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O meu irmão gordo não cabia neste mundo

“A indústria da dieta é o único negócio lucrativo do mundo com um índice de insucesso de 98%.”

eatingdisorderfoundation.org

Para vocês que acompanham estas sessões públicas de terapia, essa não é uma daquelas que termina com um grande aprendizado de espírito elevado, ou uma celebração das lições da vida. Não, essa não será uma destas sessões. Essa sessão é daquelas que você levanta do divã tendo a certeza de que teve de engolir um brejo inteiro, ao invés do sapo.

Aos 20 e poucos anos meu corpo mudou drasticamente. E confesso, tem uma parte de mim que acha que foi proposital. Note, sem qualquer arrogância pretendida, eu nunca fui alguém que passou desapercebida. Eu sempre fui aquela garota dita “popular”. As pessoas sabiam meu nome (aliás, meu sobrenome que aparentemente me garantia uma imagem mais pomposa) antes mesmo que eu soubesse o delas. Eu não tinha uma vida pública – mas tudo que era meu parecia não ser privado. Namorados, tropeços, primeira transa. Aquilo que as pessoas celebram como popularidade, eu via como o desgosto de crescer e me desenvolver sob a lente de um microscópio.

“Ora, por favor, quem não gostaria do mundo aos seus pés?”. Eu não gostaria. Tive a bunda fotografada em diversos ângulos por um garoto na escola, que publicou-as em um site (em uma época que ninguém sabia fazer sites) para que minhas bochechas inferiores ficassem sempre a disposição. Tive propostas de relacionamento muito mais ligadas à minha aparência (ou a apostas) do que a minha personalidade. As pessoas lembravam que eu tinha um corpo de bailarina, mas tinham pouquíssimo interesse no meu discurso. Eu participava de trabalhos sociais desde muito nova, mas era o “social da novinha” que excitava o interesse. Era um saco.

“Óh… pobre menina bonita (adicione sua dose favorita de ironia aqui).” Eu sentia que nada que eu fizesse era mais importante do que como eu aparentava. Me encolhia sob os olhares de interesse e de constante julgamento. Cuidava do meu visual com demasiado sofrimento. Repensava as minhas frases duas vezes antes de pronuncia-las em público. Se as outras garotas odiavam o anonimato, eu aprendia pouco a pouco, o peso cavalar do holofote.

E foi com peso que me vi aliviando essa atenção. Bom, isso podia ser o plano original, ainda que na época, fosse inconsciente. No término da faculdade, eu precisei entregar o meu TCC em 30 dias, por conta de uma crise crônica de procrastinação. Então eu me deleitei naquilo que julgava uma compensação pelas longas horas de escrita. Pizzas, energéticos e guloseimas foram os meus companheiros contra o relógio do TCC durante aquele mês. E na contrapartida do relógio, a balança. 1kg para cada ponto que ganhei na minha dissertação: eu tirei 10.

Peguei meus 10kg e fui pra Londres longe do olhar julgador de conhecidos. Adquiri mais uns 4kg bem conscientes entre longos happy hours e novas culinárias. Perdi 7kg só de desespero na primeira visita ao Brasil. Tive medo que o tamanho alargado dos meus quadris fosse a única coisa que as pessoas iam comentar, deixando de lado as minhas suadas conquistas – como o trabalho numa grande corporação internacional e o MBA na Inglaterra. Ali, eu aprendi que se antes o foco das pessoas estava ligado a minha imagem externa, agora, bem… nada havia mudado. Talvez apenas piorado.

Eu aprendi que meu corpo virou uma pauta pública (mais uma vez e agora de forma depreciativa). Pessoas se sentiam a vontade para falar sobre o meu sobrepeso e de como eu ERA bonita (conjugado no passado). Eu havia – de certa forma – conseguido o que queria. Não era julgada pela minha beleza. Eu só não imaginava, que seria pela “falta” dela. Fato é que pra maioria do mundo, você é o que você come. A minha grande surpresa foi que mesmo comendo coisas gostosas, eu jamais seria uma com as minhas novas formas. É como se o meu (o seu, o nosso) valor fosse medido numa escala interpretada apenas por quilos sobre a balança. Quando vi, passei a colecionar olhares de pena, no lugar daqueles que antes eram de inveja ou interesse. Eu não sabia o que era pior.

Eu não sabia o que era pior até ver a mesma situação – em uma magnitude estratosférica – acontecer com o meu irmão. Desde a adolescência ele havia brigado com a balança, até atingir a vida adulta com o dobro do peso que deveria ter para ser “socialmente aceitável” (ânsia de vomito aqui) e cautelosamente saudável. Se para mim, com apenas alguns quilos a mais, era difícil não pertencer ao grupo das bonitas, para o meu irmão com excesso de peso imensamente maior, era triste não pertencer mais ao grupo dos bem-vindos.

Vi ele sucumbir no silêncio de seu quarto, enquanto a minha família lutava para lhe oferecer toda a estrutura e apoio necessário na luta contra a obesidade. Ele tinha vergonha de se servir na frente dos outros. Nunca entrava em lojas para, sequer, olhar as roupas de longe. E quando muitas vezes usávamos transporte público enquanto viajávamos, ele só sentava se fosse ao meu lado, num semi-pânico de possivelmente invadir o espaço de um passageiro desconhecido. Falar sobre o assunto era demasiadamente doloroso e com um pesar associado sempre a muita vergonha.

Você já imaginou sentir-se completamente exposto 24h/dia?

Era como se ele andasse pelado na rua. Sabe, quando você vira referência? “Quebra a direita no corredor onde está parada aquela gordinha.” “Fulano, sabe, aquele que é bem gordo”. Você vira o que você pesa e ponto final. De repente tudo que as pessoas queriam era discutir as métricas do meu irmão, como se ele por acaso saísse falando do Botox que via na cara das minhas tias ou dos pêlos no nariz daquele cidadão que não via desde criança. Entendemos o real sentido do termo “gordofobia”. O corpo dele parecia que não era mais dele, e a reclusão foi a saída de emergência mais próxima. A comida virou um circulo vicioso de: vergonha > ânsia por satisfação > mais vergonha.

Quando o Leonardo decidiu fazer a bariátrica, eu fui contra. Não que não quisesse ver o meu irmão receber a ajuda que precisava, não é isso. Mas achava que deveria haver um tratamento preparatório maior, do ponto de vida psicológico. Sabe, preparar a pessoa para esse novo corpo, essa nova vida. O meu irmão já era um adulto, quase um médico formado, então ainda que respeitasse as minhas ressalvas, ele seguiu em frente. E teve meu apoio incondicional em cada parte excruciante do pós-operatório.

O Leonardo viu seu corpo reduzir drasticamente. Pela metade. Ficou obcecado pela perda de peso, que parecia nunca ser o suficiente. E com todo o peso perdido, os cabelos, as unhas. Tinha que tomar vitaminas e um calhamaço de cuidados que teria de ter pro resto da vida. Sofria de constantes quebras de consciência. Estava comigo num minuto, de repente, no outro, não estava mais. Começou apresentar variações na fala. E em duas ocasiões diferentes, convulsões que o levaram ao chão. Nos exames dele, tudo normal.

Na vida dele, para os outros, tudo melhor. O Léo começou a receber uma atenção nunca antes sentida. Era convidado para finais de semana na casa de praia de familiares. Ganhava constantemente presentes de pessoas não tão próximas. Recebia cantadas de mulheres e homens. Convites nunca recebidos para todo tipo de programação. Era como se com a capa de gordura, ele tivesse também removido a capa de invisibilidade que ele antes vestia.

