meio. Respeitosamente, claro. “E se fosse com tua mãe, essa situação?”; “E se falassem isso da tua irmã?”, “E se fossem fotos da tua amiga?”. Pouco a pouco, até mesmo as questões mais polêmicas, iam se enchendo de empatia. E conversando, a gente foi aprendendo juntos. Talvez em razão da enxurrada de conhecimento que se espalhou pelas redes nos últimos dias. Ou talvez porque com este caso, finalmente muitos dos homens – inclusive os meus amigos – se deram conta que toda mulher abusada, violada, humilhada, é sim, filha de alguém. Basta empatia para comover-se com suas histórias. Basta empatia para pôr um fim nisso tudo. Por todas nós.

Estupro nunca mais. Abuso nunca mais.

Somos todas filhas de alguém.


Fim da sessão.

(vídeo - você deverá estar logado no Facebook)

Gatedo, se você não é parte da solução, você é parte do problema.

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Feminist

Hoje é a última terça-feira de março, e mais uma vez eu só tenho gratidão por esse canal. No mês em que “celebramos” o dia Internacional da Mulher, gostaria de agradecer a todos os leitores e leitoras do blog por fortalecer o meu feminismo.

Através de vocês fortaleci minha voz, promovi discussões e fiquei mais forte. E por saber que tenho muito para aprender, encerro o mês de março (mas não sua importância) através da fala de uma mulher admirável, muito mais inteligente que eu, cujo discurso não apenas inspira, mas elucida.

Com vocês, senhoras e senhores, a maravilhosa Chimamanda Ngozi Adichie: 

E se não servir, bota a Beyonce de plano de fundo para Chimamanda, e roda a baiana, linda.

 


Fim da sessão

O mundo é seu, mas não ande sozinha.

Eles dizem que o mundo é nosso, mas que não podemos andar “sozinhas”. Viajar sozinha. Ir até a esquina sozinha. Precisamos do “Vamos Juntas” para o simples ato de transitar.

Eles dizem que ser mãe é uma dádiva, mas impedem a tua escolha, marginalizando aquelas que optam pelo contrário. As mesmas pessoas que condenam o aborto, muitas vezes são desprovidas de um útero, ou mesmo da responsabilidade com a paternidade, já que o aborto masculino é legalizado de longa data.

Eles sexualizam o ato de amamentar, na mesma proporção que cobram tua responsabilidade como mãe.

Eles elogiam o vermelho do teu batom, mas negam o roxo da tua pele. Aquele que surge sempre que você “cai no banheiro” ou “tropeça na escada”.  Eles criticam o vermelho do teu batom, que é muito vermelho, o que caracteriza a tua falta de pudor e teu ar libertino. Puta, tu só podes ser.

Dão-te flores no trabalho, e um salário menor do que os colegas que vestem cuecas.

Se for negra, ou gorda, ou lésbica, teu valor será dado como inferior. Matam-te nas periferias, com a velocidade da internet 3.0, que diz que o mundo anda politicamente correto em excesso. Promovem a gordofobia, pois tuas curvas não cabem dentro de limitados padrões e da miopia de quem não entende nada sobre diversidade. Te agridem por gostares de mulher, porque teu problema é mesmo falta de pau.

Eles celebram a mulher moderna e decidida, mas condenam-na pelos shortinhos, saias, decotes, biquínis, tapas-sexo, burcas.

Vestem teus trajes no carnaval, e apedrejam outras mulheres que um dia nasceram homens.

Gostam da tua sensibilidade, te ridicularizam quando estás sensível.

Tua opinião é bem-vinda, desde que seja respaldada da razão masculina, ou o teu discurso alternará entre o “papo de mal comida” ou “de vagabunda”. Impressionante como a opinião feminina tem relação direta com a sua frequência sexual.

Serás exigida ser uma dama na sociedade e uma vagabunda na cama, enquanto muitos deles se comportam como querem na sociedade, e pouco se importam com o que queres na cama.

Alegam que somos sagradas criaturas aperfeiçoadas da costela de Adão, mas estupram os templos de Eva por que “pedimos por isso” através de nossa indumentária ou atitude.

