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Coisa de Antônia: A maldita calcinha suja

Essa quinta-feira foi dia de lavar roupa suja no ATL Girls – ou deveria ser.  Deleite-se com o primeiro post público do blog, relembrando uma história com cheirinho de amaciante… ou não!

Clica aí:

antonia - calcinha

 

E pra embalar o clima…

 

Queria ser perfeita

Eu queria ser perfeita. De verdade. E eu nem sei como isso começou. Em casa não foi. Meus pais nunca me exigiram perfeição, eles sequer intervinham nos meus assuntos da escola. Talvez porque a cobrança que vinha de mim já garantia notas altas e um bom desempenho em tudo que eu me envolvia. Eu estava entre os melhores alunos da turma, era destaque no meu grupo de dança e comecei a falar uma segunda língua bem cedo. Mas eu queria mais. Queria ser perfeita. Talvez eu culpe a Disney por isso, com suas princesas de cabelos perfeitos e comportamento adequado. Eu nunca fui adequada. Mas eu sempre quis ser perfeita.

A situação realmente piorou quando me tornei adolescente. Eu fui estudar em uma escola técnica cujo corpo estudantil era formado em 70% por meninos. Não foi difícil ganhar atenção na escola, e eu tinha que ser forte num universo basicamente masculino. Logo os holofotes que antes me envaideciam, me tornaram tensa e paranoica. Eu cuidava todos os meus passos, ensaiava minhas falas na cabeça e evitava qualquer situação que pudesse demonstrar minhas falhas. Era exaustivo. Na fase adulta não foi muito diferente. Eu conquistei todo emprego que almejei, eu me formei com distinção em tudo que estudei. Namorei os caras mais populares e fiz um monte de escolhas ruins baseadas na minha vaidade.

Quando o divorcio dos meus pais finalmente teve um fim, decidi que era hora de pegar o rumo do mundo e gozar de um encontro comigo mesma. Talvez lá eu encontrasse a perfeição pessoal que eu tanto buscava. Ao invés disso, Londres trouxe algo que eu jamais experimentara antes: completo e absoluto anonimato. Lá eu aprendi que podia ter meus dias de cabelo ruim que ninguém ia notar (e sempre tinha alguém bem pior). Eu corria na beira do Tâmisa apenas de shorts e top, sem me preocupar em mostrar o corpo. Eu uma vez vomitei de bêbada em público, dentro da manga do meu casaco em um ônibus da madrugada, e me achei genialmente inteligente pela solução encontrada. Algumas pessoas podiam dizer que eu havia me tornado alguém pior. Verdade era que Londres tinha me dado à chance de ser livre pra me tornar quem eu bem entendesse.

Quando chegou a hora de conseguir um emprego, todos os meus colegas de MBA miraram em vagas de gerencia na capital inglesa, posições complexas e reconhecidas. Eu batalhei por um estágio na Yahoo!UK que me parecia instrutivo e divertido. Lembro que na minha entrevista me peguei nervosa falando sobre uma viagem a Tailândia e a diarreia de três dias que tive em Koh Phi Phi. Eu sabia que não ganharia o emprego – era possivelmente a única candidata que havia falado sobre desarranjo durante uma entrevista. Mas para a minha surpresa o emprego era meu – segundo o meu novo gerente, eu tinha algo que ele não vira em mais ninguém: brilho nos olhos, curiosidade  e uma língua solta. E aquilo era bem vindo à minha nova equipe. Eu não precisava ser perfeita. Bastava ser eu mesma. O emprego também não era perfeito. Mas lá eu aprendi muito, e de quebra apertei a mão do Will Smith – e quem dos meus colegas de MBA podia pôr isso no currículo, hm?

Foram os anos mais felizes da minha vida, aqueles em Londres. Talvez porque tivesse o compromisso único e exclusivo comigo mesma. Não tinha que ser filha – irmã – funcionaria – vizinha – aluna – pessoa modelo pra ninguém. Muito embora soubesse que os fantasmas da perfeição moravam apenas no meu sótão, e no de mais ninguém. Já no Brasil consegui manter alguma liberdade das amarras que conquistei em Londres. Outras não foram tão fáceis.

Lembro-me de falar para a minha psicóloga que só voltaria a me relacionar com alguém depois que eu perdesse uns 14 kg, colocasse a minha carreira em ordem, me mudasse para um apartamento novo e parasse de beber tanto. Eu até podia aceitar meus defeitos, mas não estava disposta a dividi-los com mais ninguém. A minha terapeuta na época me mostrou, sempre através de perguntas, e nunca de respostas – como a maioria das psicólogas irritantemente eficazes fazem – que os defeitos podiam ser o tempero de uma relação. O problema é que eu não sabia cozinhar.

Mas aceitei o desafio. De abrir as portas da minha casa (talvez as do coração), e até mesmo as da cozinha para alguém. Já era o segundo mês que eu ficava com um gatinho, quando decidi que aquela quarta-feira seria o dia perfeito para fajitas mexicanas (cujas receitas, estudei profundamente o dia todo). Controlei minha inabilidade e impaciência com as panelas. Tentei não passar acidentalmente guacamole nos cabelos. Tenho certeza de que ele, da tranquilidade do sofá e de sua cerveja com tequila, não fazia ideia do esforço que eu estava fazendo para me manter em controle. Mas eu consegui. E administrei – quase sem nenhum acidente – um festival mexicano todo meu.

Depois da janta, deitei no sofá agradecendo por ele sugerir um filme. Se fossemos pra cama eu teria que ser sexy. Para ser sexy eu ia precisar tomar banho, secar os cabelos, passar rímel e meu gloss preferido e alongar minha musculatura tensa. Confesso que depois de cozinhar, (in)habilidade que eu evito, estava exaurida. Joguei as pernas que deveria ter depilado em cima dele, para então adormecer profundamente.