E eu? Tive crises de ressentimento e muito rancor. Rancor por todas as pessoas que passaram enxergar atratividade estética, onde eu sempre vira beleza. A beleza do meu irmão, acima de qualquer coisa. O meu irmão era um jovem brilhante, sensível e gentil, com uma carreira cheia de conquistas e um futuro promissor e excitante. Mas tudo o que a maioria das pessoas enxergavam era um cara gordo. Ou naquele novo corpo, um cara magro. Eu guardei seus rostos e nomes na minha memória. Intitulei a lista como “amigos da beleza conveniente”. Tive raiva de cada aproximação interesseira que presenciei. Mas me nutri da alegria que meu irmão sentia por toda essa nova sensação de interesse, “bem querer” e pertencimento.

Meses atrás, um pouco antes de tirar umas férias da vida que deixei pra fora da minha mochila, eu terminei de ler um livro que meu irmão havia comprado. Achei o livro em seu armário e esperei um ano e meio antes de ter coragem de lê-lo. O livro era “Grande Irmão” de Lionel Shriver. O bestseller conta a história de Pandora, uma mulher que larga tudo em sua vida para ajudar o irmão na difícil tarefa de perder peso. Eu devorei o livro a procura de respostas. Achei que ali poderia encontrar uma pista do que eu poderia ter feito. Me deparei com a tragédia na arte, da mesma forma como me deparei com a tragédia na minha vida. Entendi que certas fatalidades são inevitáveis na literatura ou fora dela. A personagem do livro, perdeu o irmão gordo para complicações da obesidade. Eu, perdi o irmão magro para as complicações que ele passou a ter depois da cirurgia.

Foi difícil de encara a inevitabilidade de ambas as histórias.

Talvez por conta disso eu tenha decido nunca perdoar as pessoas que trataram o meu irmão com descaso ou despeito quando ele era gordo. Gente que entende prestígio da mesma forma que encara a arroba de um boi. Eu nunca vou esquecer dos nomes daqueles que enxergaram o meu irmão apenas quando ele foi magro, e de alguma forma, o convenceram de que a única forma de ser reconhecido, era tornando-se padrão. Mediano. Custasse o que custasse.

E aqui talvez seja crueza ou até crueldade da minha parte dividir essa sessão tão visceral. Visceral a ponto de não ser lapidada para o grande público em forma de uma significativa e poderosa lição ou de um comportamento exemplar. Visceral porque surgiu de mais uma noite que perdi o sono com esse assunto. De mais um dia que chorei porque alguém sugeriu que eu tivesse que emagrecer, e eu lembrei que o peso deste assunto vai muito além do meu corpo. E que a perda é muito mais profunda que a dos quilos.

O meu irmão gordo não cabia neste mundo. Nem nas roupas. Nas cadeiras frágeis. Não cabia nos elevadores. Na foto. Na praia. Na luz do dia. Na turminha. Nos olhares de reprovação. No destaque positivo.

E por conta disso eu passei a cultivar um outro peso, que é o peso do rancor. Do rancor e da pena. Com o tempo eu também passei a sentir pena daquele grupo de pessoas que segue medindo valor humano baseado na circunferência da cintura alheia ou dos IMCs. Porque enquanto eu conseguia enxergar a beleza do meu irmão durante todos os dias de sua vida, teve quem se limitou a visão de um caixão bem magro no fim dela.

E como avisei pra vocês. Essa não é uma daquelas sessões que faz a gente se sentir melhor. Não, é. Eu lamento.

Fim da sessão.

Observação importante: Eu poderia falar horas sobre obesidade, cirurgia bariátrica, tudo que vivi e pesquisei. Os prós e os contras que aprendi de perto, e senti muitas vezes na pele. Mas aqui eu vou fazer um único apelo, a qualquer pessoa que considere a cirurgia bariátrica: estude muito bem os efeitos colaterais pouco divulgados, como as convulsões, as perdas de consciência, nutrientes, quedas agressivas de cabelo, mal estar, e em casos graves, até o alcoolismo e o óbito. Não quero com a história do meu irmão vender a ideia de que a cirurgia não deve acontecer. Não é isso. Obesidade também é um grande problema de saúde que deve ser tratado. Mas caso a cirurgia seja a última opção, que seja uma decisão com intenso acompanhamento – físico e psicológico – entendendo que é uma decisão que terá consequências e cuidados para o resto da vida.

Acima de tudo. Ame-se. Você tem motivos de sobra para se amar, eu garanto.

Irmão é…

Ouvi dizer em algum lugar que a nossa construção é formada pela média das cinco pessoas com quem nos relacionamos. Lembro que o estudo provava por A+B que a nossa personalidade era a massa liquidificada dos nossos pais, irmãos, amigos, amores, na mesma proporção. Apesar de ser um estudo bem fundamentado, eu tive certeza que eu não era parte da amostra. Isso porque eu sei que metade de mim sempre foi, e sempre vai ser pilha do meu irmão. O restante dos 50% até pode espremer outras influências. Mas uma metade inteira é consolidada pelo elo que fiz com o meu primeiro e melhor amigo da vida toda.

Irmão é aquele cara que acredita que você pode consertar o redemoinho na franja dele com uma tesoura, e aguenta os próximos meses com um corte de cabelo ridículo por ter acreditado em você. É dividir cama de solteiro, e brigar pelo cobertor. É o cara que finge gostar de palhaços, quando você decidiu aparecer na festa dele fantasia como uma, esquecendo que ninguém mais gosta de palhaços aos 10 anos. E é também o mesmo pré-adolescente que te convida para ir ao banheiro de madrugada, quando você finge – junto com ele – que não tem medo do corredor escuro. É por quem você briga com garotos na praia, enchendo a boca deles de areia quando ousaram falar mal do seu irmãozinho.

Irmão é o primeira pessoa que vai fazer cara feia para os babacas que vão entrar na sua vida, fantasiados de príncipes encantados. Que vai acobertar tuas saídas furtivas para um sorvete com segundas intenções, e ouvir com atenção quando você contar que o seu primeiro beijo foi um nojo (e foi mesmo). Irmão é cara que vai brigar contigo pela internet discada, quando você insiste em namorar horas pelo telefone, com alguém com quem você acabou de passar o recreio junto. E vai tolerar teus ataques ciúmes e tua constante inquisição de irmã mais velha perguntando com quem você anda, e o que você faz quando não está por perto.

Irmão vai sair de casa com você, quando “casa” já não for mais sinônimo de tranquilidade. Vai morar num quarto de hotel por um mês enquanto as coisas se ajeitam , e te mostrar felicidade nas omeletes do café da manhã, quando nada mais parecer ter sentido. É quem vai segurar tuas lágrimas quando você estiver atrapalhada ou com medo. Dar-te força quando o futuro for incerto. Irmão é aquela pessoa que nunca te deixa sentir sozinha, mesmo quando o caminho é sinuoso, e você já não enxerga um palmo de alegria à frente do nariz. É o cara cujo amor você marca na pele, junto a um trevo de quatro folhas.

Irmão é a certeza da proximidade quando se está distante. É sintonia na descoberta de uma atração pop, e o back vocal certeiro naquele rock antigo que foi composto antes de vocês dois nascerem. É cara que te ensina a gostar de livros estranhos, e a quem você – depois de muita insistência – convence a dar aos musicais uma chance. Irmão é Londres, é Barcelona, é Madrid. É brigar na véspera de Natal, e fazer as pazes antes do ano novo. É morar junto, é brigar pela pia suja. Aliás, irmão é o único ser humano que vai tolerar encontrar seu vômito na pia do banheiro, sem lhe dar uma bela e merecida camaçada de pau – afinal o vaso com a descarga estavam tão pertinho. “Poxa irmã – você é a mais velha, cadê teu juízo?!”.

Irmão é nunca sentir-se só. Ou louca. É uma insanidade combinada, familiar. Uma tolerância garantida, não pelos traços genéticos, mas pelo amor forjado a ferro e fogo. Suor, sangue e lágrimas. É a única pessoa no mundo que não se esquece do teu aniversário. Ainda que nunca se lembre de te dar presente. Irmão é pra sempre… não é?

