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Irmão é…

Ouvi dizer em algum lugar que a nossa construção é formada pela média das cinco pessoas com quem nos relacionamos. Lembro que o estudo provava por A+B que a nossa personalidade era a massa liquidificada dos nossos pais, irmãos, amigos, amores, na mesma proporção. Apesar de ser um estudo bem fundamentado, eu tive certeza que eu não era parte da amostra. Isso porque eu sei que metade de mim sempre foi, e sempre vai ser pilha do meu irmão. O restante dos 50% até pode espremer outras influências. Mas uma metade inteira é consolidada pelo elo que fiz com o meu primeiro e melhor amigo da vida toda.

Irmão é aquele cara que acredita que você pode consertar o redemoinho na franja dele com uma tesoura, e aguenta os próximos meses com um corte de cabelo ridículo por ter acreditado em você. É dividir cama de solteiro, e brigar pelo cobertor. É o cara que finge gostar de palhaços, quando você decidiu aparecer na festa dele fantasia como uma, esquecendo que ninguém mais gosta de palhaços aos 10 anos. E é também o mesmo pré-adolescente que te convida para ir ao banheiro de madrugada, quando você finge – junto com ele – que não tem medo do corredor escuro. É por quem você briga com garotos na praia, enchendo a boca deles de areia quando ousaram falar mal do seu irmãozinho.

Irmão é o primeira pessoa que vai fazer cara feia para os babacas que vão entrar na sua vida, fantasiados de príncipes encantados. Que vai acobertar tuas saídas furtivas para um sorvete com segundas intenções, e ouvir com atenção quando você contar que o seu primeiro beijo foi um nojo (e foi mesmo). Irmão é cara que vai brigar contigo pela internet discada, quando você insiste em namorar horas pelo telefone, com alguém com quem você acabou de passar o recreio junto. E vai tolerar teus ataques ciúmes e tua constante inquisição de irmã mais velha perguntando com quem você anda, e o que você faz quando não está por perto.

Irmão vai sair de casa com você, quando “casa” já não for mais sinônimo de tranquilidade. Vai morar num quarto de hotel por um mês enquanto as coisas se ajeitam , e te mostrar felicidade nas omeletes do café da manhã, quando nada mais parecer ter sentido. É quem vai segurar tuas lágrimas quando você estiver atrapalhada ou com medo. Dar-te força quando o futuro for incerto. Irmão é aquela pessoa que nunca te deixa sentir sozinha, mesmo quando o caminho é sinuoso, e você já não enxerga um palmo de alegria à frente do nariz. É o cara cujo amor você marca na pele, junto a um trevo de quatro folhas.

Irmão é a certeza da proximidade quando se está distante. É sintonia na descoberta de uma atração pop, e o back vocal certeiro naquele rock antigo que foi composto antes de vocês dois nascerem. É cara que te ensina a gostar de livros estranhos, e a quem você – depois de muita insistência – convence a dar aos musicais uma chance. Irmão é Londres, é Barcelona, é Madrid. É brigar na véspera de Natal, e fazer as pazes antes do ano novo. É morar junto, é brigar pela pia suja. Aliás, irmão é o único ser humano que vai tolerar encontrar seu vômito na pia do banheiro, sem lhe dar uma bela e merecida camaçada de pau – afinal o vaso com a descarga estavam tão pertinho. “Poxa irmã – você é a mais velha, cadê teu juízo?!”.

Irmão é nunca sentir-se só. Ou louca. É uma insanidade combinada, familiar. Uma tolerância garantida, não pelos traços genéticos, mas pelo amor forjado a ferro e fogo. Suor, sangue e lágrimas. É a única pessoa no mundo que não se esquece do teu aniversário. Ainda que nunca se lembre de te dar presente. Irmão é pra sempre… não é?

É. Irmão é pra sempre. E talvez por isso não ter mais o meu irmão ao meu lado seja a maior prova de que tudo o que passou valeu a pena. Porque cada perrengue dividido foi único e precioso, e me ajudou a juntar a coragem que eu hoje tenho de seguir adiante, ainda que os problemas não diminuam. Cada risada e musica cantada é a prova de que a vida é linda, e merece ser celebrada. E cada sonho construído não é apenas mais um compromisso com o futuro em construção, mas um ato de honra ao passado que edificamos juntos. Porque no fim de tudo, como eu dizia para o meu irmão, a gente só quer poder olhar a vida, e dizer “foi ducaralho, senhoras e senhores!”. Irmão é saudade para todo e sempre, com a certeza de que foi ducaralho, senhoras e senhores.

E se o meu irmão é o que acredito ser a metade de mim, e vice versa, a má notícia é que com sua partida, uma metade de mim também se foi. Mas a boa notícia (e essa que eu guardo com alegria no coração) é que a metade dele, em mim ficou.

Irmão é pra sempre, Léo. E neste 15 de março, no teu aniversário, eu vou seguir celebrando a melhor metade de mim.


Fim da sessão.

A vida perfeita

Ontem me peguei chorando pela rua.

O vento bagunçava meus cabelos, as folhas das arvores chacoalhavam como percussão musicando o meu caminho. E como em raras oportunidades (e que sem CNH, futuramente nem tão raras) voltava a pé do trem, e passei pela cobertura dourada – palco de tantas das nossas estripulias – de onde o céu brilhava com ares superiores (porque se dissesse “angelicais” tu farias piada).

Ontem me peguei chorando pela rua. Mas era um choro alegre. Ri da sorte que tenho de viver contigo dentro de mim.

Sabe, irmão, eu te culpei por ter me deixado, porque uma vez a minha vida já foi perfeita. Mas ontem, caminhando despretensiosamente pela rua, e por motivos que fogem a minha compreensão, eu entendi que ela segue sendo perfeita – afinal ela só tornou-se perfeita um dia, porque nossos carmas se cruzaram/escolheram.

Hoje cada vez que fico perdida, olho para aquela cobertura – a mais alta da cidade – como um farol me orientando pelo mar revolto – e ele anda tendo dias de ressaca (não das boas).

O farol, ele próprio, tem um paradoxo interessante – pois é responsável pela luz, da mesma forma que é pela escuridão. Nada mais justo, sabendo que a vida e a morte também tem o mesmo apelo contraditório. Luz e escuridão. Perder e encontrar-se. Chega a ser poético.

E eu vou seguir te sentindo perto, e falando contigo como se estivesse caminhando do meu lado. E de certa forma está. Talvez por isso a vida vá seguir sendo perfeita.