Celebram nossa divindade de gerar a vida, enquanto a nossa própria é constantemente assediada, humilhada, mutilada, vendida, explorada, marginalizada. E com este tratamento que recebe um grupo sub-humano, um resto de gente, uma insignificância, não hei de celebrar o dia da mulher.

Dia 08 de março é um dia de luta, não deixe-se enganar pelas flores. Sim, nós somos maravilhosas! Mas lembre-se de o caminho pela igualdade é longo e árduo. Nós temos muito que revindicar, proteger, preservar. Que este dia sirva para reforçar de que juntas , somos muitas. Aliás, somos metade da força que povoa e movimenta este planeta. E mãe da outra metade. Tá mais do que na hora de botar ordem na casa.

E se o mundo é mesmo nosso, guerreemos para ter a segurança e liberdade de andar por ele sozinhas. Sozinhas, e mesmo assim, uma ao lado da outra.


Fim da sessão.

“Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida”

Milton Nascimento

Vá, gina. Vá ser feliz.

Eu vivo em constante conflito com a minha vagina. Aliás, pobre dela que não tem culpa nenhuma. Eu vivo em constante conflito com o fato de ser dona de uma vagina. Talvez seja coisa da idade, fase em que embora eu tenha muita coisa pra definir ainda, algumas eu já gostaria de ver com mais tranquilidade. E é uma montanha-russa de emoções, essa coisa de ser mulher. Para algumas o processo é super natural, e surge como o desabrochar de uma rosa. Eu nunca fui rosa. Eu mal e mal me considero uma couve-flor – mas ainda assim me esforço para ser reconhecida, importante e comida como uma couve-flor.

Hoje é difícil falar dos dilemas de ser mulher, sem parecer uma extremista. Já falei aqui que eu preferia não ser feminista, se os meus direitos fossem entregues de mãos beijadas. Não sendo o caso, eu preciso ser uma feminista. E este é um desafio diário. Há algum tempo atrás fui convocada para uma reunião com o alto escalão da minha empresa, na qual me pediram para que eu desse feedback/corretivo em um integrante da minha equipe. Comentei que o caso era uma reincidência, e sugeri tomar uma ação mais incisiva, através de uma advertência formal para a atitude desaprovada pela empresa. Foi quando me foi sugerido que, ao invés da advertência, a conversa fosse feita entre o meu gerente e o funcionário, numa linha assim mais… “de homem pra homem”. O que me espantou não foi a oferta do meu gerente fazer a intervenção no meu lugar, dada a sua posição superior na hierarquia. O choque veio porque ele se ofereceu pra ir no meu lugar, porque eu tinha uma vagina. Eu tenho pós-graduação em uma universidade bananinha de Londres, uma especialização em otimização de profissionais, curso que conclui com distinção (e em outra língua, for God’s sake!!!) e 10 anos de experiência. Ah, e uma vagina! Uma vagina bilíngue e pós-graduada, mas ainda assim, uma vagina. Tá me entendendo?

Ao passo que meu amadurecimento sexual vem sendo desenvolvido, dilemas deste tipo passaram a me assombrar não apenas na esfera de onde se ganha o pão, mas também onde se come a carne. Em uma recente conversa com um amigo gay mais experiente (pra não dizer mais velho), conversávamos sobre as diferenças de aplicativos de paquera e os divergentes comportamentos nas relações hétero e homo – mais especificamente, sobre a praticidade e igualdade nos relacionamentos entre homens. Durante a nossa conversa aquela bicha (com todo o meu respeito e admiração) disparou a sua sinceridade como um tiro de fuzil na minha cabeça. “Vocês mulheres evoluíram tanto sexualmente. Já conseguem falar abertamente sobre prazer, fantasia e desejo. Hoje vocês já tomam atitude. Entretanto, por que diabos vocês seguem fingindo orgasmos por aí?”.  Olhei para baixo encarando o chão. Tinha medo de olhar para os olhos do meu amigo e ter meu clitóris transformado em pedra, como quem encara a Medusa (do sexo). Como eu, uma pseudo – feminista, não conseguia me libertar desta “obrigação” de agradar na cama? E a custa do meu próprio prazer? Fiquei furiosa comigo por conta daquela conversa. E de novo, coitada da minha vagina!