É. Irmão é pra sempre. E talvez por isso não ter mais o meu irmão ao meu lado seja a maior prova de que tudo o que passou valeu a pena. Porque cada perrengue dividido foi único e precioso, e me ajudou a juntar a coragem que eu hoje tenho de seguir adiante, ainda que os problemas não diminuam. Cada risada e musica cantada é a prova de que a vida é linda, e merece ser celebrada. E cada sonho construído não é apenas mais um compromisso com o futuro em construção, mas um ato de honra ao passado que edificamos juntos. Porque no fim de tudo, como eu dizia para o meu irmão, a gente só quer poder olhar a vida, e dizer “foi ducaralho, senhoras e senhores!”. Irmão é saudade para todo e sempre, com a certeza de que foi ducaralho, senhoras e senhores.

E se o meu irmão é o que acredito ser a metade de mim, e vice versa, a má notícia é que com sua partida, uma metade de mim também se foi. Mas a boa notícia (e essa que eu guardo com alegria no coração) é que a metade dele, em mim ficou.

Irmão é pra sempre, Léo. E neste 15 de março, no teu aniversário, eu vou seguir celebrando a melhor metade de mim.


Fim da sessão.

A vida perfeita

Ontem me peguei chorando pela rua.

O vento bagunçava meus cabelos, as folhas das arvores chacoalhavam como percussão musicando o meu caminho. E como em raras oportunidades (e que sem CNH, futuramente nem tão raras) voltava a pé do trem, e passei pela cobertura dourada – palco de tantas das nossas estripulias – de onde o céu brilhava com ares superiores (porque se dissesse “angelicais” tu farias piada).

Ontem me peguei chorando pela rua. Mas era um choro alegre. Ri da sorte que tenho de viver contigo dentro de mim.

Sabe, irmão, eu te culpei por ter me deixado, porque uma vez a minha vida já foi perfeita. Mas ontem, caminhando despretensiosamente pela rua, e por motivos que fogem a minha compreensão, eu entendi que ela segue sendo perfeita – afinal ela só tornou-se perfeita um dia, porque nossos carmas se cruzaram/escolheram.

Hoje cada vez que fico perdida, olho para aquela cobertura – a mais alta da cidade – como um farol me orientando pelo mar revolto – e ele anda tendo dias de ressaca (não das boas).

O farol, ele próprio, tem um paradoxo interessante – pois é responsável pela luz, da mesma forma que é pela escuridão. Nada mais justo, sabendo que a vida e a morte também tem o mesmo apelo contraditório. Luz e escuridão. Perder e encontrar-se. Chega a ser poético.

E eu vou seguir te sentindo perto, e falando contigo como se estivesse caminhando do meu lado. E de certa forma está. Talvez por isso a vida vá seguir sendo perfeita.

The perfect life.

365 dias sem você

Eu prometi para mim que não contaria os dias da tua ausência. Mas essa foi mais uma das vezes que me enganei para poder sobreviver a nossa separação. Como uma dependente química em recuperação. “Hoje eu sobrevivi mais um dia sem meu irmão”. Fato é que eu contei cada um dos dias desde a tua partida, e neste domingo chegamos a marca de 365 dias sem você.

Eu iniciei uma relação bem estranha com o tempo desde que você se foi. O tempo, esse desgraçado, passou a coexistir em duas velocidades: às vezes parece que um vida inteira já aconteceu desde a nossa despedida. Em outros dias, sinto que foi ontem que te vi pela última vez. O tempo ele é impiedoso, sabe? Eu passei a ter raiva de como ele passa de forma tão despretensiosa.  Como ele pode correr livremente  se por vezes me sinto paralisada?

365 dias. Cheios de primeiras vezes que nunca planejei. Foi a primeira vez que eu quis morrer com todas as minhas forças. Não porque não queria mais viver, mas porque não queria mais sentir dor. Uma dor tão estranha e aguda. Foi a primeira vez que eu não consegui sair da cama por 30 dias, sendo que em 7 deles que eu não comi ou tomei banho. E quando saí foi pra enfrentar a minha primeira guerra pela tua memória, no famoso episódio do teu diploma. Talvez ali eu tenha me reconhecido pela primeira vez de novo, porque estava no papel de tua irmã, travando um duelo entre titãs: o nosso luto Vs a falta de empatia.

Teve o primeiro Natal sem você e suas desculpas esfarrapadas pelos atrasos de sempre, como senti falta do teu jeitinho espaçoso de entregar o presente que eu tinha comprado para a mãe, sem nunca me pagar a tua parte. Coisa de irmão mais novo. O meu primeiro aniversário, o teu primeiro aniversário, o aniversário dos teus irmãos, da mãe, do pai. Datas em que eu pirei calada tentando inutilmente compensar a falta do teu  “parabéns a você”. Ninguém podia imaginar como eu sofri tentando minimizar a saudade gritada que pairava sobre o teu silêncio.

365 dias que eu calculei tudo que tu teria feito. Quantos shots tu teria tomado na tua formatura. Quem de nós tu carregaria bêbada na formatura das tuas amigas. Contei na minha cabeça quantas ligações minhas tu ignoraria, para então depois do meu discurso afetado, quantas desculpas tu pediria, como tu fazias com todas as pessoas que tu gostavas. Fiz uma planilha de Excel com projeções de quantas pessoas tu terias ajudado através da medicina, e travei uma meta de propósito de fazer mais pelo mundo para compensar a falta da tua benfeitoria.

Eu contei cada cheesecake que comi e que teria divido contigo, ainda que brigando pela maior fatia. Cada série de Netflix que gostaria de ter feito review do teu lado. Fiz um inventário de todas as músicas que deveriam ter sido embaladas com o gingado tosco e hilário que tu fazias imitando as divas. Perdi-me no controle das lágrimas acrobatas que me escorreram sem aviso. Ou de quantos cigarros eu fumei na sacada olhando para o céu implorando de forma egoísta por um sinal teu.  Eu sei que tu estás onde precisava estar, ainda assim faz 365 dias que Deus e eu não conseguimos nos acertar. Eu também sei que a culpa não é dele, mas a minha imaturidade e humanidade me fazem errante inclusive nesta pauta.

365 dias que eu finjo ser forte. Para a maioria das pessoas por pura convenção. Eu nunca sei quantos minutos de tolerância vou ter das pessoas antes delas tentarem desviar o assunto quando me pego falando em ti. Ao passo que também finjo ser forte para não lidar com as reações de pena que as pessoas separam para mim, sempre que por iniciativa dos outros o teu nome surge na conversa. Faz 365 dias que eu forço sorrisos e digo “tá tudo bem” quando não está. 365 dias que não paro de me remoer de culpa sempre que eu tento seguir a diante e de fato consigo, porque nunca imaginei a vida sem você – e por conseguir viver, me assusto. Um ano inteiro de momentos felizes que dependem de eu me distrair da impossibilidade de tu dividires comigo as minhas risadas, memórias e momentos que teriam sido separados só pra ti.

Faz 365 dias que eu sigo interpretando uma versão mais iluminada de mim mesma toda vez que o Murilo pergunta algo de ti, ou que o Mateus faz planos de te visitar no céu.  Eu tento explicar que não tem como te visitar ainda que tenha o mesmo desejo dos teus irmãos de 6 aninhos. Eu também queria te visitar no céu. Eu morro por dentro um pouquinho a mais, toda vez que o pai repensa maneiras de ter evitado uma fatalidade. Ele nunca vai assumir a humanidade dele, porque ele é teu pai, e isso tem um peso enorme de herói que machuca muito. 365 foi o número de vezes que eu fingi ser indestrutível ao lado da mãe e por toda a pá de coisas que ela teve de lidar desde que tu partiste. Eu inventei uma série de maneiras para levantar ela do chão,  fazê-la sorrir e mentir que vai ficar tudo bem, quando eu não tenho certeza de nada. Eu aprendi neste ano que não existe termo para quem perde um filho, como quem perde os pais se chama de órfão, ou quem perde o cônjuge é viúvo ou viúva. Perder um filho é tão injusto e brutal que ninguém ousou dar nome pra esse lugar.

