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Coisa de Antônia: As curvas do meu corpo

O Antônia no Divã  vira “Coisa de Antônia” toda quinta-feira, colocando o seu querido divã  dentro da casa da Rede Atlântida, no papo-calcinha do ATL Girls.

É coisa de mulherzinha só que com pimenta. Não tava sabendo? Corre lá bonita, é só clicar no botão ATL Girls!

antonia + atl 5

Fica a dica:  só consegue ler o post desta semana quem for linda, gostosa e poderosa. 😉

 

Queria ser perfeita

Eu queria ser perfeita. De verdade. E eu nem sei como isso começou. Em casa não foi. Meus pais nunca me exigiram perfeição, eles sequer intervinham nos meus assuntos da escola. Talvez porque a cobrança que vinha de mim já garantia notas altas e um bom desempenho em tudo que eu me envolvia. Eu estava entre os melhores alunos da turma, era destaque no meu grupo de dança e comecei a falar uma segunda língua bem cedo. Mas eu queria mais. Queria ser perfeita. Talvez eu culpe a Disney por isso, com suas princesas de cabelos perfeitos e comportamento adequado. Eu nunca fui adequada. Mas eu sempre quis ser perfeita.

A situação realmente piorou quando me tornei adolescente. Eu fui estudar em uma escola técnica cujo corpo estudantil era formado em 70% por meninos. Não foi difícil ganhar atenção na escola, e eu tinha que ser forte num universo basicamente masculino. Logo os holofotes que antes me envaideciam, me tornaram tensa e paranoica. Eu cuidava todos os meus passos, ensaiava minhas falas na cabeça e evitava qualquer situação que pudesse demonstrar minhas falhas. Era exaustivo. Na fase adulta não foi muito diferente. Eu conquistei todo emprego que almejei, eu me formei com distinção em tudo que estudei. Namorei os caras mais populares e fiz um monte de escolhas ruins baseadas na minha vaidade.

Quando o divorcio dos meus pais finalmente teve um fim, decidi que era hora de pegar o rumo do mundo e gozar de um encontro comigo mesma. Talvez lá eu encontrasse a perfeição pessoal que eu tanto buscava. Ao invés disso, Londres trouxe algo que eu jamais experimentara antes: completo e absoluto anonimato. Lá eu aprendi que podia ter meus dias de cabelo ruim que ninguém ia notar (e sempre tinha alguém bem pior). Eu corria na beira do Tâmisa apenas de shorts e top, sem me preocupar em mostrar o corpo. Eu uma vez vomitei de bêbada em público, dentro da manga do meu casaco em um ônibus da madrugada, e me achei genialmente inteligente pela solução encontrada. Algumas pessoas podiam dizer que eu havia me tornado alguém pior. Verdade era que Londres tinha me dado à chance de ser livre pra me tornar quem eu bem entendesse.

Quando chegou a hora de conseguir um emprego, todos os meus colegas de MBA miraram em vagas de gerencia na capital inglesa, posições complexas e reconhecidas. Eu batalhei por um estágio na Yahoo!UK que me parecia instrutivo e divertido. Lembro que na minha entrevista me peguei nervosa falando sobre uma viagem a Tailândia e a diarreia de três dias que tive em Koh Phi Phi. Eu sabia que não ganharia o emprego – era possivelmente a única candidata que havia falado sobre desarranjo durante uma entrevista. Mas para a minha surpresa o emprego era meu – segundo o meu novo gerente, eu tinha algo que ele não vira em mais ninguém: brilho nos olhos, curiosidade  e uma língua solta. E aquilo era bem vindo à minha nova equipe. Eu não precisava ser perfeita. Bastava ser eu mesma. O emprego também não era perfeito. Mas lá eu aprendi muito, e de quebra apertei a mão do Will Smith – e quem dos meus colegas de MBA podia pôr isso no currículo, hm?

