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Carona

7h15, o despertador grita. “Merda! Merda! Merda”, são os 3 primeiros pensamentos da minha segunda-feira. Atrasada para um dia que historicamente eu odeio.

Afff… Enfio qualquer roupa, boto minha rasteirinha preferida e vou trabalhar. No escritório resmungo algo que parecia “bom dia” para os colegas, reclamo do novo nariz da Anitta, e agonizo lendo um contrato de 12 páginas de letras miúdas de um cliente onde assino que tudo sempre-sempre será minha culpa, afinal o cliente tem sempre a razão. Saio pra uma reunião. Esqueço o guarda-chuva. No lugar em que estaciono não há como sair do carro sem encharcar os pés; então os encharco. No retorno da reunião, a sola da minha rasteirinha cai. Aquela sabe, que antes desta segunda-feira, era a minha preferida. Vou pra casa, troco de roupa. No caminho do almoço reclamo dos buracos da Rua A, de que é impossível estacionar na Rua B, e de que como eu odeio os guardas de trânsito em qualquer dia da semana. Saio do carro. Encharco os pés de novo. “Merda! Merda! Merda!”.

No caminho acelerado até o restaurante vou tentando evitar a chuva, quando no meio da quadra um senhor de uns 70 anos emparelha ao meu lado dizendo “quer uma carona?”, colocando seu guarda-chuva sobre a minha cabeça. “Claro”, digo meio sem graça, “como negar uma gentileza tão rara nos dias de hoje, não é?” Ele sorri, enrugando os olhos cansados, “É verdade, menina, acho mesmo que está faltando amor no mundo”. E assim, quase que sem querer eu desacelero, e deixo ele me conduzir pela calçada embaixo da chuva. Ao atravessar a rua ele toca de leve meu braço e alerta “cuidado com o carro, menina” com ares de avô. Na porta do restaurante me despeço e o agradeço sorrindo. Não pela carona, mal sabia ele. Mas porque com aquela carona, mesmo sem saber, ele havia acabado de mudar completamente a sintonia do meu dia.

Bom dia, segunda-feira!!