365 dias que eu me distraí buscando conforto. Eu bebi minhas dores, sendo que eu sempre havia bebido as minhas alegrias. 365 dias que eu reconheci o fundo do poço da tristeza. Que voltei para a terapia. Saí da terapia. Me dei alta, fiquei alta, fiquei puta. Eu nunca fiquei tão puta da vida como nestes 365 dias. 365 dias que eu me senti imensuravelmente sozinha, não porque não tive amparo, mas porque tu és e sempre serás insubstituível. Uma presença latente viva nos meus pensamentos, sonhos, lágrimas e sorrisos. Ouço há 365 dias que tu estás vivo em mim, e me indigno por sentir que não é suficiente.

Eu escrevi esse texto dentro de um avião, cruzando os céus – tão perto mas não longe de ti. Chorei o caminho inteiro de São Paulo a Porto Alegre lembrando que foi exatamente nestas condições que eu me despedi de ti pela primeira vez. Tu me esperavas chegar de um voo tarde, daqueles que eu tinha mania de pegar e por isso ninguém queria me buscar. Mas tu ias. Porque passou a ser mais responsável com as minhas necessidades nos últimos anos. E porque gostava de aeroporto, como eu. Recebeu-me com o Django no colo, e me abraçou sonolento. Perguntou da minha viagem e me deu dois livros de presente – “para inspirar o teu livro”, me disse encorajando o velho sonho. Me contou sobre a troca da tua música de formatura, fez planos de uma viagem que faríamos juntos no teu pós e me beijou a bochecha dando boa noite. Faz 365 noites que elas não são mais boas.

365 dias. 8.760 horas. 525.600 minutos. Todos cheios de saudade. Uma saudade imensurável, mas ainda assim, somada dia após dia. Até a gente se encontrar de novo.


Fim da sessão.

Edição da leitora: sugestão de trilha feita por uma grande amiga do meu irmão e querida leitora deste blog. Adequação a partir da mensagem da música e do grande amor que o Léo e eu dividíamos por musicais.

Seasons Of Love

A irmã mais velha

Sábado passado caiu a luz lá de casa. Não foi por muito tempo, somente tempo suficiente para o Mateus aparecer na minha cama em um pulo, e o Murilo sair correndo do chuveiro gritando meu nome – “MANAAAAA” – sim porque lá em casa meu nome é “mana”. Enquanto a minha mãe arrumava o disjuntor no andar de baixo, eu no andar de cima, acalmava a dupla. O Murilo, ensopado e enrolado numa toalha, chorava no meu colo desconsolado pela ausência da luz. O Mateus, por outro lado, tentava manter-se forte no escuro, mas não, é claro, sem arrumar um cantinho para sentar-se na segurança do meu joelho. Sugeri contarmos histórias enquanto a luz não voltava. O Murilo discordou, entre uma fungada e outra. Ouvindo a contrariedade do irmão, o Mateus sugeriu brincarmos de mímica, e eu achei graça: “Como podemos brincar de mímica no escuro, Mateus?” Pronto, agora os três caiam na risada.

A luz volta.

Frente à claridade, cada um retorna a seus afazeres. O Mateus voltou para o desenho dele, o Murilo foi tirar o sabão do corpo, e eu voltei pro meu quarto e para o Netflix.  Sem perigo eminente, cada um deles podia seguir seu caminho de forma independente. Frente ao perigo, eu era essencial.  A cena me jogou de volta para a minha infância. Quatro anos mais velha que o meu irmão Leonardo, algumas vezes na nossa juventude eu me peguei encarando a escuridão, tendo certeza de que eu não podia fraquejar. Lembro-me de uma época em que morávamos em um sobrado grande, que tinha um longo e assustador corredor até o banheiro, e de como o Léo sempre me acordava para acompanhá-lo durante o seu xixi no meio da noite. Eu nunca confessei para o meu irmão, mas eu devia ter mais medo do corredor que ele – mas por causa dele, eu ficava corajosa.

Como irmã mais velha de três meninos, eu não consigo minimizar a função deles no fortalecimento do meu caráter. O Leonardo, o Mateus e o Murilo são propulsores ativos da minha evolução. Sempre foram. Se dependesse só de mim, talvez eu não tivesse força ou muito menos coragem para encarar os inúmeros perrengues que a vida nos jogou. Mas esta é a mágica existente entre irmãos: como irmã mais velha, eu nunca me vi com escolha de desistir, e por conta deles, me tornei a mulher forte, determinada e destemida que sou hoje. Ou pelo menos alguém que quando precisa, finge bem todas essas características.

Para cada irmã ou irmão mais velho no mundo, existe um irmão mais novo desafiando a nossa fibra. Eu vi isso acontecer com o Léo, quando ele, por sua vez, se tornou corajoso pelo Murilo e pelo Mateus. A cada tosse medonha que os guris tiveram, o Léo, novato na medicina, acalmava a família frente ao desconhecido. Ninava os dois quando eles tinham suas cólicas. E muitas vezes, confortou seus pequenos corações enfrentado o escuro que precede o sono. O Léo deixou de ser unicamente o meu irmão mais novo, e decidiu ser forte, muito mais forte, como irmão mais velho dos dois pequenos.

Depois de muito tempo sendo irmã mais velha, eu finalmente entendi o que esse laço significava. Irmãos mais novos – hoje sei – não são apenas o link direto com o nosso passado, o nosso compromisso com a nossa história, o nosso cúmplice de crime. Eles são também um trampolim para o futuro. E essas etapas mudam a gente. Irmãos mais novos nos dão um preview do que é ser mãe ou pai de alguém. Ser responsável por outra vida além da nossa. Mostra-nos na prática a importância de dar exemplo, muito mais do que dar ordem. Nos forçam a comer legumes que a gente não gosta, afinal legumes são cruciais para o crescimento – eu, por exemplo, odeio beterraba. Mas como irmã mais velha, eu disfarço o nojinho pela raiz roxa e mando ver com cara de quem tá comendo pizza.

Ao lado dos nossos irmãos, a gente ensaia uma versão melhor da gente mesmo. Fuma escondido para não dar mal exemplo. Usa cinto de segurança, mesmo quando acha que “não precisa”. Na frente dos irmãos toda regra é importante. Foi com os meus irmãos e suas demandas, eu aprendi a deixar de dizer “já vou” e comecei a dizer “estou aqui”. Comecei a me preocupar com a violência, com o perigo de alimentos transgênicos e confesso, depois que virei irmã, eu nunca mais dormir sem pelo menos um olho meio aberto.  Por causa dos meus irmãos, eu comecei a querer mudar o mundo pra melhor.

O mais engraçado é que entre um colo e outro, quando a gente acha que está dando força para eles, está na verdade tomando goles de coragem que eles nos oferecem. Sim, porque não dá pra não ser guerreira(o) por um irmão ou irmã. Nós somos os heróis da vida real. Porque mesmo no meio da escuridão, são os nossos irmãos que promovem a coragem e alegria que a gente precisa na luta pelo esclarecimento. E assim, a luz sempre volta.


Fim da sessão

Hoje decidi dividir uma coisa ainda mais pessoal sobre ser irmã. A mensagem abaixo foi escrita pelo meu irmão – um dos meus escritores favoritos. Nela o Léo me desejava feliz aniversário (pela última vez), como também se admitia no desafio como irmão mais velho (pela primeira vez). É com certeza uma das mensagens que irá me tocar pelo resto da minha vida de irmã mais velha. E eu espero que faça o mesmo com todos os irmãos e irmãs aqui neste divã, para que eles nunca deixem de perceber o valor deste vínculo.