No dia seguinte, recebo pelo whatsapp dele um videozinho, que ele intitulou de “ronc-ronc”. Já no inicio do vídeo reconheço meu sofá, minhas almofadas – juro que com a evolução da filmagem comecei a temer ter sido uma daquelas garotas que foi filmada furtivamente fazendo um boquete, mas Graças a Deus não era o caso – e de repente aparece eu. Cabelo brilhoso apesar de sujo, semblante tranquilo, em um sono profundo. Parecia com uma das princesas da Disney, a Bela Adormecida – Isso, é claro, não fosse o fato do microfone se aproximar e gravar meu ronco, rouquíssimo e alto, que mais parecia uma britadeira em plena operação. Espraguejei os céus. Antes fosse um boquete no vídeo, mas não eu roncando! Merda! Claro que aquilo era novidade pra ele! Na minha neurose eu sempre o deixava dormir primeiro com medo de o meu segredo ser revelado.

Morri de vergonha, enquanto ele do outro lado, ria achando tudo muito fofinho, explicando que tinha curtido que eu estava dormindo tão tranquila. Dei-me conta que aquela era uma cena nova pra mim. Eu finalmente havia me rendido a exaustão de ser perfeita, pra ser eu mesma. Naquele momento finalmente entendi que não valia perder horas daquele sono tão gostoso para atender ao meu idealismo. Nem por mim, e nem por ninguém.

Concluí por fim , com aquele pequeno vídeo, que não conseguiria aceitar qualquer pessoa na minha vida, sem passar obrigatoriedade pela aceitação própria. Então faria daquele ronco o ecoar da minha liberdade, oras!  Hoje eu não tenho duvidas que ser perfeita deve ser muito bom. Eu queria ser perfeita. Acontece que ser eu mesma é ainda melhor. Ronco, língua presa, teimosia e tudo mais.

Mas vou deixar protetores de ouvido do lado da minha cama. Just in case.


Fim da sessão

Em tempo: O áudio deste post é a deliciosa melodia do sono de uma princesa. Num conto de fadas moderno, é claro.

A ditadura da prole perfeita – uma ode às mães

Há mais ou menos quatro anos atrás, um dos grandes motivos que me fez retornar das longínquas terras da Rainha para o Brasil foi a notícia de que minha mãe ia virar mãe. De novo. E de dois. Eu, que não concebia a ideia de acompanhar a vida dos gêmeos pelo Skype, não pensei duas vezes em tomar o rumo de casa para ocupar meu lugar de irmã mais velha. De novo. De dois.

A diferença do meu primeiro irmão para estes dois, é que o par distanciava-se em ¼ de século de mim. Mais do que isso, a balzaquiana que sou, já tinha relógio biológico fazendo tic-tac, e as novas aquisições da família despertavam em mim não apenas o amor fraterno, mas também davam margem para o materno, este desconhecido até então. E foi mais ou menos assim  que lá em casa iniciei semestres intensos do meu novo MBA – Motherhood Business Administration.

Calma, mães de plantão. Eu sei, as minhas experiências como irmã não se comparam a tirar um filho de dentro do umbigo e acalentá-lo até a maturidade (ou depois dela, como é o caso da minha mãe). É lindo, é intenso, e é divino, ao que eu consigo entender. Entretanto o que ninguém conta é que a maternidade é também um antídoto pra qualquer nível de lucidez de uma pessoa. Talvez ninguém conte exatamente por isso, os úteros poderiam entrar em greve.

Antes de jogarem as pedras, eu explico. No final de semana passado fui convidada e incumbida de praticar a maternidade, intensa e sem breaks por 48h, cuidando dos irmãozinhos para que minha mãe pudesse atender a um compromisso. Planejei tudo na minha cabeça milhares de vezes, e uma ida ao camping que eles tanto amam era uma estratégia a prova de falhas. Ledo engano.

Aproveitei o sono deles da viagem de ida para descarregar rapidamente o carro, o que foi tempo suficiente para o Mateus ter o corpo inteiro picado por um enxame de mosquitos. Na chegada nenhum aparelho eletrônico ligava: TVs, tablets, iPhone, nada – nem um led de esperança. Nem Pepa pra ajudar. Só o barulho do vento, enfatizando a ausência da mãe (aquela de verdade). Dá-se então a primeira crise de choro – deles pela boca, minha por dentro. Mil artimanhas de distração, todos os argumentos do mundo, nada. Estava quase pegando o caminho de volta quando a TV ligou. Ufa! Pepa eu te amo. Agora é mamázinho e longas horas de sono. Foi o que eu pensei, mas o Murilo tinha planos de esticar até as 2h00, e assim o fizemos. Quem mesmo precisava dormir?

7h08, é um sábado chuvoso, e pelo que fui informada aos pulos, era hora de acordar. 1º desafio do dia: café da manhã. Banana com canela em forma de estrela: não! Sanduíche de pão de queijo: não! Mamázinho: não. “Por Deus, mas o que você quer?” “Eu quero a minha mãe!”  Claro – eu também, penso comigo. “OK, vamos poooor faaaavor comer um pouquinho e ir pra praia??”. 2º desafio do dia: evitar que eles se afoguem (mar ou esgoto). Na praia equipados com galochas e uma curiosidade monstra, pensei comigo, mínimo de duas horas sentada na cadeira vendo-os brincar. Ai como eu me engano. Murilo consegue enfiar o mar inteiro dentro das galochas, e o Mateus administra cair de cara na areia espumada, aquela entre as ondas e o esgoto. 23min. Os dois molhados. 16ºC. Recolho acampamento – todos os 42 brinquedos e as 3 cadeiras.

De volta ao camping, mais duas aquisições. Outros 2 amiguinhos também de quatro aninhos resolvem aparecer para brincar e duelar sob supervisão desta amadora. Quatro crianças. De quatro anos. Por quatro horas. E eu de quatro implorando por ajuda. Uma mãe aparece, e convida os gêmeos para passear – “SIM! CLARO! Leve-os. Não precisa devolver até o jantar!” Mas não. Não. O Mateus já tinha definido que a mana ia participar de tudo naquele final de semana, e eu não tinha como fugir. A brincadeira e os socos continuam. Quando era soco do amiguinho, queria cortar-lhe a cabeça. Quando era soco de um dos meus, queria enfiar a minha num buraco. Tudo isso entre um sorriso amarelo e outro, ora meu, ora da outra mãe.