The perfect life.

A irmã mais velha

Sábado passado caiu a luz lá de casa. Não foi por muito tempo, somente tempo suficiente para o Mateus aparecer na minha cama em um pulo, e o Murilo sair correndo do chuveiro gritando meu nome – “MANAAAAA” – sim porque lá em casa meu nome é “mana”. Enquanto a minha mãe arrumava o disjuntor no andar de baixo, eu no andar de cima, acalmava a dupla. O Murilo, ensopado e enrolado numa toalha, chorava no meu colo desconsolado pela ausência da luz. O Mateus, por outro lado, tentava manter-se forte no escuro, mas não, é claro, sem arrumar um cantinho para sentar-se na segurança do meu joelho. Sugeri contarmos histórias enquanto a luz não voltava. O Murilo discordou, entre uma fungada e outra. Ouvindo a contrariedade do irmão, o Mateus sugeriu brincarmos de mímica, e eu achei graça: “Como podemos brincar de mímica no escuro, Mateus?” Pronto, agora os três caiam na risada.

A luz volta.

Frente à claridade, cada um retorna a seus afazeres. O Mateus voltou para o desenho dele, o Murilo foi tirar o sabão do corpo, e eu voltei pro meu quarto e para o Netflix.  Sem perigo eminente, cada um deles podia seguir seu caminho de forma independente. Frente ao perigo, eu era essencial.  A cena me jogou de volta para a minha infância. Quatro anos mais velha que o meu irmão Leonardo, algumas vezes na nossa juventude eu me peguei encarando a escuridão, tendo certeza de que eu não podia fraquejar. Lembro-me de uma época em que morávamos em um sobrado grande, que tinha um longo e assustador corredor até o banheiro, e de como o Léo sempre me acordava para acompanhá-lo durante o seu xixi no meio da noite. Eu nunca confessei para o meu irmão, mas eu devia ter mais medo do corredor que ele – mas por causa dele, eu ficava corajosa.

Como irmã mais velha de três meninos, eu não consigo minimizar a função deles no fortalecimento do meu caráter. O Leonardo, o Mateus e o Murilo são propulsores ativos da minha evolução. Sempre foram. Se dependesse só de mim, talvez eu não tivesse força ou muito menos coragem para encarar os inúmeros perrengues que a vida nos jogou. Mas esta é a mágica existente entre irmãos: como irmã mais velha, eu nunca me vi com escolha de desistir, e por conta deles, me tornei a mulher forte, determinada e destemida que sou hoje. Ou pelo menos alguém que quando precisa, finge bem todas essas características.

Para cada irmã ou irmão mais velho no mundo, existe um irmão mais novo desafiando a nossa fibra. Eu vi isso acontecer com o Léo, quando ele, por sua vez, se tornou corajoso pelo Murilo e pelo Mateus. A cada tosse medonha que os guris tiveram, o Léo, novato na medicina, acalmava a família frente ao desconhecido. Ninava os dois quando eles tinham suas cólicas. E muitas vezes, confortou seus pequenos corações enfrentado o escuro que precede o sono. O Léo deixou de ser unicamente o meu irmão mais novo, e decidiu ser forte, muito mais forte, como irmão mais velho dos dois pequenos.

Depois de muito tempo sendo irmã mais velha, eu finalmente entendi o que esse laço significava. Irmãos mais novos – hoje sei – não são apenas o link direto com o nosso passado, o nosso compromisso com a nossa história, o nosso cúmplice de crime. Eles são também um trampolim para o futuro. E essas etapas mudam a gente. Irmãos mais novos nos dão um preview do que é ser mãe ou pai de alguém. Ser responsável por outra vida além da nossa. Mostra-nos na prática a importância de dar exemplo, muito mais do que dar ordem. Nos forçam a comer legumes que a gente não gosta, afinal legumes são cruciais para o crescimento – eu, por exemplo, odeio beterraba. Mas como irmã mais velha, eu disfarço o nojinho pela raiz roxa e mando ver com cara de quem tá comendo pizza.

Ao lado dos nossos irmãos, a gente ensaia uma versão melhor da gente mesmo. Fuma escondido para não dar mal exemplo. Usa cinto de segurança, mesmo quando acha que “não precisa”. Na frente dos irmãos toda regra é importante. Foi com os meus irmãos e suas demandas, eu aprendi a deixar de dizer “já vou” e comecei a dizer “estou aqui”. Comecei a me preocupar com a violência, com o perigo de alimentos transgênicos e confesso, depois que virei irmã, eu nunca mais dormir sem pelo menos um olho meio aberto.  Por causa dos meus irmãos, eu comecei a querer mudar o mundo pra melhor.

O mais engraçado é que entre um colo e outro, quando a gente acha que está dando força para eles, está na verdade tomando goles de coragem que eles nos oferecem. Sim, porque não dá pra não ser guerreira(o) por um irmão ou irmã. Nós somos os heróis da vida real. Porque mesmo no meio da escuridão, são os nossos irmãos que promovem a coragem e alegria que a gente precisa na luta pelo esclarecimento. E assim, a luz sempre volta.


Fim da sessão

Hoje decidi dividir uma coisa ainda mais pessoal sobre ser irmã. A mensagem abaixo foi escrita pelo meu irmão – um dos meus escritores favoritos. Nela o Léo me desejava feliz aniversário (pela última vez), como também se admitia no desafio como irmão mais velho (pela primeira vez). É com certeza uma das mensagens que irá me tocar pelo resto da minha vida de irmã mais velha. E eu espero que faça o mesmo com todos os irmãos e irmãs aqui neste divã, para que eles nunca deixem de perceber o valor deste vínculo.

Foto: El Retiro - Jardines del Buen Retiro de Madrid
Foto: El Retiro – Jardines del Buen Retiro de Madrid.
“…e em 1768 o recinto foi aberto pra cidadãos não-nobres desde que estivessem bem vestidos e lavados” era o que dizia sobre esse lugar em um dos guias de viagem baratos que a gente comprava nas banquinhas de cada cidade que chegava.
Definitivamente não era nosso caso. As poucas libras que só nos permitiam voar de Ryanair (e comemorar cada pouso com o avião inteiro) nos davam direito a duas ou três mudas de roupas em uma mini-mala (e mais algumas peças escondidas no meu casaco tamanho gigante-plus). Assim a gente sobrevivia, lavando roupa no chuveiro frio do hostel e torcendo pra secar antes de ter que guardar na mini-mala de novo. Então bem ‘vestidos e lavados’ certamente não era o nosso caso, mas conseguimos entrar e aproveitar o ‘recinto’. Era isso que importava.  A mesma briga no início de cada manhã pra definir o plano do dia se repetia na volta pra casa pra decidir quem ia ver as fotos primeiro.
Era ali que eu percebia que não tinha porque discutir roteiro, na verdade o que realmente tinha valor era quem tava junto comigo durante ele.
E essa pessoa foi tu. Sempre tu.