Foto: El Retiro - Jardines del Buen Retiro de Madrid
Foto: El Retiro – Jardines del Buen Retiro de Madrid.
“…e em 1768 o recinto foi aberto pra cidadãos não-nobres desde que estivessem bem vestidos e lavados” era o que dizia sobre esse lugar em um dos guias de viagem baratos que a gente comprava nas banquinhas de cada cidade que chegava.
Definitivamente não era nosso caso. As poucas libras que só nos permitiam voar de Ryanair (e comemorar cada pouso com o avião inteiro) nos davam direito a duas ou três mudas de roupas em uma mini-mala (e mais algumas peças escondidas no meu casaco tamanho gigante-plus). Assim a gente sobrevivia, lavando roupa no chuveiro frio do hostel e torcendo pra secar antes de ter que guardar na mini-mala de novo. Então bem ‘vestidos e lavados’ certamente não era o nosso caso, mas conseguimos entrar e aproveitar o ‘recinto’. Era isso que importava.  A mesma briga no início de cada manhã pra definir o plano do dia se repetia na volta pra casa pra decidir quem ia ver as fotos primeiro.
Era ali que eu percebia que não tinha porque discutir roteiro, na verdade o que realmente tinha valor era quem tava junto comigo durante ele.
E essa pessoa foi tu. Sempre tu.

Não me refiro aos 3 meses da nossa viagem, mas aos 26 anos que completo em breve. Não existiu pessoa que me deu tanto apoio e me defendeu tanto quanto tu, não importava o Atlântico de distância que a gente teve que conviver por três anos ou tu estar do outro lado do mundo, como é o caso de hoje que tu comemora teu aniversário na Austrália. A gente se obrigou a aprender que a distância geográfica é o de menos.

Há 4 anos e meio eu me tornei irmão mais velho, papel que tu exerceu praticamente a tua vida toda e acho que foram poucas as vezes que parei pra te dizer muito obrigado por ter suportado nas costas toda a responsabilidade desse cargo.

Mesmo com todos os acontecimentos dos últimos anos que multiplicaram nossa família, sempre vai ser tua a primeira imagem que me vem a cabeça quando penso na palavra irmão. Tu que não me deixou desistir da Medicina todas as vezes que (de saco cheio) cogitei isso. Tu que com o olho cheio d’água segurou minha mão em março do ano passado enquanto eu saía meio grogue do bloco cirúrgico e deitou naquele sofá duro pra só sair quando eu pudesse sair junto contigo pra casa.

Então além de te parabenizar pelos 30 anos queria te agradecer pelos 26 que tu passou do meu lado.  Nem sempre ‘bem vestidos e lavados’, mas sempre juntos.

Te amo, irmã,  feliz aniversário.

Foto de capa: Orgânico Estúdio

Wish you were here

Acordei inquieta. Não sabia o motivo. Abri gavetas procurando contas para pagar que estivessem vencidas. Procurei na minha cartela alguma pílula que tivesse esquecido. Revisei emails e mensagens que poderia não ter respondido. Nada. Sentei na minha ilha de escritório, aquela tão isolada do que eu realmente gostaria de estar fazendo, e decidi tocar meu dia apesar da sensação de consumição. Olhei para o calendário, e lá estava a pulga atrás da minha orelha. Sem nenhum lembrete a caneta, estava aquele aniversário marcado com memórias profundas. Quem precisa de caneta quando se tem memórias profundas?

Hoje é o aniversário do meu amor platônico. Aquele que eu não tive, mas vivi. Vivi sozinha, ok, mas não quer dizer que ele não deixou suas marcas, suas memórias. O fato de não ter sido reconhecido ou compartilhado por outro alguém não impede esse amor de ter provocado os meus suspiros, e o volume do Rio Tâmisa em lágrimas. Hoje lembrei a banoffee pie que fiz para ele em algum aniversário passado, e das velinhas que acendi. Lembro-me do abraço que ganhei, apertado e sufocante, e nem por isso, suficiente. Hoje me lembrei da falta que faz o meu amor platônico, ainda que platônico, porque a pior de todas as saudades, é aquela do amor que não foi.

E por causa do meu amor platônico, me lembrei de outra saudade. Tenho saudade de uma amiga que já não vejo mais. Alguém com que meu coração pulava ao simples estalar de dedos ou plano mirabolante. Tenho saudade de como eu não achava a minha maluquice, tão maluca perto dela. Ou comparada com a dela. Tenho saudade de como eu gostava de me colar nos planos dela, e incluí-la em todos os meus. Ela mudou, eu mudei, e a gente mudou. Mudamos para um lugar mais distante uma da outra, que não é físico. A gente segue nas mesmas coordenadas geográficas, mas em posições bem diferentes. Ainda que não seja GPS o nosso problema, tenho impressão que as duas seguem perdidas, com um desejo bem íntimo e velado de voltar para aquele lugar comum que ocupávamos juntas. A gente não sabe bem como voltar, e isso dói. Dói porque a pior das saudades é aquela de uma amizade que erramos em não florescer.

E olhando para essa saudade da minha amiga, me vi encarando a saudade do meu irmão, aquela saudade que vocês aqui conhecem bem. Saudade do meu melhor amigo, e aquele que entre idas e vindas da vida, nunca mudou de lugar. Saudade da exclusividade que eu sentia com ele. O meu irmão era a única família que era só minha, pois meus pais já tinham outras famílias que eram só deles. Saudade de me sentir destemida do lado dele. Ele possivelmente estaria ao meu lado em todas as dificuldades que eu vou enfrentar na minha velhice, tal como fez na minha juventude. Sabe, não consigo entender pessoas que não se dão com seus irmãos. Será que não consideram colossal a oportunidade de vir ao mundo com alguém por quem a gente daria e ganharia a vida, se pudesse? Eu daria a vida pelo meu irmão, ainda que isso fosse revoltá-lo, já que ele faria o mesmo por mim. E não podendo mais dar a minha vida por ele, terei de dar a vida por mim mesma para que o nosso acordo siga atendido. Mesmo que isso implique em sentir saudades dele pelo resto dos meus dias. E essa é a pior saudade, porque é aquela saudade que é eterna.

Aí foi pensando na saudade eterna do meu irmão, que eu tive uma epifania. Entendi que eu sofro com a saudade de tudo que não é eterno, como por exemplo, a pessoa que eu já fui. Eu tenho saudade da garota de 15 anos que eu era. Com aquela sensação de plenitude, que eu imaginava que seria eterna. Tenho saudade da mulher de 24 anos que eu fui, em seu primeiro voo solo na vida “lá fora”, afinal, “é preciso ir embora”. Tenho saudade da liberdade a toda prova que eu pregava, e que hoje é tão mais cara (e não estou falando do dólar). Tenho saudades dos velhos medos que eu sentia. Os de hoje me parecem tão mais cabulosos. Tenho saudade de mim, porque a pior saudade é aquela que não pode ser revisitada, pois não existe maneira de voltar atrás.

Certa vez comentei com a minha mãe sobre a angustia de ter sentido e, por vezes, sofrido de saudade a minha vida inteira. De tudo e de todos. E sobre o meu medo de que essa saudade fosse um sintoma de eu jamais tinha vivido por completo as fases e as pessoas da minha vida. Ela (sempre tão sábia), disse-me que a relação funcionava justamente ao contrário. Que a minha saudade era proporcional ao quanto eu tinha vivido cada momento.

Hoje quando me pego inquieta frente à saudade, sabendo que uma é sempre pior que a outra, e nenhuma é igual, me lembro do que a minha mãe me ensinou. Talvez o único conforto para a saudade que sinto, é a ideia de ter vivido cada personagem e capítulo da minha história com toda a plenitude do meu coração e entrega completa da minha alma. E entender que a saudade vai sempre me acompanhar. Ora como um amor, uma amiga, um irmão, ora como eu mesma. É a saudade que me lembra que tudo valeu a pena.


Fim da sessão.

“How I wish
How I wish you were here
We’re just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year
Running over the same old ground
What have we found?
The same old fears
Wish you were here”

Wish you were here – Pink Floyd

 

Agradecimento #MeuPresenteProDrLéo

* Nota de atualização: no final da semana deste post totalizamos      71 doações; 


Apensar de cheia de palavras, me faltam verbos, substantivos e fofices para agradecer o amor, carinho e empatia que recebemos durante toda a campanha.  Mas vou tentar!