Foram os anos mais felizes da minha vida, aqueles em Londres. Talvez porque tivesse o compromisso único e exclusivo comigo mesma. Não tinha que ser filha – irmã – funcionaria – vizinha – aluna – pessoa modelo pra ninguém. Muito embora soubesse que os fantasmas da perfeição moravam apenas no meu sótão, e no de mais ninguém. Já no Brasil consegui manter alguma liberdade das amarras que conquistei em Londres. Outras não foram tão fáceis.

Lembro-me de falar para a minha psicóloga que só voltaria a me relacionar com alguém depois que eu perdesse uns 14 kg, colocasse a minha carreira em ordem, me mudasse para um apartamento novo e parasse de beber tanto. Eu até podia aceitar meus defeitos, mas não estava disposta a dividi-los com mais ninguém. A minha terapeuta na época me mostrou, sempre através de perguntas, e nunca de respostas – como a maioria das psicólogas irritantemente eficazes fazem – que os defeitos podiam ser o tempero de uma relação. O problema é que eu não sabia cozinhar.

Mas aceitei o desafio. De abrir as portas da minha casa (talvez as do coração), e até mesmo as da cozinha para alguém. Já era o segundo mês que eu ficava com um gatinho, quando decidi que aquela quarta-feira seria o dia perfeito para fajitas mexicanas (cujas receitas, estudei profundamente o dia todo). Controlei minha inabilidade e impaciência com as panelas. Tentei não passar acidentalmente guacamole nos cabelos. Tenho certeza de que ele, da tranquilidade do sofá e de sua cerveja com tequila, não fazia ideia do esforço que eu estava fazendo para me manter em controle. Mas eu consegui. E administrei – quase sem nenhum acidente – um festival mexicano todo meu.

Depois da janta, deitei no sofá agradecendo por ele sugerir um filme. Se fossemos pra cama eu teria que ser sexy. Para ser sexy eu ia precisar tomar banho, secar os cabelos, passar rímel e meu gloss preferido e alongar minha musculatura tensa. Confesso que depois de cozinhar, (in)habilidade que eu evito, estava exaurida. Joguei as pernas que deveria ter depilado em cima dele, para então adormecer profundamente.

No dia seguinte, recebo pelo whatsapp dele um videozinho, que ele intitulou de “ronc-ronc”. Já no inicio do vídeo reconheço meu sofá, minhas almofadas – juro que com a evolução da filmagem comecei a temer ter sido uma daquelas garotas que foi filmada furtivamente fazendo um boquete, mas Graças a Deus não era o caso – e de repente aparece eu. Cabelo brilhoso apesar de sujo, semblante tranquilo, em um sono profundo. Parecia com uma das princesas da Disney, a Bela Adormecida – Isso, é claro, não fosse o fato do microfone se aproximar e gravar meu ronco, rouquíssimo e alto, que mais parecia uma britadeira em plena operação. Espraguejei os céus. Antes fosse um boquete no vídeo, mas não eu roncando! Merda! Claro que aquilo era novidade pra ele! Na minha neurose eu sempre o deixava dormir primeiro com medo de o meu segredo ser revelado.

Morri de vergonha, enquanto ele do outro lado, ria achando tudo muito fofinho, explicando que tinha curtido que eu estava dormindo tão tranquila. Dei-me conta que aquela era uma cena nova pra mim. Eu finalmente havia me rendido a exaustão de ser perfeita, pra ser eu mesma. Naquele momento finalmente entendi que não valia perder horas daquele sono tão gostoso para atender ao meu idealismo. Nem por mim, e nem por ninguém.

Concluí por fim , com aquele pequeno vídeo, que não conseguiria aceitar qualquer pessoa na minha vida, sem passar obrigatoriedade pela aceitação própria. Então faria daquele ronco o ecoar da minha liberdade, oras!  Hoje eu não tenho duvidas que ser perfeita deve ser muito bom. Eu queria ser perfeita. Acontece que ser eu mesma é ainda melhor. Ronco, língua presa, teimosia e tudo mais.

Mas vou deixar protetores de ouvido do lado da minha cama. Just in case.


Fim da sessão

Em tempo: O áudio deste post é a deliciosa melodia do sono de uma princesa. Num conto de fadas moderno, é claro.