Não me refiro aos 3 meses da nossa viagem, mas aos 26 anos que completo em breve. Não existiu pessoa que me deu tanto apoio e me defendeu tanto quanto tu, não importava o Atlântico de distância que a gente teve que conviver por três anos ou tu estar do outro lado do mundo, como é o caso de hoje que tu comemora teu aniversário na Austrália. A gente se obrigou a aprender que a distância geográfica é o de menos.

Há 4 anos e meio eu me tornei irmão mais velho, papel que tu exerceu praticamente a tua vida toda e acho que foram poucas as vezes que parei pra te dizer muito obrigado por ter suportado nas costas toda a responsabilidade desse cargo.

Mesmo com todos os acontecimentos dos últimos anos que multiplicaram nossa família, sempre vai ser tua a primeira imagem que me vem a cabeça quando penso na palavra irmão. Tu que não me deixou desistir da Medicina todas as vezes que (de saco cheio) cogitei isso. Tu que com o olho cheio d’água segurou minha mão em março do ano passado enquanto eu saía meio grogue do bloco cirúrgico e deitou naquele sofá duro pra só sair quando eu pudesse sair junto contigo pra casa.

Então além de te parabenizar pelos 30 anos queria te agradecer pelos 26 que tu passou do meu lado.  Nem sempre ‘bem vestidos e lavados’, mas sempre juntos.

Te amo, irmã,  feliz aniversário.

Foto de capa: Orgânico Estúdio

O abraço do meu pai

É difícil chegar à vida adulta e não deparar-se com algumas características pessoais herdadas de nossos pais. Depois de anos de terapia dei-me conta que a maioria das discussões que explodiam entre meu pai e eu, eram acionadas pelas falhas que dividíamos.  Passado um tempo me analisando, comecei a entender que as nossas farpas, eram na verdade um sintoma do que os freudianos chamam de teoria da projeção. Basicamente a projeção é um mecanismo de defesa no qual os atributos pessoais de determinado indivíduo (eu) que são inaceitáveis ou indesejados por esta pessoa, são atribuídos à outra(s) pessoa(s) – no caso o meu pai. Tipo como colocar a culpa em alguém pelo seu fracasso. Você tira o próprio desconforto jogando ele lá pra grama do vizinho. Projeção.

E entendo um pouco mais sobre a projeção, comecei a aceitar que tudo que sempre nos levou a discórdia, era de fato muito do que compartilhávamos. A indisciplina dele bagunçava a minha. A minha ansiedade cutucava a dele. Nós nos pegamos inúmeras vezes alegando exatamente a mesma ideia, de formas diferentes, e em tom de desentendimento. Passado o tempo da minha adolescência rebelde, eu passei a ter uma necessidade de concordar mais do que discordar com o cara, e dada a evolução da minha análise, eu entendi que era muito mais fácil mudar a minha teimosia, do que a do meu pai. Ainda que tivéssemos passado muito tempo desbravando as águas de conflito, nós dois sempre estivemos um ao lado do outro enfrentando qualquer maremoto. Remando juntos, mesmo que um pensando bombordo enquanto o outro almejava o estibordo.

Dentre todas as nossas similaridades, uma divergência sempre foi gritante. Diferentemente do meu pai, eu sempre fui fã número um do abraço, do beijo, do carinho e do contato físico. Lembro-me do quanto sofri em Londres pela falta do calor humano brasileiro. Eu poderia tranquilamente ser uma daquelas pessoas que carrega um cartaz escrito “Abraços Grátis”. Mas no final, eu acabei me adaptando. O meu pai não, embora sempre tenha sido um cara queridão, sorridente e muito gente boa. E assim eu sempre me vi com dificuldade de cair no abraço do meu pai. Talvez ele fosse um eterno encabulado. Ou estivesse sempre com a cabeça preocupada. Ou mesmo penso que meu pai, o irmão mais velho de outros nove filhos, pudesse não ter tido muita chance no revezamento de abraços dos pais dele, os meus avós. Ou ainda poderia ser que seja uma coisa de época. Quem sabe quando o meu pai foi criado e educado, não era costume abraçar e beijar os seus rebentos.

Óbvio que quando eu era pequeninha, a primogênita da casa e toda bonequinha, nunca me faltaram mimos, mesmo do meu pai. Todavia, eu fui crescendo e durante boa parte da minha vida, eu aprendi a escutar uma expressão muito peculiar do meu pai: “ta-ta-ta-ta”. “Ta-ta-ta-ta” era o jeito do meu pai dizer que estava adequado e suficiente o tempo que eu o abraçava, como quem diz “ok, agora pode soltar”. Era como se ele estivesse com pressa de sair dos meus braços, ou desviar dos meus beijos babados. E eu sempre achei aquilo muito estranho, mesmo nós dois sendo tão parecidos. Eu nunca vi o desconforto dele como um problema pessoal comigo, muito mais como uma atrapalhação dele com ele mesmo. E ainda assim, sempre que possível eu tentava segurar meu pai no meu abraço um minutinho a mais. Recebia o conhecido “ta-ta-ta-ta”, ainda que atrasado, e então eu sabia que era hora de soltá-lo. Talvez o meu pai nem sonhasse o quanto eu calculava aqueles movimentos

Depois de adulta, eu comecei a pensar que talvez eu estivesse me tornando inconveniente com as minhas manhas e necessidades de atenção. A gente começou a trabalhar juntos, e eu passei a chamá-lo pelo nome ao invés de “pai”, por inúmeras razões que o mundo corporativo exige. Então eu me acostumei a abraçá-lo e beija-lo com rapidez e precisão, tentando evitar o “ta-ta-ta-ta” dentro da empresa. Essa pressa no abraço gradativamente escalonou para os nossos momentos de convívio social fora do trabalho.  Um ano ou dois se passaram, e os beijos acabaram cessando, e passamos a resumir nossos cumprimentos a encostar as bochechas, como dois pseudo-conhecidos fazem ao se encontram na rua. Nós dois finalmente estávamos parecidos em tudo. E eu, abrindo mão do “ta-ta-ta-ta” do meu pai, acabei abrindo mão dos abraços longos e dos beijos babados nele. Apenas nele.