Banho em dois. Seca um. O outro sai molhado do chuveiro. Corre e seca o outro. “Vamos fazer pizza pro jantar!” – sugiro. Mostro como espalhar o atum na massa. Viro as costas pra busca o queijo. Tiro as mangas dos dois de dentro do óleo do atum, dobro as mangas do pijama, ah azar! Não tem outro. Coloco e tiro a pizza do forno. “Mana, não quero pizza.” “O que você quer?” “Eu quero a minha mãe.” Ai, por que mesmo eu pergunto? Ok, cama! “E hoje não tem TV até as 2h00, Murilo!” Fecho um olho. Um só. O outro fica aberto.

O que tava fechado abre as 7h08 quando começa tudo de novo. Os amiguinhos vieram brincar, olha que legal. O Murilo está com tosse, “porque ficamos molhados da praia, mana”, o Mateus dá a minha sentença como se pudesse ler a minha mente. Banho de novo. 4 camadas de roupa em cada um. “Mateus, Murilo, parem de rolar na grama molhada! Se tiver que falar isso pela 13ª vez, a bunda de vocês vai esquentar!” – pro cacete a Xuxa e a lei da palmada, me enfureço. Hora do almoço. “Massinha verdinha?” –“Não!” “Carninha picadinha na boquinha?” “Não!” “Mas o que você qu…sim, a sua mãe, ok, toma essa Trakinas”. “Mana embala a gente no balanço da pracinha?” Claro que sim. “Mana, porque você ainda não tirou o pijama?” Ai, merda, esqueci de trocar de roupa.

Hora de embora. Tá quase. Eu vou conseguir entregar eles inteiros. Vou sim, torço por mim.  Na volta vou lembrando todas as coisas geniais que fizemos juntos. A praia, as brincadeiras, todas as bananas em formato de estrela que não foram comidas, a pizza, as risadas, enquanto a dupla concorda animada. “Vocês se divertiraaaaam?” – pergunto a eles. “Siiiim”, eles respondem em coro. “Querem fazer de novo?” – eu me empolgo. “Não. Eu prefiro a minha mãe”. Claro, de novo, por que mesmo eu pergunto?

E aí chega domingo e eu percebo que fiquei louca. Que gritei mais do que gostaria, que na hora não entendi que era só o sono, saudade, fome, e tudo que justifica aquela prole perfeita de atormentar. Reviso as conversas, acho que a banana devia ter sido em forma de lua e não estrela e penso como farei melhor no próximo final de semana que ficar com eles. Analiso que estou mesmo é contando os minutos pra virar mais uma louca destas desvairadas que se esquece de escovar os cabelos e que acha aquele ranhento a coisa mais linda deste mundo.

Aí deitada no divã ouço todas aquelas teorias do espertalhão do Freud que sempre dá um jeito de sugerir a você levar sua mãe para o tribunal. Muito provavelmente porque o melhor e também o pior de você é culpa da sua mãe. Sim, ou porque te amou demais, ou porque te amou de menos. Ora porque te deu muita atenção, ora porque algo passou despercebido por ela. Admita, por melhor que sua mãe seja ela tá sempre na berlinda. Por pior que você seja, você sempre será a prole perfeita dela. É ditadura das mais antigas. E também a mais sincera.

O que concluo por tudo que vivi e aprendi até agora, é que sempre que penso no céu, ou no paraíso, penso que o lugar é dividido em dois grupos de pessoas: as mães e o resto dos dignos. O que me pergunto hoje, entretanto, é qual o critério de avaliação do resto dos dignos, ora bolas!

Uma singela homenagem às mães-loucas espalhadas pelo mundo e em especial, é claro, a melhor delas: a minha!


Fim da sessão.

 

Gata borralheira

Sabe aqueles caras que quando olham pra você, você instintivamente olha pra trás pra ter certeza que não foi pra você? Confere que não é alguém de atras porque em realidade nenhuma ele, aquele ser de beleza suprema olharia para alguém tão comum quanto você? Pois foi exatamente assim que eu conheci o Henrique. Num momento meio Anastácia encontra com o Sr. Gray. Em livro nenhum alguém como o Henrique teria interesse em alguém como Antônia. Mas as vezes contos de fada de fato acontecem, e eu tinha certeza que ele podia ser meu príncipe encantado.

Estávamos em um daqueles eventos do mercado publicitário de Porto Alegre, em que todo mundo se conhece, mas ninguém se atura. Eu matava tempo entre uma champagne e outra, torcendo para que o meu chefe me perdesse de vista para que enfim eu pudesse fugir para o conforto da minha cama e do meu vibrador. Aiai… aquele aparelho pelo qual eu criei tanto afeto que o apelidei de Ricky Martin, já que era rosa, sexy e me fazia viver la vida loca . Perdida nas vibrações dos meus pensamentos, não reparo aquela espécime sublime caminhando na minha direção. “Posso te oferecer outra champagne?” – ele pergunta, me tirando dos meus devaneios em um susto tão grande que borrifo pela boca todo último gole que havia enfiado garganta adentro no rosto dele. “pfffffffffffffffffffffft… coof coof…”.

“Você está bem?” ele pergunta gentilmente enquanto tira um lenço do bolso do terno, e delicadamente seca as borbulhas do seu perfeito rosto. “ahhh, sim, desculpa, nossa… perdão, eu fiquei vibrada, não! Não! Assustada. É, é que você me assustou. Desculpa eu”. Ele sorri um sorrido de dezoito quilates, enquanto procuro minha compostura. “Dizem que as melhores histórias começam com situações inusitadas”, e completa o seu charme secando uma gotinha do meu queixo. “Meu nome é Henrique Albuquerque, posso saber seu nome?”. “Antônia… sou Antônia”. “É um prazer conhecê-la, bela Antônia”. Coro as bochechas. Aquilo não podia estar acontecendo comigo. Eu não tinha fada madrinha.