As curvas do meu corpo

Quanto eu tinha uns 5 anos, eu era uma doce bonequinha que chamava atenção. Lembro-me das pessoas dando parabéns para a minha mãe por ela ter feito uma menina linda . A minha mãe então sorria orgulhosa. Lembro também que com o passar do tempo, aquilo foi tomando conta de mim, então quando os adultos me perguntavam “você sabia que você é linda?!” eu respondia, “Sim! Todo mundo me diz isso.” Então o sorriso da minha mãe passava a ser amarelo, e não mais de orgulho. “Você não pode dizer pros outros que você sabe que é linda. É feio ser exibida.” ela me explicou. Recordo que na época eu fiquei muito confusa. Os outros podiam me achar bonita. Eu não. Estranho né?

Fato é que cresci aprendendo a me validar através dos outros. Aliás, a sociedade caminhou meio torta naquilo que diz respeito à autoafirmação. O mundo é dos bonitos. Mas não dos convencidos, viu?!  A parcela feminina desta sociedade então, carregou a cruz de ser bonita e modesta até os tempos atuais – presente esse nosso em que dizem que o padrão de beleza tornou-se mais democrático.

Será mesmo?

Tempo atrás a Massafera ganhou enorme atenção da mídia porque estava com a “depilação vencida” (sendo “vencida” apenas a discussão vazia sobre as axilas da moça). A Meghan Trainor ganhou paradas do mundo todo por liberar as “corpo de violão” de suas amarras – afinal is All about that bass, that bass – no treble.  O famoso calendário da Pirelli em 2015 virou polêmica porque colocou em seu cast uma “plus size”. No mesmo ano a Victoria Secrets lançou uma campanha intitulada “O Corpo Perfeito” estrelada por modelos que pesam menos de 45kg. Criaram a Barbie “normal”, com medidas normais – que eu achei horrível, possivelmente porque brinquei muito tempo com a Barbie magérrima durante a minha infância. Em resumo: um mundo de complexos padrões ora a serem atendidos, ora a serem questionados.

E você acha que isso não afeta você. Mas afeta. E muito.

Não faz muito tempo que tive uma pequena reviravolta dentro de mim. Era a primeira vez que recebia na minha casa um gatinho que já ficava fazia um tempinho, alguém que eu gostava muito e que tinha a habilidade de fazer minhas pernas tremerem. Preparei o filme, o jantar, as luzes, e deixei meu quarto impecável, torcendo que tudo terminasse lá, dada a evolução da nossa intimidade. Mas não. Nada aconteceu. Beijos quentes, mas sem evolução. Amassos gostosos, e só. Parava aí. Minhas roupas intactas, e nenhum movimento malicioso por parte dele de jogá-las ao chão. Eu quis morrer.

Tive certeza que o problema era comigo. Liguei “prazamigas”, e fiz como toda mulher insegura faz. Psicopatiei no assunto até me desgastar. Aquilo era muito cansativo. Fiquei dias imaginando o que em mim não tinha atraído ele.  O meu gatinho não podia simplesmente estar tomando o seu tempo, levando as coisas na elegância, entre outros inúmeros motivos que podiam ter a ver unicamente com ele. Não. Ele era homem, logo deveria querer transar comigo. Eu era mulher, logo, psicopatiava que a culpa era minha.

Evoluí na minha psicose. “Olá, meu nome é Antônia, e eu sofro de psicose!” – “Olá, Antônia”, outras mulheres inseguras respondem em uníssono. Investi num WHEY PROTEIN, troquei o treino da academia, li sobre colágeno, pesquisei sobre o remédio de veneno de cobra que vendem na Polishop, enfim – tudo que estava ao meu alcance para eliminar as minhas “falhas” (e fomentar minha psicose). Afe! Mais alguns encontros e nada. Meu sutiã sempre no mesmo lugar. Merda! Eu estava me sentindo péssima.

No próximo encontro estava disposta a largar de mão. Vesti meu shortinho branco surrado e minha blusinha preferida. Nada apertando as curvas do meu corpo pra dentro. Usei as argolas velhas que mais gosto, base, um pouquinho de rímel e protetor solar sem cor da boca. Bebi cerveja, e eu não me preocupei com a barriga estufada. Suei todo o meu cabelo – que obviamente encrespou – com ele me rodopiando pelo salão ao som de um samba-rock. Agora era um encontro comigo, versão eu mesma.