Aprofundei-me na minha análise sobre o comportamento feminino de “fingir e esconder”. Concluí espantada que pouquíssimas das amigas moderninhas que tenho, são capazes de adquirir ou mesmo admitir, serem donas de seu próprio vibrador. Algumas alegam que o aparelho não substitui o contato, outras fogem da questão como se eu estivesse promovendo o anticristo. Eu mesma demorei anos pra ter meu primeiro vibrador – o Ricky Martin, presente de uma amiga muito mais inteligente que eu. E quer saber, o número de idiotas com quem eu transava apenas por querer transar caiu pela metade – pela metade! Eu me tornei mais seletiva. E se a vontade me pega desprevenida, não tem mais telefone vibrando na madrugada para um booty-call. É “un, dos, tres. Un pasito pa’delante María, e Ricky e eu vivemos “la vida loca” a noite toda, se eu quiser. Não estou aqui dizendo que eu trocaria um homem de verdade por um par de pilhas. Estou falando sobre a escolha de se conhecer, se curtir, e ser dona do próprio prazer. Parece simples, mas não é.  E quebrar essa tabu é difícil – gozar através dele, nem tanto 🙂 . E sua vagina agradece – eu garanto.

E se ser mulher no trabalho ou na cama é um perrengue, no contexto social não muda muito. Dia destes minha mãe encontrou uma antiga amiga minha em um evento, e me contou como ela achava que a Fulana devia estar feliz com a gravidez do segundo filho, e seu casamento estável. Foi até o momento do marido da Fulana começar a proferir insistentes grosserias contra a minha amiga, na frente da minha mãe. Naquele momento, ela parou de fantasiar o futuro da própria filha, e passou a admirar o presente dela – sim, o presente de uma solteira de 30 anos, mas de uma solteira feliz, longe de um relacionamento abusivo. Na ocasião deste papo comigo, minha mãe me abraçou e suspirou aliviada “ai, prefiro te ver mãe solteira, e estar condenada a infelicidade de um casamento disfuncional”. Fingi a ofendida – “Caraca mãe, essas são minhas duas opções: maternidade voo solo ou relacionamento abusivo?”. Ela riu das imposições sobre o futuro, com ares de culpada. De fato, eu nunca vi ninguém da minha família preocupar-se com o futuro amoroso do meu irmão, ao contrário do que ocorre comigo vez que outra. Talvez por eu ser mais velha. Ou simplesmente por ter uma vagina.

E no andar da carruagem do auto-conhecimento feminino, a gente tenta se convencer que estas questões não nos abalam, quando blindar-se da influencia negativa é tarefa árdua. Por mais segura que uma mulher seja, verdade é que ela se depara diariamente com questões complexas, dado o simples fato de ter uma vagina. Elas têm medo de sair à noite por ter uma vagina.  Elas sentam com as pernas fechadas por ter uma vagina. Elas toleram conversas nada bem-vindas durante a gravidez, porque todo mundo tem uma opinião sobre suas vaginas (trocar de lugar na hora do parto normal ninguém quer, né?). Elas regulam seu apetite sexual, pra não ter uma vagina “mal falada”. Elas são promovidas ou não são promovidas por ter uma vagina. E foi justamente por estar preocupada com tantas questões envolvendo a minha vagina que procurei uma especialista – uma ginecologista. Nada além de exames de rotina, pré-câncer (FAÇAM PRÉ-CÂNCER!) e uma preocupaçãozinha mínima sobre a queda da minha libido. Andava “desestimulada” até para brincar sozinha e aquilo vinha me preocupando. A gineco me disse que estava tudo certo comigo, não fosse uma “depressãozinha” da minha querida. Lembrei-me de Charlotte, na 4ª temporada de Sex and the City e seu dilema da vagina deprimida. A minha vagina estava triste, e apesar dos lábios, a pobrezinha não podia dizer nada a respeito num divã. A médica me explicou que era uma fase ligada ao meu psicológico, e que logo ela voltaria a ficar mais animadinha.