A noite rola comigo o tempo todo tentando entender o que o Henrique podia querer comigo. O salão do evento inteiro olhava para nós dois. Quer dizer, para ele. Pudera. O Henrique era digno de realeza. Tinha os olhos de turquesa, porte de jogador de rugby e elegância de um atleta de esgrima. O terno sem gravata dava-lhe um ar descolado, sem deixar de transmitir que ele sabia muito bem o que fazer na frente do seu armário. Era um pacote harmonioso para um conteúdo perfeito. Descobri que o Henrique era advogado que representava uma rede de bancos, morava no Rio e estava ali só durante aquela noite.  Era fluente em três línguas e já havia terminado duas vezes a prova IronMan no Hawaii. Eu seguia sendo só Antônia, que trabalhava numa agência de publicidade mediana, e comprava calcinhas na liquidação.

A noite vai chegando ao fim, e eu tento me despedir sem deixar avaliar a minha sorte. Por Deus, quero que ele vá pra minha casa! É só jogar toda roupa suja dentro da geladeira e tá tudo certo. Mas não. Ele me acompanha até meu taxi, entrega R$ 100,00 ao motorista e pede que ele espere a um metro de nós. Então ele olha pra mim com as bolitas de turquesa, tira o cabelo caído no meu rosto, e se aproxima devagarinho. Minha respiração começa a acelerar, ao passo que penso que se ele me beijar provavelmente vai sentir meu hálito de champagne + provolone do maldito coquetel servido na festa. Erro novamente. Ele não me beija a boca, como o cavalheiro que é. Beija-me a bochecha delicadamente, mas sem deixar de ser sexy. “Palavras não descrevem o prazer da noite de hoje, bela Antônia.” Coro as bochechas de novo. Ele toca meu braço de leve, faz sinal para o taxi que dá ré até onde estamos. Abre a porta e me dá mão para que eu entre. Fecha a porta. Eu abro o vidro, esperando que ele peça meu telefone – sim, nada destas variáveis vazias de Facebook, Whatsapp, Tinder, Snapchat. O Henrique, como o príncipe que parece, com certeza ia pedir meu telefone. Erro de novo. Ele toca de leve no meu queixo e dá uma piscadinha. O taxi arranca.

Piscadinha?! Que merda é essa?! Enfureço. Chego em casa e nem Ricky Martin me salva. Estou frustrada e desiludida. Nunca mais vou ver o Henrique. Queria descobrir se ele ronca, se tem chulé, ou um provável pinto pequeno. Eu quero muito que ele tenha defeitos. Ou pelo menos um. Mas agora eu nunca mais vou saber. Merda!

Acordo possuída de raiva (e de desejo contido), e vou trabalhar. Na recepção rosno algo que parece bom dia para a recepcionista. “Tôôôniaaa…” ela diz miando, “Luíza, já te falei que odeio este apelido, me chama pelo nome que a minha mãe me deu, por gentileza.”Uiaaa que mau humor. Espero que melhore com a encomenda que deixei na sua mesa”. “Encomenda? Que encomenda?” – já pensando comigo que finalmente tinha chegado da China o meu redutor de celulites. “Vá lá ver, Tô-tônia!”. Rosno enquanto ela ri.

Na minha mesa, um envelope largo e uma flor. Gérbera laranja, a minha preferida. No envelope um bilhete de texto curto escrito à mão “Gostaria de agradecer a noite de ontem. Já tem planos para o final de semana? Espero que aceite minha sugestão. Beijos, H.” + número do telefone – acho lindo quando a pessoa se auto-resume numa letra! Anexo ao bilhete, e-tickets de ida e volta ao Rio para aquele final de semana. Sentei na minha cadeira evitando um possível desmaio. Racionalizo por um segundo – eu nem conheço esse cara, e se ele for um psicopata? (Silencio) Vai ser o psicopata mais lindo que eu já beijei. Saio correndo e dou uma desculpa esfarrapada que tenho que sair para o meu diretor. Era sexta-feira e eu tinha menos de 8h pra arrancar todos os pelos do meu corpo, fazer todas as unhas dos meus dedos, deixar minhas sobrancelhas iguais, perder 9kg e gastar os olhos da minha cara nas lingeries que nunca tive.  Afinal ele era um príncipe, eu longe de ser princesa.

17h chego no aeroporto. O Henrique e seu sorriso de 18 quilates me recebem com um abraço e outro beijo na bochecha (será que falta muito pra ele me beijar na boca? – pensava em silencio). “Pronta para a Cidade Maravilhosa?”“Nasci pronta”, sorrio ignorando a coceira da minha virilha recém-depilada. Chegamos no Rio, e depois de um longo engarrafamento em seu carro de adulto – daqueles sedãs espaçosos e moderninhos que eu nunca sei identificar o modelo – chegamos em seu espaçoso flat no Leblon. O local cheirava a limpeza, e era impecavelmente decorado. “Parafernálias das viagens que faço” – ele diz enquanto analiso o buda de madrepérola na mesinha do hall de entrada. “Gosta de frutos do mar?” – balanço a cabeça positivamente – “Pedi para a empregada pegar algumas coisas frescas hoje a tarde. Você vai adorar a minha ostra gratinada”. Sério? Ostra! Não podia ser um macarrão à bolonhesa, tinha que ser algo altamente elaborado para me colocar no lugar de pessoa normal de novo.

A noite segue a La Henrique – perfeitamente perfeita. A ostra combinava com o camarão que combinava com o vinho branco que ele escolheu de sua própria adega climatizada. Na sacada, a luz da lua faz brilhar ainda mais seus olhos turquesa. Ele segue servindo a minha taça enquanto conta suas aventuras pelo mundo. O Henrique faz minhas experiências na estrada se tornarem viagens de uma amadora com seus safáris africanos e escaladas nos alpes baváricos. Como pode alguém ser tão perfeito? Duvido que ele faça cocô, penso comigo. Não, isso seria humano demais para alguém como o Henrique. Seus dejetos devem sair em cápsulas higienizadas, fico imaginando. O Sr. Perfeito então nota que estou mais uma vez perdida em meus pensamentos. Vai até o som e coloca John Legend, All of Me (que não podia ser mais adequada para a ocasião) e pede para que eu dance com ele.  Ele enrola-se na minha cintura, e começa a se embalar com a melodia. Deito no peito dele, desenhado por muito supino. Suspiro profundamente.