Horas mais tarde meu shortinho estava no chão. E eu suava por outro motivo. Luz apagada, é claro, também não vamos exagerar.

Manhã do dia seguinte. Sou acordada por inúmeros “bips” do meu whatsapp. Num grupo só de mulheres, cada qual derrama seu dramas em um muro das lamentações. Uma porque perdeu a aula de kangoo e ia ficar gorda. A outra estava na Encol fazendo funcional sob o sol de 40°C, e uma terceira perguntando quem já havia experimentando o tal remédio de veneno de cobra da Polishop. Me dou conta que tenho que ir pra academia. Olho para o lado, e lá estava ele. Curvas perfeitas. Todo despojado e a vontade, como se a cama fosse dele. Noto que também estou pelada.

Visto rapidamente meu hobby de cetim preto, que foi escolhido por emagrecer minha cintura, tapar tudo que eu não gosto, e estrategicamente mostrar as minhas coxas, que, em tese, são os  meus atributos mais fortes. Saio da cama de fininho planejando uma ida ao banheiro para arrumar a minha cara. Antes que pudesse fazer isso, o telefone toca. “Antônia, oi! É a Fernanda. Partiu academia?”. “Oi, Fê. Hoje não vai dar, tô com visita.”“olha, essa bunda não vai diminuir sozinha viu?” brinca maldosamente e desliga. Saco! Será que eu acordo ele?

– “Antônia, você não vai voltar pra cama?!” dizem sussurros vindos do meu quarto. Fui descoberta! “Sim, claro.”

Deito-me ao lado dele. De bruços, pra esconder minha barriga de cerveja da luz da manhã (por que diabos eu havia tomado cerveja!!?). Ele pula em cima de mim, puxa a fita de cetim que amarra o hobby e o retira, descobrindo o meu corpo. Tudo acontecendo na malquista claridade daquela manhã de sábado. Encolho-me toda. Ele então começa devagarinho uma sessão interminável de beijinhos no meu corpo.  Começa pela nuca, desliza pelas linhas dos meus ombros, lado a lado. Desce pelo meio das minhas costas. Mordisca a minha cintura. Vai descendo pelas minhas nádegas, dando uma atenção especial pra uma pequena cicatriz que tenho na bochecha esquerda.  Beija demoradamente as curvas entre a bunda e coxa. Não resisto. Arrepio-me e relaxo. E assim ele vai descendo, centímetro a centímetro…  panturrilhas, tornozelos, dedos dos pés.

Quando ele começa a fazer o caminho inverso, me pego pensando: por que mesmo eu deixo uma pessoa beijar, acariciar e cuidar tão bem das curvas do meu corpo, quando eu mesma não as valorizo? E pensar que eu ia dispensar aquele carinho todo por causa da “minha bunda que não vai diminuir sozinha”.   Enfureço comigo mesma.

A questão ali não era ser exibida ou não. Atender aos padrões ou não. A questão ali era me gostar, ora bolas! E tudo bem, que às vezes a gente precisa levar uma encarada pra ver que mandou bem no look. Tudo bem que vez que outra a gente vai pegar emprestada a admiração do outro. Talvez seja através dos lábios certos que a gente entenda que todas as curvas estão onde deveriam estar. Mas acima de tudo, era preciso convencer a mim mesma daquilo.

Decidi que aquele era o momento.  Sem hobby, sem coberta, sem desculpas. A luz do dia. Me dei conta que somente gostando de vestir a própria pele,  perderia a vergonha de parecer exibida, e me permitiria ser simplesmente feliz sentindo-me linda.

Neste momento sou retirada da minha autoanálise com arrepios produzidos por beijos no meu pescoço. “Sabia que você é linda?”, ele pergunta na minha orelha.

– “Sabia.”

Me viro e beijo a boca que beijava as curvas do meu corpo.


 

Fim da sessão.