Bom, aí veio a vida e levou o meu irmão, com todos os seus abraços. Abraços que meu pai desejou ter dado, sabido dar, sem vergonha, recato, cerimônia. Talvez naquele momento mais do que nunca, o meu pai desejasse que o pai dele tivesse o ensinado a abraçar mais vezes, mais forte, por mais tempo. Na semana passada, quando de novo eu ofereci a bochecha para o meu pai me cumprimentar, ele teve um rompante. Disse-me “por que você não me beija?! Por que só beija e abraça a sua mãe?”. Fiquei atônita olhando para ele, sem saber como explicar como chegamos naquele ponto. Resumi-me a ficar muda, beija-lo rapidamente, e partir a tagarelar sobre negócios, antes que eu aguasse a sala dele com o peso daquele momento. O meu pai só tinha eu de filha agora. Uma filha que havia desaprendido a receber e retribuir os abraços de pai que ele só tinha a mim para entregar.

Ontem, nos deslocamos para a minha cidade natal, com a difícil tarefa de nos despedirmos do meu tio, irmão do meu pai, e aquele que inspirou a doação de sangue que fizemos aqui no blog (O Corredor). Meu tio estava doente, cansado e sua passagem veio como um descanso merecido. A todo o momento durante o velório, eu olhava para os meus primos, filhos do meu tio, me perguntando quantos abraços e beijos, eles também, assim como eu, talvez tivessem desperdiçado. E agora não dava mais tempo. De nada.

Sabe, não há nada que nos faz pensar mais sobre a vida, do que a própria morte, isso hoje eu sei. E esse pensamento é tão sombrio, quanto esclarecedor.

Na cozinha da capela, quando finalmente consegui chegar perto do meu pai, ultrapassando a legião de carolas presentes com seus terços e orações decoradas, me joguei nos braços do homem sem nenhum constrangimento. Desabei chorando pelo meu tio, pelos meus primos, pelos abraços do meu irmão que tanto me fazem falta, e chorei pelos abraços que eu havia deixado de dar no meu pai nos últimos tempos.

Ele me segurou no abraço dele, e beijou minha bochecha demoradamente. E desta vez, ele não disse “ta-ta-ta-ta”.


Fim da sessão.

Wish you were here

Acordei inquieta. Não sabia o motivo. Abri gavetas procurando contas para pagar que estivessem vencidas. Procurei na minha cartela alguma pílula que tivesse esquecido. Revisei emails e mensagens que poderia não ter respondido. Nada. Sentei na minha ilha de escritório, aquela tão isolada do que eu realmente gostaria de estar fazendo, e decidi tocar meu dia apesar da sensação de consumição. Olhei para o calendário, e lá estava a pulga atrás da minha orelha. Sem nenhum lembrete a caneta, estava aquele aniversário marcado com memórias profundas. Quem precisa de caneta quando se tem memórias profundas?

Hoje é o aniversário do meu amor platônico. Aquele que eu não tive, mas vivi. Vivi sozinha, ok, mas não quer dizer que ele não deixou suas marcas, suas memórias. O fato de não ter sido reconhecido ou compartilhado por outro alguém não impede esse amor de ter provocado os meus suspiros, e o volume do Rio Tâmisa em lágrimas. Hoje lembrei a banoffee pie que fiz para ele em algum aniversário passado, e das velinhas que acendi. Lembro-me do abraço que ganhei, apertado e sufocante, e nem por isso, suficiente. Hoje me lembrei da falta que faz o meu amor platônico, ainda que platônico, porque a pior de todas as saudades, é aquela do amor que não foi.

E por causa do meu amor platônico, me lembrei de outra saudade. Tenho saudade de uma amiga que já não vejo mais. Alguém com que meu coração pulava ao simples estalar de dedos ou plano mirabolante. Tenho saudade de como eu não achava a minha maluquice, tão maluca perto dela. Ou comparada com a dela. Tenho saudade de como eu gostava de me colar nos planos dela, e incluí-la em todos os meus. Ela mudou, eu mudei, e a gente mudou. Mudamos para um lugar mais distante uma da outra, que não é físico. A gente segue nas mesmas coordenadas geográficas, mas em posições bem diferentes. Ainda que não seja GPS o nosso problema, tenho impressão que as duas seguem perdidas, com um desejo bem íntimo e velado de voltar para aquele lugar comum que ocupávamos juntas. A gente não sabe bem como voltar, e isso dói. Dói porque a pior das saudades é aquela de uma amizade que erramos em não florescer.

E olhando para essa saudade da minha amiga, me vi encarando a saudade do meu irmão, aquela saudade que vocês aqui conhecem bem. Saudade do meu melhor amigo, e aquele que entre idas e vindas da vida, nunca mudou de lugar. Saudade da exclusividade que eu sentia com ele. O meu irmão era a única família que era só minha, pois meus pais já tinham outras famílias que eram só deles. Saudade de me sentir destemida do lado dele. Ele possivelmente estaria ao meu lado em todas as dificuldades que eu vou enfrentar na minha velhice, tal como fez na minha juventude. Sabe, não consigo entender pessoas que não se dão com seus irmãos. Será que não consideram colossal a oportunidade de vir ao mundo com alguém por quem a gente daria e ganharia a vida, se pudesse? Eu daria a vida pelo meu irmão, ainda que isso fosse revoltá-lo, já que ele faria o mesmo por mim. E não podendo mais dar a minha vida por ele, terei de dar a vida por mim mesma para que o nosso acordo siga atendido. Mesmo que isso implique em sentir saudades dele pelo resto dos meus dias. E essa é a pior saudade, porque é aquela saudade que é eterna.

Aí foi pensando na saudade eterna do meu irmão, que eu tive uma epifania. Entendi que eu sofro com a saudade de tudo que não é eterno, como por exemplo, a pessoa que eu já fui. Eu tenho saudade da garota de 15 anos que eu era. Com aquela sensação de plenitude, que eu imaginava que seria eterna. Tenho saudade da mulher de 24 anos que eu fui, em seu primeiro voo solo na vida “lá fora”, afinal, “é preciso ir embora”. Tenho saudade da liberdade a toda prova que eu pregava, e que hoje é tão mais cara (e não estou falando do dólar). Tenho saudades dos velhos medos que eu sentia. Os de hoje me parecem tão mais cabulosos. Tenho saudade de mim, porque a pior saudade é aquela que não pode ser revisitada, pois não existe maneira de voltar atrás.