Ele então sobe as mãos até o meu rosto, sem desgrudar o corpo de mim. Passa os dedos pelos lóbulos da minha orelha, e olhando no meu olho, aproxima a boca da minha. Ouço a rouquidão da balada de Legend dizendo ao fundo “Give your all to me, I’ll give my all to you”, suspiro de novo, fecho os olhos e me entrego. O resto da noite terminou tão perfeito como começou. Descobri que o defeito que o Henrique poderia ter, não ficava dentro das cuecas Calvin Klein dele. E para terminar com qualquer dúvida que ainda tinha, ele me serviu dois orgasmos de sobremesa. Filho da puta!

O final de semana seguiu perfeito e delicioso. Nunca saíra da casa do Henrique. Se o Rio era maravilhoso, a cama do Henrique era nirvana. Na manhã de domingo acordei com barulhos vindos da cozinha. Ele entrou no quarto, como um sonho que acabei de ter. Bandeja na mão, com suco de laranja, morangos e uma torrada perfeitamente cortada em triângulos. “Dormiu bem, bela Antônia?”. Transbordo felicidade pelos olhos. “Espero que perdoe a minha indelicadeza, mas preciso revisar uns documentos no banco. Alguns acionistas não têm vida própria nem aos domingos.” Faço cara de manhosa.  “Mas por favor, fique aqui e, sinta-se em casa”. Agradeço com um sorriso. “Henrique, também vou arrumar as minhas coisas e vou indo pro aeroporto, não quero me atrasar por conta do trânsito”. Ele faz cara de contrariado mas concorda. “Vou chamar um taxi pra você em 1h. Quando sair, é só bater a porta que ela tranca. Eu volto a ver você de novo, certo?”, “Com certeza” – respondo –“No meu Rio ou no seu!” – ele então beija a minha boca, pega o casaco e sai.

Ouço a porta bater. Corro para o banheiro. Faziam dois dias que as ostras gratinadas imploravam para sair de mim. Mas como eu podia? Usar o banheiro no castelo de um príncipe que ejeta cápsulas higienizadas? Eu era somente humana, e precisava desesperadamente fazer minhas necessidades fisiológicas – sim homens, entendam: mulheres fazem cocô! 2kg mais leve puxo a descarga e entro no banho. Nada. Nem um som de água. Saio do chuveiro e tento de novo. Nada. Nenhuma movimentação. Entro em desespero. Corro para a lavanderia. Tento sem sucesso inúmeros baldes d’água. Nenhuma evolução. Começo a suar pensando no relógio passando. Me visto, arrumo as minhas coisas voando. Tento mais alguns baldes. Nada. Neste momento então, tomo a única decisão que ainda me cabia, como a pseudo-dama que sou. Com uma sacola-plástica na mão, coleto o meu depósito. Fecho bem a sacola, e decido levá-lo comigo e descartá-lo numa lixeira da rua. Não ia deixá-lo naquele castelo.

O interfone toca: “Srta Antônia, o taxi que o Sr. Henrique solicitou já está aqui…” – “tô descendo!”. Junto as minhas coisas, e me encaminho para a porta, mas não antes sem deixar um bilhete sob a mesinha de entrada, ao lado do Buda. Bato a porta atrás de mim. Apenas para um segundo depois dar-me conta de que não estava com a sacola plástica na mão. Eu a havia deixado, também na mesa de entrada. Ao lado do Buda de madrepérola. Ao lado do bilhete.

Lembro-me do texto do bilhete que deixei ao lado da sacola:

 “Henrique, palavras não descrevem este final de semana… A.”

Definitivamente eu era a gata borralheira. E o que eu deixara pra trás, era longe de ser cristal.


Fim da sessão

 

O tombo

Eu sempre tive e admirei gatos por sua capacidade inquestionável de dar conta do improvável. Como enfrentar uma queda não planejada e cair sob suas quatro patas. Lembro-me de ser pequena e desafiá-los a situações adversas só para vê-los superá-las. Caindo sempre sob quatro patas.

Na minha vida, por algum tempo, também fui assim. Me desafiava constantemente a superar situações adversas. Muitas vezes fiz como fazia com meus gatos, e coloquei-me em situações adversas de propósito, apenas para testar minha capacidade de resolução. Obvio que com o tempo isso se tornou arriscado e cansativo, e com a chegada a maturidade (isso aconteceu?!) parei de procurar conflitos, e me contentei em rebater os desafios da vida. Sempre buscando cair sob as minhas quatro patas.

Isso até aquele casamento. Aquele casamento me marcou.

Era uma celebração linda. Na beira de um rio ao pôr do sol, sob a proteção de um majestoso carvalho e doces palavras de uma juíza de paz. Celebrávamos o amor da Franchesca e do Julio, com lágrimas de alegria e também de despedida, pois os dois iriam morar em um paraíso distante de nós, dias depois do casamento. Abençoamos os noivos com areias coloridas e desejos de diversas vibrações positivas. Tudo estava naquele vaso multicor: cumplicidade, compaixão, saúde, alegria, paz e amor. Muito amor.

O casamento seguiu deslumbrante, e as borbulhas rolavam cedo em nossas taças. Na minha mesa, um buque com as minhas flores preferidas: Melina, Tamara, Taíssa, Uana e a Mana, a irmã mais nova da Uana. Entre canapés e quitutes, mais borbulhas. Confesso que logo cedo fiquei preocupada com a rapidez do álcool, e lentidão da comida. Pedi ao garçom que regasse minhas flores com água, assim todas curtiriam a festa até o final. Antes que ele terminasse de servir a água, Uana já se mostrava um pouco mais desinibida, e afoita com os bocejos da irmã e da Taíssa. Disse às duas que não seriam convidadas para o casamento dela, dado o cansaço evidente das duas em um dia tão importante. Não deu nem tempo de intervir. Irmã e Taíssa pegaram suas bolsas, e foram embora.