Óbvio que a minha vagina está triste. Não fosse todos os problemas que eu já enfrento, repare a quantidade de dilemas que ela ainda me causa. Aliás, de novo, coitada dela. Ela é só uma vagina. Mas para o meu chefe, ela resume a minha incapacidade. Para muitos ela tem mais obrigação de dar prazer, do que receber. Ela não pode nem ter brinquedos, ou deve tê-los em segredo. Ela é estuprável. Ela é casamenteira. Parideira. Ela é libertina. Depilada – pra sempre depilada. Ela é temperamental. Ela é deprimida. Mas no fundo, ela só queria ser uma vagina.

Sei que apesar de todas as dificuldades impostas, nós sairemos juntas desse momento de desânimo, a minha vagina e eu. Até porque dependemos uma da outra para sermos felizes. Então não importa quanto tempo vai levar, ou quantos tabus haveremos de quebrar, ou quanta intolerância e incompreensão teremos de derrubar. Um dia todas nós seremos livres destas amarras que nos abatem. E poderemos  dizer com tranquilidade: vá-gina, vá ser feliz.


Fim da sessão.

Coisa de Antônia: Eu não quero ser feminista

No “Coisa de Antônia” desta semana no ATL Girls da Rede Atlântida, um evento, um debate, uma ideia. Eu não quero ser feminista. E você? Corre lá e dá tua opinião.

antônia no divã - eu não quero ser feminista (insta)

 

 

Coisa de Antônia: As curvas do meu corpo

O Antônia no Divã  vira “Coisa de Antônia” toda quinta-feira, colocando o seu querido divã  dentro da casa da Rede Atlântida, no papo-calcinha do ATL Girls.

É coisa de mulherzinha só que com pimenta. Não tava sabendo? Corre lá bonita, é só clicar no botão ATL Girls!

antonia + atl 5

Fica a dica:  só consegue ler o post desta semana quem for linda, gostosa e poderosa. 😉

 

Minha mãe para presidente

Dentre as pessoas que conheci no meu mochilão pela Europa, uma mexeu profundamente comigo. O nome dela era Alisson, e entre uma cerveja e outra em um hostel em Roma, ela me contou que estava de férias do trabalho voluntário. A causa do trabalho voluntário dela foi o que me surpreendeu. A Alisson era parte de um grupo cuja meta era fortalecer a autonomia de mães africanas. Em resumo a ideia do projeto era relativamente simples: mães que tinham emprego e se sustentavam, alimentavam melhor seus filhos, os colocavam na escola, cuidavam da saúde da prole, e toda a sociedade era fortalecida desta forma. As mães criavam cidadãos mais educados e saudáveis, e consequentemente a África tinha uma chance de erradicar a pobreza, desnutrição, a AIDS, dentre outras pragas que disseminam sua população. A solução estava nas mães.

Óbvio. Como ninguém havia pensando nisso antes?

Não é de hoje que eu sei que as mães são heroínas dos tempos modernos. Quando eu tinha uns cinco anos, meu irmão mais novo se engasgou com alguma coisa, e já estava ficando roxo com tentativas frustradas do meu pai em desafogá-lo. Minha mãe tirou aquele bebezinho do colo do meu pai, e sem pensar duas vezes, chupou o nariz dele fortemente com a boca, desobstruindo as narinas dele, e deixando novamente o ar passar. Lembro-me de ficar chocada com o desapego, coragem e assertividade da minha mãe. Ela não apenas dava a vida, mas também salvava. Eu fiquei inebriada com tamanho poder.

Certa vez, a peça do meu grupo de teatro foi cancelada no dia da apresentação, quando eu já estava toda pronta, com meus longos cabelos trançados com lã de tapeçaria para me tornar a boneca Emília do Sítio do Pica Pau Amarelo. Corri pro meu quarto chorando em desconsolo. Meia hora depois minha mãe me chama da garagem, e lá estava toda a vizinhança em formato de plateia, pipoca para o bairro todo e um pequeno palco montado na calçada. Ela secou minhas lágrimas, beijou-me o rosto e disse “agora vai lá e arrasa”. Naquele dia eu decidi que ia ser quem eu quisesse, porque minha mãe acreditava na boneca Emília que havia em mim.