Muito obrigada pelas 65 doações reunidas com a campanha #MeuPresenteProDrLéo!!

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Queria agradecer a todos que tentaram doar, e por algum motivo não puderam, a todo mundo que divulgou, apoiou e mandou representantes durante a coleta. Entretanto o meu agradecimento especial, como não poderia deixar de ser, é deles! Os 65 guerreiros que promoveram mais de 26 litros de amor.

  1. Adriana Gomes
  2. Alessandra Willand
  3. Alexandra Evaldt
  4. Aline Mazzocchi
  5. Aline Raupp
  6. Aloha Boeck
  7. Amanda Schenkel
  8. Amanda Talasca
  9. Ana Cristina Mello
  10. Ana Julia Monteiro
  11. Ana Teté Freitas
  12. André Luiz Konrath
  13. Andrea Pereira
  14. Andreia Nunes
  15. Ariane Cacenot
  16. Arthur Daudt
  17. Betina Mallmann
  18. Betina Vargas
  19. Bianca Bitelo
  20. Bruno Machado
  21. Carine Moreira
  22. Carlos Eduardo
  23. Caroline Bistrot
  24. Caroline Voltz
  25. Evandro Rizzoto
  26. Fernanda Costa
  27. Flavia Maria
  28. Francine Reis
  29. Geovane Schwanck
  30. Gilnei Tatsch
  31. Gustavo Leal
  32. Henrique Scalabrin
  33. Jamille Hallam
  34. Jean Ragnini
  35. Juliane Kappke
  36. Lauren Burmann
  37. Lindonira dos Santos
  38. Loredana Magalhães
  39. Louise Silveira
  40. Luisa Backes
  41. Marcelo Schilling
  42. Marcos Mendes
  43. Marcos Schott
  44. Maria José Menezes
  45. Mariana Felin
  46. Marília Schmitz
  47. Milena Demaman
  48. Minéia Vinch
  49. Mona Dall’Agno
  50. Nanny Ruivo
  51. Paola Mlanarczyki
  52. Voluntário de Pato Branco 1
  53. Voluntário de Pato Branco 2
  54. Voluntário dePato Branco 3
  55. Voluntário de Pato Branco 4
  56. Fabiana Werner (Pato Branco 5)
  57. Patricia Ferraz Neis
  58. Sabrina Padilha
  59. Sidnei Fernando Blos
  60. Suany Morais
  61. Susan Luchtemberg
  62. Tatiani Teixeira
  63. Vanderlei Camargo
  64. Vanessa Trindade
  65. Vitória Polmann

E já que as palavras escritas às vezes não transmitem a emoção, aqui vai a versão falada/engasgada do meu agradecimento:

A cobertura completa da campanha tá na Rede Atlântida através do post “Dando o Sangue” no ATL Girls – acesse o post clicando abaixo:

Dando o sangue

Obrigada demais, gatedo! Vocês são muito especiais. Assim como o meu irmão foi, e segue sendo.

Beijo grande.


Fim da sessão-gratidão SEM FIM

 

O corredor

Fumei meu quinto cigarro do lado de fora daquela sala abarrotada. Era uma tarde quente de quarta-feira, e as horas se arrastavam naquela espera angustiante. O cheio de suor e da falta de banho tomava conta daqueles metros quadrados que antecediam a entrada, cujo acesso se dava por uma porta bipartida amarelada. E se eu estava ali apenas algumas horas, não podia imaginar a impaciência de quem ali fazia plantão por dias à espera de uma chance. Meu pai andava de um lado para o outro tentando fazer algum sentido daquela cena. Meu tio, seu irmão, estava sentado no murinho da desilusão, com seu olhar perdido no medo e também na movimentação daquela porta. A porta era a entrada do atendimento do SUS do hospital, e o que tinha atrás dela era um misto de saúde e sorte (ou a falta de ambos).

Uma carinha conhecida surge detrás daquela porta. Apesar de toda a estranheza daquela situação, aqueles olhinhos de gotinha eu reconhecia. Meu irmão apareceu naquela recepção equipado de um RedBull nas mãos, estetoscópio no pescoço, jaleco branco emoldurando o peito e um ar de seriedade. Levantamos-nos todos em silêncio e seguimos meu irmão porta adentro. Era a primeira vez, desde o início da jornada do Leonardo na medicina, que víamos em primeira mão, ele atuando como futuro médico. E aqui não estou falando da minha dor de garganta que ele examinava vez que outra. Tratava-se de uma situação com um familiar cujo futuro nos preocupava. Em meio ao caos do SUS, passamos por um corredor abarrotado de desesperados e desesperança. A luz piscava, iluminando de maneira insuficiente aquele corredor comprido. No caminho muitos solicitavam a atenção do meu irmão e de outros médicos que estavam de passagem, e estes iam orientando e respondendo com atenção e rapidez, enquanto caminhávamos para um consultório. No consultório, o Dr.Meu-Irmão nos apresentou os fatos sobre a saúde do meu tio, explicou exames e calibrou a nossa expectativa. As mãos dele tremiam, acusando que para ele, aquela primeira vez também tinha peso. A voz não tremeu. Nem por um minuto.

Do meu lado, meu pai caiu em prantos. Perguntei se era de nervosismo, e ele respondeu engasgado – “Não, é de orgulho”, disse sorrindo. Acho que dentre tantos cheques para universidade do meu irmão, era a primeira vez que ele se dava conta que investia não apenas no filho, mas de certa forma na saúde da família e na saúde em si. Eu entendi bem o orgulho de meu pai. Muito embora eu já fosse fã do meu irmão desde o tempo em que ele era um bebê fofo que fechava os olhos quando sorria. E ele sorria muito. Para mim o brilho do jaleco branco somente destacava a pessoa especial que ele sempre foi. Saímos de lá orientados sobre os dias difíceis que viriam – internação, cirurgia e a burocracia brasileira em todas as etapas.

Os dias se passaram e meu irmão foi posto à prova não apenas como futuro médico, mas como familiar de um paciente que dependia do Sistema Único de Saúde neste país. Contrariando qualquer orientação de seu curso de medicina – o meu irmão se envolveu ativamente no caso de um familiar. Como julgá-lo? O Leonardo cobrou favores, pesquisou leitos e acompanhou cada etapa da enfermidade do meu tio. Ele perdeu o sono. Lembro-me de convidá-lo para um chopp, certo dia, e ele não conseguiu ficar 15 minutos no boteco. Após um plantão de 50 horas, me deu um beijo e saiu do bar apressado. Passou em casa e munido de travesseiro, radinho de pilhas e jornal para o meu tio, ele voltou ao hospital e acompanhou as primeiras 24h do meu tio aguardando atendimento naquele corredor. Corredor comprido. Sinuoso. Como uma cobra que pode ser tanto o veneno quanto a cura. O meu irmão ficou lá, ao lado do irmão do meu pai, zelando por ele sob a luz que piscava como um batimento descompassado de um coração doente.

Dias de tratamento depois, chegava a tão esperada cirurgia. Precisávamos de 10 doadores de sangue para repor os estoques do hospital. Em uma família composta de 10 irmãos, cada qual com um cônjuge e mínimo de dois filhos (isso sem contar amigos, conhecidos ou benfeitores desconhecidos), você pensaria que a tarefa seria fácil. E aí veio a grande surpresa. Três pessoas se apresentaram no banco de sangue em nome do meu tio: um dos filhos dele, o meu irmão e eu. Você pode estar pensando agora “mas que tipo de família é essa?!”  – e eu lhes respondo: uma família exatamente igual a todas as outras. Com seus compromissos inadiáveis, suas justificativas plausíveis e suas viagens pré-agendadas – assim como todo mundo. E claro, a minha família também se provou vítima daquele eterno sentimento humano de “se eu não fizer…  alguém vai fazer”. “Eu não vou, mas tenho certeza que os outros vão”. Coisa de gente ocupada, assim como você e eu.