Certa vez comentei com a minha mãe sobre a angustia de ter sentido e, por vezes, sofrido de saudade a minha vida inteira. De tudo e de todos. E sobre o meu medo de que essa saudade fosse um sintoma de eu jamais tinha vivido por completo as fases e as pessoas da minha vida. Ela (sempre tão sábia), disse-me que a relação funcionava justamente ao contrário. Que a minha saudade era proporcional ao quanto eu tinha vivido cada momento.

Hoje quando me pego inquieta frente à saudade, sabendo que uma é sempre pior que a outra, e nenhuma é igual, me lembro do que a minha mãe me ensinou. Talvez o único conforto para a saudade que sinto, é a ideia de ter vivido cada personagem e capítulo da minha história com toda a plenitude do meu coração e entrega completa da minha alma. E entender que a saudade vai sempre me acompanhar. Ora como um amor, uma amiga, um irmão, ora como eu mesma. É a saudade que me lembra que tudo valeu a pena.


Fim da sessão.

“How I wish
How I wish you were here
We’re just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year
Running over the same old ground
What have we found?
The same old fears
Wish you were here”

Wish you were here – Pink Floyd

 

A vistoria

Existe uma grande batalha traçada ao lidar com a ausência de alguém, que é tratar dos assuntos que ficaram depois da vida. Realocação de pertences, venda de bens, organização de papéis. E como já falei algumas vezes aqui, essas coisas tornam-se pesadas, porque relembram da bagagem emocional que colecionamos durante essa viagem que é a vida, e também a morte. Eu queria poder parar de escrever sobre isso, entretanto estes sentimentos rondando o luto são tão presentes quanto a minha própria presença. Tão visíveis quando a roupa que eu visto. Tão urgentes quanto à vontade que eu tenho de seguir adiante.

Aconselharam-me a não falar mais o nome dele. Disseram-me que eu atrapalharia a passagem dele deste para o outro plano, então eu me calei. Eu parei de olhar as nossas fotos, para assim tentar fazer menos presente a ausência dele. Não mandei mais mensagens na sua página do Facebook contanto as frivolidades do meu dia, meus comentários sobre o novo single da Rihanna e as novidades sobre o que os irmãos dele andam aprontando. Parei de conversar com ele em pensamento enquanto dirijo, e de pedir conselhos, ainda que certa do silêncio em retorno. Ao invés disso, passei a rezar orações decoradas, mantras eficazes, e me resumi a mandar luz, pois me disseram que assim estaria o ajudando. Acendi velas, escutei médiuns, e tentei calar o meu coração, cujo idioma preferido passou a ser a saudade.  Ocupei-me, atendi tarefas e fui produtiva. Distrai-me por dias e a coisa toda começou a ter um quê de evolução. Isso até a vistoria.

Precisei ir até o apartamento de meu irmão para acompanhar a vistoria do seguro do carro dele, que agora seria vendido para o seu melhor amigo. Como sempre, o meu pai – avoado como sabe ser – esqueceu-se do compromisso, e levou a chave do carro com ele em uma viagem. Pediu-me então, que subisse até o apartamento do meu irmão e procurasse em meio as suas coisas, a chave reserva. Fiz uma revisão rápida em armários e gavetas, focada em não pensar nele, não chamar por ele, não chorar. Sem querer, abri a gaveta que jamais fora revisitada após a nossa despedida. Lá estava a certidão de nascimento, um título de eleitor (que ele nunca encontrava quando precisava), um chaveiro com a letra “L” que ele julgou deveras infantil e aposentou, certificados, comprovantes. Uma vida registrada em papel. A chave reserva do carro eu não encontrei, mas o canal lacrimal abriu sem chave ou nenhuma cerimônia. Eu podia ter passado os últimos dias tentado ser forte, trabalhando o meu pisco como deveria e como me era esperado,  mas bastou uma vistoria para entender a minha dor estava mais viva do que nunca.

Desci correndo para liberar o técnico da vistoria, de cara inchada, maquiagem borrada, e apesar de toda e qualquer tentativa de secar os meus olhos,  as janelas da alma vazavam sem nenhum constrangimento. No caminho dou de cara com o porteiro do prédio – “Dona Antônia, a senhora está bem?” – balanço a cabeça freneticamente de forma positiva, contrariando tudo que o resto da cena dizia. O porteiro, que dada a nossa falta de contato eu não  sabia o nome, me abraçou contra o peito, passou a mão nos meus cabelos e me disse que tudo ia ficar bem. E ali eu chorei. Chorei por não conseguir parar de chorar. Chorei de raiva daquela vistoria, do carro e do meu luto. Chorei por não ter ele aqui para poder reclamar que eu sempre tenho que resolver tudo por ele – a vida toda e depois dela. E chorei por falhar em todas as orientações que me deram, já que até meu luto passou a ser pautado por ele, para aquilo que ele precisa para seguir adiante no seu caminho de luz, enquanto eu estava ali, paralisada nos braços de um estranho num corredor escuro.

Tentei me recompor e agradeci o auxilio do porteiro – “A senhora quer que eu ligue para o seu pai, dona Antônia?”. Agradeci mais uma vez e disse que não seria necessário.  Na garagem, chegando perto do carro, o técnico da vistoria do seguro já me olhava com feições de pena, o que declarava que o porteiro havia o inteirado da situação. Disse rapidamente, tentando controlar o choro, que não havia encontrado a chave e pedi que ele reagendasse a vistoria em 2 dias. Ele sorriu um sorriso de amparo, colocou a mão nos meus ombros e disse “eu sei, eu sei, não te preocupa, pode ficar tranquila – eu sei, eu sei”. E de novo, sem acanhamento, lágrimas gordas e acrobatas saltaram dos meus olhos vermelhos. E mais uma vez, me vi chorando no abraço de uma pessoa que sequer eu sabia o primeiro nome.

A vistoria do carro não fora concluída, mas cada fibra da minha dor fora revisitada. Era como se no compromisso de fazer tudo certo, eu estivesse de fato abafando todas as dores do meu peito. E assim, elas não diminuam, apenas acumulavam para romper ao menor sinal de inspeção. E aí que me ocorreu o aprendizado envolvido nesta metáfora. Não existe seguro, sem vistoria. É preciso inspecionar, revisitar, falar, anotar cada parte envolvida. Registrar os sinistros, e os bens preciosos que seguem. Não tem como assegurar o “seguir adiante”, escondendo o que está presente no agora. A vistoria era a única forma de assegurar o bem que estava sendo inspecionado, o bem carro, ou o bem estar.