Eu sei, parece propaganda da Dove ou da Johnson & Johnson, mas não é. Eu tive um exemplo dentro de casa que me mostrou desde cedo que ia sempre me proteger (mesmo que isso envolvesse chupar o meu nariz) e que ia me dar apoio pra todo desafio que surgisse na minha vida. A minha mãe me fez uma cidadã consciente, nutrida e educada. Não que o meu pai não tivesse participado, longe disso. Mas na época, essa responsabilidade era da minha mãe.  E eu acredito que ela fez um ótimo trabalho, e que gostou, uma vez que encomendou mais dois rebentos quando já tinha dois criados.

Foi pensando no que a Alisson me disse sobre seu projeto na África, que pensei que talvez a minha mãe devesse tomar conta da presidência do país. Juro. Acho uma ótima ideia. Quem sabe assim os corruptos já estariam de castigo, implorando pinico, como eu fazia quando pequena. Uma vez roubei uma pedrinha quartzo de uma lojinha. A minha mãe não fingiu que não viu. Não disse que não sabia que aquilo estava acontecendo. Ela me arrastou de volta pra loja, e na frente de inúmeras pessoas tive que devolver o quartzo e pedir desculpas. Ela passou vergonha junto comigo, mas eu nunca mais peguei um apontador de um coleguinha sem pedir.  Foi horrível e eficaz. Como um remédio amargo.

Se a minha mãe fosse presidente, ela olharia pros malfeitores e diria “nós vamos conversar em casa”, aterrorizando a alma deles como fazia comigo quando eu aprontava em público. Eu gritava “não, vamos conversar AGORA, em casa não, por favor!!!”. O meu castigo, ela sabia, era a expectativa. Eu não podia lidar com não saber o que ela diria. Ela deliberadamente fazia de mim um peru de Natal – eu morria de angustia na véspera, e quando chegava em casa, o discurso não era tão duro quanto aquele que eu tinha imaginado.

Quando as obras públicas atrasassem, minha mãe ia pegar a pá e começar ela mesma, deixando com vergonha todo o resto que não o fez. A minha mãe odeia o “já vou”. Quantas louças eu deixei de lavar com o “já vou”, e depois fiquei me remoendo de culpa.

Com a minha mãe no planalto central, os hospitais iam estar sempre à disposição, pois mãe nenhuma deve sofrer a angustia da impotência de ter um filho doente nos braços. Ela ia ser justa com todos, porque afinal, coração e hospital de mãe, sempre cabem mais um.

A minha mãe, como professora idealista que é, ia tornar a educação acessível e divertida para todos, como fazia com os alunos dela. Ela ia cobrar da comunidade participação ativa na vida das escolas – ela me fez “Amiga da Escola” com 15 anos, quando dava aula de dança numa escola municipal. Fez-me responsável pela minha parte na educação dos outros, e agradecida por sempre ter tido acesso a minha.

Minha mãe ia escutar o povo porque entende que ela não sabe tudo, e que também está aprendendo. Ela não acha a administração dela é a prova de falhas, ela sabe que existe mães melhores e piores que ela, mas ela não deixa de tentar melhorar sempre porque “a gestão passada” ou “antepassada” era pior que a dela. A minha mãe também não ia deixar ninguém ficar falando mal do filho dela por aí. Nunca!

A chefa lá de casa, seria uma ótima chefa de estado porque entende que o tapa na bunda é tão importante quando o carinho na cabeça. Que tem hora para o tema de casa, e para a televisão. E que “a vida não é só carnaval, Antônia!”.

Talvez a solução do Brasil, seja a mesma proposta pela Alisson na África: mães no poder. Sim, a nação nas mãos de alguém pronta pra corrigir e educar, errar, assumir que errou, e depois acertar, doa o que doer. Afinal, mãe costuma saber de tudo, mesmo quando estão erradas. Quem sabe o que o país precise mesmo é de uma Mãe de Estado – nem presidente, nem presidenta, nem ditadura, nem democracia – mas uma mãecracia. Com castigo e carinho. Colo e incentivo, para que este país seja o filho que pode e merece ser, daqueles de deixar qualquer mãe orgulhosa.

