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Você não está sozinh@

Na mesma madrugada que o incidente de Orlando aconteceu, resultando em 50 vítimas fatais na boate gay Pulse, em um terrível atentado a vida, ao amor e a liberdade, eu batia cabelo em um bar local, lugar igualmente frequentado pela comunidade LGBT. O que eu fazia num bar gay? Meus amigos estavam lá. Tinha cerveja gelada. E eu sou da teoria de que “Gay DJs know best”, ou seja, DJs gays sabem melhor. Aliás, diga-se de passagem, eu não precisava de uma justificativa para estar lá, bastava o interesse. A minha vontade. E a liberdade que tenho de ir e vir sem ter que pedir licença para o preconceito alheio.

Eu frequentei e frequento lugares como estes desde o meu amor à primeira vista pelo bairro Soho em Londres, o mais colorido e animado conjunto de bares e boates da capital inglesa. Nunca sofri preconceito por ser hétero nesses lugares, a não ser por um encostão acidental que dei certa vez num cara, quando não estava usando sutiã, e ele gritou “ui… boobs” (ui… seios!) com uma tremenda cara de nojo. Eu levei na boa, e nunca mais fui ao KU Bar (eu adoro o nome!) sem meus protetores de seios. Esse foi o pior episódio, e desde então eu coloquei o peito (ambiguidade aqui) em perspectiva.

Se eles dividiam a pista de dança comigo, por que diabos sofríamos tanto em dividir espaço com [email protected]?

Quando o meu melhor amigo se assumiu, toda a minha estrutura mudou. Isso porque ele teve um receio gigante em me contar (ainda que a gente tenha vivido boa parte da vida juntos – e eu no fundo já soubesse). A partir dali eu recebi a minha educação. Por causa do meu amigo, comecei a ler sobre questões de gênero, sobre apoio e sobre as lutas da comunidade LGBT. Quando mais eu me informava, mais eu fui tendo razões para me juntar a luta. A ponto de nesta segunda-feira pós atentado, receber um inbox questionando “se a minha luta declarada pela causa gay, não seria devido a uma grande vontade minha de sair do armário”. Ri alto, lendo a pergunta. Na cabeça do meu indagador, eu, uma garota hétero, não tinha motivos para rufar tambores pelas cores da bandeira arco-íris. Quanta miopia.

Miopia em especial porque aquela não era a pergunta mais importante. A pergunta que deveria ser feita é por que não estamos TODOS numa luta declara pela causa gay e outras causas de gênero? E assim como fiz questão de esclarecer na minha timeline ontem, disse-lhe (e digo-lhes) que eu também sou a favor do fortalecimento da cultura negra, ainda que seja branca como papel. Eu sou a favor do acesso a educação de milhares de meninas indianas, e eu sou brasileira e nunca botei o pé na Índia. Eu também sou a favor da proteção das baleias e dos coalas, e não preciso de barbatanas ou subir em árvores para me importar. Eu vim com o kit da empatia de fábrica e aprendi cedo a importância de unir forças. Além disso, eu não estou de maneira nenhuma roubando a voz de ninguém não. E nem colocando agenda pessoal oculta na minha fala. Isso é coisa de enrustido, destes que dizem “eu não tenho preconceito, mas…”.

Então a pergunta que fica pra mim do questionamento que recebi essa semana é: se você não precisa de barbatanas para proteger as baleias, por que precisaria ser gay para defender o direito de outras pessoas serem? (Essa pergunta, na verdade veio da minha mãe, discutindo a questão).

Essas questões de gênero e intolerância me assustam, eu confesso. Especialmente dado o exaustivo tempo que tem levado para evoluírem. E mais, tratando de números, pensemos que existiam no mínimo 50 pessoas boas na boate Pulse, e bastou apenas um monstro com acesso indiscriminado a armas, uma influência nefasta disfarçada de religião, e uma intolerância ao diferente, para exima-las deste mundo. 50 famílias que perderam filhos, filhas, pais, mães, irmãos e irmãs. Eu sei a dor de perder alguém bom. Não imagino a dor de tê-lo arrancado de mim de forma tão covarde, como aconteceu com tanta gente em Orlando.

E se uma pessoa ruim pode fazer tanto mal, quantas pessoas boas em silêncio têm o mesmo poder?

Quando nos calamos frente a uma piada homofóbica, não estamos assim nos unindo ao autor da homofobia? Quando apoiamos parlamentares que são declaradamente contra a comunidade LGBT, não estamos dando passe livre para que seus direitos sejam alvejados, da mesma forma como 50 pessoas foram alvejadas no último sábado?

“Mas Antônia, o caso de Orlando não foi homofobia, foi terrorismo.”

De fato, um terrorismo contra uma minoria muito específica que resultou na maior aniquilação de cidadãos americanos depois de 11 de setembro. Isso sem falar no cara que foi preso com alta munição dentro do carro, rumo à parada gay de Los Angeles. Terrorismo? Ou homofobia?  As pessoas tem dificuldade de se enxergarem em assassinos. Terroristas estão lá longe, no Oriente Médio. Homofóbicos não, estes estão na mesa do lado no escritório, na porta vizinha da sua rua, ou dentro da sua casa, nos amigos do Facebook. Mas e o que você tem a ver com isso? Você é parte de uma das nações que mais mata e espanca membros da comunidade LGBT. Será que ainda somos dignos ao ficarmos em silêncio?

Hoje essa sessão não é para falar da Antônia, mas das 50 pessoas que morreram por pensar diferente. Por amar diferente da maioria. É uma sessão para pedir ajuda, estimular que todos nós unimos força levantando as cores desta bandeira. Eu podia ser uma das pessoas alvejadas na boate gay, neste sábado, aqui nos confins da minha pequena cidade de interior. E não sendo, juro aqui, vou usar a voz que tenho para dizer, VOCÊS NÃO ESTÃO SOZINHOS. Não estão mesmo.

E se eu tiver que ser gay para defender essa causa, eu beijarei todas as garotas do mundo para garanti-la. Pode organizar a fila.


Fim da sessão.