O telefone toca, é meu pai – muito provavelmente a pedido do porteiro.

– Filhinha, tá tudo bem?

– Não pai, mas vai ficar.

– Conseguiu fazer a vistoria?

– Sim, mas não a do carro.

– Não entendi – disse ele confuso.

– Eu te explico pessoalmente, pai.

– Vou passar mais tarde na tua casa, acho que tu estás precisando de um abraço.

Concordo e desligo, lembrando agradecida dos abraços daqueles dois estranhos que me acolheram durante a minha vistoria.


Fim da sessão.

Você chegou e eu mudei

Você chegou finalmente. Nossa foi um alvoroço desde o dia que descobriram que você viria. Mamãe anunciava que um menininho chegaria. Pensei “ui, que nojo. Odeio meninos!”, no auge dos meus quatro anos de idade. Papai dizia que eu ia ganhar um irmãozinho, mas o que eu pedi foi uma bicicleta da Turma da Mônica. “Aí tem treta!”, desconfiei. E acho que não fui só eu que fiquei nervosa com a novidade, pois mamãe ficou com um barrigão de tanto comer, devia estar angustiada. Não sei pra que tanta euforia – um menino, oras! Eles choram, brigam e fedem. Eu juro que eu preferia a tal da bicicleta.

Lembro-me do nosso primeiro encontro. Antes de entrar naquele enorme prédio branco com cheiro de limpeza, papai me explicou que eu tinha que ser cuidadosa ao te pegar. “Mas eu nem quero esse moleque!”, pensei no meu apogeu de princesinha da casa. Entrei no quarto esperando te ver, mas só estava a mamãe. Nossa! Ela deve ter feito uma dieta muito boa, pois o barrigão dela sumiu. Ela me recebeu com o seu melhor abraço, alisou meus cabelos negros e me beijou a ponta do nariz. Disse que estava com saudades e que tinha alguém que queria me apresentar. “O menino?” (ugh! Que nojo). “Sim, o seu irmãozinho. O nome dele é Leonardo!”. Naquela hora uma moça de branco entregou um pacotinho para a mamãe. “Ai meu Deus, o pacotinho tem mãozinhas!!!” – exclamei. O pacotinho era você.

Você não era nada como os moleques que eu conhecia. Não fedia e nem brigava. Mas chorar sim, isso você sabia fazer bem feito. Tinha a cara amassada e um ar de bronquinha. Papai te botou no meu colo, comigo sentada no sofá do quarto da mamãe. Segurei-te com meus pequenos braços morrendo de medo de te machucar. Como alguém podia ser tão pequenininho e frágil? – pensei. Você chorou e esperneou, enquanto papai e mamãe tentavam não parecer preocupados com um possível primeiro tombo. Então beijei a ponta do teu nariz e te disse “não precisa chorar, tua irmãzinha tá aqui”. Você parou de chorar. Deu uma resmungada de leve e dormiu. Aí quem chorou foi o papai e a mamãe – “mas que família mais chorona”, disparei.

Você chegou e eu mudei. Mudei para algo que não sabia definir. Eu me sentia responsável por ti como a mamãe, mas diferente. Você virou meu amiguinho, mas diferente. Era também como um brinquedo –uma boneca, mas diferente. De repente me vi generosa com minhas guloseimas e joguinhos. Aprendi a ter força pra carregar a tua gordice fofa. Vi-me policiando teu sono, vigiando teus primeiros passos cambaleantes, e disfarçando o resultado das tuas travessuras, como a vez em que tu enfiaste a gata Juma na bacia de roupas da mamãe. Expliquei-te que gatinhas não gostavam de água, muito menos de Quiboa. Você sorriu o sorriso de olhinhos japoneses e lambeu a minha bochecha. Acho que era para ser um beijo, mas precisava de mais prática.

Você saiu das fraldas e cresceu em duas piscadas de olhos. E eu não preguei mais o olho direito, desde que você ganhou o mundo. Não cabia mais na proteção do meu colo, mas sempre voltava pra segurança do meu abraço. Continuou com a cara de pidão sempre que queria algo meu, e eu desaprendi a pedi-las de volta. Não te dava mais minhas guloseimas, mas a minha energia, e o meu tempo. Ser irmãzinha me parecia uma tarefa árdua, cansativa, eterna e intransferível. Mas se alguém tentasse ocupar o meu lugar, arrancar-lhe-ia os olhos com minhas próprias mãos.

Você chegou e eu mudei. Mudei para melhor porque entendi o que era companheirismo. Compaixão e responsabilidade. Fui ensinada na marra o que era tolerância, paciência e perdão. Você chegou e eu mudei, porque aprendi a dividir, compartilhar e consensar.  Você chegou e eu mudei porque passei a valorizar cada gesto de carinho, abraço, beijinho e lambida. Você chegou e eu passei a ter orgulho da tua trajetória, desde a criança ranhenta, até o ser humano adulto que me inspirava tanto quanto buscava inspiração. Você chegou e eu mudei, para nunca mais ser a mesma. Você chegou e fez de mim, hoje e para toda a vida: irmã.

Fim da sessão.


Não foi só o Leonardo que nasceu no dia 15 de março. Eu nasci irmã, junto com a data. E hoje, além de uma saudade imensa, sinto uma eterna alegria de ter me transformado na irmã que ele quis, pediu e mereceu. Feliz aniversário, meu irmão. Aniversário da vida linda que eu pude compartilhar. E feliz aniversário para mim, que desde a tua chegada, tenho a mais estimada das honras, que é ser irmã.

Untitled design (28)

Troços e traços

A pior parte de sentir a falta de alguém é a permanência dela em objetos inanimados, coisas que antes eram inofensivas. É “um fio de cabelo no meu paletó”, já diria Chitãozinho e Xororó. Antes, aquele fio era apenas um cabelo solto, entretanto, na ausência da pessoa amada, ele é um universo de memórias. Tem cheiro, tem presença e até inconveniência. Não dá pra negar a saudade quando ela deixa provas do crime. O crime é essa falta que se sente. E a vítima é você, agarrado(a) apenas às evidencias do que já foi.