Chilique a parte a festa rola solta depois da janta. Os noivos dançam primorosamente sua primeira dança, abrindo a pista. A turma do cigarro decide tomar um ar lá fora. Junto com a Melina, Uana e eu, Fabiano, e Guilherme nos acompanham para uma fumacinha. Embaixo do carvalho. Num espaço mais recluso do pátio. Do lado da cama elástica. Cama elástica?!! Como, diabos, isso veio parar aqui? Fabiano e Uana que já enrolavam a língua do champanhe, comentam que a presença da cama elástica naquele casamento era no mínimo uma situação adversa. E era. E aí, reacendeu em mim, aquele espírito de gato, de desafio, de pular e cair sob as quatro patas.

Tirei os sapatos e com vestido de cetim e coque banana na cabeça, subi na cama elástica. Melina, Uana, Fabiano e Guilherme riam sem parar da minha habilidade em pular e ao mesmo tempo tapar as calcinhas embaixo do vestido. Uana decide juntar-se a brincadeira. As duas pulam em círculos, afastadas o suficiente para evitar o contrachoque da cama elástica. Num dado momento, Uana pula perigosamente perto de mim. A cama elástica me arremessa.

Cetim. Coque banana. Risadas. Tudo direto ao chão, sob a dureza de um paralelepípedo. Eu… não caí sob as quatro patas. Eu caí sob o coque banana. E desfaleci.

Minutos depois me lembro de ser levantada pelo Fabiano e pelo Guilherme. Tento sorrir e dizer que está tudo bem. Meu pescoço esquenta. Sinto algo escorrer. Toco a minha nuca de leve. Olho as mãos para vê-las vermelhas. Vermelho espesso. Pesado. Dolorido. Vermelho que contrastava com o véu da noiva. Vermelho medo. Vermelho incerteza.

Uana desce rapidamente da cama com mil desculpas. Só consigo dizer que não foi culpa dela, antes de perder a habilidade de dizer coisa alguma. Melina, como boa produtora que é (lembram da Melina?!), aciona discretamente a cerimonialista, que entra em pânico e por isso leva uma mijada da Melina . Ela então orienta a cerimonialista a não falar nada pra noiva, e providenciar um transporte para o hospital. “Rápido!” Na beira da cama elástica, e possivelmente de outro ataque de pânico, Fabiano e Guilherme seguravam a minha cabeça com guardanapos de linho que tinham as iniciais dos noivos. Linho branco, agora também vermelho. Vermelho medo. Vermelho incerteza.

Minutos depois o motorista acelera sentido hospital. No carro comigo, Uana e Melina tentam me acalmar, muito embora já nem estivesse mais ali. Eu já estava num outro plano, enquanto as duas beliscavam as minhas pernas para ver se eu ainda podia senti-las. Uana chorava. De culpa. De medo. De raiva, raiva pelo champanhe  impedi-la de poder ajudar mais. Não havia o que pudesse ser feito. Ela não podia me ajudar.

No hospital, um pandemônio. Escutei algo distante sobre meu plano de saúde, e a Melina argumentando verazmente. Uana gritava ao meu lado “eu vou juntoxx com aaa Antôniaaa, eu não vous sair dãquii”, com a voz meio embaralhada. Melina então pegou na minha mão e me olhou bem nos olhos: “Antônia, vai ficar tudo bem tá?” – “Liga pro meu pai”, peço convicta – “Liga agora”. Encho os olhos de lágrimas pela primeira vez desde o tombo para pedir pelo meu pai. Eu não queria incomodar minha mãe – mãe também de outros dois pequenos. Mas eu queria ter alguém da minha família, caso precisasse me despedir.

Depois de entrar na emergência, tudo foi um borrão. Lembro-me de nunca ter sentido tanto medo quando fui submetida a uma tomografia.  Dentro da máquina, recordo-me que pensava que não queria morrer. Não era a minha hora! Que queria ver meus irmãos de novo. Beijar minha mãe. Ver meu pai sorrir. Tomar banho de mar gelado. Queria chorar de rir com as minha amigas. Tomar chimarrão. Beijar na boca. Queria viajar. Ver as pirâmides.  Comer escargot. Queria dizer pra Uana não brigar mais com a irmã dela. Queria pedir desculpas. Queria agradecer. Mas não podia. Não podia fazer nada. Estava presa dentro de um túnel escuro, presa às possibilidades. Presa àquele computador grotescamente enorme, que ia dizer se havia algo errado com a minha cabeça – algo além do obvio, que me fez subir numa cama elástica em um casamento.

Lembro-me de enfermeiras me xingando, que estava bêbada, ocupando lugares de gente “de bem”. Eu era gente de bem. Eu não estava bêbada – bem, eu já estivera muito pior, isso é fato. Mas não era isso que tinha acontecido. Recordo da dor da sutura. Lembro-me de implorar que me limpassem. Tirassem aquele vermelho todo de mim. Explicava sem parar ao corpo médico que meu pai não podia me ver naquele estado. Não naquele vermelho medo. Vermelho incerteza. Lembro-me de apagar novamente, sem saber o que seria de mim.  Eu era um gato em plena queda.

gatos 1

Acordei na cadeira de rodas com meu pai segurando a minha mão. Face transtornada. Mistura de pânico e raiva profunda. Vermelho raiva, pensei.  Empurrou minha cadeira de rodas pela recepção. “Onde estão a Melina e a Uana?” – perguntei. “Foram embora quando cheguei. Pedi que fossem. Tua amiga Uana queria entrar a todo custo. A Melina levou-a antes que a colocasse a força na glicose. Você também merecia uma glicose. A enfermeira disse que vocês estavam bêbadas.” Não expliquei. Me resumi em ficar com vergonha. Vermelho vergonha. Levantei-me da cadeira de rodas, sob as minhas duas patas. Suspirei de alívio pela primeira vez, incrédula da minha sorte.

Em casa, dormi um sono profundo sob a vigilância do meu irmão. Quando acordei, meu pai não estava mais lá – acho que não queria me ver. Encontrei um bilhete seu, com recomendações de remédios para a dor do corte de cinco pontos, e juízo para o que restava dentro da cabeça. Chorei. Chorei de vergonha por não ter caído sob as quatro patas. Chorei por ter perdido a festa tão linda do casal. Chorei pela possibilidade de tê-la estragado.  Chorei de dor de cabeça.