Fim da sessão.


♥ Nota para a minha mãe: Neste domingo, como em muitos outros, quero de novo agradecer a presidente lá de casa, que já colocou ordem em muita crise, já segurou a economia na ponta do lápis, orquestrou revoluções adolescentes, e deu asas para ganhar o mundo. Você tem para o resto da minha vida, o meu voto irredutível. Saiba que o dia que eu me candidatar ao teu cargo, espero ter no mínimo coligação com teu partido – pois eu acredito incondicionalmente nele.

Se essa rua, se essa rua fosse sua

Eu sou a menina estuprada na Redenção. Você também. Eu tenho medo ao sair de casa. Todo dia. “De ser assaltada?” Antes fosse. O iPhone posso deixar sobre a mesa da sala. Mas o que faço com minha integridade, quando o bem mais valioso não pode ficar em segurança? Dilacero, rompo em partes os peitos, barriga, boca, bunda? Deixo a minha vagina em casa? Quantas de nós serão invadidas na Redenção aos olhos alheios? E se a história fosse outra?

Eu também tenho uma história pra contar.

Uma vez vi um jovem descendo do ônibus. Desceu, largou o skate e tirou a camisa. Tinha o tórax suado, peito e barriga de quem malha bastante, assim, só pra se exibir sabe? Os mamilos durinhos olhando pra mim. Uma delícia. O volume da calça era vantajoso. Tinha certeza que ele estava excitado comigo olhando para ele, mesmo que não fizesse contato visual. Mas ele não disfarçou. Ficou ali, mexendo no celular na minha frente, esperando eu tomar uma atitude. E eu tomei.

Surpreendi-o por trás, puxei contra o meu corpo e fui logo colocando a mão no volume dele. Esfreguei bastante, apesar da resistência. Sabia que ele só tava se fazendo de difícil. Passei as mãos naquele tórax imenso, apesar das tentativas dele de me empurrar. Eu estava muito excitada com aquele faz-de-conta. Apertei a nuca dele, enfiei minha língua na orelha dele puxando-o pelos cabelos, enquanto com a outra mão, apertava sua bunda, bem no meinho. Isso tudo ali, pra quem quisesse ver. Obvio que ninguém interferiu. Estavam todos preocupados com horário do ônibus, o supermercado da semana, a corrida no parque. Virei ele de frente pra mim e o beijei gostoso várias vezes, enquanto ele virava-se de um lado para o outro fingindo que não queria a minha língua quente e invasiva.  Mordi o lábio dele bem forte para depois soltá-lo. Arranquei-lhe a mochila, peguei a carteira, e joguei o resto contra ele. Segui o meu caminho despreocupadamente. Eu sabia que no máximo ele ia virar estatística.

Se essa rua, se essa fosse deles?  Alguém teria ouvindo? Achado a situação adversa? Intervido?

Se essa rua fosse deles,  rua escura, com um inimigo eminente a cada esquina. Seria diferente? Teríamos policiais preocupados ao menos em nos consolar? Não tornar um ato de violência em um fato corriqueiro? Teríamos quem juntasse os pedaços que nos restaram na grama da Redenção? Se essa rua fosse deles, crimes como estes seriam vistos de forma leviana, quando “mas nem houve penetração…”? Precisa de penetração? Não basta a alma dilacerada? O trauma eterno? Precisa-se de penetração física e forçada para ser ouvida? Para virar estatística? “Isso é lenda urbana”, li por aí. Lendas ou histórias urbanas? Daquelas que nos acostumamos a conviver, mesmo que com nojo? “Campanha publicitária”, outros falam. Ah é? E quem está assinando? A marca de todas as mulheres do mundo?

Veja bem que nesta história, não se quer ser vitimizada porque somos o sexo frágil. Se quer ser vitimizada quando somos vítima, e quando estamos frágeis – nas ruas da insegurança e da impunidade. “Isso não vai dar em nada” dizem aqueles pagos para nos defender –  talvez não dê em nada mesmo, penso eu, mas custa não nos roubarem a esperança? Já nos roubam o corpo,  os pertences, a tranquilidade. Também a esperança? Esperança de que se fizermos a nossa parte, dermos queixa, alguém vai ligar pra nós, se preocupar com a nossa história, sofrer conosco? “Não me envolvi porque não era assunto meu”. E eu espero que nunca seja, pois poderia ser assunto seu quando sua mãe vai ao mercado, sua irmã ao barzinho, sua namorada no trabalho. Talvez se essa rua fosse deles, as coisas seriam diferentes.