Durante a minha vida, sempre que eu terminava um namoro, gostava de exorcizar o meu apartamento de qualquer vestígio daquela relação. Pelo menos naquele tempo de lutar contra o luto, sabe? Devolvia tudo que era dele na primeira semana de separação, e lavava todas as minhas roupas para evitar resquícios de perfume. Ok, cheiro não é objeto, mas ainda assim é prova da presença-ausente do outro. Eu tocava fora as escovas de dente e de cabeços, para ter nenhum DNA daquele ex-amor.  Ficava meses sem usar alguns objetos, como taças de vinho, ou aquele cobertor que ele costumava me tapar quando pegava num sono no sofá. E quase tinha uma taquicardia quando me deparava com um CD de fotos nomeado “Frackels” (sardas) – fazendo referência às marcas que o verão deixava no meu rosto, e da coleção de momentos em que nós nos amávamos. No fim de um romance, todo mundo já teve vontade de chamar o caminhão da mudança (em alguns casos até o do lixo).

Fato é que objetos acabam personificando pessoas, lugares, momentos, fases, sensações. Um isqueiro esquecido por aquele amigo que botou o pé na estrada e deixou saudades. O vaso de flores secas daquela formatura memorável, cheia de momentos que não voltam mais. Aquele tamanco/tênis/chinelo que transpira a um verão especial. Um moletom que lembra o colo do pai. A blusinha que lembra alguém que você já foi, e não é mais. Todos os badulaques e tranqueiras que te lembram algum lugar do mundo, e aquele seu lado aventureiro que só floresce com a mochila nas costas.

E de fato é engraçado ver como vestimos certas indumentárias conforme a nossa necessidade. Sempre que eu estou desanimada, coloco um colar que tenho que comprei em Austrália, lá onde a minha melhor amiga anda voando as tranças. O colar tem uma bolota de vidro cheio de areia feita de conchinhas do Manly. Quando uso ele, é como se tomasse um pouco da energia de um final de tarde na praia na companhia da minha saudosa amiga, e costumo ficar mais animada. Ou quando me desespero com as minhas contas, acendo um incenso que ganhei de um hippie no Cabo Polônio, para me lembrar de que se eu quiser, também jogo tudo pro ar e vou morar sob as estrelas naquele lugar sem eletricidade. E esses cheiros e formas, de algum jeito vão mexendo conosco, mesmo sem terem a capacidade de se movimentar. Mas destapam ou cobrem as nossas angustias, afagam nossas agitações, acordam nossas saudades.

Ontem em mais uma das expedições ao apartamento do meu irmão para organizar os  pertences que ele deixou, minha mãe me encontrou chorando dentro do armário, abraçada a uma jaqueta horrorosa dele. Aquela jaqueta não tinha apenas o cheiro do meu irmão. Ela tinha gotas de sangria em Barcelona, tinha o pó dos guarda-sóis de Brighton. Tinha as brigas de quem ia ao supermercado durante o inverno. Tinha as minhas calcinhas escondidas nos bolsos quando voávamos nos minúsculos aviões de bagagens econômicas (e microscópicas). Tinha o recibo de um Starbucks que foi jogado fora, já que o meu irmão nunca lembrava da minha intolerância a lactose. Aquela jaqueta foi cobertor na praia, e aumento do assento durante inúmeros musicais ao lado dele.

Aquela jaqueta não era mais um pedaço de tecido, ela era nós dois soltos no mundo e presos um ao outro. Foi proteção, almofada, capa de chuva. Agarrada na jaqueta me dei conta de que aquela não era a minha primeira comossão frente a um “amuleto” do meu irmão. Desde que meu irmão se foi, passei a vestir suas camisetas arriadas. Assistir a todos os seus DVDs e ler seus livros. Já me peguei usando seus óculos de leitura e eu nem preciso deles. Em noites difíceis já dormi com o estetoscópio do meu irmão nos ouvidos ouvindo meu próprio coração. Passei a colecionar suas tralhas e seus tesouros numa tentativa de sobreviver a ausência dele.

E diferentemente de outras despedidas, esses vestígio de amor, essas provas de existência, não eram mais a sobra do que foi. Mas simplesmente tudo o que me restou.

E assim eu passei a dar mais valor às memórias tangíveis, desde o dia em que elas passaram a única presença física que eu tenho de um amor que não vai mais voltar. E diferentemente do que disse lá no início, hoje posso dizer que a MELHOR parte de sentir a falta de alguém é a permanência dela em objetos inanimados. Objetos que podem ser abraçados e cheirados. Talvez eu finalmente tenha entendido que esses troços, são traços de uma passagem dentro da minha casa, da minha vida, da minha alma. E me arrisco a dizer que provavelmente seja por isso que a gente não leva nada desta vida. Quem sabe essas coisas sejam mesmo um legado físico herdado por quem mais precisa de traços palpáveis de amor.


Fim da sessão

PS¹: Beijo enorme para a minha mãe, essa boa alma que mesmo depois dos meus 30 anos, segue me consolando quando eu choro dentro do armário (desde os 5 anos).

PS²: Beijo enorme para o Murilo, que aos 5 anos, sabe quando me ligar às 7:00 da manhã, depois de uma noite ruim, apenas pra dizer que tem saudades minhas.

O corredor

Fumei meu quinto cigarro do lado de fora daquela sala abarrotada. Era uma tarde quente de quarta-feira, e as horas se arrastavam naquela espera angustiante. O cheio de suor e da falta de banho tomava conta daqueles metros quadrados que antecediam a entrada, cujo acesso se dava por uma porta bipartida amarelada. E se eu estava ali apenas algumas horas, não podia imaginar a impaciência de quem ali fazia plantão por dias à espera de uma chance. Meu pai andava de um lado para o outro tentando fazer algum sentido daquela cena. Meu tio, seu irmão, estava sentado no murinho da desilusão, com seu olhar perdido no medo e também na movimentação daquela porta. A porta era a entrada do atendimento do SUS do hospital, e o que tinha atrás dela era um misto de saúde e sorte (ou a falta de ambos).