No celular, mensagens de carinho e preocupação. Algumas orientações sobre voltar ao hospital e apresentar minha carteirinha do plano de saúde – a Melina havia engenhosamente convencido à equipe a não me cobrar o valor de atendimento particular, sob a promessa do meu retorno para acerto. Da Uana também tive notícias. Seguia preocupada. E de ressaca, claro.

Quando peguei minha liberação do hospital, uma informação chama a minha atenção. Dentre inúmeras informações pessoais, ao lado do meu nome, na lacuna que dizia “RESPONSÁVEL”, estava escrito “Melina Dorneles”.  Ri por uns segundos pensando que não esperava ver naquele prontuário o nome da Uana.

Guardei o prontuário comigo. Como passei a carregar os cinco pontos que caíram da minha cabeça, junto a carteirinha do meu plano de saúde, que passei a carregar comigo na carteira desde então. Não que eu pretenda pular de uma cama elástica de novo. Claro. Guardei também uma cicatriz. Uma na cabeça, e outra na alma.

Naquele domingo pensei muito em como a vida era frágil. Que em um minuto se está no ar, e logo no outro podemos estar no chão. Que em um minuto as areias de benção podem ser coloridas, e que um pulo em falso podia tornar tudo vermelho.  Acima de tudo, pensei na importância da palavra “RESPONSÁVEL”. Da sorte que tive em ter gente responsável por mim, quando eu não fui. Para segurar o que eu tinha dentro da cabeça, como o Fabiano e o Guilherme. Para garantir meu bem estar, como a Melina. Ou ainda garantir a companhia, mesmo que fosse dormindo na recepção, como a Uana. Pensei como eu era sortuda de ter por perto, gente que me ama – seja quando estivesse em cima, ou embaixo da cama elástica da vida.

O telefone então toca com o número da Franchesca no visor, atendo envergonhada, esperando um xingão da noiva:

– “Samba Lelê tá doente, Tá com a cabeça quebrada. Samba Lelê precisava, de umas dezoito palmadas!”

– Oi, Fran. Hmm… Desculpa.

– Que tombo hein?  Samba Lelê tá bem?

– Não. Mas com vocês por perto, a cabeça sempre há de curar.

– “Samba, samba, Samba ô Lelê. Pisa na barra da saia ô Lalá.”

– Teu casamento me marcou, Fran. 5 pontos, pra ser mais exata.

– HAHAHAHAHA.


Hoje em dia, por vezes a cicatriz ainda dói. Penso que serve como um eventual lembrete. Um capacete que carrego comigo. Serve para me lembrar que embora eu seja uma gata, nem sempre eu vou cair sob as quatro patas. Mas que eu preciso sempre me levantar.

Quando preocupo-me com algo besta ou trivial, a cicatriz coça. Lembrando-me de que eu estou viva. Com a cabeça no lugar, ainda que Samba Lelê.

 


Fim da sessão.

 

Inocente

Era uma pacífica sexta-feira, e por volta das 20h30 eu já gozava do conforto do meu pijama de inverno, me rendia a uma taça de vinho e a ideia de dormir cedo. Domingo era dia dos pais, e eu já tinha me convencido de que aquele deveria ser um final de semana tranquilo.

Inocente. Eu sou mesmo muito inocente.

O telefone toca. Do outro lado da linha a minha BFF Melina fala acelerada sobre uma viagem para o norte do país para acompanhar a gravação do DVD de um grupo de pagode. Queria que eu fosse junto para lhe fazer companhia. A Melina, que sempre foi ligada no 220v, vivia envolvida em eventos fodásticos como lançamento de bandas e shows pelo Brasil. Uma atividade que ela tirava de letra, mas que lhe tomava muito tempo, deixando pouco espaço para os amigos, ou até mesmo um relacionamento. Cedi à saudade que estava da amiga, e depois de alguma relutância, concordo em ir com ela. “OK, Melina, nós vamos!” “Ótimo!”. “Mas pra onde vamos?”  – alguns segundos de silêncio do outro lado… “Manaus, nós vamos pra Manaus.”

A Melina então explica que iria fazer algumas ligações para ajustar minhas passagens, e me orienta a fazer as malas imediatamente, pois antes de embarcarmos, deveríamos passar em outro evento de um artista que ela tinha interesse. Eu, muito obediente, começo a fazer as malas. Ligo pra minha mãe e informo-a de meus planos. “Manaus?! Mas domingo é dia dos pais, Antônia. O que eu digo pro teu pai?”. “Não precisa dizer nada, mãe. Domingo chegarei para o almoço, fique tranquila.”

Na van, a caminho do primeiro evento do final de semana, vou tentando obter mais informações sobre a viagem do dia seguinte. A Melina responde uma coisa ou outra sem muito interesse, evidentemente mais preocupada com o nosso destino. “Você está muito ansiosa por esse evento de hoje. Normalmente você faz isso com um pé nas costas”. Ela fica vermelha e eu fico confusa. “Melina, para onde estamos indo e quem vamos ver?”, ela sorri sem graça – “Taquara”. “Melina, isso fica a 80km do aeroporto! O nosso voo é às 6h00! Quem é esse cara que é digno de tanta comoção?”  “Possivelmente, o futuro pai dos meus filhos” –  desabafa. A Melina então me conta que dentro de sua rotina maluca, havia conhecido alguém especial, e que antes da nossa viagem, gostaria de ver o cara com quem ela estava iniciando o romance. Derreto-me toda com a história. “Motorista, toca pra Taquara que a gente tem pressa”, grito pro bigode no volante.

Por alguns instantes achei que nosso final de semana acabaria mesmo em Taquara. Mas não, às 5h35 o motorista da van freia bruscamente na frente do Aeroporto Salgado Filho e nos acorda com um grito: “Chegamos!! Corram gurias, acho que vai dar tempo!!” Sonolenta, remelenta, bêbada e toda encasacada, me encaminho com pressa para o guichê da companhia aérea e indago a atendente: “Moça, onde fica o check in para o voo das 6h para Manaus?”. Ela me olha com estranhamento e dispara: “Às 6h só tem voo para Belém do Pará!”

