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V de Vagina

Eu nunca vou me esquecer da primeira vez que vi minhas partes íntimas serem apontadas como uma ofensa. Lembro que bati meu dedinho no canto do móvel da sala e gritei em protesto “BOCETA!!”. A escolha foi automática, mas não vi nela um problema. Meu pai, entretanto, ficou atônito e sem ar ao me ver proferir aquela palavra insolente. Disse que eu era uma mocinha – eu devia ter uns 15 anos – e que não podia sair jogando palavrões por aí. “Mas pai, teria sido melhor se eu tivesse gritado VAGINA, então?”. “Não, Antônia. Dá pra gente trocar de assunto?”, desligou a TV e saiu brabo da sala me deixando com meus pensamentos. E com minha vagina.

Eu achava engraçada a cautela do meu pai para falar de vagina. Até porque como bom paquerador, ele só podia gostar muito de vaginas. Acredito que tinha algo de imaculado que ele esperava da minha, talvez fosse esse o problema. Aliás, por anos a fio esse assunto sempre foi tabu, visto que eu aprendi inclusive a usar a minha vagina como arma. Toda vez que eu, como funcionária da empresa do meu pai eu tinha um compromisso que eu sabia que ele recriminaria – um curso diferente, uma sessão de terapia em horário comercial – eu dizia que eu tinha ginecologista. Era só eu dizer “ginecologista” que ele automaticamente pensava “vagina!” e me liberava sem mais perguntas. A simples menção do “v” o deixava atrapalhado. O v de vagina.

Semana passada eu vi uma das maiores nações do mundo com o mesmo problema do meu pai. A incapacidade de lidar com o v. Mas nesse caso não era bem “v”, era mais “p” de “pussy” (= buceta em inglês). Donald Trump, um misógino racista de pele laranja, que também é candidato a presidência dos Estados Unidos, foi pego em um áudio admitindo que se lançava ferozmente contra mulheres e às agarrava pela pussy. Isso mesmo, Trump declarou com todas as letra que assediava mulheres usando sua posição de poder, e avançava contra elas sempre que ELE sentia vontade. Até aí, convenhamos, nenhuma novidade dentro deste mundo homem, certo? A gente vê isso todo dia.

O que me fez rolar de rir (pra não dizer “rolar de desespero com tamanha canalhice”) é que  sendo o veículo de comunicação de tendência democrata ou republicana, a maior dificuldade da cobertura jornalística do caso não foi o fato de um possível residente da Casa Branca, admitir que abusava de mulheres. NÃO. A maior dificuldade da mídia foi fala “pussy”. Vagina. Boceta. “Partes íntimas”, “países baixos”, “partes das damas”, “aqueles lugares”. BBC, CNN, Fox, algumas das maiores gigantes da indústria da notícia, gastaram mais tempo criando adjetivos sutis para vagina, do que questionando a índole que quem as agarrava. E eu não quero aqui soar desbocada falando de boceta, mas me pareceu um completo contrassenso todo desconforto ficar em volta de uma palavra e não no ato grotesco relacionado a ela.

Com o tempo sendo dona de uma vagina, fui percebendo que ela me parece estar no centro de muita discussão que vai além da metalinguística. Eu sei, pois cada vez que jogo ela para uma audiência nas minhas palestras, aulas ou conversas, vejo bons cidadãos de todas as idades e gêneros ficando constrangidos. Eles começam com uma risadinha marota, mas logo puxam um sorriso amarelo. “Ela falou mesmo vagina em público?”, noto os olhares se cruzando em descrédito. E não importa se fui convidada para falar de feminismo,  viajar sozinha,  abuso sexual, ou vida de mulher. É só jogar a vagina no assunto que até a turma do fundão presta atenção.

E eu fico intrigada, toda vez. Que diacho tem a tal da vagina que movimenta tanta comoção, vergonha, desejo, repulsa, ódio? Sim porque a gente fala de pau, piroca, pênis, pinto, o tempo todo sem um terço deste drama  que movimenta os lábios mal falados da vagina. Agora bote “vagina” ou “pussy” na boca de um aspirante a presidente para ver a mídia mundial entrar em colapso. O que ele fez ou quer fazer com elas, as pussies, isso foi dito como mero “assunto de vestiário” como disseram mais uma vez normatizando o assédio feminino. Sim, porque “pussy” cabe em assunto de vestiário, mesmo se for na posição de abuso. Mas nunca pronunciada no jornal em horário nobre.

Tratando-se de vagina, o meu maior desejo num futuro próximo, é ver esse charlatão de peruca bem longe da Casa Branca nas eleições de novembro. Bem longe de qualquer buceta que ele possa alcançar – e aqui, desculpe se o meu linguajar te ofende mais do que a atitude dos homens no poder que existem por aí. E por falar em poder, quero ver uma vagina no poder da maior nação livre do ocidente. Quero ver Hillary Clinton com o V de vitória nas mãos. V de vagina.

Quem sabe assim a gente para de se constranger em falar dela, e comece a recriminar de fato o que fazem com ela. Aí sim vitória e vagina dividirão a mesma letra.

Fim da sessão.


PS: E que Deus nos proteja dos misóginos fantasiados de pai de família de chegar a qualquer posição de poder. Já tá difícil ser dona de uma vagina “sem” eles.