E assim construímos uma sociedade inteira, entusiasta na crítica pela internet, mas que não bota o pé na rua para mudar coisa nenhuma. Lembro-me do olhar frustrado e quase indignado do Leonardo no banco de sangue. Ele que tinha conseguido leito, médicos, tempo, disposição, e que agora se via praticamente sozinho na luta por algo tão vital quanto abundante: sangue.  Seriam apenas 450ml de um cidadão comum. Mas a atitude exigia duas coisas que não estamos acostumados a abrir mão facilmente: o nosso tempo e nossa empatia ativa. Apesar da nossa derrota na coleta, meu tio foi operado com sucesso e todos os recursos necessários – dentre eles, o sangue.

Aquele episódio seria apenas mais um dos inúmeros desafios diários enfrentados por médicos, familiares e pacientes. Apenas mais um desafio enfrentado pelo meu irmão. Depois da doação, despedi-me do Leonardo com um abraço demorado, apertando-o forte como quem diz em silêncio “não desiste!”. Ele me devolveu um sorriso cansado, tendo a certeza do que o meu abraço significava. Na saída passei de novo pelo corredor da desesperança. No meu carro chorei por gente que nunca conheci. E fiz uma oração para que a melhor pessoa que eu conhecia – o meu irmão – achasse forças pra seguir cuidando dos outros, sem deixar de sorrir, aquele sorriso fofo que ele fazia enquanto fechava os olhos.

Fim da sessão


Amigos do Antônia no Divã. Como muitos de vocês sabem, o Léo partiu em outubro após uma convulsão. Não houve doação ou intervenção que o salvasse, uma vez que algumas partidas não tem aviso prévio ou mesmo uma despedida. Dia 15 de Março é o primeiro aniversário do Léo que não teremos seu sorriso de olhos de fechadinhos por perto. Sendo assim, queremos alegrar outras famílias e evitar outras despedidas promovendo a doação de nosso bem mais precioso: a nossa vida. Bem, na verdade, apenas 450 ml dela. Queremos juntar até o dia 15 de março o mínimo de 27 doadores de sangue e medula óssea. Um doador por cada ano que o Leonardo nos honrou. Escolha o hospital ou hemocentro mais próximo e faça parte desta corrente do bem. Gente que você nunca viu na vida vai agradecer. A minha família vai agradecer. Eu vou agradecer. E o Leonardo – bem, o Leonardo diria que esse é o mínimo que todos nós devemos fazer – então faça! 🙂 Confirme sua doação por aqui, mande sua foto, use #MeuPresenteProDrLéo e promova essa ideia. Vamos encher essa data de vida – exatamente como o meu irmão gostaria.

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É preciso lutar

O dia 18 de dezembro de 2015 foi esperado e planejado pela minha família durante seis anos. Para a data estava agendada uma grande festa, em celebração a maior das conquistas, a formatura de medicina do Léo, irmão e filho querido, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Veja que tudo mudou há dois meses. Após um mal súbito, aos 26 anos, nosso garoto de ouro veio a falecer. E quando digo garoto de ouro me refiro ao seu bom coração, seu altruísmo, e dedicação com tudo que fez em seu tempo aqui neste plano.

Após a partida do Léo, reunimos as poucas forças que nos restavam para atender um único pedido. Queríamos o canudo dele. E pedimos a PUCRS que ele fosse entregue a família na formatura. Passaram-se então 60 dias excruciantes num jogo de empurra-empurra de responsabilidade. Hora  a definição era responsabilidade da direção da faculdade de medicina, hora era do jurídico, hora da comissão de formatura. Foram-nos apresentados todos os empecilhos, nos solicitaram apresentação de documentos adicionais, foram levantadas algumas dificuldades com a turma, tudo sendo resolvido pela família e advogados a cada passo numa espécie de gincana agonizante contra o tempo. Dia 17, a 30 horas da formatura, nosso pedido foi formalmente negado. A justificativa? O Léo não teria concluído as duas últimas cadeiras do curso. Ele não tinha presença nelas. Simplesmente porque faleceu. Ele rodou por faltas porque partiu para o céu. Ficamos arrasados. Por nós, e pelo meu irmão.

E aqui entendam, que o meu irmão não era qualquer aluno. Não que lhe coubesse qualquer privilégio, para nós a entrega era um direito e um tremendo bom senso. O Leonardo foi presidente do diretório acadêmico Garcia Prado, quando lutou ativamente pela redução do aumento das mensalidades, pois acreditava que o curso de medicina deveria ser acessível e não impossível aos menos privilegiados, alem de batalhar por inúmeras melhorias dentro da universidade que escolheu. Foi conselheiro do DU-AMGRIS. Fez estágio no renomado Jackson Memorial Hospital da University Miller of Miami. Reuniu mais de seis mil horas de atividades complementares como participante e organizador. Escreveu artigos para revistas de medicina nacionais e internacionais. Foi contemplado com uma bolsa de MD-PhD antes mesmo da formatura. Seria Dr. com PhD em neurociência. Colega querido de todas as ATMs. Aluno respeitado por toda a Famed. Teve uma passagem irretocável de seis anos na PUCRS. Sua ausência nos últimos dias de faculdade não foi opcional.  O canudo já era dele. Bastava a PUCRS entregar-nos.

Evidente que dentro da legislação e regimento interno a PUCRS não feria a nenhuma lei ou norma. Estava completamente respaldada por seu estatuto. Ainda entendendo sua posição, precisávamos lutar até o final pela humanização do nosso pedido. Acreditávamos que a entrega do canudo era uma forma simbólica de reconhecer os feitos do Leonardo e mais uma vez pedimos a universidade reconsiderasse. Faltando pouco mais de 24h para a solenidade, recorremos às redes sociais pedindo apoio. Em um país que clama por educação, um aluno deste calibre não receber o reconhecimento de uma faculdade católica, na área de ciências humanas, no curso de medicina que é forjado pela empatia, nos parecia desumano e contraditório. Para nós e para a comunidade com quem o Léo se envolvia. A comoção na internet através da hashtag #PUCRSentregueOcanudo foi a prova disso. Foram milhares de compartilhamentos por todo Brasil, chamando a atenção da mídia e também da própria faculdade. O perfil de Facebook do Léo acabou sendo desativado pelo próprio site, quando recebeu tanta atenção (e dada a sua condição atual). O evento virtual de apoio na mesma rede social, reuniu mais de cinco mil participantes em poucas horas. Evento que foi cancelado prontamente quando soubemos que a turma e também a PUCRS temiam uma presença física massiva em protesto na solenidade. Cancelamos o evento no Facebook (onde estava claro tratar-se de um apoio puramente virtual) em respeito aos formados da turma do Léo e suas famílias – não queríamos que temessem que a alegria de sua formatura fosse comprometida de alguma forma. Eles sentiram em poucas horas de aflição, o que sentimos durante 60 dias, e nunca desejávamos isso a eles. Ou a nós.

Na cerimônia estávamos todos lá, vestindo o jaleco branco do Léo através de camisetas personalizadas. Explicamos ao Murilo e ao Mateus, meus irmãos e do Léo que tem apenas cinco aninhos, que muito embora tivessem treinado em casa a retirada do canudo do mano com o controle remoto, não haveria o esperado momento. Para minimizar nossa frustração, levamos nossos próprios canudos, em forma de nosso respeito ao futuro doutor. Após a homenagem dos alunos da turma através de vídeo e menção em discurso – discurso que o Léo faria se estivesse aqui – levantamos nossos canudos e dissemos ao alto “Léo este canudo é teu”. Queríamos que ele soubesse que embora a universidade nos tivesse negado a entrega de qualquer coisa, onde ele estivesse, teria a certeza de que o canudo era e sempre foi dele.