Oi?!?!!!

“Melinaaaaaaaaaaa!!!” Grito pra ela, interrompendo o beijo de despedida dos dois pombinhos na porta do saguão. “Pode vir até aqui, pois nós temos um probleminha…”

Passamos os nossos dados e lá estavam: duas passagens em nossos nomes para Belém do Pará. BELÉM DO PARÁ. Eu olho para a Melina, que no meio desta confusão, ainda assim não consegue esconder o sorriso bobo, embriagada de amores com os primeiros beijos do paquera. Eu, embriagada de vodka mesmo, olho novamente pra atendente e me contento: “Se é Belém do Pará que está aí, é pra Belém do Pará que a gente vai”.

Ligo pra minha mãe de novo, e deixo uma mensagem, avisando da mudança do trajeto, e explicando de antemão, que eu era inocente na história. Sempre inocente.

8h de voo depois, um rapaz com uma plaquinha com o nome da Melina nos aguardava. Ele, e claro, um calor de 50°C. Em Agosto. E nós com três camadas de roupas, direto do frio dos pampas. “Moço, nós vamos direto para o hotel?!”, pergunto. “Não! Vocês tem uma programação”. Claro que nós temos… como eu sou inocente.

Com duas blusas de gola, meia calça fio 40 e bota até o joelho, seguimos para encontrar o pessoal da banda e demais convidados em um restaurante da cidade. 3h depois, sem ar condicionado, segurando o sorriso e pesando 2kg a menos de tanto suar, o motorista nos informa: “o próximo destino fica no caminho do hotel, vamos passar lá”. Louvai-vos à Nossa Senhora do Ar Condicionado!

Chegando nas proximidades do hotel o motorista muda de ideia, “Vamos seguir! Vocês têm muito pra ver ainda e pouco tempo”. Es.pe.ta.cu.lar.

O tour incluía o porto da cidade e uma cervejaria fantástica digna de não perder mesmo. Terminado o tour, chegamos finalmente ao hotel. Já sonhava acordada com a minha cama, quando o motorista dá a nossa sentença: “Vocês tem 1h antes de irmos para a gravação do DVD. Vou aguardar na recepção.”

1h depois, fomos para a gravação do DVD. Um show com uma mega produção, dúzias de novos amigos,  vodka brotando do chão, horas e horas dançando muito e rindo litros. As 5h da manhã chegaram num piscar de olhos, e me encontraram dançando até o chão aquela música que conta que “o Pimpolho é um cara bem legal…”. Digníssima hora de ir embora.

 “Motorista, que horas é o nosso voo?” “6h30. Vai dar tempo de pegar as malas e sair correndo”. Claro. De novo. Recolhemos tudo no hotel, e saímos em maratona novamente para o guichê da companhia aérea, vestido curto, maquiagem borrada, embriagadas,  famintas e fechando 30h sem dormir.

 “Agora, já deu!” Penso comigo. “No avião é comer, dormir e chegar em casa.” Inocente. “Olá, meu nome é Antônia e eu sou mesmo muito-muito inocente”. “Olá, Antônia” respondem aeromoças em uníssono.

Minutos antes do serviço de bordo iniciar com o café da manhã, um senhor enfarta dentro do voo. Isso é hora de enfartar, oh desgraçado!! O serviço é suspenso, e fazemos todos um pouso de emergência em Brasília.

 “Moça, e o sanduíche?” pergunto nervosa, enquanto a Melina – que agora se alimentava só de amor – dormia. “Só quando voltarmos ao trajeto”.

Uma hora depois, voltamos aos céus e ao serviço de bordo. “Moça, tem como me deixar dois sanduíches? Eu não jantei.” – sorriso amarelo. Ela, com cara de desprezo, faz a caridade.

Nova parada: Rio de Janeiro. “Moça, por que paramos?”. “Precisamos abastecer devido ao pouso de emergência em Brasília”. Posamos. Decolamos e seguimos adiante. A fome voltou. “Moça, tem mais um daqueles sanduíches?” “Só depois que pararmos em Florianópolis” ela responde. “MAS POR QUE DIABOS VAMOS PARAR EM FLORIANÓPOLIS? – me altero. “Porque a escala deste voo é em Florianópolis”.

 Caceta!

18h da tarde. Olho para a Melina com uma cara de choro, e disparo “Se fizermos escala em Caxias do Sul antes de Porto Alegre, eu fico por lá mesmo”. Ela dá risada.

20h, chegamos ao nosso destino final. O paquera da Melina a esperava no portão para levá-la em casa. Depois desta viagem, ela contabilizou um amor de verdade, um casamento e um filho lindo.

Eu? Eu contabilizei 23h me deslocando, 8.000km percorridos de Norte a Sul do país, 15h em Belém do Pará, 3h de sono, 6 escalas, 3 sanduíches e um almoço de dia dos pais perdido.

Liguei pro meu pai, e contei minha improvável história. Ele riu da minha cara, e disse que eu era tudo,  menos inocente naquele episódio. Mas que me perdoava.

“Mas afinal, qual era o nome da banda?”

“Que banda, pai?”

“A banda, da tal gravação do DVD.”

“Tu não vai rir, né?”

“Eu prometo, Antônia.”

“Jeito Inocente”.

“HAHAHAHHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAH”.

 


 

 

Fim da sessão.

“nooossa senhooora hein?”

Caminhava apressada para mais uma sessão de terapia, e eis que no meu caminho, parado na calçada, está um homem. Ao passar por ele, uma cena comum: ele se inclina na minha direção e sussurra

“nooossa senhooora hein?”

Paro. Dou dois passos na direção dele e pergunto:

-“O senhor falou comigo?”

E encaro. Ele, incrédulo e em choque, responde num susto:

-“Eu?? Eu não! Acho que tu é que tá louca! Louca!”

Estufo o peito, giro os saltos e sigo meu caminho.

A ocasião chama a minha atenção não pelo assédio – esse tão corriqueiro e conhecido – mas pelo despeito com que ele encarou minha intervenção. Pensei comigo, “louca, aham”,.. louca eu tava quando ficava quieta.