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Quem é aquele menino?

“Mana, quem é aquele menino deitado na praia?”

Mateus, 5 anos,  indaga sobre as imagens na televisão do menino sírio desfalecido na beira do mar. Meu coração congela instantaneamente. Me sinto afogada nas verdades do mundo.

Quando descobri que seria irmã mais velha de novo, sabia que seria um desafio encarar a curiosidade dupla lá de casa, nestes dias de hoje que eu mesma não entendo bem.  Aos trinta anos, eu tinha que explicar para a pouca experiência de vida do Mateus, e também do Murilo, que falhamos não apenas como humanidade, na tomada de decisões. Mas que falhamos em proteger a inocência de quem ainda não decide nada.

Quando eu tinha 5 anos, não entendia porque meninos de rua não tinham casa, e batiam na nossa porta pedindo comida. Meu pai então preparava sanduíches para eles, sem saber muito o que me explicar, e se resumia a me envolver na tarefa de encher os pães com presunto. Era o jeito dele de ajudar, como também de preservar minha inocência. Na minha cabeça, o pão com presunto resolvia. E eu era parte da solução.

Não seria o mesmo que acontece hoje? Não seria eu, parte na solução?

O corpo sem vida as margens de qualquer lugar, choca os olhinhos antes tão serenos dos meus irmãos. Penso em desligar a TV e levá-los a cozinha para fazermos pão com presunto. Penso em explicar que aquele menino encarou a imensidão do mar junto aos pais, na esperança de um lar sem furos de balas. Aliás, bala deveria oferecer unicamente doçura às crianças. Não medo.  Penso em dizer que o mundo se tornou um lugar complicado, em que estamos preocupados exclusivamente com nossos filhos, seus tablets e Nickelodeon, do que com os filhos dos outros, aqueles despatriados. Desprotegidos. Desamparados.  Quem sabe, se o Mateus e o Murilo entendessem desde cedo que o mundo é um lugar egoísta, medíocre e desalmado, eles sofram menos. Tenham menos vergonha em fazer parte desta humanidade desconstruída.

Mas não seria eu, parte na solução?

E sou. Ainda que como irmã, eu tenho o compromisso de proteger a inocência deles, sem deixar de ensiná-los de que mesmo falhando gravemente com o presente que nos foi dado, devemos ter coragem em fazer um futuro bem melhor. E assim educar melhor. Dividir melhor. Devemos ensinar aos Mateus e Murilos de nossas casas dando exemplos construtivos, envolvendo-os em causas importantes. Ensinando sustentabilidade, sendo sustentável. Ensinando a amar o próximo, com ações de compaixão, respeito e comprometimento. Criando filhos melhores, que vão fazer nos próximos anos, um trabalho muito melhor que o nosso. Se hoje não somos seres humanos mais admiráveis para nós mesmos, sejamos admiráveis para os olhinhos que tudo enxergam e aprendem. Assim quando for a vez deles de fazer as escolhas, que façam escolhas muito melhores do que as nossas.

“Quem é aquele menino, mana?” – O Murilo agora repete a pergunta do Mateus, pedindo atenção ao segurar as minhas bochechas. Beijo a testa dos dois, e aperto-os num forte abraço, abraço esse que todos queríamos ter dado no menino sírio em um sincero pedido de desculpas.

“Aquele menino, Mateus e Murilo, vai ser o menino que vai mudar o mundo.” Respondo com uma esperança quase infantil, enquanto eles sorriem.  “Aquele menino vai ensinar ao mundo como cuidar de todos os meninos fazem parte dele.”


Fim da sessão.