Mas nem tudo estava perdido. Algo aconteceu, que só acontece nas boas histórias. Uma reviravolta. Representando a PUCRS, o Sr. Dr. Jefferson Braga, mestre de cerimônia da solenidade anunciou com voz engasgada e feições de alta emoção, que sua posição superior na mesa de formatura lhe garantia algumas vantagens. Quebrando o protocolo da cerimônia, chamou a família do Léo para entregar-lhes não um canudo, mas um abraço. A musica do Léo foi tocada, e lá junto aos seus colegas, a família do Dr. Leonardo Mazzocchi sentiu sua presença mais forte. Lagrimas e aplausos em pé calaram a nossa dor por alguns minutos, e de alguma forma, estávamos em paz. Em meio a tanta emoção, alguém não esqueceu o nosso objetivo principal. Chorando muito no colo da mana, o Murilo, com toda a sua sabedoria e sensibilidade de quem é fã do irmão, levantou o canudo improvisado sacudindo-o ao alto. Nossa missão estava cumprida. Além disso duas amigas e doutoras recém formadas ao final da solenidade  nos entregaram seus próprios canudos em reconhecimento ao Léo, um que ficou com a minha mãe  e outro que foi entregue ao meu pai.

Sim, foi difícil e dolorido. Mas que mudança não é? E se não couber a nós, cidadãos, modelar as instituições para que se tornem cada vez mais humanas e honrosas, quem o fará? Desprestigiar a PUCRS nunca foi nosso objetivo. Como faríamos se foi esta a faculdade que o Leonardo escolheu e para a qual tanto se dedicou? Não, nós pedimos que nos escutassem. Clamamos em coro por uma mudança de atitude. E ela nos ouviu. Gosto de pensar que aprendeu conosco. E por isso abraçou-nos. Abraçou ao Léo. Penso que o Sr. Dr. Jefferson Braga, representando a PUCRS, entendeu ali que o protocolo podia ser quebrado, para que nossa fé na faculdade não fosse. Fé no seu lado mais humano. Provou que a Famed da PUCRS pode sim aplicar  a empatia que ensina. A turma, na sua maioria, demonstrou seu altruísmo nos cedendo espaço, o que não é surpresa, justo que formam um grupo que tinha a mais alta estima do colega que partiu. A #PUCRSentregouOabraço!

Aprendemos juntos que por amor vale a pena lutar. Levantar bandeiras. Criar campanha. Hashtags. Quebrar protocolos. Que histórias assim fortaleçam nossa crença que podemos modificar as instituições e acima de tudo, nossa própria humanidade. Nossa causa foi abraçada por muitos. E essa luta nos fez mais fortes. O amor prevaleceu. E quando digo prevaleceu e não “venceu”, é porque tudo isso não se tratava de uma disputa. Prevaleceu porque amor, empatia, humanidade, não são exigidos a ninguém. Ou existem ou não existem nas pessoas. E que estes sentimentos sigam nos movimentando, modificando, sabendo que eles não encerram quando a vida acaba. Amor, dedicação, sacrifícios, transcendem nosso tempo aqui neste plano. E que todo aquele que lutou por um sonho possa ter o seu nome lembrado e reconhecido, sempre que for preciso. Ao fim da cerimônia, um casal aproximou-se de nós pedindo também um abraço. Eram pais de um filho único que havia falecido na tragédia da Boate Kiss, de Santa Maria. Disseram-nos que coincidência nenhuma havia nos colocado tão próximos naquela plateia, que aquilo fora arquitetado por dois jovens lá em cima, operando pela nossa dor comum. A mãe do jovem, agradeceu a minha mãe por ter participado do nosso momento lindo na formatura, um ato de amor que fez tanto sentido para ela, tanto quanto fez para nós.

Alguns questionaram nossas razões, acusaram nossos egos, falaram que aquele era tão somente um pedaço de papel, apenas um canudo vazio. Ora para nós, ele era cheio de propósito e alegria. Representava o espírito do meu irmão, que nunca desistiu frente a uma dificuldade, que nunca se paralisou frente a uma injustiça, e que sempre se dedicou com seus amores. Aprendi por fim que a minha família NUNCA VAI DESISTIR. Da vida, da memória do meu irmão, de nós mesmos, de ter fé. Este Natal será marcado por encerramentos, como a formatura, e também pelo nascimento de novos ciclos. Novos sentimentos. Como família. Como amigos. Como seres de amor.  A renovação da nossa força. E força, meus caros, se aprende a ter, lutando. Então é preciso sim lutar. Não por vencer ou perder, mas simplesmente pela necessidade humana de sonhar e acreditar que podemos mover montanhas.

Na volta da solenidade perguntei ao Murilo se ele tinha chorado ao levantar o canudo do mano por estar nervoso ou emocionado. Sorrindo, o pequeno disse-me prontamente:

“Não mana, chorei porque estava feliz”.

Lutar vale a pena.


Fim da sessão.

E se palavras não transcrevem a emoção – cá está o vídeo*:

*vídeo = precisa estar logado no Facebook.

AGRADECIMENTO FORMAIS E NECESSÁRIOS

Primeiramente a universidade PUCRS e ao Dr. Jefferson Braga, por atender ao nosso pedido massivo de reconhecimento através da família do Léo. Aos Drs. Carlos Eduardo e Loredana Magalhães e família, nossos amigos e parte escolhida da nossa família, por nos aconselharam judicialmente e espiritualmente durante todo este processo. Aos veículos de comunicação por terem nos procurado demonstrando interesse na causa e por tratarem dela com delicadeza, atendendo aos nossos pedidos de jamais denegrir de qualquer forma a instituição PUCRS. A turma ATM 2015 que nos ajudou, aturou muitas vezes, compreendeu e apoiou o nosso pedido – em especial as colegas e agora Dras. Tatzie e Valentina.  A Nanda, Luisa, Nessa, Nathália e Andressa por serem maravilhosas amigas do Léo e agora se tornarem nossas. As minhas amigas, que também são amigas do Léo, por todo reboliço, numa mistura de revolta e amor, causado por seus grandes corações – Doka, Bia, Irlene, Jéssica. Aos amigos e família da minha mãe pelo suporte a ela – Nhaiobi, Duda, Déia, Elaine, Nilton, Jane. As minhas amigas e amigos que me abraçam na boa, na ruim e na difícil, Luana, Amanda, Pri, Pedro, Ana Cristina, Bárbara e tantos outros. A todos os leitores do Antônia no Divã, que sempre me enchem de amor, e ontem tomaram partido na minha luta pessoal. Muito obrigada por todo amor que recebo aqui. Ao DCE da PUCRS e ao Espartano Udep, todo o meu respeito. Meu agradecimento a todas as manifestações de carinho e encorajamento, através de compartilhamentos, emails, whatsapps e abraços – nos adoramos abraços. Ao meu pai por sempre me proteger e aconselhar. A minha mãe por ser a maior guerreira que já conheci, e por ter criado filhos idealistas e gentis. Ao Mateus por dizer que “o nosso show” (pra ele tudo que tem um palco é um show) pro mano Léo estava maravilhoso. Ao Murilo por tão lindamente levantar aquele canudo.

E ao Léo. Por promover sempre o melhor de todos nós. Por ser um exemplo. Somente hoje entendi que tua partida, que nos transformou tanto, não muda algumas coisas. Seguimos querendo sempre tudo de melhor pra ti. Seguimos cuidando de uns aos outros. Seguimos tentando ser bons e justos. Seguimos celebrando tuas, muito nossas, conquistas e glórias. Pessoalmente como tua irmã, a minha atitude, em nada mudou. Continuo te entregando tudo de mim, não pelo reconhecimento, mas porque não saberia fazer diferente.  Ontem sei que tu estavas sorrindo pra muita coisa, e dando risada de outras tantas. Parabéns pela formatura, Sr. Dr. Leonardo Mazzocchi – PhD na vida e depois dela.