Uma carinha conhecida surge detrás daquela porta. Apesar de toda a estranheza daquela situação, aqueles olhinhos de gotinha eu reconhecia. Meu irmão apareceu naquela recepção equipado de um RedBull nas mãos, estetoscópio no pescoço, jaleco branco emoldurando o peito e um ar de seriedade. Levantamos-nos todos em silêncio e seguimos meu irmão porta adentro. Era a primeira vez, desde o início da jornada do Leonardo na medicina, que víamos em primeira mão, ele atuando como futuro médico. E aqui não estou falando da minha dor de garganta que ele examinava vez que outra. Tratava-se de uma situação com um familiar cujo futuro nos preocupava. Em meio ao caos do SUS, passamos por um corredor abarrotado de desesperados e desesperança. A luz piscava, iluminando de maneira insuficiente aquele corredor comprido. No caminho muitos solicitavam a atenção do meu irmão e de outros médicos que estavam de passagem, e estes iam orientando e respondendo com atenção e rapidez, enquanto caminhávamos para um consultório. No consultório, o Dr.Meu-Irmão nos apresentou os fatos sobre a saúde do meu tio, explicou exames e calibrou a nossa expectativa. As mãos dele tremiam, acusando que para ele, aquela primeira vez também tinha peso. A voz não tremeu. Nem por um minuto.

Do meu lado, meu pai caiu em prantos. Perguntei se era de nervosismo, e ele respondeu engasgado – “Não, é de orgulho”, disse sorrindo. Acho que dentre tantos cheques para universidade do meu irmão, era a primeira vez que ele se dava conta que investia não apenas no filho, mas de certa forma na saúde da família e na saúde em si. Eu entendi bem o orgulho de meu pai. Muito embora eu já fosse fã do meu irmão desde o tempo em que ele era um bebê fofo que fechava os olhos quando sorria. E ele sorria muito. Para mim o brilho do jaleco branco somente destacava a pessoa especial que ele sempre foi. Saímos de lá orientados sobre os dias difíceis que viriam – internação, cirurgia e a burocracia brasileira em todas as etapas.

Os dias se passaram e meu irmão foi posto à prova não apenas como futuro médico, mas como familiar de um paciente que dependia do Sistema Único de Saúde neste país. Contrariando qualquer orientação de seu curso de medicina – o meu irmão se envolveu ativamente no caso de um familiar. Como julgá-lo? O Leonardo cobrou favores, pesquisou leitos e acompanhou cada etapa da enfermidade do meu tio. Ele perdeu o sono. Lembro-me de convidá-lo para um chopp, certo dia, e ele não conseguiu ficar 15 minutos no boteco. Após um plantão de 50 horas, me deu um beijo e saiu do bar apressado. Passou em casa e munido de travesseiro, radinho de pilhas e jornal para o meu tio, ele voltou ao hospital e acompanhou as primeiras 24h do meu tio aguardando atendimento naquele corredor. Corredor comprido. Sinuoso. Como uma cobra que pode ser tanto o veneno quanto a cura. O meu irmão ficou lá, ao lado do irmão do meu pai, zelando por ele sob a luz que piscava como um batimento descompassado de um coração doente.

Dias de tratamento depois, chegava a tão esperada cirurgia. Precisávamos de 10 doadores de sangue para repor os estoques do hospital. Em uma família composta de 10 irmãos, cada qual com um cônjuge e mínimo de dois filhos (isso sem contar amigos, conhecidos ou benfeitores desconhecidos), você pensaria que a tarefa seria fácil. E aí veio a grande surpresa. Três pessoas se apresentaram no banco de sangue em nome do meu tio: um dos filhos dele, o meu irmão e eu. Você pode estar pensando agora “mas que tipo de família é essa?!”  – e eu lhes respondo: uma família exatamente igual a todas as outras. Com seus compromissos inadiáveis, suas justificativas plausíveis e suas viagens pré-agendadas – assim como todo mundo. E claro, a minha família também se provou vítima daquele eterno sentimento humano de “se eu não fizer…  alguém vai fazer”. “Eu não vou, mas tenho certeza que os outros vão”. Coisa de gente ocupada, assim como você e eu.

E assim construímos uma sociedade inteira, entusiasta na crítica pela internet, mas que não bota o pé na rua para mudar coisa nenhuma. Lembro-me do olhar frustrado e quase indignado do Leonardo no banco de sangue. Ele que tinha conseguido leito, médicos, tempo, disposição, e que agora se via praticamente sozinho na luta por algo tão vital quanto abundante: sangue.  Seriam apenas 450ml de um cidadão comum. Mas a atitude exigia duas coisas que não estamos acostumados a abrir mão facilmente: o nosso tempo e nossa empatia ativa. Apesar da nossa derrota na coleta, meu tio foi operado com sucesso e todos os recursos necessários – dentre eles, o sangue.

Aquele episódio seria apenas mais um dos inúmeros desafios diários enfrentados por médicos, familiares e pacientes. Apenas mais um desafio enfrentado pelo meu irmão. Depois da doação, despedi-me do Leonardo com um abraço demorado, apertando-o forte como quem diz em silêncio “não desiste!”. Ele me devolveu um sorriso cansado, tendo a certeza do que o meu abraço significava. Na saída passei de novo pelo corredor da desesperança. No meu carro chorei por gente que nunca conheci. E fiz uma oração para que a melhor pessoa que eu conhecia – o meu irmão – achasse forças pra seguir cuidando dos outros, sem deixar de sorrir, aquele sorriso fofo que ele fazia enquanto fechava os olhos.

Fim da sessão


Amigos do Antônia no Divã. Como muitos de vocês sabem, o Léo partiu em outubro após uma convulsão. Não houve doação ou intervenção que o salvasse, uma vez que algumas partidas não tem aviso prévio ou mesmo uma despedida. Dia 15 de Março é o primeiro aniversário do Léo que não teremos seu sorriso de olhos de fechadinhos por perto. Sendo assim, queremos alegrar outras famílias e evitar outras despedidas promovendo a doação de nosso bem mais precioso: a nossa vida. Bem, na verdade, apenas 450 ml dela. Queremos juntar até o dia 15 de março o mínimo de 27 doadores de sangue e medula óssea. Um doador por cada ano que o Leonardo nos honrou. Escolha o hospital ou hemocentro mais próximo e faça parte desta corrente do bem. Gente que você nunca viu na vida vai agradecer. A minha família vai agradecer. Eu vou agradecer. E o Leonardo – bem, o Leonardo diria que esse é o mínimo que todos nós devemos fazer – então faça! 🙂 Confirme sua doação por aqui, mande sua foto, use #MeuPresenteProDrLéo e promova essa ideia. Vamos encher essa data de vida – exatamente como o meu irmão gostaria.

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Coisa de Antônia: Amor além da vida

Hoje no “Coisa de Antônia” no ATL Girls da Rede Atlântida, abri mão da possibilidade de vocês me chamarem de maluca, e contei os estranhos eventos que tem questionado a minha fé. E você, acredita em conexão após a morte?  Cai pra cá e dá tua opinião:

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