“Então a culpa é do homem?” Não, não é. É toda nossa. Antônias e Antônios, que se omitem, que não registram, que não chamam atenção para a sua história, para esta história. Eu estuprei aquele jovem forte e gostoso naquela noite de março, você acredita?  Não né? Mas e se essa rua fosse deles, rua escura, com um inimigo a cada esquina, você acreditaria?

Não adianta queimarmos sutiãs, se nos tocam os peitos. Exigir mudanças salariais, se não houver mudança de atitude. Não adianta sair da cozinha, se não podemos sair de casa. Hoje somos todas oprimidas, simplesmente por andarmos por aí. Afinal ainda não descobrimos um jeito de deixar a vagina em casa. Quantas de nós serão invadidas na Redenção? E eu não canso de perguntar…                    E se essa rua fosse SUA?

 

Nessa rua, nessa rua tem um bosque. Que se chama, que se chama solidão.

Dentro dele, dentro dele mora um anjo? Que roubou, que roubou meu coração.


Fim da sessão

 

Eu queria ser só mulher

Eu queira ser só mulher. Sim, só mulher, assim como homens são só homens.

Ao defender direitos de gêneros, de igualdade no tratamento de homem e mulher, queria ser só mulher. Eu não queria ser feminista. Só mulher tava bom.

Quando tenho TPM, queria ser só mulher lidando com meus hormônios. Não queria ser temperamental, instável ou maluca. Só mulher.

Quando eu quero chegar em um carinha que eu quero conhecer, não queria ser fácil ou atirada. De novo, eu só queria mesmo era ser mulher.

Queria ser só mulher quando sou solteira. Nem encalhada, nem solteirona, nem titia. Mulher.

Na Índia queria ser só mulher, não dalit, nem intocável, nem estuprável, nem mártir. Só mulher.

Na África não queria ter lábios decepados pra manter minha pureza. Queria ser apenas mulher, com todos os lábios que Deus me deu.

Nas ruas de qualquer lugar também queria ser só mulher. Passando por construções, becos ou avenidas. Não queria ser “oh gostosa”, “senta aqui morena” ou “te chupava toda”. Só mulher tava de bom tamanho.

Quando eu declarar gostar de sexo, com palavras ou ações – e eu gosto mesmo – queria ser só mulher. Nem puta, nem safada, nem transarina, ou aquela que não é pra casar. Mulher.

Se não tiver as unhas ou depilação em dia, mulher.

Quando alcançar algum sucesso, nem “aquela que deu pro chefe”, ou “a filha do ‘homi’”. Só mulher tava bom.

Quando enfrentando o dilema de uma gravidez acidental, não queria ser assassina, criminosa, paciente ilegal. Mulher.

No volante, só mulher. E não “tinha que ser mulher”.

Se for curvilínea, nem gorda, nem relaxada: mulher.

Se for sarada, nem fútil, nem bombada: mulher.

Se for magra, nem anoréxica, nem fresca: mulher.

Se for feia, não quero ser puta-feia. Mulher.

Se for bela, não quero ser puta-gata. Mulher.

E se eu achar que está tudo errado, que meu lugar é onde eu bem entender, e se eu resolver não pedir permissão pra ninguém pra ser quem eu sou, ainda assim e independente do que pensem: mulher. Nem chata. Nem “moderninha”. Nem autossuficiente. Nem “mal comida”.

E isso vale pras Madalenas, Cassandras, Carens, Fridas, Joanas, Marias, Amélias, Malalas, Beyonces, Tinas, Anitas e Antônias. Todas elas e cada uma delas.

Porque ser tudo isso aí que as más-línguas dizem sobre nós é muito fácil.

Difícil…  difícil é ser só mulher.


Fim da sessão.